O Uivo de um Alfa
12 Tormento.
Notas iniciais
Naquele momento eu só conseguia sentir dor, olhando a porta e vendo as batidas se tornarem mais intensas e mais insistentes, fazendo Henrique rosnar rapidamente e abrir a porta, fiquei em posição de ataque, mesmo que meus olhos ardessem e meu corpo todo estivesse doendo, quem estava ali era Sarah, ela estava machucada, ela estava muito machucada e a cena me fez gelar e ficar pálido.
— P-pedro... – Ela sussurrou e caiu de joelhos, senti uma dor tão grande no peito que o meu movimento foi idêntico, cai de joelhos.
Quando isso aconteceu, Henrique a puxou rapidamente para dentro, pedindo desculpas por pegar em partes machucadas e logo a ergueu e a levou para o mesmo quarto, enquanto isso eu estava ali ajoelhado ao chão, olhando as minhas mãos vazias.
Não sei quanto tempo meu torpor durou, porque eu não consegui focar a vista, eu somente levantei e dei de encontro com Sarah deitada na cama, ela respirava ainda o que me deixou mais aliviado, mas estava tão machucada, não conseguia entender o porque ela não conseguia se regenerar naquele momento, ela já devia ter se curado, mas não acontecia, então a respiração ofegante dela teve um corte e ela abriu os olhos e ficou me olhando, como se não me reconhecesse, talvez fosse isso, talvez ela não estivesse sentindo o companheiro dela ali, ou somente fosse uma ação involuntária.
— Kir-kirian... você... está tão diferente – A voz dela era uma melodia que me deixou inerte novamente, mas, algo respondia por mim.
— Minha alma gêmea, minha metade... O que aconteceu? – Kirian, falava por mim em um timbre forte e preocupado.
— O Maldito que... que... fez o corpo de Sarah, ele fez um ponto fraco... – Ela parou de falar e tossiu. – Ainda não consegui saber o que é... Mas... Parece que era alguma coisa nela que foi ativada...
Minha vista se tornou vermelha, dessa vez era culpa minha, eu estava em fúria, peguei o corpo frágil e agora notava aquela semi-forma que me deixava em uma transformação entre lobo e humano, segurei o corpo dela próximo a mim e meu corpo agiu por impulso e Kirian sabia disso, porque a voz que saia de meus lábios era a dele e as palavras eram sussurradas por Ester e repetidas alta por mim.
“Myn bloed, it bloed ... fan myn siel nei jo siel.
Om't wy binne smeid yn it ûneinige djip, wy waarden makke foar elkoar, om't men foltôging de oare.
Troch myn bloed, krijst de cure.”¹
Aquilo não foi uma simples fala, porque sentíamos a energia fluir no local, sentíamos a energia, sentíamos a magia fluir naquele lugar, então, meu corpo se aproximou mais do dela, e uma das mãos foram direcionadas aos meus lábios onde mordi o pulso e deixei algumas gotas de sangue caírem nos lábios dela, fazendo o corpo dela se arrepiar e tremer em meus braços.
Era possível sentir o corpo dela vibrando com cada sensação e logo Ester falou baixo.
— Temos... Que esperar a magia fluir, vá ver Elena... Mas não nessa forma, ira assustada assim.
Era tarde de mais, quando ela falou já tinha deixado ela deitada na cama, quer dizer, não eu, mas Kirian, quando abri a porta do banheiro, vi grandes olhos me olhando apavorada, ouvi o grito dela machucar meus ouvidos aguçados e meu corpo se encolher, voltando aos poucos a forma completamente humana, mas o rosnado permaneceu, não era eu ali, era Kirian e ele era mais impaciente do que eu.
— Pra que gritar! – Falou ele em um tom bruto
— Pe? Você parecia aqueles lobisomens... De filmes de terror – ele riu enquanto ela se encolhia.
