O Teste da Deusa

28 Capítulo Vinte e Sete – Viro uma líder


Notas iniciais
Queria começar agradecendo vocês. Agradecer por todo o apoio, o carinho e o amor incondicional que recebi de vocês, incluindo comentários e MP’s amorzinhos. Eu sei que alguns devem ter notado que durante o “hiatus” eu postei uma outra fic. Pois é. Se vocês leram, viram também os assuntos que ela abordava e eu tenho que dizer que me sinto infinitamente melhor agora que escrevi sobre aquilo. Parecia que era a única história que minha cabeça queria contar e o desafio veio bem a calhar. Pretendo editá-la e revisar assim que acabar TdD, porque foi muito rápida e não tive tempo para me apegar em detalhes. BOM, fora isso, quero responder adiantado que estou fazendo meu tratamento, não me sinto 100%, confesso, mas agora viver não parece ruim. JURO QUE É SÓ MAIS UMA COISINHA Queria fazer dois agradecimentos especiais, primeiro à minha amiga linda Sorvete de Limão por me apoiar o tempo todo, sempre me ouvindo reclamar, rindo comigo e participando das minhas loucuras, você foi meu apoio nesses dias difíceis. E segundo, mas não menos importante, Helly Nivoeh, você foi um ponto de luz nesses dias sombrios e sou muito grata s2 Então aproveitem o capítulo, escrito com muito amor e carinho!

— Lu-Luke?

Minha cabeça girava. Luke apareceu justamente quando Afrodite falou dele. Justamente quando ela disse que o amor primordial começaria a agir. Eu estou em um sério problema.

O que eu estou falando? Eu não estou em problema nenhum. Afrodite é maluca e isso foi tudo um engano.

— Bom te ver Percy.

A sombra protetora de Nico instintivamente surgiu atrás de mim assim que Percy me largou, apoiando suas mãos em meus ombros. Ele apenas assentiu com a cabeça.

— Que bom que está vivo. – O filho de Poseidon direcionou a atenção à Thalia e sorriu. – Olá prima.

Antes que eu piscasse, Thalia estava sobre ele, num abraço e ambos riam.

— Você nunca foi uma caçadora muito convencional. – Os dedos de Nico fizeram um pouco de pressão em meus ombros e lancei um olhar inquisitivo para ele.

Nico não parecia estar se dando conta do que fazia, e o alternar de seu olhar confuso de seus dedos para meu rosto me deu a confirmação de que precisava.

Mais palavras de Afrodite em minha cabeça. Mantendo à força tudo o que ela me disse em meus pensamentos.

“Você pode ajudá-los a lembrar quando acreditar. Quando suspeitar, você mexerá com as emoções deles. ”

— E no que exatamente eu sou convencional Percy? Aliás, é uma injustiça sem tamanho você estar seco quando eu estou com água em lugares que nem achava possível.

Eu conseguia ouvir os resmungos das caçadoras quando uma delas resolveu falar o que estava na cabeça de todas.

— Eu não acho que isso seja apropriado tenente. Devemos ir para nosso chalé.

Thalia também as olhou parecendo confusa e se afastou de Percy, como se só agora se desse conta de que não deveria fazer isso.

— É claro. Devemos ir. Depois preciso conversar com Quíron, ele deve saber de nossa chegada.

— Eu cuido disso Thals. Se bem que todos devem ter notado que algo estava errado quando eu praticamente sequei Long Island. – Percy se manifestou. – Falando nisso, vocês não querem todos ir até a orla? Está ficando um pouco difícil conter toda essa água.

Caminhamos de volta até a praia e o mar finalmente retornou ao lugar, apesar de ainda estarmos encharcados.

— Também acho que devíamos entrar Annie. Você devia descansar. – Assenti, então Nico pegou minha mão e senti que ele se aprontava para viajar nas sombras.

Então eu lembrei.

— Nico. Não acho que dev...

Mas era tarde demais. Só tive tempo de ouvir Percy xingar e começar a correr e Nico já estava nas sombras. Assim que atravessamos, me apressei em abraçá-lo, pois sabia que ele cairia.

Como eu esperava, assim que aterrissamos Nico estava ajoelhado ao chão, apenas... parado.

Abracei-o com tudo o que tinha.

— Foi logo depois que saímos. O que quer que estivesse me caçando, queria me matar. Destruiu... tudo.

— Minha casa.

