O Unicórnio de Um Coelho
38 Epílogo
Notas iniciais
Mesmo que toda a tecnologia tivesse avançado em seis anos, que o contato através da distancia tivesse sido facilitado pela internet sem fronteiras ou burocracia, e que o medo de vôos e viagens sozinho tivesse sido superado graças a frases marcantes que sempre ecoavam em sua mente, as fotografias nos quadros pendurados na parede da pequena sala do minúsculo apartamento ainda pegavam Francis de surpresa e o jogava contra suas lembranças e saudade imensa.
Miriam era a principal alimentadora dessas situações, sendo fotografa e ganhando descontos em impressões, sempre que o visitava trazia mais imagens para ele incluir num álbum enorme que ela mesma deu no natal depois que se formaram no colégio, e isso já fazia cinco anos. Na parede estavam apenas as fotos principais como decoração e para o rapaz se lembrar de tudo que aconteceu em sua velha cidade, já que tinha se mudado para fazer a faculdade de designer e onde tinha um trabalho para se sustentar.
Numa fotografia da formatura do ensino médio, além de Miriam, estavam Evan e Nicolas, graças aos amigos de classe o terceiro ano do colégio foi mais festivo e Francis aprendeu a ser mais social, tendo segurança suficiente para não se preocupar com o resto da escola e descobrir quem ele podia ser.
Em outra foto, com um amontoado de gente sorrindo, havia Charlie (o melhor amigo de seu irmão David) e outras pessoas em um restaurante comemorando, estes eram seus colegas do curso de tecnologia de informação. O que aprendeu neste momento de sua vida fez Francis ter a luz de ir para designer e trabalhar em paz e sozinho na maior parte do tempo.
Não longe deste quadro, o unicórnio era obrigado a ter uma das mais novas imagens da família do irmão mais velho. Bianca estava com os cabelos mais curtos e era mais bonita sendo a feliz mãe de uma menina de três anos, que apertava com amor em sua bochecha, e David logo atrás, sorrindo pela cena. O irmão tinha mudado naqueles anos, ou simplesmente crescido, afinal era pai de uma família, subgerente da oficina e esportista popular nas horas vagas, e por isso perseguir ou apoiar intensamente Francis não era prioridade alguma quando se encontravam, apesar do Audrey caçula ser o padrinho da pequena Celeste.
Às vezes, quando via os retratos com a mãe, Francis ficava triste em pensar que Kelly passava muito mais tempo sozinha com Stan (o padrasto) continuando suas viagens e sem ele morando na mesma casa há mais de dois anos. Mas Bianca tinha iniciado a rotina de sempre visitá-la com a neta, então não era tão terrível como parecia.
Contudo, era o unicórnio que não tinha ninguém perto. Seu coração até grunhia e choramingava ao ver Jack Robinson com ele nos momentos importantes registrados, como se tivesse estado ali 100% do tempo, mas era apenas impressão. Uma fugida de final de semana, uma licença medica imprevista, um acumulo de horas de serviço a ser descontado ou ele faltava aceitando as consequências, era assim que coelho dava um jeito de escapar de seus treinamentos e trabalho enquanto estava a apenas um estado de distância. Era um esforço admirável e que tinha implicações para Jack, por isso Francis não podia exigir mais de alguém que o amava e tentava seguir seu sonho sem deixá-lo de lado.
Havia passado um ano desde que Jack iniciou a especialização e começou a passar temporadas em outros países, trabalhando com o departamento de relações internacionais da secretaria de segurança do país, assim pararam abruptamente de ser ver e a distância entre eles crescia, somando meses e milhas afastados.
― Tem certeza que vai continuar aguentando isso? ― Will, seu pai de sangue, estava no apartamento em uma visita rápida. O senhor tinha percebido quando o filho parou encarando o auto-retrato em um dos quadros da parede que continha apenas o unicórnio e o coelho deitados em algum lugar muito felizes.
