O Texto Ao Fundo Da Gaveta

1 O último dia de Maria - One shot


Notas iniciais
Espero que gostem :)

O Texto Ao Fundo Da Gaveta

Ela acordou e olhou em volta. Sentia-se como se tivesse caído de um prédio. Não teve coragem de olhar em volta mas conseguiu avistar mesmo assim os comprimidos espalhados pelo chão, as fotos, todas as lembranças. Ela poderia até jurar que no meio daquela confusão conseguia avistar os mil e um pedacinhos de cristal em que a sua alma se havia partido.

Anabela, a sua mãe, gritava ao longe que se levantasse, que estava atrasada. Levar? Atrasada? Ela sentia-se mais dentro do tempo do que alguém poderia imaginar. Obrigações, para quê, quando se era infeliz?

Agarrou-se a um móvel e acabou por se arrastar até à casa de banho. Apesar de não se conseguir ver direita ao espelho devido a tantas drogas, o vulto que viu não era ela. Os olhos azuis inchados gritavam por libertação. O seu sorriso não brilhava mais. Até à sua pele parecia ter perdido a vivacidade anterior. Tomou um duche rápido e vestiu uma roupa qualquer. De nada servia encher-se de brilho quando toda a gente conseguia ver que ela não passava de uma chama apagada. Saiu de casa ignorando tudo é todos. Era tarde outra vez, e quem lhe dera que fosse só para a escola, ela sentia que era tarde. Que tinha chegado atrasada à vida, que a porta da felicidade já havia sido fechada a essa hora. Pensou em correr, talvez conseguisse hoje, talvez fosse hoje o dia em que tudo mudava. Talvez fosse hoje o dia em que a sua paixoneta da segunda fila se levanta-se e lhe viesse falar no fim da primeira aula; em que seria convidada para uma saída com o grupo das populares; e em que alguém quisesse ouvir as suas mágoas. Desistiu, não iria acontecer nada disso.

Cruzou o portão da escola e encaminhou-se para a sua sala se seguida. Ao entrar os olhares focaram-se em si. O espécime raro, pensou para si mesma. Sentou-se e tirou o material. Rabiscou qualquer coisa no caderno. Mas despois absteve-se completamente da aula. Não valia a pena tomar atenção. O ano estava mais que chumbado para ela. E além disso havia o seu plano. O seu plano, um estranho sorriso surgia no rosto daquela rapariga quando pensava nisso, ela queria sentir alívio.

Deitou a cabeça na mesa e acabou por se deixar de dormir. Os comprimidos que se habituara para acalmar a sua dor haviam deixado marcas. Ela sentia-se cada vez pior. Abriu os olhos lentamente, estava num sítio completamente diferente. Viu o seu pai ao longe. Ela levantou-se e correu para ele. Como tinha saudades! O pai havia morrido faziam 2 anos. Desde aí a sua vida nunca mais fora a mesma. Continuou a correr mas a sua visão desvanecia-se. Por mais que tentasse, não conseguia alcança-lo. Um enorme e branco clarão surgiu. Acordou com alguém a abanar o seu braço. Altas gargalhadas invadiram a sala. Desnorteada, sem noção do que se riam, olhou em frente. No quadro estava escrito "A Maria é uma aberração". Ela queria chorar, queria correr dali, queria bater em quem havia escrito aquilo!

A professora voltou a entrar na sala e ordenou silêncio. Quando viu a declaração escrita no seu quadro apagou-a rapidamente e voltou à matéria como se nada se tivesse passado.

Mais tarde no mesmo dia Maria andava solitária pelos corredores da escola. Havia faltado à aula. Não queria saber mais daquilo, não queria saber de mais nada! E se não se podia livrar da dor, ao menos andava por ali, caminhando lentamente de cabeça baixa. Para sua infelicidade o silêncio acabou depressa. O toque para o intervalo soou alto e em segundos os corredores encheram-se de alunos. Pessoas normais, era o que ela pensava ao olhar para eles, quem me dera ser assim. Continuou a andar, queria encontrar sossego de novo.

