O Universo das Memórias Póstumas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
P.O. V. Celina
Sentia o vento frio de Cracóvia penetrar pelo meu casaco de couro grosso na moto, enquanto pilotava até um café mais para reabastecer minhas forças e mandar as fotos para Ruy. Acabei de voltar de Oświęcim, local onde se localiza Auschwitz, campo de concentração nazista.
Estou fazendo uma peregrinação por todos os países dominados pelo nazismo fotografando campos de concentração como Dachau, Belzec, Kaufering e vários outros para uma grande matéria e livro de um escritor um pouco louco do Brasil, meu país natal. Ruy Siqueira, meu chefe, escritor e melhor amigo paga pelo meu trabalho ao redor dos países dominados pelo nazismo na Segunda Guerra por causa dos meus antecedentes com fotografias e toques pessoais em cada foto que eu tiro. Ele quer escrever um livro mais afundo nisso, e enquanto eu tiro fotos dos campos listados por ele, o mesmo conversa com sobreviventes da Guerra, do Holocausto e com historiadores para “sua grande e mais fabulosa obra prima”, como ele mesmo diz.
Tenho que admitir, que como fotógrafa e Ghost Rider nas horas vagas, o trabalho é realmente maravilhoso. Visito todos os lugares e praticamente gratuitamente, pois todos os gastos das viagens ficam por conta do Ruy, e acabo ganhando certo dinheiro vendendo fotos de paisagens locais para editoriais de pequeno e médio porte (tirando minha conta bancaria de trabalhos antigos que está bem grandinha), o que acaba me dando ao luxo de comprar algumas coisas durante as viagens.
Paro minha Harley Davidson de 1970, que é meu xodó, em frente a um café extremamente confortável, onde desço e pego minha mochila com meu MacBook e minha câmera e entro no local, sentando-me no lugar mais afastado possível.
Logo uma garçonete chega, se apresentando como Ewa, e pergunta se quero algo. Respondo logo que um café da manhã e um chá preto bem forte serviriam, ela anota o pedido e se retira.
Pego minhas coisas na mochila e posiciono na mesa, montando um rápido escritório em uma mesa de um café totalmente aleatório no centro de Cracóvia. Posiciono o WIFI portátil por Satélite conectado ao Mac e conecto o cabo da câmera Nikon D7100, passando as fotos para o computador. Nesse meio tempo meu chá chega junto com a minha comida, e vejo o olhar curioso e um pouco demorado sobre o que montei na mesa. Sorrio para mesma, por estar em um estabelecimento privado e montando um equipamento que mais parece com algo de espionagem.
— É o meu material de trabalho, sou uma fotógrafa viajante. – Respondo rapidamente, antes que ela me expulse de lá por tudo isso. Apesar de o meu polonês estar um pouco enferrujado, ela entende e sorri abertamente para mim, antes de se retirar novamente.
Observo ela explicar para a provável dona do local animadamente, mas falando rápido demais para meu polonês terrível entender. Sou muito mais inglês.
Bebo um gole do meu chá preto, sentindo a cafeína dele tentar afastar um pouco do meu cansaço. Viajei horas até chegar aqui, em uma moto, no frio. Por sorte não peguei chuva. Meu último destino estava chegando, que seria Majdanek, um campo onde exterminaram cerca de 78.000 prisioneiros. Só de pensar nisso, um grande arrepio sobe pela minha espinha.
Ver os lugares onde ocorreram coisas tão terríveis é um tanto aterrorizador, e as coisas que você trás de cada lugar é uma carga muito pesada para algumas pessoas.
Em Auschwitz, um guarda com quem me envolvi deu-me um pingente, que pertencia a uma mulher que foi morta no local e ele encontrou nos entulhos das câmaras de gás. Até pensei em não aceitar, porém aceitei, pois com tudo que vi, percebi que as coisas dos prisioneiros foram perdidas ou levadas sem significância, sendo muitas roubadas pelos soldados da SS, e outros perdidos. Senti que aquele pingente com a Estrela de Davi não deveria ser esquecido como a maioria dos rostos, nomes e objetos de todas as pessoas mortas naqueles locais.
Esse símbolo será passado.
Quando contei sobre ele a Ruy, ele disse-me que está seria a capa do livro, com uma modelo e o pingente em seu pescoço. Fiz a foto comigo mesma, tendo apenas cor o pingente em meu pescoço e minha boca aparecendo. Não preciso dizer que Ruy amou a foto.
Com Memórias Relembradas – Um Momento Que Não Deve Ser Esquecido em sua rota final para a publicação, minha viagem pela Europa estava chegando ao fim, e isso faz com que eu pense o que fazer após isso. Apesar de ser naturalmente brasileira, não volto para meu país natal há pelo menos seis anos. Sei que magoa minha mãe, mas não me sinto preparada para isso ainda. Tudo que houve lá ainda me chateia bastante.
Mando as fotos por e-mail para meu querido chefinho, coloco meus fones e ligo no Skype de Ruy, que me atende prontamente, com um sorriso gigante no rosto.
— Rose! Que bom falar com você. Acabei de conversar com Reinhold Hanning, antigo soldado da SS que está preso atualmente. Esse é o último, e com as fotos de Auschwitz que você me mandou, falta apenas Majdanek. O capítulo ‘Soltados Conscientes’ foi finalizado ontem, irei te mandar por e-mail para uma segunda opinião, porém acho humildemente que está fabuloso! Pelo andar disso tudo, em menos de um mês eu mando para a editora em Nova Iorque, e te quero lá! Você fez tudo isso comigo e merece estar no tapete vermelho comigo! – Ele descarrega rapidamente, o que me faz rir. Ruy sempre foi uma pessoa tagarela e incontrolável.