Fechei os olhos, consumida pela culpa. Se Nico não estivesse me apoiando todo esse tempo...

— Tudo que eu tinha...

— Eu sei querido. Eu sei.

As ruinas do chalé trezes estavam dispostas ao nosso redor. Todos os pertences e lembranças de Nico destruídas por garras, músculos e fogo. E por mim.

Nico me abraçou com força e eu senti toda a sua tristeza, querendo ser capaz de tirá-la com a mão.

Pude ver Percy chegar correndo, mas olhei para ele, pedindo-o para aguardar.

O início da manhã deixava tudo mais macabro do que deveria. A poeira rodopiava ao nosso redor, junto com a força de vida que deixava o chalé.

— Nós vamos dar um jeito nisso. As coisas vão melhorar. Eu prometo a você que vou consertar tudo isso.

O apertei com mais força e Percy mesmo ao longe desviou os olhos.

— Eu sei. Não é culpa sua.

Será mesmo? Se Afrodite dizia a verdade...

Tudo ao redor de nós tremeu e me vi envolta pelo chalé treze em sua forma perfeita. Na parede que antes era composta por fotos minhas e de Nico, agora eram preenchidas por imagens dele e de Thalia. Eu, ele, Percy e Thalia, Hazel e Frank. Um cartão postal de Leo e Calipso. Todos. Todos. A Thalia mais velha que vi mais cedo saiu rindo do banheiro e Nico a seguia. Tudo de pé. Tudo inteiro. Tudo... Vivo.

Tão rápida quanto a imagem veio, ela se dispersou. A realidade ainda continuava um caos ao nosso redor.

Nico se afastou de mim e levantou, dando a deixa para que Percy se aproximasse. Continuei no chão, pensando do que havia visto. A vida dele era melhor sem mim.

— Nós não sabíamos o que fazer, então preferimos te esperar. – Era Percy quem falava. Ele se manteve calmo e tentou não fazer nenhum movimento brusco, como se ele tivesse medo que qualquer movimento em falso fosse quebrar Nico. Talvez fosse mesmo. – Sabíamos o quanto esse lugar era importante para você. Chegamos a pensar que vocês estavam... estavam mortos. – Percy me encarou com tanta intensidade que fui obrigada a desviar meus olhos. – Você pode ficar no meu chalé por enquanto, tenho certeza que Quíron não vai se importar. E eu acho que você não vai querer ficar no chalé de Hermes agora que Luke está por lá.

De novo a troca de olhares entre eles que eu não podia entender. O que eu perdi nessa história toda?

Me virei para Nico e falei alto o suficiente para que apenas ele ouvisse.

— Quer ficar um pouco sozinho? Eu vou entender.

Ele encarava os próprios pés.

— Você se importaria?

Neguei com a cabeça e apertei sua mão, suspirando.

— Vou estar no refeitório, tudo bem?

Ele assentiu com a cabeça e me afastei. Automaticamente, Percy se aproximou de mim e começou a andar ao meu lado.

— O que aconteceu enquanto vocês estiveram fora? Por que não me levaram? Achei que tínhamos um acordo. Vocês não podiam ter mandado uma mensagem de Íris avisando que estavam bem? Só não fizemos uma mortalha para os dois porque a Hazel não sentiu a morte do Nico, porque, sim, eu fui atrás dela. Nós quase morremos de preocupação e...

— E nós quase morremos de verdade Percy. Você pode se acalmar? Eu vou contar tudo o que você quiser saber.

— Me desculpe. – Ele esfregou as mãos no rosto e respirou fundo enquanto apertava os próprios ombros. – Foram dias difíceis.

Prendi meu cabelo acima da cabeça assentindo.

— Para nós também.

Era estranho o fato de que tudo o que Afrodite disse fazia sentido. Na verdade, quando mais eu pensava e mais coisas estranhas aconteciam, mais aquilo parecia fazer sentido.

— Tem outra coisa que você precisa saber.

Apertei minhas têmporas, tentando me preparar para o que poderia ser.

— Me diga que ninguém morreu.

— Até agora? Não. Mas quem sabe o que pode acontecer até as caçadoras irem embora?

Mordi os lábios, com a minha visão se enchendo de pontos pretos.

— O que houve?

— É... Bom. Com Quíron. Nós, conselheiros chefes, estamos bem preocupados. Só nós sabemos.

— Bom, então por que eu deveria saber? Não sou mais conselheira-chefe do chalé seis.

