O Tempo Mudará
40 Capítulo 5 - " A Ordem da Fênix" - Parte 2
Notas iniciais
Capítulo 5 — " A Ordem da Fênix" — Parte 2
Fred entrou no quarto que ele e seu irmão dividiam na Sede da Ordem. Tudo era sempre igual: eles sempre dividiam um quarto. Ele andou e gemeu de dor nas costas. O dia tinha sido tão cansativo como todos os outros desde que eles tinham pisado naquela casa decrépita e foram obrigados a arrumarem tudo. Se jogando em sua cama, ele ficou olhando para o teto e pensando.
Ele e Jorge tinham tantos planos para esse verão. Tinham obtido a licença para aparatar e tinham pegado o prêmio que Harry lhes tinha dado. Jorge não tinha gostado de receber algo dele, mas Fred o convenceu, porque dinheiro é dinheiro independente de quem venha e, naquele momento, e mesmo agora, era uma coisa que eles precisavam para continuar produzindo suas mercadorias e continuarem pensando em coisas novas.
Eles tentavam não gastar muito em matéria prima, tentavam ser criativos, e, por esta razão, tinham capturado várias pragas que essa casa tinha escondida enquanto limpavam cada centímetro dela.
Fred bufou suavemente. Toda essa limpeza tinha que servir para alguma coisa. O problema foi que ao vir para cá, eles passaram a viver praticamente como prisioneiros, e sua mãe andava em cima deles o dia todo. Eles não podiam sair em hipótese alguma, então tiveram que inventar esconderijos no quarto para guardar suas mercadorias e tudo relacionado a elas. Se por acaso sua mãe descobrisse, ela destruiria tudo, já que era o que ela sempre fazia quando achava algo relacionado as “travessuras” deles.
Todo esse segredo era tão cansativo... ele queria tanto um laboratório, um espaço onde pudessem trabalhar sem precisar se preocupar com reprimendas ou surpresas inesperadas. Fred queria um lugar só para ele e Jorge morarem, sem a mãe deles respirando no cangote deles e tentando deter sua genialidade.
— Saiu cedo irmão, o que aconteceu?
Fred abriu os olhos de susto e viu seu irmão Jorge sentado na cama. Ele tinha aparatado para dentro do quarto de novo.
— Já falei para parar com isso. Está querendo me matar do coração? – Fred perguntou com raiva, se sentando na cama.
— Está falando igual a nossa mãe. – Jorge falou sorrindo.
— Fazer isso com a mãe ou outros não tem problema, mas entre nós é sacanagem.
— Tudo bem, calma. – Jorge falou levantando as mãos em rendição – Prometo não fazer isso de novo. Então, porque saiu cedo da festa de comemoração da libertação do Santo Harry? – Jorge perguntou ironicamente jogando os pés na cama e se deitando.
Fred suspirou em desânimo. Hoje era 12 de agosto, o dia marcado para o julgamento do Harry. Sua acusação era ter usado magia fora da escola e na frente de um trouxa, quebrando assim, o Estatuto de Sigilo. O Ministério, como sempre, tinha armado um circo mutante, e ao invés de uma simples audiência disciplinar, ocorreu um julgamento da Suprema Corte. Harry tinha sido inocentado; isso porquê Dumbledore alegou que Harry tinha usado magia em legítima defesa ao ser atacado pelos Dementadores. Resultado: Potter estava livre de todas as acusações e poderia voltar para Hogwarts. Ou seja, pura felicidade para alguns e desgosto eterno para outros. Seu irmão e ele inclusos nesse segundo grupo.
— Eu estava cansado e não aguentava mais aquela comemoração patética. Por falar nisso, já acabou? – Fred perguntou.
— Eles ainda estão lá. Eu vi você saindo e resolvi segurar mais tempo lá para não ficar óbvio nosso desagrado.
— É um saco ficar sorrindo o tempo todo. – comentou Fred indo até a escrivaninha e olhando alguns papeis — Principalmente quando tal coisa para nós não é motivo nenhum de felicidade.
— Nós criamos uma máscara irmão. Devemos mantê-la até quando pudermos. Ninguém pode saber a verdade do que realmente fazemos. Ninguém pode entender sobre o que as genialidades Weasley realmente tratam. – Jorge disse sério.
— Até quando ficaremos assim Jorge? – Fred falou com raiva largando os papeis em cima da mesa e se virando para o irmão – Até quando viveremos desse jeito, nos escondendo, escondendo nosso trabalho?
— Você bem sabe que nossa família e principalmente o lado da luz não apreciaria o nosso verdadeiro trabalho irmão. E é por isso que ele deve ficar escondido até quando tivermos dinheiro suficiente para sairmos de casa, virarmos as costas para eles e podermos nos dedicar ao nosso trabalho de verdade. E o único jeito de conseguirmos fazer isso é com os produtos que todos conhecem e acreditam que nós vendemos. – Jorge disse, sentando e olhando para o irmão.
— Mas sabe-se lá quanto tempo vai demorar até termos dinheiro suficiente para conseguirmos isso. Uma guerra está para acontecer e nossa família exigirá que lutemos por uma coisa que nós nem acreditamos realmente. Iremos desperdiçar a nossa vida e iremos morrer por algo que não queremos. Já basta viver em uma mentira, será que morreremos nela também? – Fred falou esfregando o rosto com as mãos.
— Eu sei disso e também não quero morrer assim. – Jorge abriu os braços fazendo referência ao quarto – Mas por enquanto não temos outra escolha.
— Teríamos, se tivéssemos dinheiro. – Fred resmungou em voz baixa.
— Mas não temos. – Jorge falou pulando da cama e olhando sério para o irmão. – Portanto se contente com o que temos por enquanto, e se quer mais, devemos trabalhar mais, pensar mais e vendermos mais.
— Tudo bem. – Fred suspirou e achou melhor mudar de assunto. – Eu estava pensando em verificar quantas fadas mordentes restaram.
— Não precisa. Sobraram duas. Tínhamos conseguido esconder cinco, mas nossa mãe já se livrou de três delas. – Jorge disse desanimadamente. As fadas mordentes eram confundidas com fadas normais. Como podiam se esconder em lugares escuros e se multiplicarem em grande quantidade, eram vistas como pragas no Mundo Mágico, e a mordida dela era venenosa.