Francis não respondeu, continuou olhando a foto e Will insistiu em falar sozinho:
― Sabe, quando conversei com Jack pela primeira vez nos nós demos bem o suficiente para mim esquecer meus preconceitos do namoro de vocês. Afinal, nós dois trabalhamos pela segurança do país e ele está passando por tudo que já passei. Claro que nos entenderíamos. Mas... Não acha que está perdendo muita coisa preso nisso?
― Ele me ajudou mais do que vocês. E eu amo ele de verdade.
― Francis, você tem vinte e dois anos, mora sozinho e está numa faculdade! É brilhante ter conseguido tudo isso enquanto olhamos para o seu irmão. Só estou dizendo que pode ter experiências melhores com outras pessoas e aproveitar sua juventude, se tirar essa coleira... Mesmo que seja por um tempo. Eu quero que tente, vai ver o que estou dizendo! Além disso, Jack não vai parar agora que começou com essas viagens, ele não vai ter tempo de planejar vir até você e nem poder satisfazer a necessidade de ter companhia que você está ignorando.
O unicórnio o olhou já irritado com tamanha incompreensão do pai, cujo já se divorciava de uma terceira esposa naquele ano.
― Eu tenho o JJ.
― O basset? ― Will riu, lançando um olhar para a poltrona onde o cachorro dormia. ― Você o adotou do abrigo, já teve ter oitenta anos, e ele nem liga se você está aqui ou não.
― Ele passou por coisas suficientes para ser assim, o compreendo perfeitamente ― e o amava.
O animal de estimação não era nada agitado, mas ficava feliz quando passeavam e quando ele voltava de noite para dormirem juntos na cama espaçosa.
― Também estou preocupado, Francis. Se você continuar assim, vai acabar como um tiozinho que vive no quarto, sozinho e rodeado de JJ’s. Eu sei que você tem brecha profissional para trabalhar em casa e a distancia das pessoas. Eu não quero isso porque, com certeza, você vai acabar voltando a ser como era antes: isolado, irritante e com suas crises. E nem o Jack ou sua mãe vai suportar tudo isso de novo a essa altura da vida.
― Para de falar besteira. Jay não é igual você. ― Francis se afastou. ― Nada volta a ser como antes, eu estou bem e vou continuar bem. Não precisa se preocupar. Faça como você sempre fez. Aliás, você não tinha um lugar para ir?
O pai sorriu e suspirou, abrindo mão de sua tentativa de esclarecer o filho do futuro.
― Tenho sim. Foi bom te ver. Te mando noticias e espero que você me mantenha atualizado do que anda fazendo ― o homem deu um abraço no filho e se encaminhou para porta: ― Ah! E pense no que estou te falando. O mundo é grande e com mais pessoas além do Jack.
Com isso o encontro e conversa terminou.
Três meses depois, Francis saiu da aula matinal de sábado com pressa e ansioso, pegou o carro e quase não teve paciência para encher o tanque. Uma hora de estrada depois, tocou a campainha de um apartamento de classe alta e ouviu um grito de susto e risos vindos de dentro. Logo a porta se abriu e a visão esmagou Francis, tirando seu ar e fazendo seu rosto doer graças ao tamanho de seu sorriso instantâneo. Jack sorriu da mesma forma ao encará-lo em sua porta e a intensidade do azul dos olhos dele aqueceu seu corpo, podia sentir a presença física do coelho, finalmente estava ali.
― Francis. ― Jay disse seu nome com um costumeiro sorriso torto e charme que por muito tempo o unicórnio só via nas vídeos chamadas.
Ouvi-lo presencialmente, sem a interferência dos ruídos eletrônicos, era mágico depois de meses distante. Francis deu um largo passo e abraçou-o com força, mergulhando no contato físico, no cheiro e no calor, tomando um antídoto para o veneno que a saudade se tornou. O mais velho podia estar com o mesmo corte de cabelo baixo e organizado, mas estava maior, mais forte ao apertá-lo de volta e com uma áurea evoluída de orgulho e respeito, completamente fascinante e excitante se Francis pensasse que era só dele. Conseguiu dar um beijo no pescoço dele, que fez o coelho rir e arrepiar, mas antes de alcançar seus lábios, foi afastado:
― Que cabelo é esse, Fran? ― Jack o olhou com um sorriso divertido e estranhamento. ― Não parecia tão cumprido quando nos vimos online na ultima vez.
