O sol estava bem em cima do meu rosto, e foi o que me fez acordar. Apesar de não gostar de ser acordada em nenhuma situação, eu estava feliz, afinal eu tinha acordado e isso era muito bom. Tinha a impressão de abrir os olhos todas as manhãs seria um alivio para mim.

Depois de um banho bem demorado, daqueles que você mais pensa do que toma banho, abri a mala, curiosa para desvendar o mistério de seu conteúdo. Alguns objetos pessoais estavam lá, escovas de dente e enxaguante bocal, mas fora o pijama nenhuma outra roupa minha constava na bagagem. Fiquei feliz ao encontrar meu aparelho de celular antigo entre as roupas. Ele estava sem bateria, mas depois de uma procura imensa, encontrei o carregador. Escolhi um jeans simples, uma camiseta qualquer e uma jaqueta. Pelo menos, Bryan teve bom gosto ao adquirir as peças.

Eu desci e o encontrei na cozinha. Ele usava uma camisa azul que deixava um pouco à mostra seus músculos. Será que ele não tinha anda mais apropriado? O garoto estava de costas para mim, remexendo algo no fogão.

– Hey cozinheiro, o cheiro bom invadiu todo o lugar. – falei só para que el notasse a minha presença ali.

Ele sorriu em resposta. Examinou minhas roupas com seu olhar discreto, e pós as panquecas em nosso pratos.

– Está com fome?

– Não estava, mas jamais dispensaria suas panquecas. – sentei-me à mesa.

Começara a achar que Bryan e eu podíamos acabar nos dando bem.

– Coma bem! Vamos para Londres, onde a Central de Sobrenaturais que eu morava está localizada. Nós estaremos seguros da Ordem lá.

– Somos sobrenaturais? — não me incomodava o fato de termos algum tipo de poder maluco, mas os termos aos quais éramos associados. Sempre soavam mal. Sobrenaturais. Aberrações. Anormais. Não Humanos.

– Não fale como se fosse uma coisa ruim.

Resolvi ficar calada e não começar a manhã argumentando contra Bryan. Terminamos o café e logo em seguida, nós dois concluímos a organiuzação das bagagens e fomos direto para o carro de Bryan.

Era complicado para mim pensar que aquela poderia ser a última vez que eu partia da casa da minha avó. E possivelmente era. Eu tinha um outro tipo de destino torto e renegado por mim. Não havia anda naquela casa, ou naquela cidade que me interessasse agora.

Enquanto encarava a casa, conluiando meu pensamento, ouvi alguém se aproximar.

– Para onde você vai? — a voz de Justin surgiu, vinda da mesma calçada. Seu olhar continha um certo receio. Ele estava ficando difícil de ser decifrado. Só então, pensei na existência dele.

– Ah, oi. Justin, eu... Estou indo para Londres. Bryan — fiz um sinal para o garoto de cabelos castanhos que remexia a mala do carro, provavelmente não fazendo anda útil além de ouvir discretamente a nossa conversa. — tem uns tios que moram lá. Vamos ficar com eles por um tempo.

– Por quê? Não pode estar falando sério! Afinal, o que esse cara é seu? – ele expressou sua revolta.

– Ele é meu primo. – menti. – Desculpe, Justin. Já está tudo decidido, mas eu vou voltar. – menti mais ainda, virando meu rosto só para não encarar meu ex namorado por quem eu nutria algum tipo de afeição. Eu precisava mentir. Precisava que ele me deixasse partir.

– Por que fez isso? Por que desviou o olhar? – abri a boca pensando em alguma desculpa. – Está mentindo, não é? Você não vai voltar. — concluiu.

Soltei por fim a respiração que havia prendido inconsistentemente.

– Sinto muito. — enfiei as mãos no bolso do casaco, tentando distrair a atenção dele do meu rosto. — Não acredito muito na possibilidade de voltar.

– Anna, eu já te perdi uma vez, não quero perder de novo. Não posso perder você outra vez.

– Justin, eu preciso ir. Eu não tenho opção.

– O que eu posso fazer para que você fique? – fiquei calada, como um “nada” oculto. – Então, eu posso pelo menos ligar para você?

– Claro, deixa eu salvar o meu número no seu celular. – ele me entregou um aparelho diferente. Muito mais moderno do que eu estava acostumada. – Desculpe, eu não...

– Não sabe usar esse?

– Não. — respondi, envergonhada.

– Aqui. – ele me ajudou e então digitei meus números antigos na tela. Fiquei contente por lembrar de cada um deles. No final, todas as lembranças estavam ali, em algum lugar de difícil acesso em minha mente.

– A gente vai ser ver de novo Justin, não se preocupe! — tentei soar animadora.

Justin se aproximou de mim, me envolvendo em um abraço quente. Eu não queria larga-lo, tinha medo de perde-lo de novo, de perder minhas antigas memórias. O abraço dele me fazia lembrar das coisas como eram antes, amenizava a saudade e a dor.

– Temos que ir, Annabeth. – Bryan alertou, batendo a porta da mala.

– Tchau.- tentei sorrir, e tudo que consegui foi uma curva triste dos lábios.

– Tchau. – ele respondeu.

Foi difícil ter que deixa-lo ali, parecendo tão desamparado. Odiei me sentir abandonada, e agora tinha a impressão de que estava fazendo o mesmo com Justin. Foi difícil deixar a casa que mais gostei de morar a vida inteira. Foi difícil deixar tudo para trás. Mais do que eu esperava que fosse.

