É amanhã. Amanhã meus... meu neto vai finalmente ir para Hogwarts. Nesses momentos começamos a refletir sobre o tempo. Sobre quando minha mãe me dizia que eu ia entender tudo quando fosse mais velha. Eu fiz 20 anos e achei que ela tinha falado besteira, que eu sabia de tudo. Fiz 40 anos e o que ela disse passou a fazer mais sentido. Fiz 60 anos e cheguei à conclusão de que ela não sabia de nada. Hoje, com 67 anos, eu não sei mais nada.

“Vovó! Você viu meu cachecol, cara? Não to achando!”

“Cachecol? Mas você nunca usa cachecol, meu cara.... Pra que você realmente tá querendo isso?”

“Nada... Eu só... Quero tudo bem certinho. A mala completinha, sabe?”

Ah... Eu lembro do meu primeiro dia em Hogwarts... Parece que foi ontem. E ao mesmo tempo, eu nem consigo me lembrar qual era a minha música favorita na época.

“Você tá bem nervoso, né, meu bem? Vem cá. Deixa eu te contar uma história.”

“Eu tava muito molhada naquele dia. Pensei “Sério, tinha que chover hoje?” Bem que a minha mãe tinha me dito pra trazer o guarda-chuva. Eu achei que, sei la, ia ter alguma magia pra gente não se molhar...”

“Ela era uma senhora de 70 a 120 anos, com uma voz tremelicante e rouca. Ela disse pra todos nós, alunos do primeiro ano nos reunirmos perto dela, e eu fiquei muito contente de ter uma lareira na antesala de um grande salão, que vocês sabem que é o Salão Principal.”

“Ela nos contou que seu nome era Minerva McGonagall. Sim, essa mesma. Lembram que fomos visitar o túmulo dela ano passado? O tempo passa...”

“Enfim, eles nos colocaram em um fila, e eu comecei a ficar com muito calor. Era por dentro, e menos por fora. Eu só conseguia ouvir o Chapéu Seletor gritando nomes e eu só enxergava cores. Vermelho. Azul. Verde. Verde. Verde. Sonserina...”

“Então, me chamaram, finalmente! Lembro do Chapéu Seletor falando meu nome. Eu nem sei como cheguei lá em cima. Ele me falou sobre o momento em que eu nasci. Ascendente em Leão. Gosta mais de sorvete de baunilha meio derretido. Tinha medo de se distanciar dos amigos... Qual casa você gosta mais, meu chapa?”

“Vovó, o Chapéu realmente te pergunta de qual casa você gosta mais?

“Então... naquela época as coisas eram mais libertárias. O Chapéu fica sempre na sala do diretor, então ele vai meio que absorvendo as tendências da época.”

“Você disse que gostava mais da Lufa-Lufa?”

“Você acreditam se eu disser que não? Eu disse que gostava mais da Grifinória, e é exatamente por isso que eu não pertenceria ali. Eu só gostava daquilo que eu achava que eu deveria me tornar, e não daquilo que eu realmente era. Quando a gente tem a idade de vocês, a gente não sabe o que quer. A coisa melhora com o tempo, mas nem tanto assim.”

“O Chapéu gritou aos plenos pulmões: — LUFA-LUFA!! E a mesa amarela começou a gritar, comemorando. Eu fui a primeira a entrar na casa aquela noite.”

“Vovó... Você vai ficar brava comigo se eu não entrar na Lufa-Lufa?”

“Ohh, meu amor... Deixa eu te dizer uma coisa. Eu vou te amar independente de qualquer coisa. E porque eu te amo, eu quero que você viva o melhor pra você, o que vai te fazer mais feliz. Na vida, você sempre tem escolha, e se escolherem por você... Bem, tenha certeza que eles tem esse direito. O Chapéu sabe o que tá fazendo, mas ele também vai te escutar.”

“Mas o meu pai me disse que todo mundo que entra nas outras casas são um bando de chatos que se acham, e que se preocupam mais com as aparências do que com as outras pessoas...”

“Meu bem, cada casa é apenas uma casa. Eles te colocam junto de quem vai te ajudar a crescer. Se você precisa ficar perto de um bando de gente que se importa com o espelho, é porque no final vocês todos vão sair pessoas melhores. Ou não.”

“Poxa, Vó... Hahahaha. Não sei se fico mais tranquilo ou se fico confuso.”

“Eu sei que você tinha que tá com sono. Vem cá que eu vou te fazer um chazinho pra ajudar a dormir, acalmar a ansiedade.”

O tempo. Ele passa. E os ciclos passam. Daqui a pouco eles... Ele vai se formar. Espero ainda estar aqui. Sempre da Lufa-Lufa.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!