O menor apenas sorriu.
― Tio! Eu fiz um desenho também! Igual os seus! ― Um menino de oito anos surgiu sacudindo uma folha de papel e chamando a atenção de Francis, que foi solto para ver a arte enquanto Jack fechava a porta.
― Estão muitos bons! ― elogiou, vendo logo um sorriso do irmão adotivo de seu namorado. ― Logo vou pedir a sua ajuda em alguns projetos.
― É mesmo?! Sim! Sim! Sim! ― empolgo-se o menino e Grace o chamou, pedindo para ver o desenho e cumprimentando Francis com um olhar e sorriso a distancia.
O unicórnio virou-se e Jack ainda estava ali, pertinho, como imã que não vai para muito longe.
― Você desenha melhor que o Dean ― Jay comentou. ― Está o iludindo.
― Ele ainda vai ficar muito bom. Eu era bem ruim e olha aonde cheguei!
― Que mentira ― abraçou-o de novo ― Só não teve parâmetros para saber o quanto era e é bom e ninguém via, mas agora todo o mundo vai ver. Adoro seus desenhos, Fran. ― Francis não reagiu, acolhido naquela temperatura, sorrindo contra o tórax de Jack. De repente, as mãos dele se ergueram e alisaram as laterais de seus cabelos castanhos compridos, puxando as mechas para trás. Sabia o que o moreno pensava: ― Eu sei, já dá para prender um rabinho.
― É! E são macios... ― Jack respondeu ainda intrigado e analisando por um tempo. ― Francis, acho que me acalmam... Gosto disso ― O coelho sorriu ao ser olhado e pegou o unicórnio pela mão, levando-o até o escritório. ― Eu devia ter te encontrado na sua casa depois daqui, lá ficaríamos mais a vontade para matar a saudade. Mas você estava na aula, não? ― o Unicórnio concordou. ― Está muito cansado?
― Nenhum pouco ― e riram.
O quarto Jack havia se transformado no quarto Dean e Jack, a maior parte da decoração mudou e incluía uma montanha de brinquedos e livros, mas ainda havia espaço para o irmão mais velho passar algumas noites com a família. E, naquele momento enquanto o garoto era distraído pela mãe no quarto, só restava o escritório livre na casa.
E foi para onde Jack levou Francis, assim que trancou a porta do cômodo logo agarrou seu namorado, sendo recebido igualmente com intensidade e falta, seu coração ainda batia agitado mesmo depois de anos e sempre que estavam juntos o tempo parecia não ter passado nenhum pouquinho, era como se ainda fossem aqueles adolescentes aceitando que tinha a capacidade de amar incondicionalmente outra pessoa e aprendendo que quando se quer, se faz algo ou faz acontecer, e era assim que as coisas funcionavam para vida evoluir.
O coelho descobriu que dava um prazer estranho segurar as mechas longas e castanhas que não escapavam dos dedos e que podia conduzir o unicórnio com muito mais eficácia, principalmente para abrir espaço até o pescoço e morde-lo o suficiente para ouvir algum grunhido. Agora entendia a atração que Francis tinha quando se conheceram e ele ainda tinha os cabelos pretos mais cumpridos. Afastou-se do beijo com um sorriso ainda sacana, deslizando as mãos dos cabelos para segurar o rosto do unicórnio:
― Conseguiu ficar intocado por um mês antes disso Fran? ― E o rapaz o olhou com um sorrisinho arteiro, até sexy. ― Ah, Francis... Era uma condição séria para você cumprir. Você costumava ser um menino certinho.
― Costumava até ser desviado por você ― olhou para baixo, para corpo ainda oculto pela camisa e jeans, tão próximo. ― Mas eu me esforcei, Jay! Só aconteceu uma vez, no banho, e eu estava pensando em você. Você tem obrigação de dar o premio ― e encarou os olhos azuis seriamente.
