O Uivo da Meia-noite
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Os dois homens desceram as escadas do palácio em meio à fala infindável do rei e aos inúmeros “bom-dia, senhores” que recebiam dos empregados. A cada um que lhe desejava um bom dia, o rei respondia com extremo entusiasmo.
-Como eu dizia, Henrique...
-Henrico, senhor.
-Desculpe-me? – O Rei perguntou, como se a fala do rapaz tivesse sido aleatória.
-Meu nome é Henrico.
-Sim, sim, eu sei, ora essa. Como não saberia o seu nome, garoto? Eu praticamente lhe vi nascer... –E assim começava mais um monologo do Rei. Henry já preparava-se para apenas sorrir e concordar quando um jovem e linda moça trazendo pela mão uma garota de menos de catorze anos invadiu o salão principal aonde terminavam as escadas que vinham dos aposentos.
-Pai, já alugando nosso convidado deste modo? Assim, Henrico não voltará mais. –O rapaz conhecia a jovem três anos mais nova que ele de outras visitas, era Maria, a princesa. Na realidade, os dois eram amigos, confidentes, consideravam-se irmãos. Assim como a pequena Amélia, que confiava em Henry para tudo e qualquer coisa. Apesar de sua pouca idade, apenas treze anos, Amélia já não era mais uma criança, pelo menos não tinha a mentalidade de uma.
Henry sorriu paras as garotas, recebendo um sorriso discreto como resposta de Maria e um animado de Amélia, que entendeu que o amigo não estava a vontade conversando com o rei.
-Henry, por que não damos uma volta pelos jardins? Faz tanto tempo que não lhe vejo! –A mocinha desvencilhou-se da mão da irmã e jogou-se em Henrico, sufocando-o com um apertado abraço.
-Eu adoraria, mas teu pai me chamou antes para uma cavalgada com seu irmão George. –Amélia tirou os braços do entorno da cintura do italiano e lançou um olhar pedinte ao pai.
-Por favor, senhor, nós o devolvemos antes do almoço. –George parecia desconfiado e olhava de Amélia para Maria e, dela, para Henry.
-Não é adequado, Maria. O povo pode pensar mal se te ver andando com um homem tão mais velho...
-Henry é apenas três anos mais velho, papai. –Amélia interrompeu, sendo repreendida com um olhar.
-Vocês podem ir, Henrico e Maria, contanto que Amélia vá junto.
Os dois maiores não se importavam de andar com a garota, até por que não eram nada mais do que amigos. Apesar de Henry já ter tido casos com metade das mulheres nobres, nunca galanteara Maria e nunca pretendia fazer isso.
Os três, juntos, rumaram para os belos jardins. Amélia era baixa, tinha cabelos castanhos que as amas cuidadosamente arrumavam em um belo coque cacheado, suas feições não eram infantis, considerando os padrões da época, a garota usava pouca maquiagem. Seus vestidos eram sempre delicados, mas não exagerados. Mesmo agora, pouco mais que uma criança, a menina já acumulava pedidos de casamento, todos recusados pelo super-protetor pai.
Ela caminhava graciosamente logo a frente, apanhando flores, a irmã e o amigo andavam lado a lado, sorrindo. Os olhos de Maria eram baixos e recatados, a moça era tímida e reclusa, eram poucas as vezes que soltava-se, mesmo com Henry.
-Imagine, meu pai achar inapropriado eu e você andando pelos jardins. Como se eu fosse como aquela duquesa que esteve contigo esta noite. –Ela comentou e riu, mas depois conteve-se, lembrando dos bons modos que uma moça deveria ter. Henrico achava isso desnecessário; os dois sabiam segredos um do outro, etiqueta era pura frescura.
-Mas bem que ele tem motivos para estar tão desconfiado, não? –Amélia comentou enquanto colhia uma rosa vermelha. –Riu-se Amélia. Henry olhou para a princesa, perguntando a si mesmo a que a garota menor se referia. Maria deu de ombros, porém, ficou rubra como uma das rosas na mão da irmã. O jovem riu.
-Maria com um rapaz? –Ela ficou em silêncio, mas sua expressão revelou que ele falava a verdade.
-Sim, Henry, ela está completamente apaixonada por um príncipe da Dinamarca, Frederico. Eles estão insuportáveis juntos, quero dizer, eu não consigo ficar perto. Os olhares e passeios no jardim... até enjoa. Você precisa ver como ele olha pra ela, não é do mesmo jeito que você olha pras mulheres, é algo diferente. Parece que ele quer devorar a Maria ou algo do tipo.
Henrico riu tanto do modo como a garota descreveu os olhares que teve que apoiar-se nos joelhos, depois de uns dois minutos rindo e com a princesa cutucando suas costas e lhe dizendo que não havia graça, Henry levantou-se e ajeitou os cabelos negros, com um sorriso torto ainda no rosto.
Maria sempre fora muito quieta, em seus vinte anos, Henry duvidava que a moça já tivesse beijado alguém.
-Ela está exagerando, Henry. Não é nada, papai não vai me deixar casar com ele.
-Você, se casar? Sempre achei que Amélia se casaria antes de você. –Ao pronunciar o nome da garota mais nova, Henrico procurou por ela, mas a princesa já havia corrido para longe e tentava brincar com uma raposa não muito amistosa que aparecera por lá.
O sol já estava alto, quase a pino, e brilhava nos cachos morenos de Maria, assim como em seus olhos claros, a luz do meio-dia a deixava mais bonita. Porém, seus olhos eram tímidos demais, infantis demais, para Herico vê-la como uma das extrovertidas mulheres com quem já dormira. Ainda a via como uma garota, apesar de sua pouca diferença de idade. O rapaz riu baixo e disfarçadamente lembrando-se do que sua mãe dissera quando ele e Maria foram apresentados. Lembrava-se exatamente das palavras.
-O que? –Maria perguntou, sorrindo timidamente ao perceber que o amigo ria.
-Minha mãe. Quando ela me apresentou a você, sonhava com o dia que nos casaríamos. –Maria ruborizou levemente por baixo da forte maquiagem que a deixava pálida.
-Bom, não vejo isso acontecendo.
-E você consegue me ver casando, Maria? –E passou o braço pelos ombros da garota, que, sem hesitar como sempre fazia para tudo, deitou a cabeça em seu peito, já que erra baixa demais para alcançar seus ombros.
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