— Bom, um mero preço a se pagar pela nossa genialidade irmão. – Fred comentou enquanto afastava sua cama, abria o assoalho de madeira e olhava dentro. Lá havia vários baús, bem pequenos, que poderiam caber na palma de uma mão. Fred pegou um que era vermelho. – Se bem que teríamos muitos mais se não tivéssemos usado dois para fazer uma das pastilhas das Caixas de Coceira.
— Não podíamos fazer nada Fred. Como iriamos explicar ao Harry o fato de não termos as Caixas de Coceira?
— Iriamos mentir como sempre fazemos, e você bem sabe que do jeito que as coisas estão, ninguém notaria. – Fred comentou enquanto se levantava com o mini baú e o colocava em cima da cama. – Pensar nas nossas mercadorias é uma das últimas coisas que Harry está fazendo.
— Pode ser, mas prefiro não arriscar. E mais, ainda precisamos terminar as caixas e as outras brincadeiras. – Jorge falou enquanto via seu irmão passar a varinha em volta da bolsa e logo ela, que cabia na mão dele, ficou bem maior do tamanho de um baú normal de viajem. Fred levantou a tampa e colocou o braço dentro dele procurando algo.
— Está procurando o quê? – Jorge perguntou.
— As Caixas de Coceira. Não estou achando. – Fred resmungou enquanto continuava a mexer no baú.
— Devem estar lá no fundo. – Jorge sugeriu ao ver a dificuldade.
— Se estão lá no fundo você vai ter que me segurar. Vem. – Fred mandou, começando a se inclinar para dentro do baú.
— Accio Caixas de Coceira! – Jorge disse.
Fred ouviu o feitiço e quase não teve tempo de tirar sua cara de dentro do baú, quando mais ou menos 20 caixas saíram de dentro e pousaram no chão. Ele olhou com raiva para o irmão que estava segurou as caixas empilhadas uma em cima da outra e as colocou em cima da cama.
— Ah, para! Você é um bruxo ou o quê? – Jorge resmungou ao ver a cara dele.
— Podia ter me avisado, quase quebrou meu nariz!
— Seu nariz está intacto, para de drama. – Jorge falou, rolando os olhos. – Anda logo, temos várias encomendas para colocar no correio para entrega e como você estava reclamando sobre dinheiro, precisamos terminá-las se quisermos lucrar algo.
Fred suspirou. Como tinha hora que ele queria estripar seu irmão. Ele se aproximou e abriu uma das caixas. Todas tinham o sinal da marca deles: o W de Weasley. Dentro tinha várias pastilhas vermelhas, verdes, amarelas, azuis e vidrinhos com poções, cada um deles com objetivos diferentes.
— Qualquer aluno de Hogwarts ou outra escola, daria qualquer coisa para o que tem dentro dessas caixas, mano. – falou Jorge pegando a pastilha amarela, que, ao ser comida, fazia a pessoa começar a vomitar. Fred pegou a pastilha vermelha que deveria ser comida depois da amarela para ficar saudável de novo.
— A maioria desses produtos venderemos para crianças que não podem pagar valores muitos altos, mas que ainda assim irão pagar qualquer coisa. – Fred comentou enquanto pegava a pastilha roxa que causava hemorragia nasal. Todos os produtos da Caixa de Coceira fariam com que uma pessoa ficasse doente por um determinado período de tempo. Um dos objetivos deles, era fazer com que os alunos matassem aula, mas poderia ser usado em outros momentos como, talvez, evitar um encontro. Porém, isso iria depender da pessoa que os comprasse.
— É uma pena que mesmo arrecadando esse dinheiro, ainda não será suficiente para concretizarmos os nossos planos. O que conseguimos arrecadar somente dá para comprar mais ingredientes para esse ramo das genialidades. A verdade é que se pudéssemos vender os produtos do nosso outro ramo, teríamos um lucro muito maior e bem mais vantajoso. – Jorge disse.
— Claro, mas isso só poderia acontecer se os vendêssemos na Travessa do Tranco; o que não podemos fazer, e se tivéssemos os clientes adequados; coisa que também não temos por aqui. – Fred falou, colocando as pastilhas de volta na caixa e fechando.
— Clientes adequados não faltariam, pois como você bem disse, entraremos em guerra em um futuro não tão distante. – Jorge falou, indo até o armário deles. Afastou as roupas e forçou o dedo para afastar a madeira do fundo do armário, que revelou um espaço bem pequeno dentro. Havia um baú vermelho parecido com o outro que estava em cima da cama. Jorge pegou o baú e fechou o compartimento secreto. Esse era mais um método que eles tiveram que arranjar para esconder de sua mãe as coisas que faziam escondidos.
Jorge andou até seu irmão que tinha começado a embrulhar as caixas para enviar para a entrega.
— E logo não faltarão clientes menos honrados para comprar nossas mercadorias. E as vendendo pelo preço que elas merecem, teremos os galeões para sairmos daqui. – Jorge disse esperançoso.
— Olhe só isso, nossa pequena ideia genial. – Fred falou sorrindo, pegando o saquinho de balas azuis de dentro do baú vermelho sangue. Elas tinham sido feitas a partir do veneno das fadas mordentes, que causava uma doença chamada mordioestriose. Os principais sintomas da doença eram o aumento anormal das batidas cardíacas e dificuldade respiratória, chegando a obstruir a passagem do ar nos pulmões. E quando chegavam a corrente sanguínea, após 20 horas, o veneno destruía os ventrículos dos pulmões, que tem a função de transportar oxigênio, levando o indivíduo a uma morte lenta e agonizante.
— E nós por acaso produzimos idiotices? – Jorge perguntou ironicamente.
— Elas estão acabando Jorge. – Fred disse sério. – Os galeões que Harry nos deu estão acabando rápido demais. Precisamos de mais rapidamente.