Ela não tinha notado até aquela risada fluir, forte e bruta, bem diferente da minha real, ela olhava com o rosto de lado, mas algo nela não estava normal, ela estava pálida e ofegante, o grito talvez havia tirado o folego dela, talvez a asma dela houvesse voltado, então, Kirian notou e se jogou para frente, assim que ela amoleceu e quase caiu, ele a pegava nos braços e a olhava, imensos olhos lilases contra o olhar dela totalmente castanho.
— Você é frágil de mais... Henrique tem que te transformar logo... – ele falou com certa ignorância.
Mas algo fez com que meu corpo todo tremesse, com que todos os meus músculos se contraíssem, os olhos castanhos de Elena, eles tinham... aquilo era pequenas gotas de ouro? Eu nunca havia notado aquilo, então fiz com que Kirian também prestasse atenção. Ela nos olhava calmamente, o corpo dela estava aparentemente normal, mas aqueles olhos, onde eu havia visto eles uma vez?
— O que você é Elena? – Kirian falou baixo enquanto começou a carrega-la.
— O... o que eu sou? – Ela falou baixo.
— Sim... O que você é? – Ele repetiu e ela fechou os olhos.
Um suspiro brotou no meu peito quando notei que ela fechando os olhos, até que ela ficou daquele modo, ela parecia ter desmaiado. Devido a audição aguçada notei passos vindo ao meu encontro, quando ergui o rosto era Henrique, ele estava olhando Elena desacordada novamente e se aproximou a pegando para si, ele falou baixo e respirou profundamente.
— Não é o Pedro... Kirian certo? – Falou ele baixo.
— Hm... Bom faro, sim meu jovem, é um prazer... – Kirian respondeu no meu lugar e passou por Henrique.
Henrique por outro lado nada disse, ele somente caminhou atrás de mim, quando notei, estávamos no quarto novamente, o corpo de Sarah estava completamente curado, mas aquela magia permanecia no quarto, rodeando o ambiente, Henrique colocou Elena deitada na cama ao lado de Ester e a voz de Kirian foi ouvida novamente.
— Ester... Ela tem os olhos castanhos com ouro... isso te lembra algo? – Ele falou olhando a janela fechada do quarto.
— Ouro? — a voz fraca soava naquele momento.
— Sim... Ouro, castanho com ouro... – Kirian passou a mão nos cabelos e virou para Henrique.
— Estão falando do que? – Falou baixo Henrique enquanto olhava para Elena desacordada.
— Sobre os olhos da Elena, ela tem olhos castanhos com ouro. – Falou Ester que se sentava na cama, a voz dela era sempre calma. – Ela não é totalmente humana.
— Como assim ela não é totalmente humana? O que ela é? – Ele falou confuso enquanto colocava os cabelos dela atrás da orelha.
— Ela... Tem sangue de bruxa... E uma bruxa muito forte... Por ser ouro. – Ela respondeu baixo para ele enquanto olhava Elena deitada.
Quando Ester falou bruxa, os olhos de Elena se abriram, ela olhava o teto fixamente, parecia não estar ali, Kirian se aproximou e eu praticamente gritava na mente dele que aquilo era normal, ela era sonambula e que esses ataques eram frequentes quando ela passava muita raiva, ou sentimentos que a deixassem balançada, então ele suspirou e virou as costas.
— Pedro pediu para informar que é normal ela fazer isso... ela é... Sonambula? Isso, sonambula, então... – ele falou com certo desdém e mexeu a mão.
— Isso não está nem perto de ser normal, ela esta curando o corpo dela... – Ester falou baixo e fechou os olhos. – Vejam...
Quando ela falou isso, fez uma de suas unhas ficarem pontudas, como se fosse uma garra, ela então encostou na bochecha de Elena e apertou, depois deslizou, fazendo um pequeno corte na bochecha dela, quando isso aconteceu, o corte quase que de modo automático ia se fechando, quando isso aconteceu, Henrique tirou as mãos de Elena e ficou a olhando com certo receio até, talvez tivesse medo de que ela fosse fazer algum mal a eles, mas nada acontecia, ela somente fechou os olhos novamente e virou o corpo na direção da mão de Henrique, ela puxou a mão dele para si e ele pode sentir como o corpo dela estava tão gelado, ele se assustou e logo a puxou para si.
