O Trono

1 Eu odeio essa família


Notas iniciais
Boaaaa leituraaaa

Os raios riscavam o céu, enquanto eu corria em direção ao desconhecido. Meus pés doíam, mas eu não me importava. Eu iria correr e correr, até não aguentar mais. Eu precisava fugir desse lugar, pois mais um segundo aqui, eu enlouqueceria. Eles não me amavam, nem sentiriam minha falta. Eu precisava fugir.

Eu corria com toda a velocidade e força que ainda me restavam. Porém, tive que parar pois tropecei em uma pedra e caí com toda a força no chão. Meu vestido branco, que já estava sujo devido a todas as poças enlameadas que eu havia pisado, ficou ainda mais com a queda. Eu também machuquei meu joelho. Eu estava zonza, e tentava levantar, mas a dor me impedia. Quando a chuva finalmente caiu, eu senti o frio tomar conta de meus ossos, minha cabeça pesou e tudo ficou mais escuro do que estava.

Acordei, devidamente limpa e bem cuidada, em uma cama macia e quente. Abri os olhos devagar, e notei o lugar em que estava. O lugar que eu não queria estar. Olhei para a frente, e vi uma bandeja com um café da manhã. Lutei tanto, para no final fracassar dessa maneira. Eu não quero, não posso estar aqui. Depois de tudo o que aconteceu, eu prefiro morrer do que ficar aqui. Tentei levantar da cama, mas fui impedida. Meus pés, estavam amarrados a cama, e eu não conseguia me mover. Tentei arrancar aquilo de mim, porém não consegui.

Eles passaram dos limites! Eu tenho o direito de não querer ficar aqui, e eu não ficaria. Eles não se importam com nada, a não ser com o seu próprio nariz. O escândalo seria tamanho, e como a família real já estava mergulhada neles, não podia ter mais um. Uma princesa fujona, seria demais. Provavelmente, o castelo deve estar em alerta para uma possível fuga minha. Suspirei, derrotada. Eu nunca conseguiria fugir. Enquanto eu sofria com minha desgraça, a porta se abriu e uma pessoa entrou.

Aqueles cabelos loiros curtos, eram conhecidos para mim. O porte sério, a postura ereta e o rosto rígido. Nem precisa olhá-lo muito para saber quem era.

- Você passou dos limites, Alice. Sabe o que poderia ter acontecido? Você poderia ter morrido! – Ele esbravejou.

Meu pai impunha respeito por onde passava. Todos o temiam, pelo fato dele ser o rei. Porém, todo o medo e respeito que eu tinha por ele, desapareceram. Cruzei os braços, o desafiando. Provavelmente – certamente – Ele mandaria me trancar nesse quarto por 1 ano inteiro, como ele fez ano passado. Eu não me importava, não me importava mesmo.

- Eu não tenho limites, pai. E o senhor sabe disso. – Falei com uma risadinha.

Meu pai cerrou os punhos, e socou a porta. Não posso negar que isso me estremeceu.

- Você terá limites, Alice. E não serei eu que darei. – Ele afirmou, de forma misteriosa.

O.K. Agora fiquei assustada. O que meu está aprontando? Não é reformatório. Ele já tentou isso uma vez, pensei. Então o que é? Eu o encarei, tentando não demostrar meu medo.

- Pode tentar o que quiser. Sabe que não irei ceder.

Meu pai riu, uma alta e sonora risada. Ele estava zombando em alto e bom som de minha cara. Fiquei com raiva, e devo ter ficado vermelha, pois ele olhou para meu rosto e riu ainda mais.

- Não se preocupe, Alice – Continuou – Tenho certeza que aprenderá muito com ele.

Ele? Ele quem?

- Eu não vou aprender com ninguém – Rosnei – Esse é meu jeito pai, e o senhor vai ter que me aceitar assim.

Ele continuou rindo, e virou as costas para mim. Por mais que eu quisesse ele longe, e ainda tinha que resolver uma coisa com ele.

- Espere! – Ele me olhou – Vai me deixar assim?

