O Trono de Gelo e Fogo
14 Estratagema
Notas iniciais

O Ninho da Águia havia se tornado um covil de serpentes, Sansa mantinha seus aliados próximos e seus inimigos muito mais. Ela sabia que de alguma forma Mindinho já sabia da chegada de Sandor e Arya, talvez Iris e Nestor Royce tivessem trabalhando juntos nessa questão. Myrcalla e Mya estavam alheias ao que realmente estava acontecendo, preciso fugir, não poderei esperar ser resgatada por Jon. Ela pensou isso enquanto seguia para o quarto de sua irmã.
A verdade é que Sansa não queria fugir apenas com Clegane e Arya, mas das possibilidades era melhor fugir apenas com Sandor. O que faço com Arya? O pensamento á fez parar por um instante e observar o abismo do Vale de Arryn, então lembranças vieram a sua mente de dias atrás. Arya andava irritadiça e várias e várias vezes, ela havia pego sua irmã mais nova espionando Sandor enquanto esse jogava conversa fora com Iris Redfort ou dava palmadas nos glúteos de Mya quando essa passava por ele, isso sem contar o episódio em que Arya ficou trancada com o Cão em um quarto e depois desapareceu por um dia inteiro e grande parte da noite.
Eu sei tudo que se passa no castelo... sorriu para o nada. A inocência tem sua serventia como todos os ardis de mulher.
Ela voltou a andar em direção do quarto de Arya, Sandor Clegane a seguia como uma sombra e desconfiado como um cão deve ser.
— Fique aqui — Sansa entrou no quarto sem bater na porta, enquanto Clegane ficou de guarda na porta.
— Arya? — viu a irmã sentada em um banco na frente do espelho com a escova na mão, mas com cara de quem não queria arrumar os cabelos. — Deixe-me ajudá-la.
O quarto onde Arya estava hospedada parecia um campo de guerra, os lençóis e peles estavam todos amontoados em cima da cama, havia vestidos e sapatos jogados pelo chão e taças de vinho quebradas aqui e ali.
— Você parece irritada com alguma coisa. Quer falar sobre isso? — Começou a escovar o cabelo castanho.
— O que está tentando fazer?
Arya era muito arredia e nunca teve muita afeição por Sansa o que tornava complicado iniciar uma conversa intima.
— Eu sou sua irmã mais velha e me preocupo com seu bem-estar. Não mais do que o meu. — Reparou na moeda estranha com uma monograma que sua irmã segurava na mão direita. — Nunca vi essa insígnia antes. — A espada que Jon lhe deu é muito bonita. Pretende usá-la em alguém?
Arya olhou para trás com um ar surpreso, Sansa colocou as mãos em suas bochechas e a virou novamente para frente e continuou escovando seus cabelos.
— Aposto que Cara-de-Cobra foi choramingar nos teus pés... — Semicerrou os olhos e fechou a expressão encolhendo os ombros.
Sansa sorriu docilmente.
— Arya? — usou o habitual tom que sua mãe usava sempre que queria repreender a sua irmã mais nova. — Estamos a salvo aqui, mas precisa manter a cortesia com todos que nos cercam. — Puxou os cabelos da irmã com força para prendê-los em um coque acima da nuca.
— Acho que o velho do portão quer nos entregar aos Lannister.
— Isso não vai acontecer, você é minha irmã.
Arya começou a roer as unhas da mão.
— Quanto a Sandor... quero dizer, ele não...
Uma atmosfera diferente tomou conta do ambiente quando Arya percebeu o olhar de sua irmã através do espelho. Sansa tinha olhos frios e calmos, calma como águas paradas. O ditado de seu antigo professor de dança lhe foi soprado a mente e naquele momento ela percebeu que Sansa não era mais a mesma menina tola que havia deixado Winterfell com sonhos e canções sobre belos príncipes e cavaleiros.
— Por que te preocupas com ele agora? — sentou-se no banco para observar o rosto da irmã com mais detalhe. — O que está acontecendo entre vocês?