— Ela está congelando... – ele falou de modo assustado e confuso.
— Que exagero... – Falou Kirian enquanto se aproximava e tocou a garota, ela puxou a mão e olhou assustado. – Não... não é exagero.
Ester olhou para a menina e soltou um suspiro, logo o rosto dela se tornou levemente mais pálido o que fez Kirian se assustar e se aproximar, ele a pegou antes que ela desmaiasse, quando a mesma voltou a abrir os olhos era Sarah que estava ali, aqueles grandes olhos azuis dela brilharam brevemente, quando a voz saiu frágil e assustada.
— O que aconteceu? Pedro? -Sussurrou Sarah enquanto se moveu brevemente.
— Shhh – Kirian fez com os lábios para que ela silenciasse.
Em resposta ela se manteve em silencio, ela se aconchegou aos braços dele e logo caiu no sono, ela estava cansada e era nítido o cansaço dela naquele momento. Enquanto Sarah agora dormia aos braços de Kirian, Henrique estava olhando Elena que parecia estar tão gelada como nunca esteve, ele a colocou mais para o lado na cama e a puxou um pouco mais para si, fazendo com que ela se aquecesse com todo o calor que ele podia oferecer naquele momento, quando olhou novamente, Kirian o observou e soltou um longo suspiro, colocou Sarah deitada e falou baixo, com total poder da palavra naquele momento.
— A descendência dela é nítida, mas ela está em uma linhagem muito distante da bruxa, então não tem nenhuma ciência e nem demonstra nenhum poder, por isso ela se cura assim, mas ela não representa nenhum risco a nossa raça, ela é inofensiva até demais... mas pelo que eu me lembre... A bruxa que tinha os olhos cor de ouro era Zafira... ela não era muito amigável com lobos... – Kirian parecia lembrar de quem era Zafira, mas logo balançou a cabeça. – Pode ser que quando você a transforme, ela se torne somente uma loba e esse sangue de bruxa saia do organismo dela ou pode ser que ele seja potencializado e ela se torne uma mestiça, por enquanto vamos manter isso somente entre nós, afinal ela não parece ter ciência do que ela é mesmo.
Kirian deu de ombros naquele momento para o que estava falando e logo abaixou um pouco o corpo e pegava novamente Sarah nos braços, ele suspirou e Sarah de modo quase automático se aconchegou aos braços dele, ele então falou baixo para Henrique.
— Cuide dela meu caro, irei levar Sarah para a minha casa, qualquer coisa por favor, uive que eu virei correndo. – Assim que falou isso ele começou a caminhar lentamente em direção a porta.
Não precisava que Henrique o levasse até a porta, ele sabia muito bem como sair dali, então de forma calma e até silenciosa ele saiu da casa, quando fez isso começou a caminhar e todo o caminho via o chão manchado de sangue, deve ter sido por onde Sarah tinha vindo, o caminhar continuava lento e calmo até a casa de madeira que quando viu sentiu um grande aperto no peito, a casa mesmo pequena estava completamente destruída, o corpo de Kirian esquentou rapidamente e logo Sarah acordou e reclamou rapidamente, os olhos se abriam rapidamente e logo ela olhou para a casa, ela começou a chorar e sussurrou brevemente no peito de Kirian.
— Eu... eu surtei, algo me fez surtar, eu me transformei na forma intermediaria, mas nunca fiz isso... Doeu tanto, parecia que havia veneno no meu sangue, parecia que algo me atiçava para fazer isso, eu ouvia Ester falar na minha mente, para deixar ela tomar o controle, mas eu não consegui deixar ela tomar as rédeas, quando vi já havia destruído tudo, estava ferida... como se o meu suor me queimasse de dentro para fora... Ah... Meu Deus... o que foi que aconteceu? – A voz fraca dela soava tão sentida que até Kirian se sentiu mal, ele a abraçou com força e ficou em silencio. – A sua casa... a nossa casa! E agora?