— Já conversamos sobre isso, não venderemos mais do que já vendemos. – Jorge falou apontando para as caixas em cima da cama. – Não sei como arranjaremos mais dinheiro. Tudo o que conseguimos serve apenas para as brincadeiras e genialidades comuns. O nosso dom de verdade não pode ser mostrado, por isso, nunca vamos conseguir outro patrocinador. Esqueça. Teremos que parar a fabricação das artes negras por tempo indeterminado.
— Ou isso ou precisaremos de um parceiro, alguém que nos desse galeões que nos patrocinasse. – Fred disse.
— Jura? Chegou a essa conclusão sozinho? – Jorge disse sarcasticamente – E quem você sugere, se eu acabei de dizer que não temos ninguém? Nenhuma pessoa irá nos ajudar nisso! São artes negras. – Jorge andou de um lado a outro. – Ah, já sei, vamos pedir ao Harry. Tenho certeza que ele adoraria nos ajudar nos nossos projetos escuros! – Jorge disse com raiva.
Suspirando, cansado, Jorge disse:
— Olha, vamos fazer o seguinte. Vamos continuar embrulhando as encomendas e depois despachá-las pelas corujas e receber nosso dinheiro. Não chegaremos a um acordo quanto a isso. Só espero que consigamos uma ajuda o mais rápido possível.
Fred concordou, mas quando ia pegar o papel de embrulho ele viu uma sombra passando debaixo da porta. Será que tinha alguém lá? E se essa pessoa tivesse ouvido algo que eles tinham conversado? Ele verificou se seu irmão tinha colocado o feitiço de silenciamento, já que ele mesmo quando entrou no quarto não o colocou. Tirou a varinha do bolso para realizar os feitiços e viu que não tinha nenhum.
— Jorge. – Fred sussurrou. – Você não colocou nenhum feitiço de silenciamento.
Jorge olhou para o irmão e viu que ele estava olhando fixamente para a porta. Compreendendo que poderiam estar em apuros, ele sacou sua varinha também.
— Não, porque? Deveria? – sussurrou também. – Você já não tinha colocado?
— Eu não coloquei. – Fred sussurrou com raiva.
— O quê? – Jorge exclamou alto.
Fred bateu nele com o papel que segurava.
— Fala baixo caramba! – e fez um gesto com a mão para diminuir o som.
Ele apontou para a porta. Jorge arregalou os olhos quando viu a sombra parada no chão. Droga, e se alguém tinha ouvido o que eles tinham conversado? Não era como se durante a conversa eles tivesse falado baixo. Se alguém nessa casa descobrisse ou soubesse metade das coisas que eles conversaram, eles estariam perdidos. Os dois olharam um para o outro e chegaram a uma compreensão mútua: a pessoa que estava lá fora teria que esquecer tudo o que ouviu ou... morrer.
Jorge andou até porta e a sombra continuava lá. Ele segurou a sua varinha com firmeza, colocou a mão na maçaneta da porta e a abriu... Nada. Do lado de fora não havia nada, o corredor estava vazio. Fred olhou para o corredor vazio e suspirou de alívio. Mas ele podia ver que Jorge continuava desconfiado pelo jeito que ele franzia a testa. Fechando a porta de novo, os dois olharam para debaixo da porta e não havia sombra alguma. Havia a luz do corredor apenas.
Os minutos passaram e ambos não se mexeram.
— Alguém estava aqui. – Jorge disse.
— Sim, estava. Mas quem era e o que isso significa para nós? – Fred disse amargamente.
oOoOoOoOoOoOoOo
Jorge estava subindo as escadas para o quarto com a carta dele e de seu irmão nas mãos. Fred estava bem atrás dele. As cartas tinham acabado de chegar pelas corujas o que já não era sem tempo; ele já estava achando que elas não chegariam nunca e hoje já era o último dia de férias. Graças a Deus, amanhã eles finalmente estariam voltando para Hogwarts.
Eles entraram no quarto e Jorge colocou o feitiço de silenciamento no quarto. Depois da última vez, era melhor não arriscar. Até agora eles ainda não tinham descoberto o quê era ou a quem pertencia a sombra debaixo da porta que tinha aparecido misteriosamente dias atrás. Ninguém na casa tinha comentado nada, nem estava agindo diferente com eles. Suspirando, Jorge achou melhor tentar esquecer isso e ser mais cuidadoso. Não adiantava ficar preocupado com algo que todo mundo desconhecia.
Ele se sentou na cama, quando Fred sentou na cadeira ao lado da escrivaninha e começou a ler a carta.
— Nenhum livro novo. – uma pausa – Ah, somente o de Defesa Contra as Artes das Trevas, como todos os anos. – Fred rolou os olhos.
Jorge abriu sua própria carta e viu o nome do livro que seu irmão tinha comentado. Ele se lembrava de já ter visto esse livro em algum lugar.
— Eu lembro desse livro. Já o vi na livraria mofando. A capa é cheia desenhos infantis... Ah, era o livro mais idiota que já peguei nas mãos. Eu o descartei e nem cheguei a abrir, pensando o que um livro de defesa com uma capa daquela teria dentro.
— Um livro com desenhos infantis. – Fred repetiu descrente. — Já estou até vendo a figura que vai ser o nosso professor de defesa este ano.
— E o pior é que esse ano, é o ano dos nossos N.I.E.M´s. – Jorge o lembrou.
— Nem me fala. – Fred gemeu, se jogando na cama.
Pensativo, Jorge mudou rapidamente de assunto.
— Agora me fala, o que você achou do Rony ser nomeado monitor?
— Que finalmente o nosso trabalho de todos esses anos deu fruto e a McGonagall ficou louca. – Fred respondeu prontamente.
— Eu estou falando sério. – Jorge falou em tom de brincadeira jogando o travesseiro no irmão.
Fred pegou o travesseiro rindo e o colocou debaixo da cabeça.
— Eu também estou falando sério! Ou você acha que ela não ficou louca dando o crachá de monitor para aquele idiota?
— McGonagall é tudo, menos louca. Para mim, tem dedo do Velho.
— Do Dumbledore? – Fred perguntou.
Jorge acenou com a cabeça.
— Quem mais? Eu sempre achei que o monitor ia ser o Harry, e aí eles me vêm com essa de nomearem o Rony? A Hermione não é novidade, mas o Rony é demais...
