O Uivo de um Alfa

14 O Desaparecimento.


Tudo estava em completo silencio, parecia que nada estava realmente vivo naquele lugar, minha vista ainda estava tão escura e eu não ouvia nada ao meu redor, mas logo aquela inercia começou a passar, aquela sensação de que algo tampava minha vista começava a sumir aos poucos, eu conseguia ouvir alguns sussurros e algumas palavras aleatórias que não se encaixavam em lugar nenhum naquela bagunça toda que estava minha mente.

— Pedro, anda... – Essa era a voz da minha mãe – Vamos.... Reage...

— Filho? Consegue me ouvir? – Esse era meu pai falando.

E por incrível que fosse, eu não conseguia reagir, eu começava a enxergar o que se passava ao meu redor, piscando aos poucos, minha mãe tinha um rosto preocupado, assim como meu pai, eu via Sarah andando de um lado para outro atrás dos dois, passando a mão pelos cabelos enquanto falava consigo mesma, afinal eu so via o mover dos lábios dela, e queria imensamente entender o porquê ele estava fazendo aquilo, queria entender o porquê ela não tinha ido falar comigo ainda, ela estava realmente diferente a energia dela estava diferente, então pensei que quem estava ali não era a Sarah e sim Ester que estava presente, ela estava impaciente de mais.

Aos poucos forcei os braços a se moverem e senti o movimento dos dedos, um a um, pouco a pouco, soltei uma respiração pesada e tive a atenção dos olhos dela nos meus, ela abriu um sorriso vacilante e se aproximou me ajudando a se sentar, estávamos em um quarto, provavelmente o da casa dos meus pais, já que a casa estava completamente destruída por conta do surto de Sarah. Minha mente estava rodando tão rápido que quando me dei por mim, peguei somente metade do que Ester estava falando, por mais que eu visse os lábios dela se movendo.

— ... então, ela desapareceu, ninguém sabe onde ela está... – Ela falou com um pesar nos olhos.

— Quem desapareceu? – Falei receoso, com medo da resposta.

— Elena... Ela desapareceu junto com a mãe dela... — Ela falou em um sussurro.

Não fiquei na cama depois daquela informação, me obriguei a me levantar da cama, em um pulo já estava em pé, meu corpo doía mas era algo irrelevante no momento, e não ficaria ali enquanto minha melhor amiga estava desaparecida com a mãe louca que ela tinha. Passei a mão pelo corpo e olhei para baixo, pelo menos estava vestido, não iria me preocupar com mais isso. Não parei para olhar o quarto, somente sai dele e desci as escadas em pulos, minha mente era uma grande bagunça, eu tentava juntar cada pequena peça para montar o que estava acontecendo, quando cheguei a porta de saída dei de cara com Henrique, ele tinha um olhar distante e aquilo iria me destruir, mas sem falar nada o peguei pelo braço que foi de bom grado comigo enquanto andávamos rápido demais, praticamente estávamos correndo, até que a raiva finalmente atingiu meu coração e me transformei em um surto rápido, Henrique me acompanhou nisso.

Corremos até a clareira onde tudo aconteceu, mas ele não se aproximou, ele ficou longe da marca grande e negra que tinha no chão, aquilo não cheirava bem, parecia algo ruim emanando na terra, quando me aproximei me senti fraco, mas ainda assim me forcei a ficar cada vez mais próximo, o focinho encostando a marca, sentia o cheiro forte de enxofre, aquilo me fez balançar a cabeça, algo estava muito estranho naquele lugar, então pela primeira vez depois de despertar, ouvi Kirian falar comigo.

— “Isso cheira igual o portal onde encontrei Ester pela primeira vez...”

Não me preocupei em falar nada, afinal estava em fúria e não queria saber de nada a não ser de onde estava Elena e o que a mãe dela havia feito com ela, olhei por cima do ombro e vi Henrique se aproximando, ele estava realmente mal, mas nos olhos dele ainda conseguia ver o brilho de esperança estampado ali, afinal ele era companheiro dela e conseguia muito bem sentir a energia dela, viva e pulsando, ele saberia dizer se ela estava em perigo ou não, ou se realmente estava viva. Parecia que eu não precisava falar com ele de verdade, ele entendeu completamente o que eu pensei sem ao menos abrir os lábios para falar alguma palavra sequer, então, ele falou somente em minha mente.

— “Eu sinto ela... Ela esta forte, parece bem... Mas tem uma energia com ela... Que esta tentando dobra-la...” – Ele tinha um tom desanimado ao falar.

