Notas iniciais
Como já foi dito, essa história busca divertir e levantar questionamentos, não atacar as crenças de ninguém. A citação sobre o rei da frança é verídica, e foi a inspiração pra essa curta. Sem delongas, espero que gostem.

Aqui, psicografado através de um jovem que consumiu elevadas doses de de produtos baseados em açúcar concentrado, estão os desejos póstumos do Pai da Humanidade… e não, não estou falando do Todo-Poderoso…

É, pensando bem, eu nunca ganhei nenhum título nobre, apenas de “pau-mandado” e outros adjetivos desagradáveis por parte de líderes religiosos, então vamos simplificar. Meu nome foi Adão, e estes são meus desejos póstumos e explicações, que visam desfazer muitos mal-entendidos em relação a minha vida.

Antes de expressar minhas expectativas para meus descendentes, acho necessário resumir brevemente meus atos em vida, que foram erroneamente interpretados através dos séculos.

Primeiramente, muito se fala de meus erros, mas nada foi escrito sobre as nobres tarefas á mim atribuídas pelo criador.

Para começar, eu fui o primeiro ser humano da Terra. Dá pra acreditar? O que eu passei faria o drama do Matt Damon em “Perdido em Marte” parecer uma mera comédia romântica! Eu era o único da minha espécie, nascido adulto e sem qualquer lembrança ou bagagem cultural, caminhando por um mundo cheio de feras e com um Ser luminoso falando coisas complexas pra mim.

Também está registrado no livro Dele que ele me deu a tarefa de nomear todos os animais. Uma honra? Você esquece, caro leitor, que na época existia apenas um único idioma — Ele viria a criar os próximos durante os fáticos eventos da Torre de Babel — então todo meu trabalho foi desperdiçado algumas gerações depois, pois ele simplesmente inventou milhões de palavras sem qualquer esforço! Confesso que minha vingança foi mesquinha, pois nomeei “louva-deus” a mais repugnante das criaturas que pude encontrar, um inseto que come a cabeça do parceiro durante o coito. Essa foi a primeira vingança da história da humanidade, não deixo o meu raivoso filho Caim tomar esse título de mim.

Aaaaah, minha família,. O que dizer sobre ela? Começando pela minha esposa, que recebi a muito custo, pois depois de ver milhares de espécies de animais — vale lembrar que fui feito imortal, então tive tempo de ver cada maldita criatura desnecessária que Ele resolveu colocar nesse planeta, dentre as quais não excluo eu mesmo — levantei o questionamento: qual era o preconceito Dele para com minha espécie, a única com apenas um gênero? Afinal, ele me deu um coração pra amar, mas ninguém para que pudesse ser objeto de meu afeto, e me deu um pênis e… deixa pra lá.

A questão é que eu já estava começando um protesto com alguns anjos — porquê eles também tinham órgãos genitais desperdiçados, que só viriam a ser usados de forma ativa na geração do meu tataratatará-neto Noé, quando eles resolveram que apenas brincar com o excretor uns dos outros não era o suficiente — Quando o Todo-Poderoso resolveu atender meu pedido pra abafar o caso, apesar que não sem uma certa dose de má vontade: Ele teve o poder para construir o universo do nada, mas resolveu que precisava da MINHA costela pra criar uma humana. Assim, eu fui o primeiro homem da Terra… e o primeiro deficiente físico.

E ainda acusam o livro Dele de ser pouco inclusivo...

Um comentário relevante: eu nunca mais consegui fazer abdominais depois daquilo, um dos hobbies que adquiri durante minha solidão pré-Eva. Por sorte logo eu ganhei outra atividade física muito boa pra fazer. Se é que vocês me entendem.

Eu poderia dizer que Eva foi meu maior presente, mas seria sexista e objetificante. Tipo todo o resto do livro Dele… então acho que tudo bem! Me perdoem por isso, mas ela era linda!

Não que eu tivesse visto outra mulher na vida… ou mesmo outro homem. Ele é sábio quanto a isso, porquê se tivéssemos opção, talvez nosso relacionamento não tivesse ido pra frente. Sabe como é, ela queria saber sobre tudo do mundo, essa coisa de pensar com os dois lados do cérebro. A questão é que eu não sabia absolutamente nada. Ele tinha me dado três ordens simples.

1ª) Não fodam com meu Jardim.

2ª)Fodam um com o outro e encham esse planeta incomensuravelmente enorme, mesmo sem meios de transporte pra chegar nos locais remortos.

3ª) Não toquem na árvore mágica no meio do Jardim.

