O Terceiro Feitiço
8 8° Capítulo
Notas iniciais
POV LIV – (StoryBrooke, 2014)
A noite era fria nessa época do ano e aquela filha da mãe pegou Roland só de pijama, ele estava tremendo de frio. Tirei meu casaco e Ellie tirou o dela e colocamos em volta dele, que estava sentado na grama. Ele olhou para mim e disse, fazendo biquinho:
– Quero o meu papai.
A voz dele estava embargada e achei que ele ia chorar ali mesmo, então antes que ele o fizesse eu o peguei nos braços e disse, fazendo um carinho na mãozinha fria dele:
– Já vamos levar você para o seu papai, meu amor
“NOSSO papai”, pensei. Que saudade que eu estava de chamá-lo de papai.
Andamos pela mata até chegar dos fundos da Granny’s, entramos por um corredor que dava passagem até a rua e encontramos mamãe na frente da Granny’s. Ela olhou para a Ellie, que chegou primeiro, e então olhou para mim e para o Roland. Ela correu até nós e pegou Roland dos meus braços, dizendo:
– Meu querido! Você está bem? O que aconteceu?
Ele coçou os olhos e disse:
– Não sei, tia. Eu acordei e essas meninas estavam no meu lado e elas me trouxeram de volta.
Granny, que estava observando tudo da porta do restaurante, disse:
– Venha aqui, meu querido! Vou fazer um chocolate quente bem gostoso para você!
Roland deu um sorrisinho lindo, virou para Ellie entregando nossos casacos à ela e dizendo à nós:
– Obrigado.
Meus olhos se encheram se lágrimas antes que eu pudesse me conter e eu respirei fundo para que nenhuma delas caísse. Eu já disse que eu não gosto de chorar na frente dos outros? Pois é, não gosto.
Dei um sorriso para ele e Ellie falou, também sorrindo:
– De nada, pequeno.
Ele virou e correu até Granny e eles entraram no restaurante.
Mas mamãe continuava parada na nossa frente.
– E então, vocês não vão explicar como encontraram ele se acabaram de chegar na cidade?
Engoli o nó na minha garganta e Ellie falou:
– Nós ficamos preocupadas com uma criança sozinha na mata, resolvemos ajudar também.
Ela parou e ficou olhando atentamente para Ellie e depois passou para mim. Prendi a respiração e olhei para minhas mãos.
– Linda pulseira. – mamãe disse.
Eu levantei a cabeça e percebi que ela estava falando comigo.
– Obrigada, minha mãe fez para mim. – respondi, focando meu olhar em seus olhos.
– Ela tem um ótimo gosto.
Eu gargalhei internamente e acho que Ellie também. Fala sério, ela se acha até sem saber que ela é ela, meu Deus.
– Tem mesmo. – respondi, tentando não gargalhar e estragar tudo.
– Se a senhora não se encomoda, nós vamos subir agora. – Ellie falou, segurando meu braço
Mamãe assentiu com a cabeça e nos deu passagem.
– Boa noite – eu disse quando passei.
Mas não virei quando ouvi ela sussurrar “Boa”.
Entramos na Granny’s e vimos Roland brincando com Ruby na bancada da cozinha e passamos direto para o quarto.
Entramos no quarto e Ellie passou a chave na porta, eu fui direto pra cama e me joguei nela.
– E aí? Já pensou o que faremos nesses dois dias que aquela bruxa maldita nos deu? – Ellie falou, deitando na cama dela do mesmo jeito que eu deitei na minha.
Eu suspirei e tirei o sapato dos meus pés que já estavam doloridos. Eu não pretendia ceder a chantagem da bruxa, não podíamos dizer de jeito nenhum que éramos. Me virei, apoiando nos cotovelos para ficar de frente para a Ellie e respondi:
– Eu não pretendo ceder, e você?
– Também não. – ela disse e nós suspiramos.
Passei uns dois minutos olhando para o teto e deixando meus pensamentos fluírem quanto eu virei para a Ellie de novo e falei:
– Tô preocupada com eles do futuro. Eles provavelmente acham que estamos mortas.