– Fico surpreso desse seu celular ainda pegar. Parece um tijolo.

– Ei, só porque é velho não quer dizer que seja ruim. – retruquei.

Fiquei por um bom tempo em silêncio. A pressão na minha cabeça parecia estar maior que a do exterior, como se milhares de átomos estivessem me bombardeando sem parar. Mesmo que a minha mãe tivesse escolhido seguir em frente sem mim, eu queria ligar para ela e dizer que estava bem. Queria dizer que havia saído daquele hospital. Mas me correra que talvez, ela nem soubesse que eu estava lá.

– Bryan, se a minha mãe foi embora, quem pagou o hospital? — quis saber.

– Eu. A CS fornecia toda a verba necessária e eu pagava.

Eu nem conhecia os componentes da CS, mas já sentia que existia uma grande divida entre nós.

– Acho que não deveria atender os telefonemas dele. — Bryan deixou escapar, mudando o rumo da conversa.

– Estava prestando atenção? — tive que conter a risada que ameaçavaz surgir.

Ele ignorou a minha pergunta, apenas justificando:

– Não é bom manter contato com humanos por enquanto. Você precisa ficar um tempo na CS e aprender umas coisas. E também é perigoso para ele ter algum contato com você nesse primeiro momento.

– Acha que eu vou machucar ele? – insinuei. Ele continuou calado. – Acha mesmo que eu machucaria o Justin? Sim, você acha. — comecei a me exaltar.

– Se você não machucar, a Ordem vai.

– Então, eu voltarei quando puder e o protegerei.

– Você não pode mais controlar a sua vida! – ele falou alto, acelerando o carro sme perceber.

– Nem você! – gritei de volta.

– Por que você é tão teimosa? – o garoto retrucou, ainda aos berros.

A seta do acelerador virou para 120 km num piscar d eolhos e Bryan parecia não se dar conta disso.

– Você me irrita! – manteve o pé no acelerador, nem parecia ouvir os meus berros. –

– BRYAN! – o carro parou bruscamente do nada, atirando nossos corpos para frente com violência. – O que houve?

– Você quebrou o carro!! – ele saiu do carro e eu também. –

– Eu não fiz isso. – a fumaça saia descontrolada do capô. –

– Você quis parar o carro não quis?

– É... mas só parar, não quase explodi-lo.

– A sua mente interpretou um jeito de parar o carro, por que foi um pensamento vago, você não foi clara com o que queria. Temos que ter cuidado com os pensamentos em meio à adrenalina, vou te ajudar com isso depois.

– Mas e agora? Chamamos um táxi?

– Não, o aeroporto é a uma quadra daqui. –

Depois de tirar as bagagens da mala, eu e Bryan caminhamos até o aeroporto, o voo para Londres iria sair em 30 minutos. Sentei ao lado de Bryan, nas poltronas de frente para um telão.

– Desculpe. – ele manteve os olhos no telão. –

– Por quê?

– Por perder o controle.

– Eu também perdi um pouco. – ele sorriu. – E eu sei que ás vezes, eu sou bem irritante.

– Ás vezes? – serrei os olhos pra ele. –

– E você é muito controlador. – ele sorriu novamente. –

Passando os minutos, fomos finalmente para o avião, nossas cadeiras eram as de número 274 e 275.

Respirei fundo por várias vezes.

– Qual o problema? – Bryan falou sentado do meu lado direito. –

– Nunca viajei de avião. – mantive os olhos fitados na poltrona da frente, tentei não fazer movimentos agressivos com a cabeça para não enjoar. –

– Ok, ok! Vamos dormir a viagem inteira.

– Como assim?

– Vou nos colocar em transe.

– Não pode ter soluções normais para as coisas? – bufei. –

– Vai ser rápido, vamos dormir normalmente.

– E quem vai nos acordar?

– Assim que qualquer pessoa falar com a gente, acordamos.

– Não, obrigada! Prefiro ficar acordada. – cruzei os braços. –

O avião decolou, fazendo tudo tremer, segurei com força os braços a poltrona e fechei os olhos.

– Ah meu Deus! – Bryan gargalhou. – Do que você está rindo?

– Olha, quer saber? Vou usar a hipnose e dormir, você fica ai e curte a viagem.

– Bryan, espera.

– O que é Sra. Teimosa?

– Não faça nada para dormir, nada que não seja sono.

– Não precisa se preocupar comigo, afinal quem cuida de você, sou eu.

– Por favor? – fiz uma carinha meiga e pidona, sempre funcionou. –

– Ah ok. – ele balançou as mãos. – Mas prepare-se para me distrair por horas.

– Eu dou um jeito. – falei rindo. –

Bryan conversou comigo sobre tudo, descobri muitas coisas sobre ele, como por exemplo, que depois que a mãe dele faleceu, ele se mudou para Turquia, morar com os avós, o pai dele foi embora um pouco antes do divórcio.

– Acho que chegamos lá à noite. – ele checou seu relógio cinza de pulso. – Lúcia vai nos buscar de carro.

– Quem é Lúcia?

– É uma amiga minha, faz parte da CDS, ela tem afinidade com a terra, pode levitar a maioria dos objetos.

– Ah, legal.

– Você vai gostar dela.

– Imagino que sim. – imaginei que não. –

Acabei dormindo as horas restantes da viagem, não sei o que Bryan fez, até gostaria de saber, mas quando despertei, já estávamos pousando.

– Chegamos? – limpei os olhos. –

– Descemos em minutos. – me respondeu. -