— Harry não ficou nem um pouco feliz. – Fred sorrindo ironicamente para o irmão – Ele tentou disfarçar, mas estava na cara.
— É logico. Harry não é o mais estudioso, mas comparado com o Rony ele é um gênio. E mesmo que sempre esteja arranjando confusão, ele ainda é melhor do que nosso irmão em várias coisas, e quando se trata da escola então nem se fala.
— Se foi o Dumbledore, ele provavelmente deve ter usando o argumento de que considerando que Você Sabe Quem voltou, o pobre Harry estaria com muitas coisas na cabeça e os deveres de monitor seriam demais para ele. A pobre criança deve estar desolada. – Fred disse ironicamente, sorrindo – Quem houve ele falando até acha que o Harry é um capucho de algodão de tão frágil
Jorge ficou em silêncio por um tempo, pensando.
— Você reparou?
— O quê? – Fred perguntou.
— O Velho anda evitando o Harry como o diabo foge da cruz. Alguma coisa está acontecendo. – Jorge falou se levantando da cama. Ele caminhou até a janela – Eu sei que não conseguimos ouvir muito do que eles falam na reunião, mas dá para ver que a Ordem está estagnada e que não sabem realmente o que fazer.
— E eles são tecnicamente a nossa linha de frente contra Você Sabe Quem. Vamos acabar mortos se isso continuar, Jorge. – Fred disse sério.
Jorge deu um murro com força na janela, e disse:
— Deveríamos nos juntar ao Voldemort.
— Jorge, o que é isso aqui?
Jorge ouviu seu irmão perguntar e se virou para ele. Os olhos de Fred estavam arregalados.
— O quê? – Jorge perguntou a ele. – Vai me dizer que nunca pensou nisso?
Fred se levantou, balançou a cabeça e apontou o dedo para frente. George olhou para onde ele apontava e viu que era para a mesa onde eles faziam a maioria dos seus experimentos. Mas não era isso o que interessava e sim o papel em cima da mesa que estava brilhando fortemente. E que tinha aparecido do nada.
— O que é isso? Parece algum tipo de pergaminho. – Fred perguntou ao lado dele.
Seja lá o que fosse aquilo não era criação de nenhum deles. O brilho do papel começou a diminuir, até que sumiu completamente. Fred estendeu a mão para o pergaminho e o pegou. Ele era preto e parecia que tinha algo escrito nele em prata. Fred começou a ler em voz alta:
“Caros Srs. Weasley,
Sei que vocês devem estar estranhando tal carta.
Não só como ela apareceu no quarto de vocês, mas principalmente quem a enviou.
Sinto lhes informar, mas essas respostas vocês não encontrarão aqui.
Sei que são alunos de Hogwarts e logo cursarão seu último ano. Sei que seus anos lá não foram os mais calmos; não só por razões externas, mas também por causa de vocês mesmos, que não foram os alunos mais calmos ou disciplinados de Hogwarts.
Chegou a meu conhecimento que vocês, conhecidos como Os Brincalhões de Hogwarts, futuros empresários, querem abrir uma loja de brincadeiras.
Mas eu sei a verdade, a verdade que vocês tão fervorosamente escondem e que ao mesmo tempo estão desesperados para revelar. Eu sei que suas brincadeiras nada mais são do que meios arranjados para aplacar sua verdadeira vontade: a destruição.
Vocês pertencem a família Weasley, uma família puro-sangue, mas considerada por muitos como traidores do sangue. Vocês são frutos de uma família com sete filhos e com um pai que não possui os melhores dos empregos; ou ambição – diga-se de passagem. E, o mais importante: vocês estão passando por problemas financeiros.
Por esta razão, sempre quiseram sair da pobreza. Vocês são diferentes dos seus irmãos, que tem uma vidinha pacata e honesta. Vocês têm como objetivo abrir uma loja de brincadeiras que pode vir a ser um grande sucesso. Esse é o único meio de vocês terem dinheiro suficiente para saírem da casa dos seus pais; para serem livres e poderem viver a verdadeira vida que vocês querem ter.
Sei sobre a sua verdadeira mercadoria, aquela que vocês gostariam de fabricar livremente, sem precisarem esconder num baú dentro do armário. Eu sei que vocês gostariam de vendê-las, mas não tem acesso aos compradores adequados. Sei que tentam esconder esse amor pelas trevas de sua família, com medo que eles irão renegá-los.
Bem, tenho uma proposta para lhes fazer. Talvez vocês a achem interessante.
Uma guerra está vindo e vocês não querem serem pegos no meio dela, ou do lado errado dela. E vocês sabem que onde estão agora é o lado errado. O lado perdedor. A minha proposta é bem simples: vou me tornar a benfeitora de vocês. Vou dar dinheiro para que vocês possam comprar ingredientes para seus produtos menos honráveis; e irei proporcionar os compradores adequados para o seu tipo de mercadoria.
Vocês já devem ter imaginado que não sou uma pessoa do lado da luz. E mesmo que se perguntem, eu não vou dizer quem eu sou. Não direi como sei tudo que está escrito aqui, embora ache que vocês já desconfiam. Eu não irei dizer como a carta foi parar nas mãos de vocês. Isso somente será respondido no momento certo. No entanto, posso garantir sou uma pessoa que fará bom uso de todos os seus produtos.
No final da folha existem duas palavras: SIM e NÃO. Essas palavras irão decidir o destino de vocês. Se negarem minha oferta, tal carta irá desaparecer. Se aceitarem, ela ainda irá desaparecer, mas no lugar dela se encontrará a primeira parcela do que vocês merecem receber.
Pensem com cuidado.
Espero que façam a escolha certa.
Atenciosamente
Sua benfeitora”
SIM ( ) NÃO ( )
Quando Fred terminou de ler, um silêncio absoluto se fez no quarto. Os dois irmãos estavam tensos e desesperados.
Por fim, Fred quebrou o silêncio.
— Como ela sabe de tudo isso? – sua voz era um sussurro.
— E-Eu não sei. Mas, seja lá quem for... sabe de tudo.
— O que você acha? — Fred perguntou.