— Mas tudo isso parece estar relacionado com você de alguma forma. O chalé destruído, a vinda das caçadoras, a chegada de Luke, e Quíron...

Minha visão ficava cada vez mais estreita.

— Quíron?

— Ele está... estranho. Só fica sentado na cadeira de rodas, ele não come, não fala, não dorme. Só está... lá.

— O que? Por quê?

— Nós não fazemos ideia, mas começou logo que vocês saíram.

Foi porque ele nos ajudou.

— Não. – Levei minha mão até a boca e neguei, meus olhos ardiam, mas eu não podia chorar agora. – Não pode ser. É tudo culpa minha. É tudo culpa minha.

— Culpa sua? Annabeth, como poderia ser?

Perdi o controle de meu corpo quando as visões chegaram.

Primeiro, eu me vi amarrada em um mastro. Não importava o quanto eu me debatesse e gritasse, Percy não me soltava. Ele estava no timão do navio, sem conseguir me encarar. Como ele podia ser tão cruel? Ele não via que estava me impedindo de chegar até eles? Meu pai, minha mãe e Luke me esperavam na orla. Como ele podia ser tão desumano? Achei que nós fossemos amigos.

Então tudo mudou e eu estava morrendo. O peso do céu era demais para mim carregar, apesar de eu estar ali há dias. Meu cabelo tinha uma grande mecha cinza que eu não sabia se sairia algum dia. Mas Percy apareceu e segurou os céus em meu lugar. Eu achei que pudesse morrer de gratidão.

Depois, eu já não estava jogada ao chão enquanto ele segurava os céus. Estávamos em um lugar fechado. Uma caverna, talvez? Nós estávamos escondidos e tudo ao nosso redor era muito quente e eu tive medo. Percy iria distrair a todos para que eu pudesse escapar e chegar até Hefesto. Tive medo que Percy pudesse morrer, então eu o beijei.

Quando pisquei outra vez, Percy me sacudia, preocupado.

— Annabeth? Annabeth?

Senti meus olhos revirarem, já que eu não conseguia mantê-los abertos. Percy me sacudiu mais, impedindo que meus olhos fechassem outra vez.

Aos poucos, retomei o controle sobre mim e consegui me firmar de pé.

— O que... O que houve?

Ele negou com a cabeça, ainda sem me soltar.

— Eu não sei. Nós estávamos conversando e você caiu em cima de mim.

Apertei minhas têmporas. Eu vou enlouquecer.

Tudo ao nosso redor tremeluziu e eu vi Quíron em sua forma de centauro correndo até a Casa Grande. Ele olhava para trás e me chamava. Preciso ir até ele.

— Percy. – Minha garganta estava seca. – Pode me levar até Quíron?

— Tem certeza? Não quer ir para o seu chalé dormir um pouco?

Neguei com a cabeça.

— Não tenho tempo pra isso agora. Preciso ir até Quíron. Ele quer falar comigo.

Percy franziu o cenho.

— Annabeth, você não ouviu o que eu disse? Ele não pode...

— Percy. Confie em mim, sim? Quíron quer falar comigo. Você consegue confiar em mim? Eu acreditei em você quando todos disseram que você queria me matar.

Ele pareceu hesitar um pouco, mas suspirou, se rendendo.

— Tudo bem, se apoia em mim.

Tentei negar, mas Percy parecia resoluto. Eu estava ficando nervosa com toda aquela proximidade, ainda mais depois das visões. Levei meus dedos até os lábios e fechei os olhos. Eu beijara Percy quantas vezes? Nós realmente íamos nos casar? Eu estou ficando louca? Por que ele está sempre por perto? Aquilo tudo é realmente real?

— Depois disso nós vamos tomar café, ok? Você parece fraca. Também quero que me conte tudo o que aconteceu.

Assenti enquanto ele me guiava.

Percy sorria para mim e tudo ao nosso redor tremeluzia. O Percy dessa realidade parecia tão acabado perto do outro. Ele tinha olheiras profundas ao redor dos olhos e parecia ter perdido peso, enquanto o outro era cheio de vida, vibrante e...

Pisquei, voltando a realidade. Eu preciso aprender a controlar isso. Não posso ficar fora de ar o tempo todo.

— Percy. – Arrisquei. – Você tem dormido bem? – Seu corpo pareceu se tencionar ao meu redor. – Tem tido... Pesadelos?

Ele arregalou os olhos, uma centelha de esperança surgindo em seus olhos.