Ellie suspirou e falou, se virando para ficar de frente para mim:
– Eu tenho medo que mamãe faça alguma besteira. E o papai, Chris e Alex também.
O Alex! Que diabos de namorada eu era? Com tudo isso acontecendo, eu nem lembrei do Alex.
– Espero que o Alex não arrume qualquer uma para tomar o meu lugar, porque quando eu voltar eu extingo a possibilidade de ele ser pai alguma dia. – eu disse, fazendo Ellie gargalhar.
POV Alex – (Storybrooke, 2032)
Eu estava trancado no meu quarto desde que Henry me deu a notícia no começo do dia. Minhas lágrimas, já secas, grudavam no meu rosto. Eu estava sentado no chão, abraçado com meu travesseiro, que acho que foi a única coisa que sobrou inteira depois que eu destruí meu quarto no ascesso de raiva depois da notícia.
Henry disse que Ellie também foi morta, e eu imaginei o estado que o Chris estava. Henry disse que elas foram brutalmente mortas, e que o seus rostos estavam desfigurados. Senti o gosto salgado das minhas lágrimas, que voltaram a escorrer.
Meus pais estavam na sala, esperando eu abrir a porta. Minha mãe pediu para entrar inúmeras vezes e eu a ignorei. Eu não queria vê-los. Amo meu pais incondicionalmente, mas eles são príncipes, vão falar toda aquela balela que tudo vai acabar bem, e eu sei que não vai. Liv está morta. E eu não sei como qualquer coisa pode acabar bem sem ela.
Balancei a cabeça e respirei fundo, tentando não começar a chorar de novo. Decidi sair pela janela do meu quarto, para não encontrar os meus pais, e ir para a casa do Chris. Levantei do chão e olhei pela janela. Tinha escurecido não fazia muito tempo, e coloquei uma blusa e uma calça pretas e um tênis. Peguei um gorro cinza e pus na cabeça. Abri a janela e olhei para baixo. Meu quarto ficava no primeiro andar da nossa casa, mas eu já estava tão acostumado a fugir pela janela que a queda nem me amedrontava mais.
Pulei de vez e caí de um jeito que eu sabia que não me machucaria. Chris morava a quatro quarteirões da minha casa, então peguei a minha nos fundos de casa e tomei cuidado para evitar as janelas da sala. Saí pedalando e finalmente respirei fundo. Não pude evitar que o sorriso aparecesse em meu rosto quando lembrei da terça feira passada quando eu levei a Liv para um passeio na minha bicicleta. Eu pedalando e ela em cima do guidom. Ela gargalhava e abria os braços, fingindo ser um pássaro. Seu cabelo grande e negro cheirava a lavanda e fazia carinho no meu rosto e eu aproveitava cada minuto daquele momento de pura felicidade. Mas o sorriso morreu quando voltei das memórias que compartilhamos e voltei a onde eu estava e porque.
Enfim cheguei na casa do Chris. A luz da sala estava acesa e a do quarto do Chris estava desligada, mas resolvi entrar pela janela do quarto dele mesmo assim. Subi até o topo da árvore que ficava na frente da janela do Chris e fiquei de frente pra sua janela, que estava fechada. Bati na janela e não tive resposta.
Sussurrei seu nome e continuei sem resposta, silêncio total. Bati de novo e esperei. Nada. Já estava descendo da árvore quando ouvi a janela se abrir e olhei para cima. Seus olhos estavam vermelhos e o rosto, inchado. Provavelmente eu estava do mesmo jeito. Ele virou a cabeça, me chamando para entrar. Entrei no quarto, pelo menos ele não tinha quebrado tudo como eu. Ele estava deitado na cama, olhando para o teto com as mãos na cabeça. Eu sentei ao seu lado e suspirei.
– Cara... – eu comecei, me virando para ele, quando ele me abraçou de repente.
Nós éramos como irmãos, totalmente inseparáveis. E nesse momento de dor imensurável, não havia qualquer outra pessoa com quem eu queria e me sentiria confortável de estar. O abracei de volta e choramos juntos por um bom tempo, até que ele falou, com a voz embargada:
– Cara, isso tá meio gay.
