O Unicórnio de Um Coelho
30 Carro desgovernado.
Notas iniciais
A noite era apenas um tecido negro cobrindo todo o universo existente, ocultando absolutamente tudo enquanto um unicórnio, tomado por um surto de medo, tropeçava em pessoas, corria sobre degraus, saltava sobre corpos que ficavam no seu caminho e não escutava nada, entorpecido pela necessidade apavorada de fuga. Sua vida dependia disso, era o que sua mente e corpo diziam. Não havia espaço para pensar racionalmente, só precisava correr para longe. Nem mesmo recordou um segundo do que fugia, apenas ia porta a fora, ouvindo o mundo mudo diante dos gritos em sua mente: Corra! Vai ser pego! Corra mais rápido! Fuja! Vai morrer! E assim ele derrubava seus obstáculos e só seguia em frente, desconectado da realidade.
Nem mesmo o ar frio da madrugada fora da casa lhe causou alguma mudança. Correu, atravessando o curto jardim da casa, passou por mais alguém que tentou ficar no seu caminho e alcançou a liberdade. Seus pés atingiram o asfalto frio, mas seus olhos, estalados e determinados, focavam a longa rua depois da esquina que o levaria para a segurança. E assim Francis se foi: correndo, movendo as pernas rapidamente, mal respirando, mal ouvindo, mal sabendo o que estava fazendo e com o coração explodindo diante de tanta atividade súbita e medo.
Ele era como um carro desgovernado... Acelerando e sem freio. Ninguém arriscaria sua vida para pará-lo, já que naquele percurso não haveria outra vítima se não o próprio veículo. E muitos na festa o viram fugir e riram da cena peculiar, não fizeram nada, ignoraram o garoto de cueca e mãos presas, não se deram trabalho algum de entender o que acontecia. O mundo real também possuía seu véu que cegava.
David, muito surpreso, foi o único que correu atrás dele depois de vê-lo derrubar alguém na escada. Na verdade, não conseguiu reconhecer o irmão de primeira olhada, só depois de chamá-lo para a responsabilidade de ter machucado alguém é que percebeu quem era. Começou a segui-lo mais sério e rápido, tendo alguns desconhecidos obstruindo o caminho, mas Francis alcançou a porta e saiu de vista. Por sorte, antes que ele chegasse à rua, alguém o segurou e fixou os pés no chão, o segurando ali. Foi um breve alivio para David ver Jack o apanhar, parecendo ajudá-lo a conter o garoto, mas o irmão deu um golpe na garganta dele e conseguiu fugir do bloqueio do moreno, indo embora.
— O que está acontecendo?! — Confuso e surpreso, Jack perguntou a David quando este ia passar por ele correndo atrás do irmão.
— Um surto! Eu acho. Precisamos pegá-lo antes que se machuque!
O Audrey mais velho correu pela rua, preocupado e tenso, principalmente porque a mãe ia acabar sabendo de tudo que estava acontecendo.
— Como ele consegue correr tanto! — David bufou depois de alguns metros, notando Jack acompanhando-o na busca. Por um segundo, o céu chamou a sua atenção: — Droga! Desde quando está armando chuva?! — Reclamou e logo um buzina o fez olhar Francis à frente. Felizmente, o menino estava bem, levantou-se e sumiu correndo do outro lado dos faróis de um veiculo que tinha parado bruscamente. — Não dá! Vou buscar meu carro.
David começou a voltar o caminho, mas parou de repente e olhou para trás. Jack havia chamado por Francis e continuou indo atrás dele, incrivelmente persistente para um amigo o ajudando, mas o Audrey voltou a se concentrar em buscar o veiculo.
O coelho correu com o máximo que suas pernas podiam naquela perseguição inesperada e preocupante, conseguindo se aproximar gradativamente. Parecia que seus instintos já avisavam que, se não fosse atrás, Francis sofreria. Agora, estando diante do que David chamou de surto e vê-lo praticamente ser atingido por um carro e continuar correndo, acendia o alerta de que o menino podia morrer de verdade, e deixá-lo sozinho e perdido naquilo era um absurdo que ele não podia aceitar.
Uma praça surgiu quando uma garoa começou cair. A distância entre eles estava diminuindo fácil, pois, finalmente, a resistência do corpo de Francis estava o fazendo ir devagar, apesar do desespero persistente. Seis metros e corriam sobre um gramado não aparado da praça. Um pouco mais de dois metros e Jack se viu perto suficiente para derrubá-lo. Não teve intenção de machucá-lo, mas teve que ignorar quando se jogou sobre o mais novo e os dois caíram juntos. Logo Francis engatinhava pronto para levantar e correr, o que fez o coelho ir para cima dele e segurá-lo deitado na grama.