— Eu sinceramente não sei. E se for uma armadilha? – Jorge perguntou preocupado. Tal proposta poderia ser tanto sua ruína, quanto sua salvação.
— É nossa única chance de sairmos daqui. De fazermos algo mais da nossa vida. E ela está certa, há uma guerra vindo e não quero ser pego do lado errado.
— Devemos aceitar então? – Jorge perguntou resoluto.
— Acho que sim. Mas não vou marcar esse SIM, sem o seu apoio, irmão. – Fred respondeu.
Jorge sabia que essa poderia ser a chance deles de terem uma vida melhor, de poderem trabalhar livremente no trabalho deles, de ter uma casa, um laboratório... Isso ia ser um verdadeiro sonho! E só ia acontecer se eles tivessem dinheiro. O dinheiro que essa benfeitora daria seria a solução perfeita para seus problemas. E, além do empréstimo, ela se comprometeu também a indicar os clientes que comprariam os produtos proibidos. É obvio que ela não era do lado de luz, mas eles podiam confiar numa benfeitora misteriosa? Será que ela era uma Comensal da Morte? Droga, mas isso realmente não importava. Ele já tinha se decidido.
— Vamos aceitar. – Jorge falou, olhando para Fred com firmeza.
— Certeza?
— Sim. E espero que dê tudo certo. – Jorge comentou, pegando a carta da mão do Fred. Indo até a mesa, ele pegou uma pena e marcou o SIM.
Jorge olhou para carta e pulou para trás quando ela começou a pegar fogo. Ele olhou para o seu irmão e seus olhos se encontraram. Ansiosos, olharam de volta para a mesa onde agora só havia cinzas e algo incrível aconteceu: as cinzas começaram a se mexer e se compactarem como se estivessem se tornando algo sólido. Logo, um saco se formou na frente deles parecendo claramente pesado.
Fred se aproximou de forma cautelosa e encostou no saco esperando algo acontecer, mas o saco permaneceu inanimado. Achando que estavam seguros, ele abriu o saco que estava amarrado e deu um suspiro quando viu o que tinha dentro.
Jorge foi até ele, preocupado com sua reação, mas quando olhou para o interior do saco também suspirou ao ver a quantidade de ouro.
— Quanto você acha que tem aqui dentro? – Jorge perguntou pegando um dos galeões e verificando se eram verdadeiros já que lembrava bem da vez que Bagman os tinha enganado na Copa Mundial.
— Olha isso?!! – Fred exclamou extasiado, pegando um papel dentro do saco e começando a ler.
“Caros Frederico e Jorge.
Agora que vocês aceitaram minha oferta, significa que somos sócios. Acredito que possa tratá-los por seus nomes, embora ainda não possa dizer o meu.
Dentro desse saco tem exatos 4 mil galeões. É o suficiente para comprarem ingredientes não só para o seu verdadeiro negócio, como também para suas brincadeiras. Podem utilizar o dinheiro com vocês mesmos, se preferirem, mas aconselho que tomem cuidado. Toda discrição é pouca.
Entrarei em contato com vocês logo; não só para enviar mais dinheiro, como para lhes dar algumas instruções quanto a algumas ideias de produtos que eu gostaria que vocês fizessem.
Irei enviar um assistente para pegar o lote, quando vocês terminarem.
Desejo que esse seja o primeiro passo de uma longa parceria e espero que vocês deixem toda a imaginação e crueldade fluir quando estiverem trabalhando nisso.
Eu gosto das coisas bem-feitas, e odiaria mudar minha opinião a respeito da mercadoria de vocês.
Vocês escolheram o lado certo. Trabalhem bem. Me impressionem.
É o que espero de vocês, pelo menos por agora.
Atenciosamente
Sua Benfeitora”
Jorge e Fred suspiraram juntos, completamente chocados.
— Meu Deus, 4 mil galeões? – Jorge quase não respirava.
— É o que parece. Obviamente tem um feitiço de expansão dentro do saco para caber tantos galeões assim. Mas, acima disso, temos que fazer as coisas corretamente. Você viu como ela foi direta. Suas ameaças não me passaram despercebidas. – Fred disse.
— Nem a mim, irmão. Mas, não temos nada com que nos preocupar. Vamos fazer o que mais amamos e ainda seremos pagos para isso. Tudo vai dar certo. Acredite nisso.
— Eu acredito, Jorge.
— Bom, agora temos que dar um próximo passo. – Jorge disse sorrindo, pegando um punhado de ouro.
— Sim. – Fred disse sorrindo também. – Vamos trabalhar!
oOoOoOoOoOoOoOoOo
De um quarto acima daquele, Hermione estava sentada olhando pela janela, e com sua mala já pronta para ir para Hogwarts. Ela desviou os olhos para a carta em papel negro que havia se materializado na sua mão e sorriu cruelmente.
Ah, esse ano tinha tudo para ser muito interessante.
oOoOoOoOoOoOoOoOoOo
Luna terminou de cavar buracos com uma pequena pá. Suas mãos, roupas e cabelos estavam completamente sujos de terra úmida. Ao seu lado, vários potinhos contendo ervas medicinais estavam espalhados, prontos para serem replantados na terra. O dia ainda demoraria um pouco para nascer, era a hora perfeita para plantar algumas ervas que ela cultivava.
— Eu amo a noite. As estrelas ficam tão brilhantes... Vocês não acham?
Quem estivesse próximo a ela a acharia completamente louca. Ou, no mínimo, excêntrica. Mas Luna Lovegood não era uma menina que se preocupava com a opinião dos outros a seu respeito. Ela sempre evitava qualquer contato com os outros bruxos e, quando o contato era inevitável, eles nunca tinham paciência para ouvi-la.
Problema deles. Eles não sabiam quem ela era de fato.
Terminando de plantar as ervas, ela se levantou e disse para, aparentemente, ninguém:
— Não ousem estraçalhar as minhas plantas.