— Você também?

Pisquei.

— Eu? Por que eu...

Todo o ânimo que havia chego foi embora e ele apenas negou com a cabeça.

— Eu tenho tido alguns sonhos estranhos. – Ele sorriu sem emoção. – Mas tudo bem. Nada anormal. Olhe, chegamos, cuidado com os degraus.

Eu sabia que ele estava mentindo. Com o que ele estaria sonhando?

Entrei devagar na casa grande e logo tudo ao meu redor tremeluziu.

Quando eu entrei no quarto que Percy me indicou, achei que eu pudesse chorar.

— Quíron...

Ele nem ao menos levantou os olhos em minha direção. Continuou fitando o chão infinitamente. Bom, pelo menos, aquele Quíron não me respondeu.

— Annabeth.

Dei um pulo para trás com o susto, dando com as costas contra o peito de Percy.

O Quíron de um dos universos paralelos estava falando comigo. A visão estava falando comigo. Eu nem sabia que isso era possível.

Percy segurou meus ombros e perguntou se eu estava bem, mas eu não estava interessada em responde-lo agora. Quíron havia conseguido toda a minha atenção.

— Graças aos deuses você sobreviveu.— Ele tremeluziu e desapareceu, surgindo em outro lugar do quarto. – Não posso usar uma realidade por muito tempo, se não ela vai me encontrar. Tive medo que você não conseguisse. Então, já descobriu tudo?

— Descobri o que? Quíron, não me diga que você acredita nessa história maluca. Eu tinha a esperança que você me ajudasse.

Ele sumiu e reapareceu em outro lugar.

— Eu estou te ajudando. Acredite. Isso tudo é real. Só quando você resolver tudo que eu poderei voltar ao normal, até lá... Só você conseguirá se comunicar comigo. Nós não temos muito tempo, então ouça atentamente: hoje não poderá acontecer a captura à bandeira. Eu sei que é tradição jogarmos com a visita das caçadoras, mas tantos campistas soltos na floresta... eu temo o pior. Principalmente caso você participe. Ajude-os Annabeth. Estou te deixando sob o controle do acampamento enquanto eu não voltar.

—Eu? Por que eu? Não faz sentido.

— Apenas faça o que eu digo. Estabeleça um novo toque de recolher: ninguém poderá vagar sozinho após as oito horas. Entendeu? Isso também se aplica a você. Eu preciso ir, e você precisa descansar. Nós nos falaremos outra vez.

Então tudo tremeluziu e o único Quíron que eu conseguia ver era aquele sentado na cadeira. Ofeguei.

— Você pode me explicar o que aconteceu aqui? Por que você estava falando sozinha?

Percebi com um susto que meu corpo ainda estava apoiado contra o de Percy. Afastei-me dele e pigarreei.

— É uma longa história, e eu infelizmente não posso contar pra você. Pra ninguém, na verdade, pelo menos... não ainda. Então apenas acredite no que eu digo: Eu consegui falar com Quíron. Não haverá captura a bandeira por um tempo, temos um novo toque de recolher e... Eu ainda não acredito na última parte.

— O que?

— Quíron me fez líder do acampamento.

***

Percy colocou o copo na mesa e apertou a cabeça.

— Eu não tenho certeza se entendi direito. Você fez isso tudo pra Afrodite basicamente te dizer pra deixar rolar?

Tomei um gole do meu suco e encarei o teto. Uma meia verdade não é bem uma mentira, não é?

— Isso. Eu estou um pouco decepcionada. Mas tenho me lembrado de mais coisas.

Ele sacudiu a mão, em descaso.

— Ótimo. Agora uma pergunta importante: por que ele te fez líder do Acampamento?

Neguei com a cabeça.

— Eu não faço ideia. Não faço mesmo. Talvez ele ache que sou mais responsável que você.

Ele abriu a boca, e quando comecei a rir, tudo perdeu o foco.

Eu estava de pé, ao lado do chalé destruído de Hades. Thalia observava Nico de longe, que buscava por coisas entre os destroços.

Ela se aproximou lentamente até que Nico a viu. Eles sorriram tristes um para o outro, e ela começou a ajudá-lo a procurar por objetos perdidos.

Ela conseguiu puxar uma foto de debaixo de um pedaço de concreto.

Nico encarou a foto por um tempo e lágrimas começaram a escorrer de seu rosto. Thalia se aproximou e o abraçou, murmurando algo que eu não conseguia compreender. Meus dedos se fecharam em punho. Eu deveria estar consolando Nico.