O unicórnio, muito vermelho e arfando fortemente, conseguiu soltar uma mão da amarra de blusa nos pulsos e bater em Jack. Surpreso, o moreno reagiu, segurando cada mão em uma sua e contra a grama, e respirou fundo, seu próprio pulmão doía então se preocupou com Fran, que mal fazia alguma atividade física e sua saúde podia ser atingida naquele momento. Levou um susto quando o garoto gritou alto, lutando desesperado para fugir. Jay se sentiu um assassino o repicando ali mesmo pelos gritos angustiados e pelas expressões de dor umedecidas por lágrimas.
— Francis! — gritou em meio aos berros e não viu nenhuma mudança. — Francis é o Jack! Para! — disse e nada novamente. Chamou-o de novo, quase cedendo ao sentimento e chorando junto, pois não tinha idéia do que devia fazer naquela situação, qual era o freio do garoto. — Fran... Calma... Por favor... — murmurou, encarando-o fixamente e o segurando forte, mesmo sabendo que seus apertos iriam deixar marcas. E, de repente, o menino parou quieto e deixou de lutar, mas seus olhos estavam fechados, a respiração rápida e o corpo tenso. Passaram alguns minutos imóveis. — Francis?... Está tudo bem. Você vai ficar bem. Eu estou aqui com você. Nós estamos aqui... E estamos bem — o coelho falou sentindo que estava sendo ouvido, então soltou uma mão e deslizou no rosto dele, esperando vê-lo olhá-lo. Havia um ralado sangrante perto no queixo que o agonizou por ser um ferimento em Francis, de alguma queda provavelmente, e apostava que haveria mais alguns nele.
Como previsto, os olhos castanhos se abriram devagar, confusos e o encararam diretamente. Jack sorriu mais aliviado com a calmaria. O menino observou seus lábios e depois seus olhos novamente, de repente começou a chorar compulsivamente e o puxou, beijando-o ali mesmo, no gramado de uma praça, sendo umedecidos pela chuva fraca e com alguns machucados além do físico. Ser abraçado e beijado de volta ajudou o unicórnio a chegar a um mundo mais calmo e seguro. Seus pensamentos se silenciaram, seu corpo relaxou e seu coração, rebatendo no peito, ganhou um motivo bom para não ter uma parada cardíaca ali mesmo depois de correr tanto. E Jack também se sentia aliviado e grato por um momento tão preocupante e apavorante como aquele ter acabado, mas principalmente por Francis ter voltado.
— Francis? — uma voz fraca, mas sobressaindo ao som da chuva e raios, surgiu no silencio da praça antes vazia. Interromperam um dos beijos e os dois notaram a presença de David, de pé e nada longe para dizerem que não tinha visto o que viu. Ele estava confuso e atordoado, segundo sua expressão.
O coelho logo sentiu uma tensão instalar em seu corpo ao ser encarado seriamente e um ligeiro desespero o deixou mudo, enquanto saiu de cima do mais novo, o ajudando a sentar-se. Já Francis ainda estava em torpor e quase sem consciência do que aquilo significava entre os três, sentia mais o cansado do corpo e da cabeça.
O olhar de David foi para as pernas exportas do irmão:
— Droga. Você se machucou bastante — reclamou insatisfeito e foi até ele. — Vamos para casa, vem — levantou-o e o apoiou para andarem.
O carro estava completamente mal estacionado na lateral da praça, com uma roda sobre a calçada e uma porta aberta. Antes que chegassem, Francis gritou de dor e pôs uma mão na coxa, logo escorregando das mãos do irmão que o apoiava leve demais.
— Que foi agora?! — questionou David rude, mas preocupado. O unicórnio fazia apenas expressões de dor, esticando a perna.
— Algum estiramento muscular — Jack respondeu indo, aflito, amparar o mais novo. — Ele correu muito sem estar preparado.
Por um instante pequeno, quando David e Jay se olharam, o moreno pode ver uma faísca de irritação com ele, mas sumiu.
— Deve ser. Vamos colocá-lo no carro — orientou seco.
Em poucos minutos chegaram a casa. Um amontoado de pessoas curiosas se reunia do lado de fora. David, com um mau humor enorme, saiu do veiculo e começou a mandar todo mundo embora, quase chutando alguns persistentes demais. Seus amigos mais próximos entenderam sua seriedade e o ajudaram.
Jack esperou dentro do carro, no banco traseiro e junto de Francis. Havia dado ao menino sua jaqueta para que se aquecesse e o ajudado com a dor da perna ao fazer uma massagem para soltar a musculatura, desde dai soube que David tinha certeza de tudo, pela intimidade e principalmente quando o unicórnio jogou-se contra ele, fazendo todo aquele percurso abraçados e sem Jack resistir em acariciar seus cabelos para que continuasse calmo.
Com um guincho, um carro vermelho parou na rua e uma jovem mulher saiu erguendo o telefone e gritando que a policia estava vindo e que tinham invadido a casa para fazer a festa. Assim rapidamente o povo que queria ficar sumiu, deixando tudo vazio e silencioso.
