O Tempo Irá Dizer

52 Sorriso Cativante


Capítulo 52 – Sorriso cativante Todos estavam na mesa de jantar, aguardando a chegada de Magali e Mônica. Diante da mesa havia pratos brancos e talheres prateados, a toalha xadrez, branca e vermelha. Um vaso de margaridas estava no centro, enfeitando e perfumando o local. Com olhos ainda vermelhos por causa do choro, Mônica observou atentamente aqueles olhos penetrantes. Os olhares se cruzaram e ela abriu seu sorriso encantador. Aqueles olhos verdes profundos como uma mata fechada, alegre, viva e perigosa fulminavam em seu rosto. Os lábios que agora observava eram abertos em um sorriso que reluzia em seu rosto. O garoto estranho continuava a fitar Mônica, analisando seu rosto e seu corpo algumas vezes, como se tentasse descobrir de onde já a havia visto. Seu rosto mulato, de uma cor castanho-avermelhada, demonstrava que ficava muito tempo exposto ao sol, provavelmente por trabalhar nas plantações próximas ao rancho. Seu nariz um pouco largo e seus lábios finos completavam a paisagem do belo rosto que ele possuía. Seus cabelos negros caíam como véu até seu ombro largo e musculoso. — Então, qual de vocês é a famosa Mônica? – sua voz rouca demonstrava curiosidade. — Não sou tão famosa assim – admitiu a dentuça, fitando o chão – Prazer, você já sabe meu nome. Ele abriu um sorriso e deu uma risada. — Olá você-sabe-meu-nome, vai bem? — Estou fazendo o possível para isso! – Mônica riu e sentou-se à mesa, Magali sentando-se a seu lado. — Tomara que a minha presença não tenha afetado sua tentativa de ficar bem! – brincou, piscando para ela. — É meio difícil mesmo com você aqui... – disse a dentuça ficou sem jeito, fitando o chão. — Eu sou a Magali – apresentou-se a comilona, interrompendo a conversa – melhor amiga da Mônica. Muito prazer. – ela estendeu sua mão para ele, o qual retribuiu com um aperto de mão forte. — O prazer é meu! AH! A propósito, esses são meus pais, Sérgio e Camila. – apresentou, apontando para as duas pessoas ao seu lado. Eu sou Caleb, muito prazer. — Olá Caleb, Sérgio e Camila, o prazer é nosso – disseram as duas meninas. — Esses são os donos desse rancho. Eles cuidam dele quando ninguém o ocupa. Aliás, Sérgio foi meu amigo de adolescência – disse Seu Souza. — Poxa pai, não sabia que eram amigos há tanto tempo. — É – admitiu Seu Souza – Mas agora vocês se conhecem. Pelo menos tem alguém que saiba o que tem de melhor a fazer. — Mas para falar a verdade, Seu Souza – disse Caleb. – Mesmo conhecendo muito daqui, não tem muito que se fazer na chuva... — Ah, tem sim – afirmou Cebola, fitando Mônica – Dá pra brincar de fazer sombras com as mãos, brincar com jogos de tabuleiro, até cavalin...AII!! — Hehe... Você é muito criativo, Cebola! Eu, sinceramente, fico entediado quando há chuvas por aqui. — É porque você nunca tentou me ajudar nos planos infalíveis... — Como é? Planos infalíveis? – indagou Caleb, curioso. — É – afirmou Cascão, entrando na conversa – O Cebola planejava e eu o ajudava a realizar os planos... — Mas o que vocês realmente queriam com esses planos? — Eu quelia... caham... queria ser o dono da rua e conquistar o coelhinho de pelúcia da Mônica, o Sansão! — Mas eles nunca tiveram êxitos em seus planos... – completou Magali. — Porque eu sempre descobria e batia neles com o Sansão! – disse Mônica, constrangida. — HAHAHA! – o riso rouco de Caleb ecoou pela sala – E eu achando que já vi tudo nessa vida... HAHAHA! Nossa, fiquei até com pena de vocês meninos... — Ah, você não devia ter pena não... Esses moleques aí – Mônica apontou para Cascão e Cebola, com o olhar mortal – me irritavam das mais variadas formas... Chamavam-me de dentuça, baixinha, gorducha e algumas derivações. E eu não deixava barato! — HAHA! Eu percebi mesmo! O rosto do Cebola deixa isso evidente... – Caleb moveu seus olhos para o rosto do troca letras — Isso não foi minha culpa... Não sou tão bruta assim... –disse Mônica constrangida. — Ah, é sim, Mô... – discordou Cebola – Teve época que meu olho já estava roxo naturalmente... — AHAHA! Meu Deus, como vocês brigam! E então – ele mudou de assunto – vocês estão sabendo da festa do peão que vai ter na cidade? Seria legal se vocês irem – ele fitou a dentuça ao terminar a frase. — Festa do peão? QUE DEMAIS! – disse Mônica, feliz. – Que shows vão ter? — Amanhã vai ser Zezé de Camargo e Luciano... — “E o povo todo pulando...” – começaram a canta Cascão e Cebola juntos, dando uma risada logo depois. – Vai ser demais... Acho que vamos sim. — É, concordo. Amanhã então, combinado? – perguntou Mônica, olhando para Caleb, que sorriu ao cruzar seu olhar no dela. — Claro... Todos irão de carona comigo. Faço questão!! — CAAAra, que demais!! – disseram os dois meninos. A conversa fluía como uma corrente de um