Quando pisquei outra vez, eu estava no refeitório e Percy me segurava.

Aquilo fora visão ou realidade?

— Eu vou te levar para o seu chalé agora e você vai dormir.

— Percy, eu estou bem.

— Não. Você não está.

Ele me levantou e começou a me carregar em seus ombros.

Bufei com meus braços pendendo.

— Isso é realmente necessário?

— Você não quer ir por vontade própria, então eu te levo. Quer saber? Vou te levar pro meu chalé, lá eu consigo vigiar você.

Levei minhas mãos até meu rosto. Não é possível. Eu vou ficar sozinha em um chalé com ele.

Foco Annabeth.

Percy Jackson está noivo.

Meus pensamentos vagaram para a cena que vi. Thalia e Nico se abraçando. Suspirei.

Estou começando a me deixar levar pelos comentários desses deuses malucos.

Percy me levou pra dentro do chalé três e me deitou em uma das camas, indo buscar uma coberta.

— Toma. Aqui é sempre meio gelado.

Assenti, me cobrindo. Eu não sabia se conseguiria dormir, mas não custa nada tentar.

É claro que eu havia me iludido que conseguiria ter um sono tranquilo, sem sonhos, e é claro que eu estava errada.

Eu caminhava com dificuldade quando uma dor aguda sumiu pela minha perna que já estava machucada. O ar escapou dos meus pulmões e eu tropecei.

Consegui ver meus braços que estavam cheios de cortes, arranhões e... teias de aranha?

— O que é isso?

Foi Percy quem falou. Sua mão estava segurando a minha com força. Eu tentava cambalear até ele, até a escada, mas por que ao invés disso eu me movia para trás?

— Seu tornozelo! – Ouvi alguém gritar ao longe e levantei minha cabeça. Hazel estava presa nas cordas da escada que subiam até o Argo II, muito acima de nós. Ela ficava gesticulando e gritando em minha direção. – Corta! Corta!

Cortar? Eu caí no chão e minha mente se bagunçou com a dor. O que eu deveria cortar? Meu tornozelo?

Percy me encavara confuso também, sem entender o significado das palavras de Hazel. Ela queria mesmo que alguém me fatiasse? De repente, alguma coisa me puxou para trás, me arrastando cada vez mais rápido. Só tive tempo de ver Percy pular em minha direção e agarrar meu braço, mas o impulso o trouxe junto comigo.

— Ajudem-os! – Hazel continuava gritando ao longe, e Nico pareceu entender alguma coisa, pois ele começou a mancar em nossa direção. Ele estava muito, muito magro e pálido. Nico era tão jovem nesse sonho.

Hazel lutava para soltar a espata da escada de corda, sem sucesso. Todos os outros estavam focados na estátua gigante, por isso os gritos dela se perdiam na gritaria geral e nos estrondos da caverna. Eu sei o que vem a seguir. Eu lembro disso. Eu vou cair no Tártaro.

Meu corpo de sonho já chorava há algum tempo e solucei quando bati na borda do poço. Era como se eu estivesse vivendo tudo aquilo de novo. A aflição subia pelo meu corpo conforme a percepção da realidade chegava até mim: eu estava enrolada nas teias. Eu havia pensado que era apenas uma linha solta, mas com o chão todo coberto de teias eu não consegui notar que uma estava presa ao meu pé e a outra extremidade foi direto para dentro do poço.

— Não. – Eu conseguia ouvir Percy murmurando, o sol refletindo em seus olhos. – Minha espada...

Analisei o quadro geral, apesar da dor. A espada estava muito longe para que ele conseguisse alcançar, ao menos, não sem largar o meu braço. Senti minha força se esvaindo conforme eu me arrastava em direção à borda e Percy caia comigo.

Não. Ele não pode morrer. Não pode morrer comigo. Não por um erro meu.

Meu corpo se chocou contra as paredes dos túneis e acho que desmaiei brevemente por causa da dor. Quando abri meus olhos outra vez eu estava pendurada sobre o vazio, com o pânico crescendo nas minhas veias.

Percy estava agarrado em uma saliência cerca de quinze metros abaixo do topo do abismo. Mesmo que ele me segurasse com uma mão e se sustentasse com outra, eu sabia que ele não ia conseguir por muito mais tempo, o peso em minha perna era grande mais para que ele conseguisse aguentar.

