O Teste da Deusa
14 Capítulo Treze – Visões
Notas iniciais

Minha cabeça doía.
Acho que essa é a frase que esteve na minha cabeça noventa por cento do tempo nos últimos dias. Ela não passa, não importa quantos analgésicos eu tome, continua lá, o tempo todo, me fazendo desejar algumas vezes que ela simplesmente exploda.
Minha pele ardia. Talvez eu realmente explodisse.
Eu conseguia ouvir vozes baixas perto de mim. Vozes. Eu estou no acampamento. Fomos atacados no caminho.
— Primeiro Percy, e agora Annabeth chega com Nico naquele estado e dizendo que...
Pude ouvir Quíron sussurrando em algum lugar à minha esquerda. Nico foi ferido.
Ouvi alguém bater as mãos, talvez nas próprias pernas, interrompendo a fala de Quíron que parecia ser importante, muito importante.
— Sempre que o Peter Johnson está por aqui temos problemas, mas achei que dessa vez, as coisas não estariam tão ruins. Mas vendo a Annie Bell nesse estado...
— Annabeth, Sr. D., Annabeth. E fale mais baixo, não quero que ela acorde. Ela não pode saber, pelo menos, não por nós.
O que, exatamente, eu não posso saber?
Nico está quase morto na enfermaria.
Eu gostaria de ter forças para continuar acordada e ouvir mais. Eu gostaria de ter forças para levantar desse lugar e ir até Nico. Gostaria de ter forças para perguntar o que não posso saber e porquê.
Mas fui levada por algo ainda maior que a exaustão.
***
Quando acordei novamente, estava escuro. Bem escuro. As janelas todas abertas, me fazendo enxergar o céu, e a julgar pelo período, talvez esteja perto do amanhecer. Eu estava em uma maca, num lugar com várias outras. Todas vazias.
Sentei rapidamente fazendo as coisas girarem um pouco. Nico deveria estar aqui, não deveria?
Peguei um casaco que estava na cômoda ao meu lado, junto com um copo d’água e sai.
Eu não sabia onde Nico poderia estar. Talvez no chalé de seu pai. A questão era: para que lado ficam os chalés?
Fiquei olhando em volta tentando me localizar, cada vez mais enrolada ao meu casaco, quando vi uma sombra passar ao longe. Uma pessoa. Talvez alguém que pudesse me ajudar.
— Ei! – Chamei, mas acho que estava muito longe para ser ouvida. Talvez ele estive indo para os chalés, então o segui.
Ele caminhou um pouco mais e acelerei meus passos, tentando alcançá-lo, quando percebi que ele ia para o píer. Ele ainda pode ser de ajuda, correto? Correto. Ou talvez não.
Quando eu estava praticamente correndo, à uns sete passos dele, uma espada surgiu de repente e entre nós, me fazendo soltar um grito e quase ser perfurada no estomago.
— Ah. – Ele exclamou, levantando a espada – Você me assustou Annabeth. Você não devia estar aqui. As harpias não costumam ser amigáveis com quem é pego fora da cama.
Ele colocou uma tampa na ponta de contracorrente e ela voltou a ser uma caneta.
Ei. Eu lembro disso. Então quer dizer que eu consigo me lembrar do nome da espada dele, mas não consigo me lembrar de nada sobre o que aconteceu entre nós no Argo? Parabéns cérebro, suas prioridades estão bem definidas.
Apertei mais meu casaco roubado contra o corpo tentando me proteger do ar gelado e de Percy.
— Você também não está na cama.
— É, mas eu não estou gritando por aí e posso ficar no fundo do mar até amanhecer, caso precise. E eu não acho que você esteja disposta a matar uma harpia.
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Eu não conseguiria matar nem uma mosca. Pelo menos, não usando isso.
Apontei para a adaga presa à minha cintura. Ela já estava lá quando acordei.
Ele me encarou em descaso, caminhando para a borda do píer e sentando lá.
— Eu já te vi matar coisas bem maiores com isso.
O segui, cautelosa, sentando ao seu lado.
— Acho que agora eu não consigo matar mais nada. Mesmo. Nico está todo machucado por conta disso e eu nem sei onde ele está. Ele deveria estar na enfermaria, mas quando eu acordei, estava lá sozinha.
Ele coçou a cabeça.
— Nico saiu de lá ontem. Ele ainda está bem machucado, mas está melhor.
Pisquei tentando assimilar. Minhas pernas estavam cruzadas no meu colo, já que a água devia estar muito gelada, mesmo assim, Percy estava com os pés enfiados lá dentro.
— Ontem? Mas... nós acabamos de chegar... eu não entendo.
— Você ficou três dias apagada Annie. Nico disse que você comeu muita ambrosia. Você podia ter morrido, sabia? Nem parece ser uma filha de Atena. O Sr. D ficou um tempão tentando evitar que você explodisse.
Revirei os olhos, sentindo que ainda ouviria muito aquilo.
— Eu não lembro dessas coisas bobas que eu deveria saber. Parece que alguém não quer que eu fique viva. Tirou minha memória, eu não consigo lutar, eu como coisas que podem me matar... – Suspirei cansada. – Eu só quero que as coisas voltem ao normal.
