O Teste da Deusa
16 Capítulo Quinze – Treinando
Notas iniciais

— Annabeth, que bom que veio.
Percy levantou os olhos sorrindo do escudo que polia. A arena estava surpreendentemente vazia para o horário. Imaginei que teriam campistas correndo para todos os lados e fazendo sabe-se lá o que fazem aqui.
Eu preferi vir mais cedo porque caso eu fosse realmente alguém sem esperanças precisaria de mais tempo para decidir o que fazer. E eu também não queria passar vergonha na frente de muita gente.
— Achei que esse lugar fosse mais movimentado.
— Ah. – Percy levou uma das mãos à cabeça – Eu pedi que eles não viessem hoje à tarde, assim podia ver qual o seu nível de estrago.
Fiquei um pouco nervosa.
— É bem alto, se quer saber.
Ele riu e me chamou até a arquibancada, para sentarmos.
— Você lembra de algo?
— Bom, – Tirei minha adaga da bainha – Eu sei que eu deveria saber usá-la. Ela era parte de mim, não era? Eu a tenho desde... desde que a ganhei de Luke.
— Na verdade, houve um pequeno problema com aquela adaga. Você a perdeu quando caímos no Tártaro. Essa você conquistou por lá.
Soltei um som em compreensão lembrando. Lembrando de muitas coisas.
— Isso não muda o fato de que ela era parte de mim, não é?
— Você era a melhor que eu conhecia.
Me surpreendi.
— Jura?
— Sim. Você era rápida e conseguia saber tudo o que faríamos antes que sequer pensássemos. Claro que isso se deve um pouco à nossas habilidades naturais, mas eu nunca ganhei de você em um duelo. Na verdade, eu não consigo pensar em ninguém que tenha conseguido fazer isso.
Eu estava de boca aberta, tenho certeza.
— Nunca? Mas... como?
— Eu já disse Annie. – Ele riu – Você era ótima. Mas, voltando ao nosso problema, seu “instinto” está desativado? É isso?
Assenti.
— Bom, – Ele tirou uma caneta do bolso, enquanto levantava. – então vamos ativá-lo.
O que aconteceu depois foi muito rápido. Percy tirou a tampa de sua caneta e anaklusmus atingiu seu tamanho pleno, e com um movimento do seu pulso, ele a girou, lançando-a contra mim, mas uma espada negra surgiu entre nós.
— Me permite? – Nico girou a espada de Percy e o afastou. – Você podia tê-la ferido!
— Mas eu não feri, não é?
— Nico... – Murmurei sem fôlego. Estava em choque. Percy ia mesmo me dividir ao meio? – De onde você veio?
— Eu precisava vir para saber que você estava bem. Que ele... não ia fazer nada.
Percy levantou as mãos em rendição e eu me levantei.
— Eu não faria nada. Já que está aqui, porque não é útil? Treine com ela.
Nico revirou os olhos e me encarou, pedindo permissão. Apenas assenti.
— Ótimo, agora que estamos entendidos, ataque-a.
— O quê?
— Annabeth, querida, você espera aprender como? Eu quero ver como estão seus reflexos.
— Se você ainda não notou, você ia me cortar ao meio sem dificuldades caso ele não tivesse aparecido! – Apontei pra Nico exasperada, mas acho que ele já estava se preparando.
Nico virou a cabeça para um lado, depois para o outro. Posicionou seu corpo e deu um passo para frente, criando um arco enorme com sua espada que passou longe de mim. Não movi um músculo.
— Isso é o melhor que você pode fazer, Di Ângelo? – Percy andava ao nosso redor, mão próxima ao queixo, nos analisando. – Annabeth, se posicione.
Eu não fazia ideia de como fazer isso. Separei um pouco as pernas, tentando criar um apoio, deixando a mão com a adaga alta, protegendo meu rosto.
— Melhor, Nico, ataque.
Nico girou o corpo e sua espada passou longe da minha cabeça, tropecei para trás.
— Ataque de novo, mais perto.
A espada negra vinha de baixo para cima, me fazendo recuar.
— Annabeth, você tem uma adaga. Use-a. Se defenda. Nico, ataque.
Ele investiu novamente contra mim, mas passando longe. Sempre longe.
As ordens de Percy começaram a ficar mais ágeis, e os insultos contra Nico também. Ele estava perdendo o controle.
— Isso é o melhor que você faz? Chama isso de ataque? Annabeth, dê um passo à frente. Nico, use as laterais. Chase, você já tentou usar esse braço para alguma coisa? Qualquer coisa? Se mexa! Nico, isso está horrível, ela nunca vai aprender assim.
E acho que foi nessa hora que ele se descontrolou. Eu quis levantar meus braços para me proteger, mas a espada de Nico descia mais rápida do que eu poderia desviar.
Eu vou ser partida ao meio.
Fechei os olhos, prendi a respiração e esperei, mas nada aconteceu.
Abri um, depois o outro. A espada de Percy estava a menos de cinco centímetros do meu rosto, segurando o ataque de Nico.
— Não tão perto.
Os dois abaixaram suas armas. Nico estava sem fôlego.
— Eu não sei... me desculpe, Annie, eu não sei...
Neguei com a cabeça, tentando respirar normalmente.
— Tudo bem. – Me direcionei pra Percy – Isso não funciona, sou um caso perdido.
— Não. Vamos tentar de novo.
— Mas você viu, ela não conseguia desviar dos meus ataques mais simples.
— Eu vi. – Percy falou sorrindo para ele, antes de se posicionar e levantar a espada – Dessa vez, eu vou tentar.
Posicionei meu corpo novamente, meio incerta.
— Isso é inútil. – Nico se aproximou de mim, para caso algo desse errado.
— Nico querido, sente ali, sim? Não atrapalhe a minha aula.