E eu gargalhei, soltando ele. “Esse é o Chris que eu conheço”, pensei.
Funguei o nariz e sentei no chão, para poder encostar na cama.
– Eu não consigo imaginar o porque que fariam isso com elas, cara. – ele disse
Suspirei e respondi:
– Nem eu! Elas nunca deram motivos para ninguém!
Ficamos um tempo em silêncio e então eu falei, com ódio na voz e no olhar:
– Temos que encontrar quem fez isso.
– Nós vamos encontrar quem fez isso. E vamos vingar nossas meninas- ele disse, estendendo a mão para mim.
Olhei em seus olhos e apertei sua mão. Eu sabia que estaríamos juntos até o fim para vingar Liv e Ellie, só não sabia por onde começaríamos nossa vingança. Eu só sabia de uma coisa.
Essa seria uma longa noite.
POV Regina – (StoryBrooke, 2032)
Eu pedi para Robin ir comigo até o necrotério da cidade e, depois de muito relutância, ele me acompanhou pois sabia que eu iria de qualquer jeito. Quando chegamos lá, a legista nos levou até a sala onde elas estavam. Na porta da sala, Robin segurou a minha mão e nós entramos.
Um arrepio subiu por minha espinha quando as vi. Uma de cada lado da sala, deitadas em uma cama de pedra fria e cobertas por um lençol. Engoli o nó que se formou em minha garganta e respirei fundo. Primeiro fui para a que estava na minha direita e levei minhas mãos à boca. Senti meu queixo começar a tremer e as lágrimas embaçarem minha visão. Seu rosto estava desfigurado, brutalmente queimado e cortado, mas mesmo assim eu a reconheci. Seu cabelo castanho e sedoso estava intacto.
– Ellie... – sussurrei.
E então as memórias tomaram conta de mim.
Lembrei do dia em que Ellie, aos prantos, entrou em meu quarto, alegando um pesadelo horrível com um monstro devorador de crianças. Ela pediu para dormir conosco e entrou por debaixo das cobertas. Dois minutos depois Liv abriu nossa porta. Elas deviam ter menos de dez anos, pois ainda dormiam no mesmo quarto e Liv escutou o choro da irmã. Ela não falou nada, apenas entrou debaixo da coberta, deitou do lado da irmã e a abraçou. Lembro que Robin olhou para mim e nós sorrimos. Liv ficou fazendo carinho em uma mecha do cabelo da Ellie até as duas pegarem no sono e dormirem como anjos. Balancei a cabeça para afastar as memórias e vi que, sem perceber, também estava fazendo carinho em uma mecha do cabelo da Ellie. Fechei os olhos e respirei fundo, cobrindo-a de novo com o lençol.
E então olhei para o outro lado da sala e caminhei até ela. Quando cheguei perto, notei que sua mão não estava coberta e a toquei. Sua pele estava fria e sua mão, arranhada. Toquei na pulseira que fiz para ela e que ela nunca tirava do braço. Então, tirei o lençol do seu rosto, esperando que não estivesse tão desfigurando quanto o da irmã e suspirei. Estava do mesmo jeito. Massacrado, machucado. Senti as lágrimas escorrerem por meu rosto e depois senti o gosto salgado que elas tinham.
Sempre disseram que a Liv era mais parecida comigo e a Ellie com o Robin, e eu concordava, em parte. Quando a vi descer as escadas com um lindo vestido azul para seu aniversário de dezesseis anos eu já sabia que quando Liv crescesse, ela se tornaria muito mais linda do que eu algum dia fui.
Passei a mão por seu cabelo negro e não aguentei mais a dor, me virei para Robin e encostei meu rosto em seu peito. Ambos soluçávamos quando a legista achou melhor nos retirármos para que ela pudesse continuar com os procedimentos e liberar os corpos para o velório. Olhei mais uma vez para as minhas meninas e deixei uma última lágrima cair.
E então rumei para fora da sala, decidida a encontrar a próxima pessoa que deitaria em uma daquelas camas de pedra.
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