Tirei o lençol, expondo meus pés amarrados. Papai ergueu uma sobrancelha.

- Vai ficar aí até segunda ordem. Não posso arriscar que fuja de novo.

Ele saiu do quarto. Peguei um travesseiro, e joguei na porta já fechada. Que saco! Agora vou ter que ficar aqui, amarrada e irritada, tendo que esperar cenas do próximo capítulo. Continuei tentando tirar as amarras, mas parei quando a porta abriu de novo. A primeira coisa que vi, foi os olhos azuis e preocupados de mamãe. Seus cabelos, laranjas que nem os meus estavam presos em um coque no alto da cabeça. Ela suspirou ao me ver amarrada.

- Ah, Alice. Por que você tem que ser assim?

Ergui a cabeça e fechei a cara. Mamãe aceitava tudo o que papai fazia, principalmente quando se tratava de mim.

- O que quer, Cassandra? Não devia estar tramando com seu marido? – Perguntei, rígida.

Ele sentou e tocou as amarras em meus pés. Tentou tocar meu rosto, mas eu desviei. A tristeza era evidente em seu rosto.

- Por que você não é como seu irmão? – Começou – Olhe para ele, já está pronto para ser um monarca e pronto para o matrimônio. Por que você não é assim?

Ousei rir.

- Isso se trata de casamento? Pois bem, não quero e não preciso me casar. Entendeu agora, mãe?

Minha mãe bufou, e passou a mão no cabelo que estava perfeitamente alinhado.

- Você não entende, Alice? Esse será o seu fim. Como princesa, deve se casar e trazer uma aliança frutífera para seu reino. É uma coisa digna a se fazer.

Ela falou em dignidade. Dignidade. Uma coisa que nem ela, nem pai, nem mesmo meu irmão tem.

- Fala em dignidade. Mas, você e meu pai não tem. Como querem que eu tenha?

Mamãe levantou rapidamente da cama, como se acabasse de ser ferida. Colocou a mão sobre o peito fazendo drama. Nisso ela era boa, devo confessar.

- Como diz isso, Alice? Diz que nós não somos dignos, então como governamos? Como podem um rei e uma rainha serem indignos?

Tive que bater palmas. Mamãe arrasava no quesito atuação. Será que davam aulas na escola para rainhas?

- Não sei como consegue? – Sarcasmo – Como consegue ser tão cínica? Queria que ter puxado a senhora nesse quesito, por que... A senhora foi demais.

Ela começou a chorar copiosamente. Se eu não a conhecesse, diria que todas as lágrimas eram verdadeiras. Como a porta desse quarto não parou fechada hoje, ela se abriu novamente. Dessa vez, meu queridíssimo irmão entrou. Alexandre estava arrumado, como sempre e seu rosto entrou em confusão quando viu mamãe chorando.

- O que houve aqui? – Ele perguntou, passando a mão nos ombros de mamãe.

- Chegou na hora certa, Alexandre. Aproveita e consola sua mãe.

Mamãe chorou ainda mais quando ouviu isso. Já disse que não me importo . Alexandre abraçou mamãe, com um bom filho deve fazer. Ele olhou para mim, e eu sabia o que veria logo depois.

- Não estou interessada nos seus sermões, Alexandre. – Disse, desinteressada.

- Eu cansei de dar sermões em você, Alice. Vim chamar mamãe.

Ela secou as lágrimas rapidamente, e encarou o rosto sorridente de meu irmão.

- Ela chegou?

Alexandre assentiu, e mamãe pulou de alegria. As pessoas ainda caiem nesse teatrinho dela.

- Laura está aqui, mamãe. E eu estou pronto para pedir sua mão.

Mamãe saltou de alegria, e ajeitou o terno de Alexandre. Os dois se prepararam para sair de meu quarto. Antes de sair porém, Alexandre disse.

- Espero que melhore, Alice. Papai já tem problemas demais, não precisa que você seja mais um.

Ah, o.k. Dei um sorrisinho, mas quando ele saiu do quarto quase vomitei. Como eu odeio essa família.

Notas finais
Gostaram?