— Se acalme, vamos arrumar a casa, construímos uma nova, até lá ficaremos na casa dos pais de Pedro. – Quando falou isso, Sarah notou que era Kirian que estava ali, mas nada falou.
Então aos poucos, ele se colocou a caminhar em direção a casa dos antigos alfas, ele suspirou e logo Sarah caiu de novo no sono, ela deixou um sorriso breve nos lábios naquele momento, como se estivesse mais relaxada por ele não ter ficado bravo, quando chegou até a casa, viu Roger e Bruna parados na entrada, quando nos viram eles se entreolharam rapidamente e logo Roger falou baixo.
— O que aconteceu? Sarah está bem? – Falou em um tom baixo e calmo.
— Algo no sangue dela fez ela surtar... Ela destruiu toda a casa... E estava muito machucada, estamos sem casa no momento... – Kirian falou baixo de certo modo estava completamente sem jeito.
— Podem entrar... O seu quarto seria la em cima... – Depois que falou isso eles saíram da frente da porta.
Kirian não ficou muito tempo parado ali, ele somente subiu as escadas e achou o quarto que deveria ser o seu, afinal, havia malas de quando tinha chego ali dentro, ele colocara Sarah na cama e respirou fundo, logo ouviu Pedro no fundo de sua mente pedindo espaço, ele queria cuidar de Sarah e assim aconteceu, Pedro havia tomado espaço no corpo novamente e logo soltou um longo suspiro, seu corpo relaxou e ele logo deitou ao lado de Sarah, mas aquilo não durou muito, ao longe pode ouvir um uivo dolorido e medroso, ele automaticamente identificou como o de Henrique, saiu correndo da casa e no meio do caminho já estava em forma de lobo quando entrou na casa, via Elena sentada em um canto tremendo imensamente e do outro lado Henrique que parecia ferido e desnorteado, Pedro por sua vez falou um tanto alto, mas com total calma.
— O que aconteceu aqui?! Elena?! – Ele foi caminhando em direção a Henrique, mas os olhos estavam em Elena, ela parecia desligada e com medo. – Henrique? O que aconteceu?
— Ela... De alguma forma começou a me congelar e acordou daquele jeito... Ela... Não lembra de mim... — Ele falou de um modo triste e Pedro rapidamente levantou.
— Elena? O que aconteceu? Baixinha...? – Ele foi se aproximando lentamente.
— Pedro? Quem é ele? Ele... ele virou um lobo... e... porque você está... pelado? – Falou baixo enquanto balançou a cabeça e fechou os olhos. – Pedro... O que aconteceu?
— Elena... Somos lobos... Você é companheira dele... Ele te ama mais do que tudo... E... Você retribui esse sentimento... Mas me diga o que aconteceu? – Quando falou isso ela ergueu os olhos e aquele dourado brilhou.
— Eu... eu lembro, eu lembrei! Ahh meu Deus! Henrique! Perdão... eu... perdão! – Ela saiu dali cambaleando e logo o abraçou, ele se acalmou com aquilo.
— Henrique... Trans... – ele parou no meio da frase e logo balançou a cabeça rapidamente – Algo... está acontecendo... Alguém... alguém... está entrando...
Depois que falou isso ouviu vários uivos foram ouvidos e varias coisas acertaram a mente de Pedro que balançou a cabeça.
— Fiquem aqui! Não saiam! – Ele deu a ordem e se transformou no meio do quarto e saiu correndo.
— “Alfa! Alfa! Estão atacando a reserva!” – Falou John enquanto Pedro corria.
— “Filho, é aquele professor maldito!” – Novamente uma mensagem, era seu pai dessa vez.
— “Se acalmem e ajude as crianças e as mulheres que precisam de apoio eu estou chegando” – depois dessa ordem houve o silencio.
Todo aquele silencio, tudo aquilo me deixou completamente tenso, tão tenso que quando cheguei a grande clareira travei, não acreditava no que estava vendo, não queria acreditar no que via, era tudo tão surreal.
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