Como diria um grande pensador contemporâneo ao jovem que está psicografando essa epístola “Eu já avisei que vai dar merda”.

Tente se pôr em nossa pele: Nunca tivemos nenhuma instrução além de um Ser luminoso que não aceita sugestões numa boa, e não tínhamos uma cultura, um imaginário. Não tivemos pais pra nos dizer que devemos obedecer os mais velhos, ou que nos contavam histórias sobre crianças desobedientes — nunca nem tínhamos visto uma criança, é importante ressaltar.

Então, nossa rotina era comer, andar pelo mato, e pensar em para qual finalidade existia aquela árvore brilhante no meio do Jardim. Note que devido a falta de exemplos culturais, nunca pensamos em procurar por outra fora do Jardim ou algo do tipo, e como a Eva não estava confiante que uma parte do corpo dela era capaz de comportar uma parte do meu corpo, não tínhamos nada pra fazer… e por isso perdemos a chance de fazer um filho perfeito, para o azar de vocês. A vida não era o paraíso que escreveram nos dogmas que viraram moda séculos depois.

Mas chega de reclamar — sinto meu hospedeiro ficando inquieto com tanto “mimimi”, como ele chama — vamos aos fatos: pra alguém que recebia instruções de um Ser invisível que alegava ter criado tudo, uma cobra falante parecia uma fonte de informação igualmente confiável.

E foi por isso que a Eva — afinal, Ele me criou pra ser “o cabeça” ou o “vaso mais forte” (nome que eu acho muito desagradável, pois visa relembrar que somos simples barro), mas não me deu nenhuma inteligência adicional, então teve que por a culpa na mulher no livro Dele. Seguirei o exemplo, até porque muitos iriam começar a duvidar da autenticidade desse registro se eu dissesse apenas a verdade.

Vou por em termos simples: comemos a maldita fruta, que para registros cinematográficos e dramatúrgicos, não se parece em nada com essas maçãs que vocês tem. E aqui vai a primeira revelação (em minúsculo, pra não pagar o copyright do nome do último livro Dele): a fruta funcionou, até certo ponto.

Não nos tornarmos como o próprio Criador, mas aprendemos diversas coisas bem importantes, nossos "bons e maus": descobrimos que estávamos pelados, por isso tudo em que encostávamos dava agonia ou era desagradável… não existiam colchões de plumas.

Então a primeira reação que tivemos foi tecer roupas. De onde tiramos esse conhecimento, visto que fomos feitos para viver eternamente na Inocência da perfeição? Sei lá. Mas foi isso que nos denunciou, e acabamos sendo chutados pra fora do Jardim por desobedecer a ordem nº3 e transformados em mortais.

E Lúcifer, todo serelepe e pimpão (tais termos, segundo o portador de meus pensamentos, significam “astuto e ardiloso”), acabou ganhando o direito de ser o primeiro vilão da humanidade, e o mais recorrente desde então.

Então... nos ferramos. Mas a fruta nos deu outra dádiva. O tesão. Com desculpa de usar tais termos perante jovens leitores, mas começamos a trepar como se fossemos os últimos humanos da Terra. O que era quase verdade, se analisarmos a ideia por trás desta expressão.

Se ignorarmos a necessidade de plantar sem nenhuma técnica avançada de cultivo — afinal, coletar e caçar são mentiras inventadas pela ciência, ninguém nunca pensou nisso na minha época — a vida era boa. Para mim, é claro, que não tinha que parir crianças sem ajuda e nem instrução. Mas ela foi a “culpada”, então não perca tempo se importando. Ninguém fez isso por milhares de anos.

Se estou ficando amargo, peço desculpas. Mas é que tudo começou a dar errado na educação de nossos filhos. Veja bem, nós aprendemos com nossas cagadas. Enfiamos na cabeça do Caim e do Abel — e de outras dezenas de filhos e filhas não nomeados, não gostávamos muito deles — com muita ênfase que eles deviam adorar ao Todo-Poderoso acima de tudo. E deu merda mesmo assim.

Alguns apontariam que isso foi causado pela pressão excessiva pra agradar uma força superior que colocamos sob as costas deles, buscando assim reparar nossos próprios erros. Mas a culpa foi do Lúcifer — que recebeu uns nomes mais malvados, como Diabo — como sempre. Ele assumiu o papel reconfortante de nos permitir não ter que assumir os próprios erros, e simplesmente atribuir a influência dele.

Colocando os pingos nos “i’s”, Caim assassinou seu irmão para obter aprovação divina. Uma pena pra ele que isso não é a mitologia grega, então a força divina em questão não considerou isso um ato correto… apesar de ter reagido com maior violência por ter uma simples ordem desobedecida, condenando a morte toda uma espécie.