Novamente, não respondi para ele somente balancei a cabeça, com um pequeno sim, respirei profundamente e dei as costas a marca negra que tinha na clareira naquele momento, algo dentro de mim pedia para voltar para casa, que Ester tinha alguma coisa para me falar, então corremos novamente, o caminho foi mais rápido do que o da ida, afinal, estávamos em uma forma de lobo e a raiva nos motivava a correr cada vez mais. Quando chegamos, Henrique ficou sentado nas escadas, parecia não querer entrar, não o forcei a nada, mas entrei em forma de lobo em casa e me sentei na porta, assim que Ester sentiu a energia no local, ela desceu correndo as escadas, os olhos dela brilharam brevemente e quando ela se aproximou, respirou profundamente e falou sem cerimonia nenhuma, o que provavelmente Henrique ouviria do lado de fora da casa.

— Dourado, os olhos dela eram dourados! Eu sei quem é a Bruxa... Mas isso torna as coisas mais complicadas! Porque o sangue dela não é só de uma bruxa... Ela tem sangue de um ser “divido” se assim ele pode ser chamado! Ela é filha de Zets...

Aquilo não significava muito pra mim, mas Kirian se agitou na minha mente e as coisas foram ficando claras, assim como quando ele me mostrou ele encontrando Ester, balancei a cabeça rapidamente e ergui a cabeça de lobo, Henrique entrou rapidamente estando em sua forma de humano e com o rosto nitidamente pálido, aparentemente ele sabia quem era aquela bruxa e pelo menos identificava o nome dela quando ele era dito, ele falou em um tom completamente apavorado.

— Zets? Tem certeza? – Falou Henrique enquanto balançava a cabeça de modo que não acreditava no que era dito.

— Sim... Você conhece sobre ela? – Ester parecia incrédula com ele sabendo quem era a bruxa.

— Ela foi a primeira mulher de Lucifer, a primeira que rogou a praga nos lobos, nos chamando de sangue sujo... assim como também foi a primeira a descobrir que Lucifer amava lobos... Ele amava mais os lobos do que ela... Por isso nos odiava tanto. – Ele falava o que sabia da história pelo menos.

— Como sabe dessa história? Apesar de que não foi ela que rogou a praga nos lobos... Ela somente contribuiu... – Ester falou baixo.

Não fiquei calado por muito tempo, somente me transformei em humano, a mão massageando a testa rapidamente o que demonstrava a dor de cabeça que estava sentindo com tudo aquilo que estava sendo falado, então falei baixo, recapitulando o que havia entendido dos dois conversando naquele momento.

— Então quer dizer que Elena é filha da ex-mulher de Lúcifer... isso quer dizer que o poder dela também vem dele? Ou quer dizer que ela é FILHA dele? – Perguntei rápido e impaciente.

— Quer dizer que tudo indica que sua melhor amiga é filha do anjo caído... indica também que ele achou ela quando ela se transformou em loba... E que isso tudo mostra que logo ele pode vir fazer uma visita, afinal... ele gosta de lobos... – Falou Ester enquanto tentava não demonstrar o certo receio. – Indica também que... Ele vai se lembrar que eu fui uma guardiã... E vai lembrar de Kirian.

Aquilo era o bastante para mim, como podia estar acontecendo aquilo tudo em um único dia?! Era impossível de se acreditar, afinal, quem havia levado Elena, teria sido Lúcifer? Porque sentiu que sua filha estava em uma confusão? Ou ele a sentiu por conta do surto de poder dela e a vontade dela proteger os seus?! Nunca tinha imaginado que aquilo chegaria a tanto daquela forma, afinal nem estava ali a tanto tempo e já tínhamos passado por tanta coisa, ainda tinha a ameaça do cara de toupeira, ele não tinha mais dado sinais de que iria atacar a reserva, mas tudo podia estar sendo planejado por ele, tudo poderia estar mudando o que era evidente, o pior de tudo era que eu somente queria sumir daquele local, mas como faria isso se toda a responsabilidade era minha? Afinal eu tinha parte de Kirian e teria de ajuda-los a passar por aquilo, mas quem me ajudaria?

