O Teste da Deusa
10 Capítulo Nove – Sonho com o Rio de fogo
Notas iniciais

— Claro – Nico me observava desconfiado – Vamos pela manhã.
Suspirei meio frustrada.
Desde que acordei naquela madrugada tudo o que tenho feito é tentar entender quem sou, o que faço e quem são as pessoas a minha volta e nada, nada parece se encaixar.
Eu me lembrava de coisas que tinham pouco haver com o que me contavam e acho que Quíron pode me ajudar. Ele já viveu tanto tempo que não deve existir nada que ele não conheça ou saiba lidar. Assim espero.
Fiquei ao lado de Nico durante o resto da festa, sempre por perto. Eu ficava com tonturas e dores de cabeça muito fortes e mesmo assim tentei fingir que me lembrava de todos os que estavam ali, mas era difícil.
— Ei. – Senti a mão de Nico apertar de leve a minha cintura chamando minha atenção. – Quer ir? Você não parece bem.
— Mas isso aqui não é pra gente? Não vão sentir nossa falta? – Sussurrei de volta para ele, que negou me estendendo a mão.
— Vem, não vão nem notar que saímos.
Ele me guiava entre todos, acenando e as vezes curvando o canto dos lábios para aqueles que pareciam ser mais próximos dele. Notei que ele não sorria muito. Talvez aquela áurea de ser filho de Hades não ajude na popularidade. Não sei, talvez, só acho.
Logo estávamos dentro de Nova Roma, acho que Terminus estava dormindo porque ele não nos importunou nem uma única vez.
Quando entramos na pequena casa, me perguntei como Nico tinha acesso a ela. Era dele? Era alugada? Porque ele não ficava com Hazel?
— Você pode tomar um banho se quiser, tem roupas suas naquele armário que eu falei mais cedo. Eu vou tomar banho depois de comer alguma coisa, então...
Assenti indo pegar algo para vestir, torcendo para ter um pijama por ali, e tinha mesmo. Tinha um pijama de verão, curtinho, mas de repente me senti tímida demais para vesti-lo e optei por uma calça de moletom.
O banho foi bom, gostava desses momentos para pensar, pelo que me lembro. Mas dessa vez serviu justamente para esvaziar minha cabeça dos milhares de pensamentos que a rondavam.
Quando sai, Nico já havia ido pegar algumas roupas e deixou um misto quente para mim em cima da mesa com um copo de suco. Sorri pela gentileza do gesto. Ele estava se esforçando para me agradar, me deixar a vontade e me lembrar das coisas à minha maneira e eu era muito grata por isso, aquilo enchia meu coração de algo que eu não sabia o que era, mas era bom.
Fui para o quarto e encarei a cama, me sentando na ponta. Aguardando Nico sair do banho. Eu sei que ele é meu namorado e isso deveria ser confortável e provavelmente era, mas eu simplesmente não me lembro dele. Então, o que posso fazer?
Ele saiu do banheiro esfregando a toalha na cabeça usando apenas uma calça de moletom. Meus. Deuses.
Eu ainda não sei lidar com um homem lindo andando dentro de casa sem camisa.
Ele reparou que eu estava encarando, obvio que reparou, e pigarreou.
— É, hm, você vai dormir aí... E eu durmo aqui no chão mesmo.
Ele pegou uma coberta grossa e estendeu no chão, jogando um travesseiro por cima. Apagou as luzes e disse “boa noite”. E nesse período todo eu ainda estava sentada na cama encarando toda a cena.
Eu não queria deixa-lo no chão, mas também não queria ser atirada do tipo “durma comigo” então me arrastei lentamente até a cama e deitei ali, sentindo o perfume estranho dos travesseiros e lençóis que me fizeram dormir rapidamente.
Eu sabia que estava sonhando assim que comecei a caminhar. Meu corpo estava em um estado de alerta que eu não lembrara de já ter vivido. O ar era insuportavelmente quente e tinha cheiro de ovo podre e carne estragada. Também era ácido, com cheiro de enxofre, meu corpo pesava molhado e gelado e todo tipo de pensamento infeliz rondava pela minha cabeça; “desista”, “não vale a pena lutar”, “aproveite enquanto pode”. Me senti caindo dentro de mim mesma cada vez mais fundo. Tentei lutar contra a sensação do sonho, mas não consigo, é mais forte que do que eu. Parei de lutar contra mim mesma e comecei a absorver o cenário. O chão era de vidro, cortando minhas pernas e braços conforme tropeçava, caia e levantava, andando contra a minha vontade, como se estivesse apenas observando, lutando para me manter de pé. De repente senti um braço passar pela minha cintura, trazendo-me para cima, tentando me manter de pé. Nós nos agarrávamos um ao outro tentando manter o equilíbrio. Olhei para cima tentando descobrir onde estávamos e não consegui nem mesmo ver o teto da caverna, apenas o que pareciam ser nuvens de sangue. Estremeci e olhei para frente, sem respirar direito e com a boca seca.
Minha perna estava envolta por uma tala, mas não entendi o porquê, já que não sinto dor ali.
Nós tentávamos chegar até um rio de fogo. Como era possível? Eu cambaleava em direção àquilo como se precisasse desesperadamente para sobreviver. Era como precisar respirar. O ar era quente e úmido, mas mesmo assim não me sentia seca e estava cada vez mais frio, apesar de estar cada vez mais próxima ao rio. A pele da pessoa ao meu lado parecia estar pegando fogo e notei várias bolhas surgindo na superfície do seu braço. Aquilo estava horrível e eu precisava fazer alguma coisa.