Não há escapatória. Uma voz ressoou no fundo da minha mente, mas ela não era como eu lembrava. A voz era de Aracne, mas havia outra voz que não estava lá antes, se sobrepondo a do monstro. Você vai para o Tártaro.

O poço balançou e Percy era a única coisa impedindo a minha queda.

Consegui ver Nico no topo do abismo estendendo a mão para nós, mas estava muito longe. Apesar de Hazel estar gritando a plenos pulmões, eles nunca chegariam a tempo, não quando Jason e Frank precisavam segurar os fios que mantinham a Atena Partenos no lugar e consertar todo aquele caos para que tudo não desmoronasse matando a todos.

Respirei fundo, sabendo o que eu precisava dizer. A minha perna parecia estar puxando nossos corpos para baixo. A dor estava imensa e a força do mundo Inferior me puxava como gravidade em direção à escuridão. Eu não tenho mais forças. Não posso ser salva.

Olhei para Percy, que lutava tentando nos manter no lugar. Suas mãos estavam brancas devido ao esforço, bem como seu rosto, com o suor escorrendo. Lutamos tanto para, por fim, ficarmos separados. Eu não consegui controlar as minhas lagrimas.

— Percy, me deixe ir. – Resmunguei, reunindo o final das minhas forças. – Você sabe que não pode me puxar para cima.

A expressão de resignação no rosto de Percy não vacilou, mesmo que eu visse em seus olhos que ele tinha ciência que era impossível.

Nunca.— Então Percy desviou sua atenção para Nico, nove metros acima de nós. – O outro lado, Nico! Vamos nos ver lá, entendeu?

Nico arregalou os olhos, junto comigo. O que Percy está fazendo?

— Mas...

— Leve-os lá! – Percy gritou. – Prometa-me!

Nico me encarou, provavelmente tentando calcular o estrago, mas eu mal conseguia manter meus olhos abertos.

— Eu... eu levo.

Muito abaixo de nós, as duas vozes de antes riram na escuridão.

Sacrifícios, belos sacrifícios. E então, a voz de Aracne sumiu, e apenas a segunda voz horripilante permaneceu. Quantos sacrifícios você ainda irá fazer Annabeth? Por que não aceitar as coisas como são?

Percy apertou meu pulso, interrompendo a voz na minha cabeça.

— Nós vamos ficar juntos. – Ele prometeu. – Você não vai ficar longe de mim. Nunca mais.

E num momento que a minha mente não estava tão envolta pela dor, eu entendi o que ele iria fazer. Estávamos começando uma viagem só de ida.

Juntei todas as minhas forças restantes e encarei Percy.

— Contanto que estejamos juntos.

Os dedos de Percy se entrelaçaram com mais força contra os meus.

Eu ouvi Nico e Hazel gritando. Eu vi a luz do sol muito acima de nós, talvez pela última vez. Eu vi a mão de Percy soltando a silencia. E então nós despencamos na escuridão sem fim.

— Annabeth! – Percy me sacudia, tentando me acordar. – Annabeth!

Quando abri meus olhos, respirei fundo, puxando o máximo de ar que consegui. Pulei da cama e joguei o cobertor para longe. Eu estou bem. Eu não estou caindo no Tártaro. Estou em Terra firme. Estou bem.

Esfreguei as mãos em meu rosto e me sentei no chão frio do chalé, me encolhendo.

Percy suspirou e sentou na cama que estava sendo ocupada por mim antes.

— Você teve um pesadelo? Eu estava passando e te ouvi gritando lá de fora.

Eu sentia minha perna formigar, como se eu ainda estivesse com as teias presas à ela. E aquela voz... Ela ainda estava na minha mente.

— Annabeth. – Ele me chamou outra vez e levantei meus olhos em direção a ele. – Você está bem? Quer que eu chame Nico?

Neguei com a cabeça.

— Tudo bem. Foi só... Outro sonho ruim.

Percy assentiu. Aparentemente semideuses têm muitos sonhos assim.

Esfreguei meus braços tentando me livrar das teias invisíveis, e isso não passou despercebido.

— Foi mesmo só um sonho?

Apertei minhas têmporas. Não parecia que eu e Percy estávamos nos odiando enquanto eu colocava a vida dele em risco para salvar Nico. Era quase justamente o contrário.

— Acho que tá mais pra uma lembrança.

— Quer me contar?

Abri a boca, mas fechei.