Talvez seja a falta de exemplo paterno, é complicado ser o Criador de tudo e ter existido desde sempre... ou foi excesso de infinita sabedoria e justiça, nunca saberemos. Mas ele ficou realmente bravo, então mandou Caim para uma terra de exilados... que ele havia criado por algum motivo.

Precaução, talvez.

A questão é que eu fiquei com um filho a menos, e a fama de pai ausente. Podia ser pior, afinal, a humanidade sobreviveu muito bem, não?

Não falarei muito sobre meu filho Sete (um tipo meio estranho, muito parecido com Abel...mas reencarnação não existe, é um mito pagão e todas as outras coisas que você já ouviu do seu líder espiritual que segue o livro Dele), Sete fez o grande feito de não fazer nada relevante, então registro sua trajetória com esses termos concisos.

E com isso termina a história de minha vida. Pode parecer difícil de acreditar, mas consegui preencher 930 anos com agricultura, pecuária, sexo desenfreado e educação duvidosa de filhos, netos e derivados… uma tarefa bem enfadonha e assustadora, afinal, era incesto pra todo lado, então era difícil saber quem era tio de quem, quem era primo, quem era irmão... não que importasse.

A morte não me veio como algo ruim — pois uma curiosidade sobre o corpo humano é que nossas orelhas e nariz nunca param de crescer — então você pode imaginar o estado em que eu estava com uma idade tão absurda, logo acredito que seja mais do que desculpável o fato de ter esquecido de fazer um testamento.

Com essas descrição de meus feitos em vida, eis aqui minhas considerações em relação ao planeta como está atualmente.

A América foi um erro, não escondo.

Eu realmente esperava que uma pequena parte do planeta permanecesse um paraíso para gente que só queria viver longe do conhecimento opressivo que é a necessidade de usar roupas.

Mas naaão. No norte, os Ingleses não entenderam o recado divino quando o território designado a eles foi uma pequena ilha nublada. “Não se espalhem, vai dar confusão”. Por culpa deles veio ao mundo coisas abomináveis como filmes natalinos, molho barbecue e discursos sobre liberdade.

No sul…. muita coisa deu errada por lá. Em suma, estragaram umas boas florestas e misturaram mais idiomas do que é saudável para pessoas que são vizinhas. E sim, eu estou falando com você, Guiana Francesa.

A Europa eu defino como uma pequena grande briga de egos. Se os portugueses se contentassem em andar de barco e escrever poesia, e os franceses em fazer seus perfumes e pratos questionáveis, talvez ainda houvessem lugares pra se viver sem muitas regras de etiqueta social, uma das piores invenções modernas.

Sobre o Oriente Médio, não me pronuncio com medo de soar hipócrita, pois meus descendentes estão brigando por territórios aqui desde os meus dias, todo mundo se acha dono do.

Em relação África, tudo estava muito bom até a época do Egito, com seus túmulos exagerados e bibliotecas, mas depois disso… deixar os Europeus sem supervisão não foi uma boa ideia. Os diamantes e o petróleo não foram prêmios de consolação adequados, também.

Quanto a Ásia, nisso Ele acertou. Foi preciso um pessoal bem disposto pra popular um território tão extenso e tão propenso a desastres geológicos. Talvez isso tenha mexido com a cabeça da juventude, sobre a qual ouvi dizer que alguns estão casando com seus travesseiros estampados — apesar de não zombar da sabedoria disso, travesseiros não te incentivam a fazer bobagem.

Na Oceania, outro acerto. Ele colocou todas as criaturas mortais que achou ser covardia deixar á solta pelo planeta por lá e colocou pessoas capazes de conviver e se alimentar deles.

Qual o meu objetivo com todas essas reclamações, cheias de esteriótipos e ideias questionáveis?

Nenhum, a pós-vida é um saco.

Brincadeira (ou não)minhas reclamações jazem em uma insatisfação simples: Todos vocês são irmãos e irmãs — literalmente, a humanidade se espalhou na base do incesto, está no livro Dele — então parem com essa bobagem irracional de construir muros imaginários que ditam como vocês agem uns com os outros!

Isso é mais tolo que acreditar em uma cobra falante. E de tolice, meus jovens, eu vi a criação dessa palavra.

Pelas mãos do mesmo adolescente que está começando a se perguntar pra que diabos está escrevendo isso, os relatos de vida e opiniões em morte do primeiro humano.

Ass: Adão, filho de.... sei lá

Notas finais
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