Eu achei que Nico fosse explodir e cortar Percy em quantos pedaços ele conseguisse. Mas não. Encarei-o em um pedido silencioso e ele foi até a arquibancada.
— Se ela ficar com um arranhão sequer, eu mato você.
— Tenho certeza que sim. – Percy sorriu de lado – Talvez os seus... sentimentos não permitam que machuque Nico. Já que você está com a ideia fixa nessa nossa relação de ódio, talvez consiga direcionar suas frustrações pra cá. Vou tentar não fazer muito estrago. Agora, vamos brincar.
A coisa aconteceu tão rápido que mal tive tempo de pensar.
Em um segundo Percy estava girando, sua espada subiu acima de minha cabeça e desceu à toda velocidade, meu braço reagiu antes da minha mente, impedindo a espada.
— Mas o que... – tentei dizer, mas Percy não estava convencido.
Sua espada fez pressão sobre a minha, me fazendo recuar. Ele estava se preparando para me atacar pelas laterais. Meu corpo girou sem que eu precisasse pensar nisso e parou sua espada ao lado da minha perna, à empurrando de volta. Dei um passo em direção a ele e cortei o ar com a minha adaga, fazendo-o recuar um passo.
As informações jorravam em minha mente. Agilidade. Proximidade. Força.
Girei meu corpo, criando um arco ao lado da sua cabeça, cortando o tecido de sua camiseta.
E eu não sei o que aconteceu. Em um segundo estava pensando no que fazer e no outro ele já estava sem a espada, com a minha adaga contra a sua garganta.
Larguei-a no chão e observei minhas mãos.
— Eu... eu não sei o que fiz.
Percy sorria, mas um pouco menos que antes.
— Mesmo sem memória você não me deixa ganhar. Acho que seus instintos estão onde deveriam estar.
Eu mal conseguia me conter. Eu lembrara de grande parte das minhas batalhas, dei os passos entre mim e Percy e o abracei.
— Obrigada.
Ele pareceu assustado com o movimento, pois não mexeu um único músculo antes de eu soltá-lo.
— É isso o que faço. – Percy parecia um pouco encabulado. – Ensino. Você ativou seus instintos, mas tem muito a relembrar. Está enferrujada.
Sorri para ele.
— E mesmo assim ganhei de você, uh?
— Eu deixei você ganhar.
Ri.
— Nico! Eu consegui! Você v... – Olhei para onde ele havia sentado na arquibancada, mas não havia nada lá, apenas assentos vazios.
Para onde ele foi?
***
Percy não tivera dó, nem piedade de mim. E eu não estou brincando.
Fiquei jogada na arquibancada esperando minha respiração normalizar e esperando as memórias irem para seus devidos lugares enquanto Percy buscava uma garrafa de água para mim.
Era oficial: eu preciso lembrar de tudo.
Eu tive lapsos das minhas batalhas, algumas completamente, outras em partes, claro que eu preferia recuperar essas memórias sem uma espada na minha garganta, mas o que importava era que eu estava me lembrando de todos, de um jeito ou de outro.
Meus pensamentos se dispersaram quando uma garrafa gelada atingiu minha barriga.
— Acho que seus reflexos não estão tão bons assim.
Sentei passando a mão pela testa, tentando me controlar.
— Eu mal consigo me mexer.
— Você se acostuma.
— Acho que quando eu deitar, vou dormir por uma semana.
— Talvez. Você está indo bem, mas ainda está um pouco... lenta. É.
O silêncio parou entre nós enquanto bebíamos água e Percy massageava a mão,
— Ei. Sobre aquilo que você disse... eu não acho que nós temos uma relação de ódio.
Ele sorriu tomando outro gole de água e balançou a cabeça.
— De qualquer forma, funcionou, não foi? Quando você e Nico vão sair em missão?
— Ah, assim que eu conseguir falar com o oráculo, provavelmente. Quero ver se consigo descobrir alguma coisa, acho que... espera. – Me interrompi, observando Percy. – Como você sabe?
— Qual é? Você já me deu todas as dicas. Me perguntou como consegui me lembrar, disse que ia conversar com Quíron, que pelo jeito não deixou você falar com o oráculo. Nico foi “resolver” alguns assuntos. Provavelmente vocês iriam invadir a casa grande, já que pelo visto ainda não fizeram isso.
Eu estava de boca aberta.
— Me lembro de você ser mais lerdo.
— E você era mais discreta. Agora lembra de mim?
Parei para pensar.
— Não. Eu só... disse. Parecia certo.
Percy levantou levando sua garrafa até uma mesa na extremidade da arena, e deu de ombros, se rendendo.
— Bom, eu só queria dizer que missões são para três pessoas. Caso você precise de um terceiro integrante... estou à disposição.
Estou tentando contar quantas vezes abri a boca em descrença hoje, mas notei que era impossível.
— Você? A gente não se odeia não? – Me interrompi quando Percy me lançou um olhar de “eu não disse? ”. Sacudi a cabeça. Por que essa frase continua saindo da minha boca? Eu não penso assim. – E você é professor, tem alunos para ensinar. Missões são perigosas, não posso deixar a Rachel viúva sem nem ter se casado. Além de que, você e Nico parecem ter uma pequena chance de se explodirem caso fiquem no mesmo metro quadrado por muito tempo. – Ele abriu a boca para rebater, mas o interrompi com a mão. – Nem tente.
— Não ia ser a primeira vez que você vai contra as leis da natureza mesmo.
— Da última vez todo mundo voltou vivo?
Percy refletiu por alguns segundos antes de responder.
— Mais ou menos. As consequências foram... complexas demais, mas num geral, todo mundo inteiro.
— Ótimo. Dessa vez não vai ser diferente.
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