Tudo à nossa volta começou a tremeluzir.

Haviam dois Chalé 3 agora. Um real, e um criado pela minha mente.

Nele, haviam fotos minhas e de Percy em quadros, ou penduradas. Haviam peças de roupas que pertenciam a mim. Eu ouvia risadas, o som de música. Acima da cama, uma caixinha aberta brilhava com dois anéis. Eu já vi esses anéis antes. Onde? Me aproximei e tentei pegá-los, mas eles não eram sólidos.

O Percy da visão entrou e pegou a caixa com os anéis, sorriu e saiu.

Quando eu pisquei, estava de volta à realidade, com a mão flutuando acima da cama.

— Annabeth?

Pisquei outras vezes e voltei meu olhar para Percy que parecia preocupado.

— Eu sonhei com você.

Ele pareceu realmente surpreso.

— Comigo?

Assenti.

— Quando nós caímos no Tártaro.

Percy esfregou o próprio rosto, encarou as paredes e depois o teto.

Ele era diferente do garoto que vi na visão. Percy agora era um homem e nesse momento parecia muito cansado.

— Eu também tenho sonhado com aquela época. Mas os sonhos... eles não fazem sentido. Não sei explicar. Você sente o mesmo? Será possível que Gaia está tramando alguma coisa outra vez?

Neguei com a cabeça. Percy também achava aquilo estranho. Provavelmente isso significa que os deuses estão errados, não é? Que Percy e eu nunca tivemos nada e eles só querem nos confundir. Não é?

— Acho que não Percy. Acho que nós estamos muito estressados. Eu com essa história de memória roubada e você com o casamento.

Ele pressionou o pescoço e fechou os olhos.

— É, deve ser isso, não é? – Assenti e ele levantou, me estendendo a mão e me puxando para cima. – Você dormiu o dia todo, é hora de jantar.

— Jantar? – Olhei ao redor, procurando algum sinal que indicasse que era realmente noite. – Eu dormi ou desmaiei?

Percy deu de ombros e me acompanhou até o pavilhão.

O mundo a minha volta brincava de tremer o tempo todo e precisei usar todo o meu autocontrole para que tudo não se perdesse em outra visão.

Quando cheguei lá, dei pela ausência de Quíron e lembrei de seus avisos. Eu ouvia murmúrios animados pela captura a bandeira que deveria acontecer essa noite. Alguns curiosos encaravam a mim e Percy com interesse, mas a grande parte estava focada em estratégias de batalha.

Esse burburinho todo está começando a me deixar tonta.

Percy pigarreou ao meu lado e disse que eu deveria me sentar na mesa de Quíron, que estava vazia.

Engoli em seco. A mesa dele e do Sr. D. ficava mais elevada que a da maioria dos campistas, para que eles pudessem ter uma visão mais ampla. Percy me deu as costas, mas puxei seu braço, indicando que ele deveria vir comigo. Percy tentou negar e se desvencilhar, mas o puxei comigo.

Parei atrás da cadeira de Quíron e respirei fundo. Eu não estou pronta pra isso.

Tentei virar para ir embora, mas o filho de Poseidon me manteve no lugar.

Virei novamente para frente e pigarrei. Onde está Nico?

— Pessoal! – Tentei chamar, mas ninguém prestava atenção em mim. – E agora? – Sussurrei para Percy.

Ele ponderou por um minuto e revirou os olhos. Dentre os campistas, avistei Nico próximo à mesa de Ártemis. Ele encontrou meus olhos e sua expressão mudou para confusão em um segundo.

Percy ergueu uma mão à altura do peito e todo líquido das mesas pairou acima da cabeça de todos. Em um instante todos os olhos se voltaram para nós.

— Ok. Isso foi eficiente. – Voltei a sussurrar para Percy, que sorriu. De repente, Nico se materializou ao meu lado.

— O que está acontecendo aqui?

Respirei fundo encarando Nico, à minha esquerda, e depois Percy, à minha direita.

Ok. Eu consigo fazer isso.

— Eu... eu tenho alguns anúncios para fazer.

— Percy, devolve logo meu suco. – Alguém gritou de uma mesa, sendo seguido por outros.

— Se não quiserem que eu solte tudo na cabeça de vocês é melhor escutarem o que ela tem a dizer.

Silêncio novamente. Estou começando a questionar as decisões de Quíron. Percy seria muito melhor nisso do que eu.

