O Tempo Irá Dizer
26 Difícil de encarar
À medida que o celular tocava, anunciando uma nova chamada, o barulho incomodava cada vez mais. Quem seria uma hora dessas? Aquele ruído penetrava dolorosamente nos ouvidos de Cebola, que estava com uma imensa vontade de jogar o aparelho contra a parede, mas não o fez, decidiu atender o celular.
- Alô! Cebola?
- Sim, eu mesmo! Quem fala?
- Uma amiga sua.
- O que quer? Quem é você?
- Já disse: uma amiga. Quero lhe dar um conselho: você está sendo enganado, fizeram-no crer que foi traído e tudo não passa de um mal entendido.
- Mônica?
- Ué, como adivinhou?
- “Ola”, como adivinhei! E quem mais “ilia” tentar me convencer? O FLOQUINHO? Ah, faça-me o favor!
- Mas...
- Mas nada! Não “quelo” “convelsa” com você, sua DENTUÇA! – Cebola retrucava friamente, desligando o celular.
Do outro lado da linha se encontrava Mônica, sentada na cama, abraçando uma almofada, ao lado de Magali, a qual permanecia calada, ouvindo toda a conversa.
Após ouvir “DENTUÇA”, Mônica desatou em lágrimas. Nunca aquela palavra havia a atingido tão fortemente como dessa vez. Se há nove anos fossem pronunciadas da mesma forma, a reação seria completamente diferente, pois tudo se resolvia na coelhada e o sentimento seria de extrema raiva, coisas de crianças. Mas agora era diferente, não era raiva, nem nervosismo. Era difícil explicar todo aquele sentimento novo, era raiva, tristeza, ódio, decepção, além de sentir contínuas pontadas em seu peito ferido.
Ao perceber a situação que sua amiga estava, Magali abraçava-a fortemente, digno de ser resignado como de urso. Não pronunciava uma palavra sequer, pois nelas não acharia o consolo necessário, pois o abraço já era suficiente.
- Ah, Magali – falava soltando lágrimas no ombro da melhor amiga – ele nunca irá me perdoar!
- Isso, desiste! Muito bom, PARABÉNS! Ora Mônica, já está reagindo assim na primeira tentativa, isso que é otimismo, hein! Cadê aquela garota forte que eu conheci?
- Acho que está indisponível no momento. Mas você não entende, são as minhas palavras contra tudo aquilo que ele viu, e quem vence? A cena, obviamente!
- E você só irá usar esse artifício para tentar reconquista-lo? HELOOO!! ACORDA PRA VIDA!
- Mas o que posso fazer? Escrever uma carta dizendo que tudo não passa de um engano?
- DEEERRR, claro que não! Vai dar na mesma! Você deve ousar: porque não tenta gravar uma conversa entre você e a Denise, onde ele te contará todo o plano e te zoar até!
- Nossa! Que idéia genial!! Amiga, você é MAARRA !!!
- Não, sou Magali!
- KKKKKK – riam as duas animadamente pulando na cama, felizes por conseguirem armar um plano.
Mas a alegria das duas era interrompida pelo barulho do celular da Magali.
[toque de celular] Arerê,Um lobby, um hobby, um love com você- Mas quem será? Ah, a curiosidade matou o gato, será que eu morro junto?! Vou atender! – Magali falava consigo mesma, de vez em quando tinha essa mania bizarra.
- Alô, alô!
- Olá, querida dançarina!
Ele reconhecera aquela voz. Só poderia ser ele: o garoto-mistério. Colocando uma das mãos na boca, pasma com o que acabara de escutar. O corpo dela se arrepiava por inteiro. Era a hora certa, o momento para desvendar de uma vez por todas aquele mistério.
- Ei, ei!!! NÃO DESLIGA!!! Me diga agora, sem enrolação: quem é você? Por acaso o conheço?
- Meu nome eu não vou dizer. Somente lhe informarei de que estou mais próximo do que imagina, que conclusões precipitadas não farão você chegar até mim e as pistas que deixei de nada ajudarão se o seu coração não for posto a prova. O que estou querendo dizer é que se deixar seu coração guiá-la, você saberá quem sou.
- Mas por acaso você sabe quem sou, qual o meu nome? Eu o conheço?
- Como disse, estou mais perto do que imagina. E sim, eu te conheço... Ma..ga..li!! – respondia encerrando a ligação.
(Ele sabe meu nome! ELE SABE MEU NOME! Eu o conheço, mas quem é? QUEM?)
- Amiga, quem era?
Magali não respondia. Tudo passava pela sua cabeça de uma forma embaraçada, confusa. Parecia que a ligação iria ajudá-la, mas não, tudo se tornava mais equivocado que antes. Mas as esperanças não findaram.
- Amiga!!
- Shh!!
Magali fechava os olhos. Ficava em silêncio para que pudesse ouvir seu coração, o qual palpitava aceleradamente. Deixava-o tomar conta dela, não hesitava, sabia que esse era o rumo certo a seguir. Aos poucos, as peças se juntavam: o perfume, as palavras que lhe foram proferidas, a forma de dançar, tudo.
Súbito, o quebra-cabeça era finalmente encerrado, o mistério seria revelado.
(Descobri, DESCOBRI!! Mas, espera aí: é isso mesmo? É ele? Não, não pode ser! Não é possível, eu, eu tenho provas disso...não, não tenho. Mas será ele mesmo? Tudo é tão confuso!)
A verdade lhe doía. Como poderia ser essa pessoa? Não era possível. Ela não se conformava com a verdade, parecia que o mistério ainda não tinha sido resolvido. Mas não, essa era a verdade, a mais pura verdade.
Era difícil encarar tudo aquilo, ainda mais na situação pela qual a comilona passava. O futuro dela era incerto, todavia uma coisa era certa: sua vida mudaria drasticamente.
Fim do 26º capítulo.
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