— Onde ele está? — Margo perguntou, chegando até David parado na entrada da casa.
O rapaz já estava aceitando que ia receber toda a culpa, abaixou o rosto e apontou o carro.
Antes que ela chegasse, Jack saiu do veiculo – apesar da resistência de Francis para ficarem ali mais tempo. A mulher olhou do rapaz para sobrinho, que segurava a camisa do outro com força, ela parecia compreender com agradecimento a presença do moreno.
— Você está bem? — A tia perguntou, indo até o Francis. Tocou-o no ombro, fazendo um afago durante a resposta de silencio. — Vai ficar tudo bem Francis. Você está seguro. Nós estamos aqui e vamos cuidar de você — Jack foi tocado também, e era estranho ao lembrar que ela era uma desconhecida. — Vamos para dentro, não tem mais ninguém aqui.
Ao ficarem diante da porta, o unicórnio travou seus pés com o coração voltando a bater mais rápido e uma sensação fria de medo correndo na pele.
— Fran? — Jack chamou, atraindo a atenção da tia que ia uns passos a frente.
— Não... — foi a palavra que disse, balançando a cabeça e inspirando mais rápido.
— Francis, você tem que entrar e se esquentar ou vai ficar doente — Jack disse o que Margo pensou. O menino balançou a cabeça e Jack o segurou nos ombros, o olhando com intensidade e convicção nos olhos. — Eu não vou te deixar sozinho, confia em mim. Vem comigo — puxou-o pela mão, sustentado o contato visual, e conseguiram avançar casa a dentro.
A primeira parada foi no banheiro. Margo ajudou Jack a por o garoto de cueca, e sempre cismado com a casa, debaixo da água quente e o liquido lavou os ferimentos e a grama que o sujava.
— Eu vou descer um momento para falar com David — a tia falou num tom controlado e calmo, não querendo disparar algum susto em Francis. — Pode ficar aqui de olho nele? — Jack assentiu. — O deixe ficar o quanto quiser, vai ajudar a relaxá-lo.
Dito isso, ela se foi, deixando a porta aberta, e Jack sentou-se na privada, do outro lado do vidro texturizado do box. Ele também estava úmido pela chuva, mas não se importava, estava fazendo guarda e ponderando tudo o que tinham passado, questionando se ele teve alguma culpa naquilo e como começou.
***
O lado de fora da casa dos Audreys estava limpo e normal. Stan mal estacionou atrás do carro vermelho e sua mulher saiu do veiculo, ansiosa, tensa e preocupada. Antes que entrasse na casa com uma invasão súbita, Margo abriu a porta, deixando-a entrar.
— Onde ele está?! Eu vou acalmá-lo! — disse a mulher, desesperada para fazer algo.
— Calma, Kelly, ele já está controlado.
— Mas você disse que ele saiu gritando e fugiu! — ela a chacoalhou, achando que a irmã estava apenas escondendo coisa pior.
— Sim, foi o que David me disse. E você veio rápido, nossa! – Margo estava tranquila, segurando a outra logo depois da porta.
— Você não está entendendo, Margo! Só eu consigo acalmá-lo em algo assim... — a irmã riu diante de sua seriedade e ela se calou, chocada.
— Calma. As crianças crescem e você não é mais a única — a mais nova virou-a, fazendo-a ver a sala, ainda confusa. — Francis não quis ir para o quarto dele, teve outro ataque de gritos, mas nós o trazemos para baixo, então ele se acalmou e finalmente conseguiu dormir.
Só depois de ouvir que Kelly percebeu que seu filho não estava sozinho, deitado no sofá maior e completamente escondido sob uma coberta aconchegante.
— Quem é aquele? — ela pergunta, não conseguindo ver direito.
— Jack Robinson, um dos amigos de David. Foi ele quem controlou Francis duas vezes só essa noite. E, digo mais, esses dois não são apenas amigos.
A irmã encarou Margo, surpresa e bem confusa, mas pelo menos seu desespero de ajudar Francis tinha ido embora. Stan se juntou a elas, encostando a porta atrás de si, e logo ele e Kelly observam os dois no sofá. A mulher admirava como eles estavam próximos, o cuidado que Jack tinha e a forma que seu filho mais novo se agarrava a ele, ancorado na presença dele.
— Parece que eles se gostam... — murmurou ela, vendo de relance o olhar de Jack para eles, mas logo ele se escondeu numa ponta da coberta, sem jeito.
— Não, acho que estão mais para apaixonados, irmã. Dá para ver no ar quando estão juntinhos — Margo comentou e sorriu.
— O quê? — Stan entendeu e observou os dois garotos novamente. — Não brinca... — apesar de pasmo, não era hostil com a descoberta.
— E como está David? — Kelly perguntou preocupada e séria.
— Não sei direito. Limpamos tudo e depois ele ficou nos fundos, parece retraído.
Então a mulher mais velha avançou pela casa, sendo seguida dos dois.
Fale com o autor