— É você que deveria me responder essa pergunta —, Arya hesitou.
Sansa sorriu outra vez, deixando a doçura propagar e amenizar o clima entre as duas.
— As senhoras nobres em Porto Real mostram suas virtudes em toda corte, mas seus vícios as dominam entre quatro paredes. Jovem demais para saber sobre o que eu estou falando e mentindo. — Colocou um brinco pendente na orelha da irmã.
Sansa percebeu o olhar confuso da irmã e concluiu mentalmente; ela desconfia que estou me deitando com o Cão.
— Está dizendo que você...
Sansa se levantou rapidamente.
— Não ouse supor algo contra uma lady irmã. A pena pode ser pesada demais.
O que será que ela quis dizer? Ou quis me ameaçar? Arya balançou a cabeça negando para si própria que Sansa havia ameaçando-a. Não pode ser, essa cabelo-de-fogo não mataria nem um rato. Ela não, mas o seu Cão mataria vários homens para mantê-la a salvo.
—... em fim me diz por que veio a mim?
Sansa já estava indo em direção a única porta do cômodo.
— Apenas para me certificar de que sua espada está fora de combate. — Os olhos azuis fixaram-se em Agulha e depois passaram a garota de cabelos castanhos. — Não me desaponte. Agora veja.
Quando Sansa se aproximou da porta Sandor Clegane abriu a fechadura e ela colocou a mão na mão dele e depois sorriu como se estivesse gostando do toque grosseiro do cavaleiro em sua pele macia. As suspeitas dela vão ganhar força agora. Em seguida olhou de rabo de olho para a irmã e fechou a porta às pressas, a expressão de Arya era de afirmação.
Naquele dia ao cair da tarde Nestor Royce pediu que Mya o buscasse com sua melhor mula, ele queria falar com a jovem Senhora Stark sobre o fato de que o meistre estava muito recluso em seus aposentos.
Sansa se apressou pelos corredores para ver a partida de Mya Stone na perigosa decida até os Portões da Lua. Quando ela chegou no parapeito da amurada interna do castelo viu a bastarda segurando uma mula cinzenta pelos arreios prestes a passar pelo portão do muro externo.
— Mya! — Exclamou Sansa — tome cuidado, pois os ventos estão muito fortes e a neve cai serôdia.
A garota alta tirou uma mexa de cabelo negro da frente dos olhos e acenou com a mão enluvada.
— Não se preocupe Senhora Sansa, já fiz isso milhares de vezes.
Não no inverno, não com um estratagema para ser executado.
Sansa olhou para Clegane e balançou a cabeça em sinal positivo, ambos saíram da friagem.
— O que me dizes? — ela cochichou com uma das mãos tapando os lábios para que os dois guardas da amurada não a ouvissem.
— Não pode ser feito de outra maneira Passarinho. — Sandor olhou em volta desconfiado —, se não os malditos de todo Vale caíram para cima. Eu disse a ela onde e como fazer para que pareça um acidente.
— Se o plano falhar?
— Temos que fazê-lo nós mesmo e depois voar do ninho. — Clegane falou em código por que um escudeiro com a cara cheia de espinhas passou por eles carregado um cesto de nabos. — Arya precisa...
Sansa fez um movimento gracioso e interrompeu Clegane colocando o dedo indicador na frente dos lábios queimados do homem.
— Teremos que ser cautelosos quanto a tudo que nos cerca. Para que o plano se concretize é necessário que os servos nos vejam no Alto Salão.
Eles seguiram para dentro da torre principal do castelo, deveriam ficar à vista de todos para que o álibi não deixasse margem para o Conselho do Vale de Arryn. Os corredores estavam desertos muitos dos servos estavam gripados com febre alta e outros males trazidos pelo rigoroso inverno que mal havia se iniciado, mas já fazia muitas vítimas.