Entrou na casa de banho e foi lavar a cara para despertar. Umas raparigas entraram também e começaram com provocações. Maria ignorou como estava habituada a fazer. Só que é mais que sabido que pessoas vulgares e sem educação não se rendem ao desprezo, porque no fim de tudo, é isso que elas querem, atenção. Elas puxaram-na pelo braço e obrigaram-na a ouvir o discurso do costume. Maria poderia até repeti-lo. Como está a menina do papá? Oh, é verdade, ele assustou-se com a tua cara e morreu!

Apesar de a sua vontade ser de nesse momento agarra-las pelo cabelo e afoga-las ali mesmo num lavatório, Maria conteve-se. Virou costas e foi embora em silêncio. Como doía. Ela preferia ser espancada do que ouvir aquelas palavras. Maria admirava o pai, um homem novo que morrera devido a um cancro. Ela queria ter a coragem dele, lutar até ao fim como o havia visto fazer. Mesmo no fim, ele nunca baixara a cabeça. Maria tinha vergonha e todos os dias à noite gritava desculpas para o pai na esperança que ele o ouvisse. O que pensaria ele se a visse ser fraca?

Andava distraída, talvez na esperança que os outros não a vissem. Mas alguém pôs um pé à frente e Maria caiu no meio do chão. Risos, fotografias, piadas. Ali não parecia haver espaço para a mágoa dela. Levantou-se e gritou: estúpido! Gritou do fundo do seu ser e pela primeira vez impôs-se. Saberia bem se o rapaz que lhe fez a rasteira não a tivesse atirado de novo para o chão. Continuou o espetáculo até que o segurança apareceu e mandou dispersar.

Perguntou-lhe se precisava de ajuda e se estava bem. Mas ela não tinha coragem de o admitir embora todos vissem. Correu para fora da escola e chocou com um rapaz. As lágrimas nos seus olhos envergonharam-na. Estás bem?, perguntou ele. Ela ainda o olhou nos olhos mas tinha demasiado medo de pessoas, elas haviam-lhe feito muito mal hoje. Eu estou bem, sussurrou ela.

* * *

“Querida Mãe,

Antes de tudo quero que saibas que te amo. Espero que não estejas chateada comigo, eu tentei lutar mas foi mais forte que eu. Peço-te desculpa a ti por carta, pois ao pai, bem agora vou ter com ele e pedir-lhas pessoalmente. Tenho pena de não conseguir ser forte como vocês. Vocês ensinaram-me a lutar até ao fim, sempre de cabeça erguida. Tenho vergonha de te desiludir e de te abandonar.

Eu sei que é difícil aceitar, mas foi por causa da maldade dos outros que eu me fui embora. Não aturava mais os insultos, as bocas, os empurrões. Peço desculpa por ter tido más notas, por ter sido uma má filha nestes últimos meses.

Mãe, esta carta estava escrita à muito tempo, este texto tinha que sair do fundo da minha gaveta.

Amo-te muito mãe,

Maria”

Quando acabou de ler a carta, a mãe de Maria guardou-a numa caixa, a mesma caixa onde tinha guardado a carta que o seu marido lhe escrevera nos seus últimos dias. Tinha pena de nunca ter tido coragem de a mostrar à filha mas tinha a certeza que ela o iria encontrar agora, fosse onde fosse. Ela não sabia se o céu existia mesmo mas estava certa de que a filha e marido estavam agora a observa-la de um sitio igualmente bom.

* * *

Maria, um nome tão comum como a sua história. Não podemos omitir que por aí há muitas “Marias” e especialmente que a culpa é de todos nós. Apesar de condenarmos todos os dias a sociedade pela sua malícia, esquecemos nos de que também fazemos parte dela. Maria era mal tratada por azares da vida e acabou por se suicidar, não queremos que outras façam o mesmo. Esta história é ficcional, mas não os seus temas.

Notas finais
Tenho de confessar que chorei a escrever este texto :c adoraria algumas opiniões :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!