Notas iniciais
Eu juro que eu fiquei com dó escrevendo esse capítulo

Os dois continuaram a caminhar, iluminados pelo brilho do sol que subia no horizonte azul, quase a pino. Era um belo dia, mas Henrico sabia o que o esperava. Era a primeira noite do ciclo lunar, logo, noite de lua cheia. Não era fácil alguém se tornar um lobisomem, não era indolor.

-Vamos à um baile hoje à noite, na Casa de Buckinham. Quer ir? – voz de Maria quebrou o silêncio.

-Ah... você sabe que dia é hoje. –Pela primeira vez no dia, Henry baixou os olhos vedes, mas a garota continuava com a expressão confusa. –Lua cheia.

Sua voz avia tornado-se dura e fria, sem emoção. Maria fez um som de concordância e encostou-se novamente em seu peito, abraçando-o desta vez. Ela era a única, além da própria família do rapaz, que sabia de suas condições.

•••

O sol já atravessara completamente o céu e agora caía no horizonte, tingindo o palácio e seus jardins de laranja e vermelho, belos raios espalhando-se e incidindo pelas ralas nuvens agora aparentes. Entretanto, a Lua não saíra ainda.

Henry apoiava-se na janela do suntuoso quarto, agora completamente arrumado pelos empregados reais. O típico sorriso já não iluminava a bela face do rapaz italiano, seus olhos não eram mais alegres ou brilhantes, mas sim fundos e sem expressão, a cor sumira de seu rosto, deixando as faces com aparência macilenta e branca como cera. Quase não havia vestígio de Henrico Berardinelli, o adorável galã italiano.

Suspirou. Ele precisava se preparar, não podia transformar-se em um gigante lobo no meio de um quarto completamente mobiliado. Não havia nada que odiasse mais do que essas noites. Era quase insuportável. A dor, a perda de consciência...

Virou-se de costas para a janela, vestia uma camisa branca, calças pretas e botas de montaria, também pretas. Estava na hora, apanhou um manto de tecido pesado e escuro e jogou-o sobre os ombros, retirando-se do quarto.

Sentia-se exausto, como se estivesse prestes a dormir durante horas seguidas. O Palácio estava silencioso enquanto ele o atravessava, todos aprontavam-se para a festa que ocorreria em poucas horas.

Atravessou, a passos largos e rápidos, o jardim e, com apenas um aceno firme de cabeça, passou pelos guardas nos portões. Henry saiu apressado enquanto o sol terminava de cair no horizonte, começando a dar lugar a noite escura e, por enquanto, sem luar.

Um bosque denso rodeava o palácio, colocando-se entre a casa real e a cidade mais próxima. Servirá, pensou Henry.

O rapaz já começava a sentir os músculos formigando enquanto a lua aparecia e desaparecia por detrás das nuvens. Ainda não havia chegado às árvores, mas não havia tempo, um extenso gramado estendia-se entre os portões e o bosque, não estava tão longe agora... faltava tão pouco... tão pouco para a alcançar a segurança dos humanos no portão e a sua própria.

Henry olhou para trás, os sentinelas guardavam imóveis seus postos. Mesmo com a dor se espalhando pelas coxas, o rapaz correu, o manto esvoaçando para trás no vento da noite. Correu pouco, mas alcançou a vegetação aos arquejos.

As árvores cresciam muito juntas, o que tornava o bosque denso, difícil de caminhar. Ele andou devagar, apoiando-se nos troncos até estar completamente embrenhado. Quando Henry passava, os pequenos animais afastavam-se, como presas fugindo de um predador.

Finalmente, uma nuvem moveu-se, exibindo a lua, um raio prateado penetrou pela copa das árvores e incidiu no rosto de Henry.

O rapaz caiu ao chão terroso coberto de folhas mortas, as mãos espalmadas e o rosto contorcendo-se de dor. Sentia dificuldades para respirar, o ar entrava e saía com ruídos horríveis, suas costas subindo e descendo penosamente. Ele gritou, o som reverberou pelas árvores, mas o sofrimento era tamanho que não podia se controlar. Em seus olhos, as pupilas dilataram-se a ponto de deixar apenas uma fina faixa de verde, que se tornou mais vivo que nunca.

Sentiu as pernas e os braços alongarem-se, as mãos fecharam-se e se deformaram até que enormes patas estavam em seu lugar, ele tentou resistir, mas tudo que conseguia era contorcer-se até que seus gritos foram substituídos por ganidos altos e até mesmo estes desapareceram gradativamente.

E então, respirando com dificuldade, enroscado nas folhas não estava mais o belo Henrico. Em seu lugar, um enorme lobo negro recuperava-se da dolorosa transformação.

O lobo deu um ultimo ganido sofrido e baixo, apoiou-se nas patas fortes e levantou-se. Era magnífico e apavorante, o tipo de fera linda que você apenas se aproxima atrás da segurança de grades. Em altura, atingia a altura de um cavalo adulto e saudável, suas costas e membros eram visivelmente fortes, mesmo sob o grosso pelo negro. Os olhos verdes e os caninos brancos afiados como navalhas destacavam-se sobre a pelagem.

No fundo da consciência bestial, continuava Henry. Ainda era o rapaz, mas era como se ele não tivesse controle algum sobre o corpo, no dia seguinte lembraria-se exatamente de tudo, mas, na ocasião, era levado pelos instintos, seus pensamentos humanos mal formavam-se.

A noite era seu habitat natural, enxergava cada centímetro num raio três vezes maior do que quando era humano, além de tudo ser mais claro. O bosque era um festival de cheiros e sons, de vidas pulsando ao seu redor. Com um barulho semelhante a um latido, ele jogou a grande cabeça para trás e, apontando para a Lua, que já não o incomodava, uivou longamente. Seu uivo pôde ser ouvido por todo o bosque e a estrada rural que o cruzava.

Com um impulso dos potentes músculos, Henry partiu a galope, sumindo no meio das árvores até o raiar do sol.

Notas finais
E aí? Passei dor o suficiente? Ai coitado, devo desculpas ao Henry, mas ainda vai ter várias luas cheias
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.