Quando chegamos à margem do rio, caí de joelhos e antes que pudesse impedir minha própria mão ela encheu-se da substância em concha e derramou o líquido na minha boca. Ardente era pouco para definir a sensação. Parecia que meu corpo estava em estado de ebulição, como se estivesse pegando fogo, dos meus olhos escorriam lágrimas em água fervente e eu não conseguia pensar.
Tive a vaga sensação que alguém gritava meu nome antes de começar a vomitar e sentir meus braços serem agarrados, evitando minha queda dentro do rio de fogo. Depois que consegui me acalmar, respirar ficou muito mais fácil que antes. Senti-me aliviada, não morreria ainda.
Os braços se afrouxaram em torno de mim e o garoto caiu sobre o meu corpo. Ele convulsionou no chão até parar de se mexer. O desespero tomou conta de mim, ele deveria ter bebido a água do rio. Ele precisava beber.
A ideia de mergulhar minha mão em fogo ardente não me agradava, mas me agradava menos ainda ver alguém morrer.
Joguei algumas gotas sobre ele, esperando uma resposta e nada. Enchi minha mão uma, duas, três vezes de água e joguei sobre ele, até vê-lo tossir e engasgar. O segurei enquanto seu corpo tremia e as bolhas sumiam.
Ele vai viver. Meu coração se encheu de alívio e alegria e eu quis abraçá-lo e beijá-lo.
— Você nos salvou.
Meus olhos se encheram de água e eu neguei.
Mas o que aconteceu em seguida foi tão forte para que eu aguentasse que acordei em um pulo só, sem saber o que fazer.
Eu gritava e suava. Ofegava sem parar e ainda podia sentir o cheio, a sensação na minha pele.
Nico estava na minha cama me sacudindo, segurando meu rosto, me conferindo e apertando querendo saber se estava tudo bem. Seus olhos estavam preocupados vasculhando cada centímetro de mim. Ele me abraçou com força contra o peito.
— Shii, calma, tudo bem. Foi só um pesadelo, vai passar. Já foi. Deuses, Annabeth você está pegando fogo. Eu já volto.
Ele pulou da cama enquanto eu sentava, tentando normalizar a respiração. Nico voltou com toalhas e uma bacia com água. Ele as molhou e as encostou na minha testa. Respirei fundo tentando me acalmar.
— Obrigada.
— Tudo bem, fique um pouco quieta.
Havia toalhas enroladas nos meus pulsos, pescoço e testa. Me sentia muito, muito melhor.
Alguns minutos depois Nico recolheu tudo e me deu outra toalha para que eu me enxugasse. Meu pijama estava encharcado de suor e com vários pontos chamuscados, decidi colocar a roupa de verão mesmo, fazer o que.
Nico voltou, sentando ao meu lado e me encarando apreensivo, sem saber muito bem o que fazer.
— Você me deu um susto. Acordei com você gritando e literalmente pegando fogo, o lençol estava começando a chamuscar.
Observei o tecido branco enrolado a minha volta e notei que era verdade. Por isso minhas roupas estavam chamuscadas.
— Estou bem agora.
Ele assentiu me largando. Nico ficava me encarando como se eu pudesse quebrar a qualquer momento e fosse a coisa mais preciosa que ele tivesse. Meu coração batia descompassado por aquilo. O carinho nos olhos, a incerteza do corpo. A boca abria e fechava, pensando em falar algo e desistindo em seguida. Ele, por fim, levantou da cama.
— Vou te deixar em paz.
Mordi o lábio, eu precisava conversar.
— Ei, não. Fique aqui comigo.
Ele me olhou enquanto levantava o próprio lençol no chão. Eu podia ver o brilho dos olhos dele, o anseio para que eu lembrasse. Para que eu me lembrasse dele. Não apenas lapsos perdidos e sem sentido. Ele como um todo. Ele como o cara que eu amava. Ele como o cara que eu fazia planos para o futuro, talvez como o cara que eu pensasse em casar, ter uma família e viver felizes para sempre.
— Tem certeza?
Assenti enquanto ele caminhava de volta, se acomodando ao meu lado. Encolhi meu corpo e ele me puxou para perto de si, tentando me confortar.
— Eu... eu sonhei com um lugar horrível. Não conseguia respirar e parecia ter nuvens de sangue. O chão era de vidro e tinha um rio de fogo...
A expressão de Nico endureceu.
— Tártaro. Você esteve lá durante a guerra contra Gaia.
Pisquei, me lembrando. Eu já havia estado lá.
— Sonhei com Percy. – Admiti encabulada depois de ficarmos em silencio por um tempo.
Ele riu e me trouxe para mais perto em um abraço.
— Eu teria ciúmes de você sonhando com caras por aí, mas como sei que você odeia o Jackson, vou deixar essa passar. Além de que, vocês estiveram lá juntos. Sonhos de semideuses não costumam ser apenas sonhos. Eles são presságios, mensagens e lembranças. Talvez você tenha sonhado com algo do passado, vê-lo hoje pode ter despertado essa sensação de perigo em você. Já que não se lembra de nada, talvez se sinta ameaçada por todos. – Ele parou de falar e depois acrescentou baixinho – Talvez não se sinta mais segura comigo.
Eu estava deitada com a cabeça contra o peito de Nico ouvindo o coração dele batendo calmamente. O meu estava frenético. Alucinado.
Se eu odiava tanto assim Percy Jackson por que ele me abraçara no Tártaro? E, principalmente, por que quando eu pensei que se fosse morrer ali, queria que minhas últimas palavras fossem que eu o amo enquanto sentia os lábios dele contra os meus?
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