Caminhando, ela começou a dar rodopios longos até chegar em casa. Batendo a porta, ela ouviu o “tec, tec” que denunciava que seu pai ainda estava trabalhando em algum artigo para o jornal bruxo chamado Pasquim. Mais uma vez, ele não tinha dormido. Infelizmente, eles não tinham muitos leitores, já que praticamente todas as pessoas achavam que os artigos de seu pai eram ridículos, estúpidos e mentirosos. Porém, Luna não se importava. Ela sabia que depois da morte trágica de sua mãe, seu pai havia ficado meio à parte do mundo. Nem a própria Luna conseguia entendê-lo às vezes... Mesmo com o dom que herdou de sua mãe.
Muitos já não se lembravam, mas os Lovegood, a centenas de anos, eram uma família puro-sangue muito poderosa, com muito prestígio e poder. Mas, infelizmente, eles tinham perdido seu prestigio ao longo dos anos, sendo até mesmo alvo de chacotas.
Porém, mesmo isso tendo acontecido, havia uma coisa que eles não tinham perdido: o fato de descenderem de uma longa linhagem de videntes, embora o dom pulasse algumas gerações e por isso, muitos do Mundo Mágico acabaram esquecendo que eles tinham esses poderes.
Luna olhou na direção do escritório do pai e deu um grande suspiro. Seu pai era uma prova viva do fato do dom pular gerações: ele não era um vidente – obviamente. Mas a mãe de Luna, Pandora, tinha sido. Sua mãe era prima de seu pai e, portanto, uma Lovegood também por nascimento. E seu dom estremeceu as bases do Mundo Mágico.
A mãe de Luna era a mais forte bruxa advinha que já existiu nos últimos séculos. Muito mais do que Cassandra Trelawney, que foi uma vidente muito famosa e reconhecida pelo Mundo Mágico por suas profecias concretizadas. No entanto, era somente até aí que ela ia – ela somente recebia profecias, que o Destino lhe enviava, ela nunca pôde ver o futuro de fato ou mesmo prevê-lo. Diferente do que muitos achavam, Cassandra Trelawney no quesito vidente era uma farsa.
O destino somente permitiu “achismos” aos Trelawney; bem diferente do que deu aos Lovegood: a capacidade total de se conectar as rodas do Destino – passado, presente e futuro – permitindo que tudo estivesse ao alcance de suas mãos. Para os Lovegood, quanto mais forte era a sua magia, maior era a sua capacidade de se conectar com a roda do Destino e ver o que ele guardava para todos.
Daqueles que eram agraciados com o dom, alguns podiam prever o futuro, outros podiam analisar o presente, vendo os acontecimentos de vários lugares na mesma hora; e outros ainda podiam analisar o passado, quando quisessem. Mas a mãe de Luna era diferente, o poder do Destino era completo em suas mãos.
Aos 14 anos, a idade da própria Luna agora, Pandora podia ver o futuro das pessoas, bem como seu passado. Além de verificar a localização de pessoas no presente, seguindo seus rastros através das sombras. Isso não era muito difícil de conseguir, afinal de contas, uma sombra pode ser projetada em qualquer lugar, desde que haja uma forte luz para fazê-la aparecer. Pelo que Luna leu em algumas anotações da mãe, uma viagem nas sombras ou era bem-sucedida ou te matava. Assim, Luna concluiu que sua mãe era realmente uma vidente excepcional.
Luna tinha herdado o Dom também. Ela analisava o passado e o futuro de uma forma muito boa, apesar de algumas imagens não estarem muito definidas em sua visão. Porém, ela nunca havia tentado fazer uma viagem pelas sombras. Ela havia lido algumas anotações da mãe, mas o poder envolvido naquilo era muito grande. Mas mesmo temendo, Luna tinha uma ânsia de tentar. Só faltava uma oportunidade.
A mãe de Luna havia morrido 5 anos atrás. Para o mundo bruxo, ela era uma pesquisadora, criava feitiços e tinha morrido em uma explosão provocada por um de seus experimentos. Mas Luna estava lá, ela sabia da verdade daquele dia, o dia que nem mesmo sua mãe previu. Na realidade, sua mãe tinha sido assassinada. Não no sentido literal da palavra, mas Luna não conseguia explicar isso de outro de modo ou chamar o que aconteceu por outro nome.
Sua mãe tinha uma saúde frágil. Quando ela foi obrigada a usar seus poderes em excesso e sem se abastecer sob uma imensa tortura, ela acabou não resistindo e morreu. Tudo por causa dele. Por causa daquele maldito.
Luna se assustou quando percebeu que já estava em seu quarto. Ela estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu que havia andado até lá. Ela olhou na direção do parapeito da janela e viu que ali tinha um vaso quebrado. Foi o barulho dele explodindo e caindo que tirou ela de seu devaneio. Luna deveria ter feito magia acidental de novo...Isso sempre acontecia quando ela pensava nele, quando se lembrava daquele dia, embora o maldito tenha tentado fazê-la esquecer. Mas, chega! Ela não queria continuar pensando nisso ou iria acabar quebrando outra coisa.
Luna foi em direção ao vaso, o pegou e jogou no lixo. Ela olhou pela janela para os terrenos de sua casa; no final da colina ela quase podia ver a casa dos Weasley. Estava aí uma família que ela não era muito fã. Bem pouco na verdade, embora alguns se salvassem. Ela gostava bastante de Gina, se sentia muito conectada com aquela menina, porquê assim como ela, Gina escondia seu verdadeiro eu. Luna a considerava uma quase amiga, mas se sentia mal pelo fato de esconder seus poderes dela. Apesar que se fossem pensar, as duas estavam quites, porque Gina nunca contou a verdade sobre sua verdadeira natureza. Luna apenas percebeu porque era observadora demais. Esperava que um dia as coisas mudassem e elas pudessem ser mais próximas. Luna não sabia porque, mas ela pressentia que este dia estava próximo.
Luna ficava triste toda vez que tinha que esconder seu dom. Nem mesmo seu pai adivinhava o quão longe ela conseguia chegar apenas usando uma parte de sua força. Esse seria um motivo de intensa alegria para sua família, não é? Ser tão poderosa! Mas, não. O mundo bruxo cobrava um preço pelos dons dados.