― Está bem ― riu, cedendo extremante fácil, depois o beijou, mas não correspondeu ao anseio de prolongá-lo e deixar-lo mais intenso. Recuou: ― Francis, antes do premio, você precisa saber que existe um pequeno detalhe que está me causando alguns problemas...
A mudança de assunto amenizou a excitação do unicórnio, qualquer problema que Jack resolvesse lhe contar era sério, deu sua atenção preocupada:
― Que problemas? O que é?
― Eu tenho uma colega de trabalho, você sabe, a Suzie, um pouco mais velha, mais experiente e praticamente ela tem me ajudado. Só que ela é louca. ― Francis deu um riso nervoso, mulheres loucas podiam não ser nada confiáveis se envolviam Jack. ― Ela pesquisou os meus registros sei lá porque e sabe que meu anel na mão esquerda é falso, desde então tem dado em cima de mim nas horas fora do serviço. É um problema enorme.
― Sério? ― Francis ficou indignado.
― Sim, mas fique calmo. ― Jack segurou os ombros do menor. Fran o olhou com estranheza ao ver que por alguma razão ele estava se divertindo ao lhe contar aquele problema, “qual era a graça?”. ― A aliança foi uma boa dica, só tê-la fez o mundo de velhos conservadores e burocráticos confiarem em mim, era como dar um sinal de que sou alguém que mantém um compromisso mesmo sendo novo. Só que a Suzie e a forma que ela me olha às vezes nas festas e encontros fazem eles me perguntarem da minha família e mulher. ― Jack riu afetado. ― Eu mal consigo mentir uma frase dizendo o que querem ouvir e depois me afasto, fugindo de mais curiosidade, e isso é um problema! Porque estou lá para fazer contatos e conhecê-los, é algo recíproco e tem que envolver honestidade. Porém, sempre que me perguntam eu penso instantaneamente em você e não consigo imaginar alguém fictício nesse papel só para agradá-los.
Na pausa, Jack observou Francis até a pista fazer sentido nas analises mentais e ele chegar a uma conclusão. O unicórnio recuou, receoso e o olhando com duvida, o mais velho sorriu, continuando a falar:
― Sei que brincamos algumas vezes de fazer planos para nos casar e como seria nossa vida assim, mas... O momento seria ótimo para esse anel ser de verdade e eu poder ser honesto com todo mundo. Então, seu premio é a minha pergunta: ainda quer se meu marido no papel?
― Claro! Mas... ― olhou preocupado para Jack, que sorria. ― Isso não vai causar obstáculo para você, no seu trabalho e tudo mais?
― Provavelmente em alguns lugares será mais difícil que outros, mas espero conseguir mais apoio de gente influente e que entenda que com quem eu fico não interfere em nada. E em vez de me hospedar nas embaixadas, posso alugar um apartamento ou uma casa e você vai poder estar comigo em todo pais que eu estiver!
― Vou? ― disse atordoado e em duvida com o plano.
― Sim! Você mesmo deu a ideia de vir até mim depois que se formar e trabalhar a distância, podendo aprender coisas únicas nos diferentes lugares em que estivermos. Vai ser uma experiência útil para você também e vai estar pertinho de mim.
― Caramba, Jack ― Francis deu um espaço, refletindo ao dar poucos passos no escritório. ― Eu nunca pensei que chegaria a estar... Em outro país. Casado, sim, mas ir tão longe daqui? ― riu apreensivo e vendo o olhar de Jack feliz, observando-o com atenção. Era uma maneira de ficar perto dele muito mais tempo e descobririam coisas no mundo juntos. Isso fez o unicórnio aceitar que era possível aquele futuro. ― Acho que aceito.
O coelho foi até ele, agarrando-o de novo em um abraço forte e muito longo.
― Ah, Francis... ― sussurrou ― Sentir seu corpo tá mexendo fácil comigo. Nós deviamos ir para sua casa imediatamente. Eu preciso te ensinar umas coisas de francês mais útil entre as pessoas. ― Sorriu com o menino concordando com vontade.
FIM
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