Conhecemo-nos na faculdade que fazíamos cursos em Seattle, e nos tornamos amigos de cara. Ele fazia curso de Literatura e História ao mesmo tempo, enquanto eu me dedicava ao máximo aos meus cursos de línguas estrangeiras, arte e fotografia.
Foram tempos difíceis, e bem apertados. Eu morava em um minúsculo apartamento com dois cômodos em um bairro perigoso de Seattle, sobrevivendo de café do Starbucks, macarrão instantâneo, suplementos vitamínicos e duas horas de sono. Precisava trabalhar e arranjar tempo para minhas duas faculdades e os cursos de línguas estrangeiras. Ruy foi como um anjo em minha vida, me oferecendo um quarto em seu apartamento quando não tive mais condições de me manter e auxiliando com várias despesas até conseguir me estabilizar melhor.
Vindo de uma família rica, Ruy nunca teve um real motivo para procurar um emprego e se manter. Durante a faculdade, foi bancado pelos pais, não tendo que se importar com nada além da universidade e dos estudos. E sendo um cara nerd como é, não ficava saindo o tempo todo atrás de farra ou curtindo, o que fez com que fosse um dos melhores alunos em seus dois cursos e um anjo para mim.
Ele me ajudou em absolutamente tudo, até encontrando um bom psicólogo para meus problemas psicológicos devido a traumas na infância e adolescência. Ele foi o melhor amigo que eu pude ter, e mesmo depois da faculdade, me apoiou em meus trabalhos fotográficos loucos e exposições críticas sobre a realidade atual. Meu estilo fotográfico sempre o encantou, e é atualmente meu maior patrocinador.
Quando me convidou para esse emprego, pensei inicialmente em não aceitar, mas é algo que sempre foi um sonho, viajar pela Europa e fotografar pontos tão fortes como Campos de Concentrações. Fora que 40% das rendas do livro será voltada para mim pelas pesquisas e fotos, o que, pelo que o livro promete ser, será algo bem grandioso.
Grandioso o bastante para voltar ao Brasil com tudo, o que me entristece novamente, e obviamente Ruy percebe.
— Hey gata, o que foi?
Suspiro.
— Estava pensando sobre o Brasil. Acho que devo encarar meu passado e voltar. Mamãe sente minha falta, apesar dos gêmeos. Sequer os conheço, e nem meu meio irmão adotivo, filho do meu padrasto. Outro que também nunca vi pessoalmente. E também, meu pai está doente, e pelo jeito o tratamento é caro e será dividido entre as irmãs, mas eu não fui incluída nisso, misteriosamente. – Falo sarcasticamente. Elas sabem que minhas condições financeiras atuais estão estáveis, até posso dizer que estão boas.
— Gata, você sabe que a Rosane nunca aceitou que você ganhe mais dinheiro com um curso de fotografia que ela com um de direito, e Julia sente inveja de você e seu espírito livre, pois não teve filhos com 16 anos que a prendeu em casa e te fez casar com um cara 10 anos mais velho que você não ama. E Simone, é indiferente quanto a ti. Para elas, o quão mais longe melhor. Na verdade, Ásia era uma boa. – Finaliza pensativo, o que me faz rir.
— Por favor, chega de viagens, eu perdi 15 kg! – Exclamo rindo.
— Mas quanto a sua mãe e a nova família dela, acho que você deveria dar um tempo com suas aventuras extravagantes em busca das fotos perfeitas, pegar o dinheiro na sua conta bancária que você nunca usa e voltar para o Brasil depois do nosso livro ser publicado. Na verdade, acho que nós dois precisamos de uma mudança na vida. Depois que eu terminei com o Gregory, estou me sentindo cabisbaixo, e o alegre Brasil iria me animar um pouquinho. – Ele diz fazendo bico.
Gregory, seu último namorado, recebeu uma grande surra minha depois que eu e Ruy chegamos a casa e o vimos em um menage com quatro pessoas na sala de estar. Foi uma grande briga e meu querido amigo ficou extremamente deprimido, não querendo se manter em Nova Iorque depois disso. Logo depois a ideia do livro surgiu em uma conversa que tivemos levemente embriagados de tanto tomar vinho e partimos viagem a fora.
Sim, a ideia do livro foi tida por dois adultos embriagados por consolo pela nossa vida de merda.
Penso em sua proposta por um momento, solvendo mais um gole de chá, e então finalmente falo.
— Façamos assim, se as vendas do livro ocorrerem como o previsto iremos ter bastante dinheiro. Vamos alugar um apartamento em São Paulo e viver lá até você escrever um novo livro e eu fotografar algo mais light. Quero dar um tempo nas viagens. Minha saúde está indo para o inferno e acho que estou com anemia de novo.
— Então que assim seja! – Ruy exclama visivelmente feliz.
Após desligar, guardo minhas coisas e pago minha conta, saindo no estabelecimento.
Acendo um cigarro quando estou fora do local, tragando a fumaça que ainda vai me matar e penso sobre minha decisão. Sinto que ela irá mudar muito da minha vida e que finalmente poderei resolver meu universo de mágoas.
Notas finais
Até a próxima!
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