O dom da adivinhação consumia muita energia de Luna, que poderia ser parcialmente recuperado se ela ingerisse doces, glicose... Existiam outros métodos, claro, mas ela não podia usá-los sempre ou as pessoas poderiam começar a desconfiar. Ela somente conseguia usá-los uma vez ao mês. Mas isso era a história para outro momento... Resultado: Luna praticamente era uma enciclopédia ambulante de dados nutricionais de doces e guloseimas. Sua bolsa andava sempre abarrotada de doces sem fim, junto com um pequeno frasco para medir sua glicose. Era muito ruim ter que andar por qualquer lugar com uma sacola cheia de guloseimas. Uma coisa boa de ser bruxa, é que ela podia esconder aquilo.
Outra coisa que fazia de Luna alguém especial, era o vento. Sim, isso mesmo. E não, ela não estava louca. O vento trazia histórias muito úteis e interessantes. Seus sussurros constantes deixavam Luna fora da realidade por vários minutos. Às vezes, se a história era interessante, ela ficava ausente por horas. Normalmente, nessas ocasiões, as pessoas a encontravam olhando para o nada com uma cara de boba... O que não contribuía em nada para os boatos a respeito de sua loucura diminuírem.
Na verdade, era até muito divertido. Luna caminhava pelos campos próximos de sua casa e encontrava pessoas a encarando e cochichando sem nem sequer disfarçar. Ela então ouvia o vento e escutava histórias horríveis e cabeludas dessas pessoas. Depois, ela conseguia uma pequena vingança, contando de traições de maridos, esposas, amigos, vizinhos e afins.
Por causa dessa capacidade do vento, ela conseguia suprir, por enquanto, a incapacidade de ainda não conseguir ver o presente. Isso a irritava e dava medo ao mesmo tempo.
Porém, era gratificante escutar que as pessoas sofriam terrivelmente com alguns pauzinhos que ela movimentava; uma carta anônima aqui, uma indicação ali e todos os seus segredos e podres eram revelados. Uma pequena retribuição por tudo que eles a faziam passar. Só de pensar nas pequenas maquinações, seu sangue fervia de entusiasmo.
Ok, ela admitia: no fundo, ela não era uma boa menina. E isto... Era outra coisa que as pessoas não sabiam.
Luna odiava se fazer de boazinha o tempo todo. Por causa disso, os boatos a respeito dela e de sua família vinham a calhar. Ela se utilizava dos segredos descobertos das pessoas como uma forma de vingança, e ainda conseguia extravasar seu desejo por sangue e sua raiva por aquele maldito e todos que o seguiam.
Ela conseguia camuflar seus instintos com uma cara de boba e palavras inúteis. Na verdade, não é que ela não acreditava nisso; no fundo, ela tinha certeza que tudo o que dizia era verdade. Como, por exemplo, que os zonzóbulos existiam – eles conseguiam entrar pelos ouvidos e embaralhar o cérebro das pessoas completamente. Ou também os narguilés ou os bufadores de chifre enrugados.
Só que tais seres não podem ser vistos por pessoas sem capacidades premonitórias bem fortes. E como essas pessoas eram muito raras, apenas Luna enxergava tais seres místicos. Mas já que ninguém a entendia, ela apenas vivia sua vida sem problemas e xeretando os segredos dos outros.
Suspirando com seus pensamentos, Luna olhou para suas mãos e viu que estavam sujas. Ela tinha que tomar um longo banho. Virando em direção ao banheiro, ela olhou para um papel que tinha deixado em cima de sua pequena escrivaninha. Ela leu novamente o que tinha escrito em uma caligrafia cursiva, palavras que o vento tinha sussurrado para ela um mês atrás:
“...ORDEM DA FÊNIX... ORDEM DA FÊNIX...”
Seu coração acelerou com a lembrança. Luna pegou o papel e voltou a encarar as palavras e a lembrar. No dia que o vento lhe tinha sussurrado essas palavras ela não sabia o que significava e, por curiosidade, tentou vislumbrar com seu dom o que elas poderiam ser, seguindo as rodas do destino. No final, ela tinha conseguido ver uma escuridão sem fim e, bem ao fundo, vindo na direção dela, duas fontes de luz: uma vermelha e uma verde. As luzes se aproximavam e mostravam os formatos de duas aves que se enfrentavam. Luna as conhecia, ambas eram fênix. A ave vermelha era uma Fênix comum, e a ave verde era uma Fênix Greener.
Ao longo do mês, ela ficou pesquisando sobre as fênix e pensando o que a visão significava, e tentou procurar através de seu dom por qualquer informação a mais. Mas a visão era sempre a mesma: duas fênix lindas, batalhando. Nenhuma das visões mostrava qual fênix vencia.
Luna nunca tinha visto uma fênix de perto, mas pelo que ela tinha ouvido falar, parecia que aquele maldito tinha uma como seu animal de estimação. E com os recentes acontecimentos, a visão poderia significar algo relacionado a ele, talvez a alguma batalha a ser enfrentada por ele... Mas então, a quem pertenceria a outra fênix?
Ela sequer sabia se ainda existiam Fênix Greener no mundo. Elas eram muito raras e existiam dúvidas se elas já não estavam extintas. Afinal, fazia séculos que não eram vistas por ninguém. Em sua visão, Luna achava que as fênix poderiam significar várias coisas, mas ela acreditava que tudo se associava ao fato de Você Sabe Quem ter retornado. Será que ele era a fênix verde ou seria outra pessoa?
O Ministério esteve negando a volta dele em longos discursos céticos e raivosos. Porém, Luna bem sabia que a notícia do retorno do Lorde das Trevas era verdadeira. Ela sabia desde que o Torneio começou que alguém morreria ao final dele. Ela tinha visto um cadáver, mas não conseguiu visualizar quem era, o que significava que existiam várias possibilidades de quem morreria naquela noite. E sabia que algo grande aconteceria ao final do Torneio.
Além do quê, os ventos já tinham contado para ela; ou ao menos confirmado o que ela lhes tinha perguntado com relação àquela noite. Eles tinham falado que um grande mal tinha voltado, o que claramente demonstrava que Aquele Que Não Deve Ser Nomeado, ressurgira.
