O Ultimo Domínio
1 Prólogo - Despertar
Vazio.
E silêncio.
Eu estava em algum lugar inóspito, com silhuetas lúgubres e opacas á minha volta... elas não produziam som algum.
Eu não produzia som algum.
Abri involuntariamente os olhos, mas era como se eu não os tivesse aberto.
Aquele lugar não tinha forma nem vida... inabitado, era apenas um breu silencioso com as pequenas silhuetas dançando á minha volta.
Não havia cheiro nem brisa, e eu não tocava em chão algum.
Percebi estar naquele lugar a milhares de anos, a tantos que não conseguia lembrar.
O que era aquele lugar?
Tentei olhar em volta e era como se eu não me mexesse, era tudo o mesmo, a mesma mórbida escuridão.
Algo estranho cortou o ar quando eu me conformei com a solidão, algo vibrante que fez as silhuetas dançantes a minha volta pararem.
Era uma voz.
Uma doce voz recitava algo sobre tempos antigos e a muito esquecidos, sobre épocas que nem o passado recordava-se, de lugares que não mais existem e que se perderam em tantos mitos e fábulas.
A Longa História que eu percebi que certamente sabia de cor.
Algo errado, sim... algo errado estava acontecendo.
Comecei a recordar onde estava e quem eu era, vagamente, e pouco a pouco consegui lembrar exatamente tudo.
O fúnebre lugar escuro oscilou por um momento e degradou-se.
A voz continuava a descrever as cenas da Longa História e mais vozes começaram a encher minha mente.
Sim... era exatamente ali que eu estava.
Minha mente.
Vozes que clamavam, vozes que riam e falavam frases sem sentido, vozes tristes e melancólicas... elas encheram minha cabeça.
Mas não, não foi a doce voz que me fez sair do mar de inércia que encontrava-me... foi algo maior, muito maior. Era como algum tipo de alerta, algo grave o suficiente para me despertar.
Percebi que meu corpo estava sentado em algum lugar gélido, e que incensos ardiam ao meu redor.
Lentamente senti cada parte do meu invólucro imaterial... eu realmente estava ali a milhões de anos.
O chão do pequeno local onde estava vibrou, a brisa matutina roçou meu rosto levando alguns dos meus fios alaranjados para trás, os sons ao redor começaram a parar um por um; o doce canto dos pássaros no jardim próximo, a voz alegre das pessoas em minha mente até mesmo as garças que gracejavam em busca de comida. Tudo parou, todo se calou.
Sim, eu podia sentir cada vibração, sentir cada pequeno respirar, cada novo bombear do coração.
Um pequeno estrondo fez a estrutura do local vacilar, o altar em que me encontrava tremeu levemente e um doce som de tilintar invadiu o local com os castiçais de vidro polido balançando.
Meus olhos abriram-se e a doce fumaça que subia dos incensos fez minhas vistas arderem, pisquei algumas vezes para poder analisar atentamente o local.
Era um gigantesco templo, com castiçais pendurados em todo o teto abobado e gravado com rústicas hebraicas, nos vitrais coloridos as passagem sacras da Longa História brilhavam com o nascer do sol, assim como nas paredes decoradas com a cor dourada. Livros estavam enfileirados aos trilhões em várias prateleiras no extremo oposto do local, e nas paredes douradas ao meu redor pairavam esculturas gigantes de marfim, idênticas aos meus irmãos, enfileiradas na ordem sacra da Árvore da Vida.
Eu estava sentada de pernas cruzadas sob um altar tão grande quanto as estatuas de meus irmãos e exatamente na mesma posição, como se eu também fosse uma delas. Vasos de flores estavam distribuídos ao meu redor com velas aromáticas espalhadas estrategicamente em cada degrau do imaculado altar.
O ar adocicado estava presente em tudo, em mim e dentro de mim.
Pisquei algumas vezes mais.
E eu estava mais uma vez ali, acordada.
Viva.
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