O Teste da Deusa
23 Capítulo Vinte e Dois – Canadá, lá vamos nós
Notas iniciais

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Por melhor que tivesse sido ter uma cama macia, banho quente e pizza, precisávamos sair da casa de Rachel.
Honestamente, pelo pouco que me lembro dela, achei que ela fosse me expulsar da casa. Mas não.
Até onde sei nós duas nunca nos demos muito bem por causa de algum desentendimento que mal consigo lembrar. Só sei que ela me ajudou a encontrar a oficina de Dédalo, de alguma forma, então acho que devo ser grata a ela.
Enquanto Rachel ainda dormia, por volta das seis da manhã, Nico e eu já partimos em viagem, deixando um bilhete de agradecimento.
— Espero que a Rachel realmente não conte ao Percy que nos viu aqui.
Nico dirigia tranquilamente no trânsito semicaótico de Manhattan das seis da manhã.
— Provavelmente não vai. Talvez ela prefira que o Percy acredite que você morreu. Já pensou nisso?
— O que? – Eu estava horrorizada – É claro que não! A Rachel foi ótima ontem! Ela nunca faria nada de mal.
Aquela sensação incomoda voltou a se apossar de mim e lembrei da voz que ouvi há muito tempo.
— Pode ser. Mas isso não muda o fato de que ela nunca moveu um dedo nos últimos cinco anos para que você se acertasse com o seu querido amigo.
Eu não sabia identificar se era ciúmes o que eu ouvia na voz de Nico. E nem gostaria.
Em poucos minutos, assim que saímos de Manhattan, entramos no estado de Nova Jersey. Se quiséssemos resolver tudo isso logo, precisamos ser rápidos. A previsão era que conseguíssemos passar pela Pensilvânia, Ohio e Indiana, chegando até Chicago, em Illinois até o anoitecer.
Rabisquei o papel que trazia nas mãos.
— Nós... Podemos fazer uma parada rápida pra almoçar. Vamos tentar não parar muito ao longo do dia. Podemos ir dormir umas... Oito horas? Assim a gente dirige só quando tiver luz e conseguimos acordar bem cedo pra evitar muito trânsito. É. Acho que vai dar. Se você manter o ritmo, acho que vamos conseguir atravessar uns mil quilômetros hoje. Claro. Se não ficarmos fazendo paradas a cada uma hora pra banheiro, ou comida. Quando almoçarmos a gente podia comprar uns lanches. Nada muito líquido sabe...
— Annie. Chega. Por favor. Você tá falando sozinha tem uma meia hora. Eu amo ouvir a sua voz, mas isso não vai te fazer bem.
Levei um susto quando constatei que era verdade. As rodovias facilitavam infinitamente o meu trabalho, fornecendo uma estrada direta até o nosso destino.
— Não podemos esquecer de abastecer, nem de ter sempre um pouco de gasolina extra com a gente.
— Tudo bem.
— Quer que eu dirija depois do almoço?
— Pode ser.
— Ótimo.
As viagens com Nico seguiam um ritmo calmo e constante. Fazíamos poucas paradas, dormíamos em hotéis na beira de estrada e comíamos comida gordurosa.
No final do segundo dia, já havíamos conseguido atravessar os estados de Wisconsin, Minnesota e agora chegamos ao limite da Dakota do Norte, o que, é claro, nos leva também ao limite dos Estados Unidos.
Havíamos parado em uma dessas cidades pequenas para dormir. Nos últimos dois dias, juntos, Nico e eu dirigimos por quase trinta horas seguidas.
Nossos corpos clamavam por um descanso.
— Eu não sei se tenho forças pra levantar e ir até uma lanchonete.
Murmurei contra os travesseiros.
Foram mais de dois mil e quinhentos quilômetros.
— Você precisa. – Virei um pouco a tempo de ver Nico vestindo uma camiseta após sair do banho. – Ou quer morrer de fome? Porque eu não quero.
Revirei os olhos, mas voltei a enfiar minha cara nos travesseiros.
— Você é irritante. Podia trazer comida pra nós dois.
— Vamos lá, levanta. Você já tomou banho, a única coisa que tem que fazer é ir.
— Temos mesmo que ir?
— Você não está com fome?
Abri a boca pra responder, mas meu estômago me traiu, roncando.
— Exatamente como eu imaginava.
Revirei os olhos e me levantei.
— Tá. Vamos logo. A gente pode passar no carro depois e trazer as mochilas? Queria dar uma organizada nas coisas.
Nico pareceu não gostar muito da ideia. Ele preferia deixar a maior parte dos nossos pertences no carro, sempre. Assim, podíamos fugir com mais facilidade.
Ele provavelmente tem razão, mas não vou dar o braço a torcer.
— Tudo bem, quer ir naquela lanchonete que vimos no final da rua?
Torci o nariz. O cheiro da fritura chega até aqui, mas que opção tínhamos?
Saímos do quarto e entramos no elevador. Graças a tudo o que é mais sagrado esse hotel não coloca aquelas músicas irritantes.
O elevador parou dois andares abaixo, abrindo as portas e relevando uma mulher grande e gorda, com um cãozinho de colo. Um chihuahua.
Sabe, nunca gostei de chihuahuas e a coisa só ficou pior depois daquele episódio.
Nico sorriu para a senhorinha, que apertou o botão térreo e virou-se para frente.
O espaço parecia ainda menor com a mulher ali dentro, que nos encarava pelo reflexo do espelho nas portas.
Não conseguia deixar de encará-la de volta. Não consegui afastar a sensação de que eu conhecia aquela mulher.