Luna sentiu um arrepio ao olhar as frases com os dizeres “Ordem da Fênix”. Infelizmente, ela ainda não tinha conseguido decifrar totalmente o que tais palavras significavam. E, sinceramente, ela estava preocupada com o que aquilo poderia significar para ela. O que será que aquilo tudo verdadeiramente mostrava? E se realmente tinha relação com aquele Maldito... O que podia significar para ela? Embora ela tivesse o dom da visão, muitas vezes elas geravam mais dúvidas do que se ela não as tivesse visto.
— Luna... Luna! – chamou seu pai do andar de baixo.
— Sim, pai. – Luna respondeu deixando o papel na escrivaninha.
— Vamos sair as 4:45, daqui a pouco. Você vai tomar banho?
— Vou sim! Eu estava no jardim até agora. – Luna comentou.
— Estava? – perguntou Xenofiliu surpreso – Achei que você estava dormindo.
— O senhor estava focado em seu trabalho pai, e não percebeu minha ausência. – Luna respondeu calma. Ele não percebeu que eu estava acordada e tinha saído de casa desde as 2:30h da manhã, pensou chateada.
— Tudo bem então. Tome um banho e verifique suas coisas uma última vez. – falou seu pai.
Sorrindo ironicamente, ela caminhou até seu banheiro e começou a tirar as roupas para tomar um banho. Este era o grande dia, 1º de Setembro, o dia em que as aulas começariam novamente em Hogwarts. O trem partia as 5h da manhã, portanto, ela tinha uma hora até eles saírem. Sua mala estava pronta, mas ainda aberta. Ela sempre se esquecia de levar alguma coisa tremendamente importante, como cobridores de ouvidos contra os zonzóbulos.
Ligando o chuveiro, ela se enfiou debaixo do jato quente e deixou que as sujeiras do seu corpo e unhas, saíssem. Dando um sorriso de contentamento, ela esticou a mão para pegar ervas cheirosas para passar no cabelo quando... sua visão escureceu. Um arrepio atravessou sua pele e seus olhos ficaram completamente brancos. Uma voz sussurrante, que vinha dela mesma, começou a dizer:
A luz será derrotada pela Fênix Grenner...
Aquela que é detentora da confiança do escolhido...
Aquela que é amada pelo Lorde das trevas...
Mas ela tem estado enganando a luz...
Porque seu amor pertence ao Lorde das Trevas...
E enquanto ela viver, as Trevas não perecerão...
A luz será derrotada pela fênix Grenner...
Aquela que é detentora da confiança do escolhido...
Aquela que é amada pelo Lorde das trevas...
A visão de Luna clareou e ela se agarrou nas paredes ao seu redor para se segurar.
— O que foi isso? Será que era uma profecia? – ela falou ofegante, tentando se recuperar. Colocou a mão na cabeça que estava começando a doer e empalideceu. As rodas do destino lhe tinham enviado uma profecia.
— É a primeira vez que eu recebo uma profecia. Por Merlin...
Luna nunca tinha recebido uma profecia em todos esses anos. Seu dom tinha se tornado mais forte? Ela juntou forças e mesmo tonta e toda molhada saiu correndo do quarto deixando a água escorrer por todo seu corpo. Pegou uma pena e anotou em um papel tudo relacionado ao que ela tinha acabado de profetizar.
Após ter escrito, ela olhou para a folha, com várias gotas de seu cabelo caindo no papel, e releu algumas vezes a profecia. Quem era Fênix Greener? O Lorde das Trevas era Você Sabe Quem, obviamente. Mas, e quanto ao Escolhido? Quem era ele exatamente? Ele devia ser um inimigo do Lorde das Trevas e um ser que caminhava do lado da luz. Agora, o mais estranho é que ela sequer sabia que o poderoso Lorde das Trevas podia amar alguém. Ele sentia amor? Se fosse verdade, Luna gostaria de conhecer a mulher que havia mudado a fera.
Ela precisava descobrir quem eram todas as pessoas de quem a profecia falava, além de decifrar o que ela significava totalmente para o Mundo Mágico. Ela precisava descobrir, porque podia sentir em seus ossos que tal profecia significava muito.
Luna sentiu sua visão escurecer e se apoiou na escrivaninha. Ela estava tão cansada. Precisava dormir um pouco. Olhou para o relógio e viu que faltavam 40 min para saírem. Ela precisava se apressar, mas estava tão cansada. Nunca imaginou que receber uma profecia seria assim. Ela nunca tinha recebido uma desde que seus poderes começaram a surgir. Nunca tinha sentido nada parecido. Como se alguém estivesse falando através de você. Luna nunca tinha estado sob a maldição imperius, mas pelo que tinha lido, receber uma profecia deveria ser parecido a ser amaldiçoado por essa maldição.
Luna foi em direção a cama e se jogou nela, fraca. Será que seria assim todas as vezes, como se estivessem drenando toda sua energia? Esperava que não. Esperava que tenha sido assim só porque era a primeira vez.
Luna agradecia o fato de ter conseguido chegar na cama. Ela dormiria 20 min apenas e depois terminaria de tomar banho e verificar suas coisas uma última vez. Antes da inconsciência levá-la, foram as palavras da profecia que passavam voando por sua cabeça... Mas somente uma pergunta veio a superfície: quem diabos era a Fênix Grenner?
oOoOoOoOoOoOoOoOo
Em uma sala com prateleiras até onde a vista alcançava, o silêncio reinava. Essas prateleiras estavam cheias de globos... Alguns deles apagados e outros emitindo uma leve iluminação. Esses globos tinham profecias dentro deles. As apagadas eram as profecias que já tinham sido realizadas e, as acesas, eram as que ainda não tinham se realizado.
Nesta sala, no momento em que Luna Lovegood profetizou, um outro globo apareceu contendo a profecia dela. Na etiqueta preenchida automaticamente apareceu:
Luna Pandora Lovegood.
Referente a: a Harry Potter, o Lorde das Trevas e Hermione Avadra.
Porém, ao mesmo tempo em que isso ocorria, uma outra profecia guardada a algumas prateleiras de distância dali, e que se encontrava naquele local a quase 17 anos, emitiu uma luz forte e giratória, lançando seu calor para quase todo o cômodo. Mas, tão logo quanto veio, a luz se extinguiu.
Fale com o autor