Era o maior pensamento que se passava na minha mente, como eu iria lidar com tudo aquilo? Afinal, estavam todos me olhando, todos falavam, todos gritavam e eu estava perdido em uma imensidão de pensamentos, no enquanto que virei as costas para todos e sai para fora da casa, o vento gelado me fez bem, era uma sensação agradável, era uma sensação que era boa de se sentir no rosto, eu estava nervoso e nem Kirian conseguia falar comigo naquele momento, pois sentia ele no fundo da minha mente querendo uma explicação do que eu estava fazendo, mas para ser sincero estava somente seguindo meus instintos, seguindo o que eu precisava fazer, era somente o que eu queria naquele momento, seguir meu único instinto que era sair daquele lugar, era o que eu queria e foi o que eu fiz, sai correndo da casa, me transformei em um lobo e me coloquei mata adentro, ouvia o barulho das mentes dentro da minha cabeça e aos poucos silenciei tudo o que ouvia, tudo não passava de silencio agora e eu não sabia mais onde me encontrava, estava cada vez mais dentro da mata, até achar uma clareira, ela estava vazia e tranquila, automaticamente, lembrei que fui ali a primeira vez que me transformei, fui ali e ali encontrei minha mãe para me acalmar, mas naquele momento eu não queria minha mãe, não queria meu pai, eu não queria ninguém, eu queria estar isolado, queria entender tudo o que eu sentia, que era uma imensidão de sentimentos confusos e perdidos.

Assim que aquietei minha mente, me sentei na relva verde, fechei os olhos e me concentrei a desligar tudo a minha volta, não queria sentimentos me atrapalhando, não queria nada me mostrando o que eu não queria ver, então simplesmente fiquei em silencio, o zumbido na minha cabeça começava a se distanciar e parecia que todos estava entendendo que eu precisava de um tempo só meu, eu precisava respirar, precisava me concentrar em tudo que acontecia, precisava de uma estratégia para o que podia vir a acontecer, então algo me veio a mente, e se por algum acaso eu conseguisse achar uma entrada para o inferno? Sabia que existiam várias pelo mundo, afinal era o que muitas pessoas falavam ou acreditavam que existiam, se ali na reserva existisse uma eu poderia facilmente... O pensamento foi embora assim como veio, de novo aquele zumbido em minha mente começava a aumentar, até que resolvi voltar a forma humana, sentado na grama e de olhos fechados, assim ninguém conseguia me importunar, assim ninguém conseguiria me achar, então comecei a falar comigo mesmo em voz alta para colocar meus pensamentos em ordem, eu queria colocar todos os meus pensamentos em ordem, se pelo menos eu tivesse um caderno e uma caneta pra me concentrar, seria muito mais fácil, colocando tudo em papel, mas não tinha nada daquilo perto de mim e simplesmente eu não voltaria para casa para pega-los.

— Se eu achasse uma dessas entradas... Aqui tem muita mata virgem pelo que eu consigo notar, pode ser que exista alguma entrada por aqui, que exista... sei la um maldito portal pro inferno... – os pensamentos altos começavam a dar ordem no caos que se passavam na minha mente – Mas como é uma entrada para o inferno?! Meu Deus... como vou fazer isso?

Deixei a mente vagar enquanto sentia como se alguém me observasse, mas na realidade eu não estava muito ligando, porque estava falando sozinho comigo mesmo, estava tentando imaginar como seria uma entrada para o inferno, queria saber como eu conseguiria entrar naquele lugar, como eu teria de invocar o diabo? Queria saber realmente como tudo era... Mas aquela sensação começou a me incomodar, virei o rosto lentamente e no meio das arvores consegui ver um par de olhos azuis, aqueles olhos eram estranhos, calmos de mais para o meu gosto, como se estivesse com certo medo de me olhar, virei totalmente o corpo naquela direção e fiquei olhando de modo calmo, não queria expantar o que quer que fosse que estivesse ali, então lentamente me curvei e deixei meu corpo se transformar de modo calmo em um lobo, fui dando passos calmos na direção da mata, uma pata na frente da outra, a cauda entre as pernas para demonstrar certa submissão enquanto eu captava certas mensagens na mente.

— “... Pedro?”, “... aonde?”, “... ele sumiu, não...” – eram mensagens cortadas de varias pessoas e eu não ligava muito.

Assim que entrei na mata, continuei andando calmamente, aqueles olhos haviam desaparecido, mas eu via algo muito branco se mover na minha frente, algo que se movia com muita calma, mas ainda assim dava para sentir todo o poder que saia dele, todo o poder que ele parecia represar, até que aquilo saiu correndo e eu o segui rapidamente, eu corri atrás dele, até que parei na frente de uma grande caverna, parei na frente de uma imensa caverna, pelo lado de fora se via que era muito antiga e que ao redor da entrada

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.