— Bom, eu tenho que admitir que isso não é normal.
— Isso o que?
Ele apontou para mim, depois para ele e encarou o céu.
— Nós, normalmente, evitamos ficar na mesma cidade. As coisas costumam explodir, os deuses decidem que querem criar uma guerra cósmica, titãs voltam à vida. Quando não tentamos matar um ao outro.
Tenho pensado em muitas coisas relacionadas com explosões desde que acordei, isso é fato.
Fiquei em silêncio analisando a situação em que me colocara. Eu estava sentada na beira de um píer com um filho de Poseidon. Um filho de Poseidon, que, de acordo com todos, me odeia ou me quer morta. Cercada de água. Parabéns.
Engoli em seco, pela primeira vez, temendo que pudesse estar em perigo.
— Eu não consigo lembrar de você. – Assumi, baixo. Talvez essa fosse a melhor escapatória que eu teria.
— Eu não devo ser importante o suficiente. – Ele disse em um tom irônico que me deixou chateada. Talvez eu não devesse ter dito nada.
— Não... é diferente. Eu realmente não lembrava de você, até falarem algo. Quando olhei pra Piper, ou pra Hazel, lembrei de várias coisas que aconteceram, lembrei dos garotos, suas famílias, lembro de rostos que vi passarem na rua. Eu tinha lembrado de várias coisas sobre Nico, antes. Mas eu estou esquecendo todas elas. Eu não sei mais lutar, eu não sei fazer mais nada que envolva... O nosso mundo. E, Percy, eu não lembro de você. E se você é alguém que eu odeio tanto, eu deveria lembrar, não deveria? – Ele ficou em silêncio – Eu sei o que os outros me disseram e tento forçar minha mente a criar lembranças que se encaixem no que dizem, mas minha cabeça simplesmente não consegue aceitar.
— Você vai lembrar Annie, não se preocupe. Demora um pouco, mas você vai lembrar de tudo.
Ele me olhou sorrindo e meu coração pareceu querer explodir. Annie.
— Você tem mesmo certeza que a gente se odiava? Que não é uma pegadinha?
Ele deu uma risada alta, arriscada demais ao meu ponto de vista depois do comentário das harpias.
— Já te expliquei esse ponto.
Ao longe, o horizonte começava a dar os primeiros sinais de cor. Iria amanhecer logo.
— Eu estou desesperada. Espero... espero que Quíron tenha respostas para me dar. Você tinha uma missão quando perdeu sua memória. E eu vou descobrir a minha.
Ele cruzou os braços, divertido.
— Você vai sair em uma missão? Sem nem saber mais como segurar uma adaga?
Escondi meu rosto com as mãos, frustrada. Minha voz saiu abafada.
— O que você sugere? Que eu sente e espere?
— Bom, atualmente, eu sou o professor de esgrima do acampamento. Eu podia te dar umas dicas, tentar te ajudar a lembrar o básico, ao menos. Seus instintos fazem o resto.
— Bom, temos outro problema. Os meus instintos não estão funcionando.
— É o que veremos. Aparece na arena no começo da tarde, ou no final do dia, como preferir.
Sorri agradecida.
— Eu ia adorar. – Fiquei em silêncio por um momento – Talvez... talvez eu crie novas memórias sobre você.
Ele sorriu, levantando e me estendeu a mão. O mar estava manchado com o laranja vindo do horizonte, deixando tudo muito bonito. Logo, a brisa gelada daria lugar à um calor confortável.
Sorri de volta e estendi a mão a ele, que me içou.
Nesse momento, no exato momento que nossas mãos se tocaram, eu vi. Eu senti. Fiquei completamente desnorteada.
Eu vi um pôr do sol, naquele mesmo lugar. Eu vi duas pessoas rindo. Eu vi a garota ser puxada para dentro d’água, aparentemente de modo mágico. Senti a água gelada fazer minhas roupas grudarem em mim. Vi abraços e beijos. Promessas silenciosas. Eu vi tudo aquilo. Eu vi nós dois. Eu me vi com Percy. Muito tempo atrás.
Soltei sua mão, rapidamente.
— Você viu isso? – Perguntei, assustada. – Viu?
Ele olhou para um lado, depois para o outro, sem entender.
— Vi o que?
— Quando... quando nossas mãos... – Analisei o rosto dele e só vi a dúvida. – Você não viu nada.
Ele parecia preocupado.
— Annabeth, você está bem?
— Eu... eu acho que sim. Eu só... pensei ter visto algo. Ou lembrado. Não sei.
— Tem certeza que está mesmo bem? Eu posso te levar para a enfermaria.
Neguei.
— Percy. Nós... – Pigarrei, tentando não soar estranha. – Nós já... tivemos algum tipo de... envolvimento?
— Envolvimento?
— É.
— Que tipo de envolvimento?
Comprimi meus lábios. Não é possível que alguém fosse tão lerdo. É? Neguei com a cabeça.
— Deixa pra lá. Para que lado é a casa grande?