— Quíron me pediu para transmitir alguns recados para vocês. A começar sobre a chegada das nossas amigas Caçadoras. – Me voltei para Thalia, que nos observava atentamente. – Nós lhes damos às boas-vindas ao acampamento pelo tempo que acharem necessário permanecer. Sabemos que é tradição realizarmos um jogo como comemoração pela visita, mas isso não acontecerá hoje, nem em nenhum outro dia. – Um bando de caçadoras e campistas explodiram em xingamentos e descontentamento, impedindo-me de falar.

— Quem é você para nos dizer o que fazer?

— Onde está Quíron?

— Por que ele mesmo não diz isso?

Encarei Nico e Percy, pedindo ajuda. Tudo estava tremeluzindo.

Percy pigarreou, movimentando todo o líquido e trazendo mais água sabe-se lá de onde, fazendo com que ficassem novamente em silêncio.

— Temos um novo toque de recolher. Após as oito horas da noite todos os campistas deverão estar em seus chalés. O jantar será servido mais cedo para aproveitarem um pouco da fogueira.

Fechei os olhos esperando as explosões dos campistas que não demoraram a chegar.

— Isso é um absurdo! Oito horas?

— Você acha que nós somos bebês?

— Por que os conselheiros-chefes não souberam nada sobre isso?

— Por favor. – Tentei continuar a falar, mas estava sendo impossível.

— O que está acontecendo por aqui? – Eu reconheci a voz do dono da pergunta entre tantas outras. Não foi difícil encontrá-lo, e o ar saiu de meus pulmões sem motivo aparente.

Luke.

Agarrei a mão de Nico, pedindo por ajuda. Por que eles precisam gritar tanto por um maldito toque de recolher?

Então eu senti um frio irradiar do meu lado e se estender. Não era como o inverno. Era muito mais profundo. Era a morte.

Aos poucos, aquela escuridão se estendeu por todas as mesas e eu senti tudo girar.

— Eu realmente não gosto de me exibir. – Nico falou quando todos ficaram em silêncio. – Mas vocês deveriam ouvir quando filhos dos três grandes se juntam por alguma causa.

Encarei os dois que pareciam inabaláveis. Ok. Eu também posso ser assim, não é?

— Bom. Acho que agora vem o anuncio mais importante. – Pigarrei e encarei minhas mãos antes de levantar os olhos e encarar a todos. – Quíron me fez líder do acampamento.

Um.

Dois.

Três.

— O quê?

Se antes a confusão ficara espalhada, agora era a personificação do caos. Conselheiros, campistas e caçadoras unidos em gritar contra mim.

A áurea de escuridão de Nico pareceu fraquejar ao receber a notícia, afinal, ele também não sabia. Seus olhos buscavam por alguma resposta nos meus, mas eu não poderia lhes dar.

Senti minhas pernas fraquejarem e provavelmente cairia se Nico e Percy não tivessem segurado meus braços. Eles se encaram por um segundo, então meus olhos reviraram e os véus caíram.

Eu via o nosso acampamento, mas enxergava outros cinquenta por cima dele. Alguns em guerra, outros vazios. Pessoas comendo. Pessoas correndo. Pessoas gritando. Pessoas em silêncio. Pessoas me fazendo perguntas.

Eu não consigo. Eu não consigo. Tentei piscar várias vezes para sair da ilusão, sem sucesso. Percy e Nico me sacudiam na nossa realidade, mas em todas as outras eu estava caída, sozinha.

Será que eu segurei por tempo demais e agora saiu do controle?

Fui despertada por um estouro e todas as vozes na minha cabeça se mantiveram em silêncio.

Abri meus olhos com certo esforço, com Nico e Percy me mantendo de pé. Thalia estava parada no centro do pavilhão, a lança erguida e um enorme buraco no teto.

Todos a encaravam em silêncio.

— Perdoem o estrago, mas acho que precisamos conversar.

Encarei os rapazes comigo e respirei fundo.

— Precisamos de uma reunião de emergência com os conselheiros-chefe.

E então eu desmaiei.

Notas finais
Eu espero que tenham gostado. Vou terminar de responder todos os reviews hoje - ou tentar. Obrigada por me esperarem. Atualizei a fic inteira, caso vocês queiram olhar. Várias correções cronológicas e tal... Viram esses banners lindos? Ideia da Sorvete de Limão. A fic maravilhosa dela tem vários. Já foi ler Dolce Vitta? Obrigada por tudo mesmo, amo vocês!