Entraram por um corredor estreito que ladeava a amurada interna, apesar de ser dia o lugar era muito mal iluminado e no meio do caminho havia barris e uma lança perdida aqui e ali encostada no canto de alguma parede, do lado de dentro alguns homens limpavam a neve do pequeno pátio interno com grades pás e carrinhos de mão. Este lugar é perfeito para ser defendido por um número reduzido de homens, mas não por apenas um. Por várias vezes Sansa pensou na possibilidade de tomar o Ninho da Águia e resistir até que Jon Snow viesse resgatá-la e levá-la a Winterfell, mas ela não sabia se seu meio-irmão viria com homens da Patrulha da Noite ou sozinho e isso era um outro problema. O mais certo é que devo fugir antes que Mindinho retorne de Porto Real... quem sabe o que ele trará consigo para me atormentar.
Ela percebeu o olhar cauteloso que Clegane a observava.
— O que tem em mente? — a voz saiu rouca entre uma lufada de ar quente.
Até onde ele desconfia do que realmente desejo fazer?
— Alguns cavaleiros livres e juramentados estão se reunindo em Ferrobles para o torneio. — Se abaixou para passar por um telhado baixo e sair no pequeno pátio.
— Hum! — Resmungou Sandor coçando o queixo barbudo com a mão enluvada. — Entendi onde quer chegar. Precisará de moedas para isso.
— Não precisaremos de uma companhia muito grande —, ao entrar no castelo seguiram para a porta principal que dava para o Alto Salão.
— Sor Albar pode causar algum empecilho — olhou para os dois guardas que estavam cada uma de um lado da grande porta do salão.
Os dois passaram em silêncio pelos guardas, a casa Royce havia ganhando muito prestigio depois de ter apoiado a causa de Petyr no Conselho do Vale de Arryn e agora além de comandarem os Portões da Lua estavam se achegando cada vez mais para cima rumo ao Ninho da Águia. A casa Arryn estava muito enfraquecida com Lysa e Jon Arryn mortos só havia sobrado o incapaz Robin, mas ainda a Harrold Hardyng.
— Lembra-se do cavaleiro que encontramos na aldeia de Ferrobles? — Sansa começou a andar em direção a parte de trás do trono.
— Vagamente... — Sandor não queria falar no almofadinha. — O pederasta tinha uns quinze homens com ele.
— Acha que podemos recrutá-los?
— É tudo uma questão de —, esfregou o indicador no polegar. — Todo homem tem um preço.
Sansa o olhou com um sorriso sínico nos lábios.
— E qual é o seu... Sor?
Aquela pergunta foi como uma flecha em chamas no peito do Cão de Caça.
— Acredito que saibas. — Sem perceber ele havia se aproximado muito dela. — Lembra-se da batalha do Água Negra?
Ela se virou de costas para ele, queria evitar encará-lo naquele momento constrangedor. Ele fala do beijo que me deu quando invadiu meu quarto durante a batalha.
— Lembro-me de tantas coisas daquela noite — voltou a encarar o homem alto de cabelos negros.
Sandor Clegane parecia empertigado com alguma coisa um sorriso de canto de boca surgiu suavemente na sua face meio escondida pelo cabelo grosso.
— Está brincando com o Cão minha Senhora — seus olhos ficaram ferozes.
Clegane se aproximou de Sansa com tanta violência que ela perdeu o equilíbrio, mas antes que caísse ele a segurou pela cintura com o antebraço, a garota sentiu o mundo girar a sua volta e seus olhos se fecharem junto com seus pulmões, perdeu o fôlego e suas pernas vacilaram.
— Passarinho... — Clegane se preocupou com o desmaio momentâneo da garota ruiva. — Pelos Sete Malditos, que merda que eu pensei está fazendo?