Ele apontou para a direção oposta à que ele veio. Assenti agradecendo.
— Obrigada, vejo você mais tarde.
Disparei em direção à Casa Grande.
Eu tinha várias perguntas, mas boa parte delas se resumia àquilo. Memórias, visões ou criações da minha mente. E eu iria descobrir o que eram.
***
Eu estava meio ofegante quando cheguei. Quíron me olhou como se tivesse levado um susto.
— Oh, Annabeth, vejo que acordou... cedo. Que bom.
— É. Ótimo, não é? E pensar que eu podia ter morrido por pura estupidez.
— Como é?
Escolhi uma cadeira para sentar e fiquei em frente a ele. Ainda me pergunto como um centauro cabe aqui dentro.
— Eu quase deixei Nico morrer lá, ele podia ter morrido. Eu não ia saber o que fazer.
— Annie, querida. – Ele colocou minhas mãos entre as dele – Você não acha que deve descansar? Você quase morreu – Neguei com a cabeça, não posso descansar agora – Bom, então me conte o que está acontecendo, o que houve?
— Quíron, sete dias atrás eu acordei em um quarto com Nico sem nem saber nem qual era o meu nome. Desde então eu tenho tido dores de cabeça terríveis. Eu fui parar em uma enfermaria, e havia uma festa em Nova Roma para mim e Nico, comemorando algo que eu ainda não sei o que era. Aí eu desmaiei de novo por algum motivo e acordei em um templo. Eu vi um ursinho de pelúcia pegar fogo enquanto Octavian dizia coisas que não faziam sentido. Poseidon apareceu para mim. Um deus apareceu para mim e até eu sei que isso não acontece todos os dias. Eu descobri que Afrodite está presa em algum lugar e provavelmente eu tenho que encontrá-la se quiser lembrar de algo. Eu lembrei de Nico e esqueci outra vez. Eu não consigo lembrar de Percy. Mas tive um sonho com ele e... Acabei de ter alguma coisa com ele também. Quíron, o que está acontecendo? Eu estou finalmente enlouquecendo?
Ele alisou a barba, parecendo apreensivo.
— Bom, receio que eu não possa dizer algo que você já não saiba, realmente, alguém mexeu com a sua mente. Os motivos são um mistério.
Soltei minha mão da dele e prendi meu rosto entre elas. Estou cansada, com fome, tonta, com dores de cabeça, mas não posso parar. Preciso descobrir o que está acontecendo. E tenho a impressão de que preciso fazer isso rápido. Se for realmente uma brincadeira de deuses, elas geralmente têm data para início e fim.
— O que eu vou fazer então? Eu não sei como descobrir mais nada.
— Você já sabe de todas essas coisas, não sabe? Dará um jeito de saber mais. Você consegue lembrar.
— Sim! – Exclamei, desesperada. – Eu consigo lembrar de coisas inúteis e quando é tarde demais. Meu apartamento. Minha faculdade de arquitetura. Mas eu mal lembro do universo mitológico. Eu não sei mais nem lutar. Todos só sabem repetir que eu iriei lembrar, mas estou começando a duvidar disso.
— Então... você só esqueceu o nosso mundo?
Minha cabeça aliviou por sem compreendida. Eu lembro de fugir de casa. Meu pai. Faculdade. Minha madrasta. Meus irmãos.
— Sim. Eu esqueci. Eu lembro vagamente de algumas missões, mas nada demais. Na verdade, quanto mais perto chego das minhas primeiras missões, mais confuso fica. E... Porque eu não consigo lutar?
— Pelo jeito você não só esqueceu, como perdeu seus instintos. Você devia descansar querida.
— Porque todo mundo só me diz isso? Quíron, eu quero ver o oráculo.
— O oráculo? Uma missão? Querida, você não precisa de uma missão.
— Quando Percy perdeu a memória, ele recuperou depois de uma missão. Jason também.
— Mas você não precisa disso.
— Quíron. Eu preciso.
Ele ficou em silêncio olhando para os lados. Parecia nervoso.
— Eu não tenho permissão para te deixar ver o oráculo.
Espera. O que?
— Como assim? Você nunca precisou pedir permissão para isso. Quíron. Por favor, eu preciso ir. Eu preciso da minha missão. Eu preciso lembrar.
— Mas agora estamos lidando com situações diferentes. Você e Nico podem ficar aqui o tempo que quiserem, aqui ainda é a casa de vocês. Mas eu não posso deixar você ir até o Oráculo enquanto eu estiver aqui. Estamos entendidos?
Se eu já não estivesse sentada, cairia. Porque ele estava me negando socorro? Porque não me ajuda a lembrar?
Tudo bem. Eu irei descobrir. Novo plano.
— Certo. Tudo bem. Acho... acho que eu e Nico ficaremos até ele se recuperar totalmente. Onde ele está? Eu tentei procurar mais cedo e não encontrei.
A expressão de Quíron se tranquilizou e ele apontou para onde eu devia ir.
— A área dos chalés é para lá.
Agradeci, saindo da casa, atravessando o acampamento.
Se ele não quer me ajudar, eu vou encontrar quem possa.
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