— Eu estou morrendo de vontade de comer um super x-Burger. – Nico murmurou ao meu lado.
Sorri para ele, mesmo com um pouco de sono. O cachorro começou a rosnar.
— Calma, calma, filhinho.
— Eu quero batatas. Fritas. Seria bom que dessa vez elas não pingassem gordura.
A mulher estava tentando conter o “filhinho”, quando as portas se abriram.
— Vamos, vamos, estamos nos divertindo, não estamos?
— Me desculpe, – Chamei a mulher que estava pronta para sair do elevador, enquanto Nico me encarava sem entender bem – mas nós nos conhecemos? Tenho a impressão que sim...
— Ah, minha querida, eu acredito que não. Dificilmente... Encontro uma pessoa duas vezes.
Franzi a testa enquanto caminhávamos em direção à saída.
— Por que a senhora diz isso?
Ela tentou sorrir, comprimindo os pequenos olhos pretos e redondos, exibindo os dentes afiados manchados de café.
Nico apertou meu braço, tentando me afastar dela.
O chihuahua estava ainda mais incontrolável quando a mulher finalmente suspirou derrotada e sorriu para nós, com a língua bifurcada tremulando entre os dentes.
— Tudo bem meu filho, se você insiste.
Espera aí. Língua bifurcada?
— Annabeth...
Foquei minha atenção no pequeno cachorro, com espuma negra escorrendo de sua boca raivosa.
— Porque o chihuahua...
— Quimera, minha querida. As pessoas costumam cometer esse erro. – Ela arregaçou as mangas e a essa altura, Nico já me puxava, correndo para a rua. Claro que não deixei de notar que ela tinha braços verdes. Normal, não é mesmo?
— Nós temos que ir agora!
Ele corria, comigo logo atrás.
— O que é aquilo?
Nico abriu a boca para me responder, mas a recepção do hotel onde estivemos explodiu, revelando um monstro enorme, tão alto que suas costas quase impediram que conseguisse sair do lugar. Tinha cabeça de leão, com a juba untada de sangue, o corpo e os cascos de um bode gigante e uma serpente no lugar da cauda. E, como se não fosse o bastante, ele cuspiu fogo, tentando fazer churrasquinho de nós dois – e ainda tinha um mau hálito horrível.
— O que é aquilo? – Gritei novamente.
— Só pode ser brincadeira...
Observei as pessoas correndo, amedrontadas, e diminui meu ritmo.
— Nós temos que matar essa coisa, ela pode ferir as pessoas... Todo mundo...
— Annabeth! – Nico segurou meu pulso e continuou me puxando em direção ao estacionamento – Por enquanto, nós precisamos fugir, ela não vai ferir os mortais. Os mortais não estão vendo aquilo! Eles viram um prédio explodir e estão correndo. A Quimera quer jantar nós dois. Se conseguirmos desviar da cabeça que cospe fogo, das pernas de bode, ainda vamos ter a cauda de serpente. Acredite em mim quando eu digo que o veneno dela não é agradável. – Ele já estava sem folego quando conseguimos avistar o carro. Pude ouvir o monstro se aproximar. – Nós temos que ir.
Respirei fundo e resolvi escutar Nico.
— Nós deixamos algumas roupas no hotel e...
— A gente compra outras depois! – Pulamos para dentro do carro e Nico deu a partida.
Ele saiu dando ré do estacionamento e eu vi mais um jato de fogo saindo da boca do monstro destruindo o edifício ao lado.
A mulher de braços verdes estava ao lado da Quimera e apontou para nós. Mesmo de dentro do carro, pude ouvi-la.
— Vocês não podem fugir de mim! Principalmente você, cria de Atena. Eu sou a Mãe dos Monstros, a terrível...
Nico interrompeu o discurso dela ao dar a ré no carro sobre a mulher.
Mudou de marchas rapidamente e disparou em direção do Canadá.
— Odeio esses monstros egocêntricos que querem fazer uma apresentação. Sou terrível, blá blá blá, olha só pra mim, blá blá blá, eu posso torrar todo mundo, blá blá blá, sou feio que dói, blá blá blá, uma academia não mataria ninguém... Eu sou a Mãe dos Monstros, a terrível... A terrivelmente chata!
— Nico. Seu discurso é maravilhoso... Mas não nos livramos do problema.
Ao nosso encalço estava uma quimera possessa por ter a mãe atropelada.
Nico fazia várias curvas bruscas, pegando todo o tipo de atalho.
— Você sabe para onde está indo? – Gritei, olhando para trás e checando a que distância estava a criatura.
— Eu não faço ideia.
A curva seguinte não foi tão feliz quanto as anteriores. Olhei para frente a tempo de perceber que era uma rua sem saída. Atrás de nós, um monstro cuspidor de fogo. À nossa frente, uma parede de tijolos.
— Quem foi que teve a ideia de colocar uma parede aqui? – Nico começou a xingar e eu só conseguia pensar em como nos livrar dessa. Nico não estava reduzindo, mas o monstro pareceu perceber que não tínhamos para onde correr.
— Nico. Dá a volta, nós vamos bater!
— Não dá! Annabeth, você confia em mim? – Uma pata da criatura colidiu com a traseira do carro, amassando-o e bagunçando a nossa direção.
— Nico!
— Confia?
A Quimera se agarrou à nossa traseira amassada e eu vi a parede cada vez mais perto. Só fechei meus olhos.
— Confio.
— Então, que Hades nos ajude.
Um frio como eu nunca havia sentido antes nos tomou e eu soube que havia caído dentro das sombras.
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