Sem pensar muito no assunto, Sandor ergueu Sansa nos braços e começou a subir a escada da esquerda do trono para chegar até os aposentos que haviam ali. Ele não lembrava de quem teria sido o quarto, mas isso pouco importava, mesmo carregando Sansa nos braços ele subia de dois em dois degraus. Porra o que eu fiz... Pensou Cão de Caça, quando já havia alcançado o topo da escada e com um dos pés ele desferiu um chute na porta que estava entreaberta passou as quatro colunas no meio do cômodo e deitou o corpo inerte de Sansa sobre a cama. E agora? Chamarei uma das putinhas... Antes de sair os olhos de Sandor focaram os lábios da garota desmaiada que estavam meio abertos e sua pele estava todo umedecida, o Cão deu dois passos para perto da cama, seu queixo tremeu: Por que não? Ele ouviu a própria respiração soando descompassada. Ora vamos não tem ninguém aqui. Ele se sentou ao lado dela e se debruçou apoiando-se nas mãos colocando-as uma de cada lado do corpo de Sansa. Aproximou o rosto lentamente, como é linda a filha da puta.
Sansa gemeu, o que fez Clegane parar o seu movimento e ficar estático só olhando para a face branca rodeada de madeixas acobreadas. O desejo de um homem cega a sua inteligência. Não adiantou se reprimir ele direcionou os lábios em direção aos dela, podia sentir o calor que exalava da abertura de sua boca e o doce aroma de menta.
— Ah! O quê...
Um calafrio passou pela espinha de Sandor, paradas perto da porta estavam Iris Redfort e Arya Stark com olhos vermelhos e ferozes que fizeram o Cão de Caça engolir em seco.
Clegane se levantou de supetão.
— Arya... — Ele estendeu a mão e andou em direção a garota raivosa.
Em um rompante Arya saiu do quarto correndo.
Sandor Clegane atravessou o espaço entre a cama e o salão das colunas e chegou até a garota ruiva-aloirada.
— Lady Sansa está desacordada, cuide dela. — Percebeu o olhar malicioso de Iris —, anda logo.
— É claro, meu senhor — riu com ironia.
Sandor queria ir atrás de Arya, mas não podia, com Sansa desmaiada e sem notícias de Mya Stone que havia descido a pouco tempo para buscar o Lorde Royce que exigira uma audiência, era melhor ele está presente quando Sansa e o lorde conversassem e caso as coisas saíssem do controle Clegane estaria por perto para proteger sua senhora.
— Vou buscar água quente e algumas toalhas fique aqui — Iris saiu pela porta.
— Não demore.
Sandor ficou um pouco encostado na parede olhando para cima, não olhe ou você vai fazer alguma merda Cão. O tempo parecia uma lesma e Clegane estava aflito com a súbita corrida de Arya. Aquela maldita loba está rodeando o precipício novamente.
Mais algum tempo e Iris retornou junto com a garota de Asshai, elas passaram por Sandor e foram logo cuidar de sua senhora. Clegane ficou por perto, mas sua mente estava com Arya.
As servas começaram a colocar panos quentes sobre a cabeça de Lady Stark que não se movia, Clegane não queria participar daquilo era constrangedor demais para ele ficar observando Sansa deitada em uma cama sem poder fazer nada. Já basta ter sido flagrado e envergonhado.
Já haviam se passado umas boas horas até que Sansa gemeu novamente e Sandor que estava de frente para a porta montando guarda se virou para ir até a cama e dar uma boa examinada na ruiva.
— Sente-se melhor Passa... — pigarreou e continuou: — Minha Senhora está melhor?
Sansa não disse nada fechou os olhos e acenou com a cabeça que sim.
— Deve ter sido um choque térmico — disse Myrcalla despreocupadamente.
— A sim claro, ela deve ter saído para fora da torre e depois ter tido contato com algo muito quente logo em seguida. — Iris olhou para Clegane com um sorriso sínico no rosto. — O mal-estar já passou.
— Eu estou bem — finalmente Sansa abriu os olhos e se sentou na cabeceira da cama. — Mya e Lorde Nestor, onde estão?
— Talvez aguardando na Sala do Trono senhora — disse a típica voz metálica de Clegane.
Quando terminou de falar a frase, a porta do quarto se abriu com um grande ranger e Mya Stone com os cabelos molhados e o gibão de couro encharcado disse:
— Está feito conforme me ordenaste.
Sandor e Sansa se entreolharam.
Agora o pássaro voará do ninho, pensou Sansa.
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