rio percorre sua foz até o oceano, onde desemboca. Ocorreram muitos momentos de altas risadas, principalmente do moreno Caleb. Este, aliás, parecia completamente vidrado no rosto da dentuça. A quase todo momento ele a admirava como sendo uma estátua de Vênus, deusa da beleza. Cebola não havia notado os olhares do moreno, estava fascinado por conhecer alguém mais velho, alguém que poderia dar carona a eles, sendo um jovem tão alegre quanto ele mesmo. — Filho – interrompeu Sérgio – Precisamos ir, já é tarde e temos que trabalhar amanhã. — Certo pai! Só irei me despedir deles e já vou! – ele olhou para o seu relógio de pulso, que marcavam duas horas da madrugada. — Cara, de boa – falou Cascão – estou quebradaço, vou nessa. Amanhã aproveitaremos! – ele estendeu a mão para Caleb, o qual retribuiu o aperto. — Com certeza, Cascão! — Falô, Caleb! Também vou nessa. A gente se vê – Cebola estendeu o braço. — Falô, Cebola! Até! — Dormir eu não vou, mas tenho que arrumar o quarto que ta super bagunçado – riu Magali. — Sem problemas – ele aproximou-se dela, despedindo-se com um beijo em sua bochecha. – Tchau, Magali. Todos haviam entrado na casa, Mônica ainda estava na sala, Caleb olhando fixamente em seus olhos, com um sorriso desenhado na face mulata: — Bom, você-já-sabe-meu-nome, a gente se vê? — Acho que sim! — Você não vai à festa do peão? – suas sobrancelhas uniram-se. — Eu vou, mas eu não sei se nós nos veremos lá... Na festa, quero dizer... — Como assim? – ele se aproximou de Mônica, ainda fitando seus olhos. — Provavelmente eu vou me afastar de você... Sabe, dar umas voltas com a Magali... — Ah... Mas é perigoso você andar sozinha no meio de um show desses... – alertou. — Eu sei me cuidar... Eu não sou mais criança... — Você pode se perder... – ele insistiu. — Mas eu vou estar com a Magali... – ela argumentou. — Você precisa ter perto de você alguém mais responsável... – sua mão quente tocou o ombro da dentuça — Epa, epa, epa... Alto lá, senhor Caleb – ela retirou seu braço de seu ombro – Você está insinuando que só estarei protegida ao seu lado... — Serei apenas um guarda-costas... Não farei nada do que não quiser, certo? — Humm... Então a gente se vê amanhã, guarda-costas. – ela foi se afastando do moreno. — Com certeza, você-já-sabe-meu-nome... Ã, Mônica? — Sim? – ela virou para fitar o rosto de Caleb. — Gosto muito de ser sincero – ele foi aproximando-se da dentuça, tocando sua mão – Eu fiquei encantado com você, com essa mistura de força e delicadeza. Além de sua beleza, claro. — Bom... Eu achei você um cara super legal... E bonito, claro. É de uma forma não-convencional. Exótica, sabe? Você também é muito cativante com esse sorriso. – retribuiu a dentuça, fitando o chão. Caleb abriu o seu sorriso cativante, mostrando todos os seus dentes reluzentes. Ele aproximou seus lábios finos para perto da mão de Mônica, beijando-a calmamente. — Então, a gente se vê amanhã, ok? — Certo. Tchau, Caleb. O rapaz fitou a dentuça uma última vez e saiu de cena, caminhando lentamente em direção a seu quarto. Mônica observou-o até ele não estar mais ao alcance da vista. Sua cabeça girava em um ritmo acelerado, tentando armazenar as milhares de informações, desejos, idéias, sentimentos que presenciou. Aquela beleza exótica, como ela mesma havia mencionado, atraiu sua atenção. Claro que não era da mesma forma, na mesma intensidade com o seu amigo troca letras. Mas fez seu coração perder o compasso, atordoando-a. Mas sabia, interiormente, que isso não passava de uma simples atração, um desejo desenfreado de provar aqueles lábios desconhecidos, viajar por um mundo nunca antes explorado. Devaneios surgiam em sua mente, criando projeções futuras, planos para o show... O que vestir, o que fazer. Essa última parte foi mais difícil de processar, a cada instante novas idéias surgiram. Até que... “Eu não farei nada que não quiser...” É isso. Caleb poderia ser crucial para mostrar a Cebolinha que a fila andou ou ela pode andar. Mas, é claro, ela iria perguntar a Caleb se ela apoiaria o plano e a ajudaria. Provocar Cebola de diversas formas. Ele não havia feito o mesmo com ela? Pois bem. Ele terá seu troco. Seus devaneios foram interrompidos por um raio, que a assustou. Recompondo-se, Mônica caminhou para sua cama silenciosamente, ainda dando os últimos retoques para seu plano. Ao deitar em sua cama, não demorou muito e logo havia adormecido. Por ter dormido muito tarde, a dentuça permaneceu de olhos fechados por horas, acordando somente depois do almoço. Cansada de tanto dormir, ela se levantou, colocou uma calça jeans, blusa xadrez e botina, as quais encaixavam-se perfeitamente em seu corpo de menina mulher. — EI, MÔNICA... Quer dar um passeio com a turma? – uma voz rouca a chamava. Fim do 52º capítulo.