Eram três da tarde e eu caminhava lentamente rumo a minha casa escutando à uma música qualquer nos fios brancos que saiam de meu bolso e deliciavam meus ouvidos. Eu adorava caminhar sozinha na rua, observar o movimento peculiar das pessoas e coisinhas pequenas com a brisa leve e morna de envolvia qualquer um numa alegria descontroladamente calma, daquelas que esquenta o coração e põe um sorriso no rosto.

Menos em mim.

Eu sussurrava alguma coisa quando Autumn chamou do outro lado da rua, acenando espontaneamente:

— Ei, Max! Maxine! Olha aqui, Max!

Eu dei um sorriso torto e retribuí o tchauzinho com uma mão enquanto a outra segurava alguns livros da biblioteca.

Ela fez um movimento para eu atravessar a rua. Obedeci e quando cheguei ao seu lado, Autumn me deu um abraço apertado cujo retribuí.

— Quer dar um pulo lá em casa? – Ela perguntou simpática.

— Olha, não posso, tenho que ir para casa e...

Autumn não se convenceu e me arrastou para lá.

***

— Oi, senhora Bay. – Eu disse, meneando a cabeça num movimento rápido de reverência. Mas ela se aproximou de mim e mencionou me dar um par de beijos nas bochechas. Afastei-me num só segundo e me desculpei.

— Mãe, não é costume fazer isso no país do qual Maxine vem.

— Você não me disse que ela é estrangeira.

— Não há problema nenhum, senhora Bay. Eu já devia ter me acostumado mesmo, não?

— Pode me chamar de Louise, querida.

— Sim, senhora Bay, digo, Louise. – Franzi a testa e mordi meu lábio inferior, morta de vergonha.

Autumn agarrou meu braço e me guiou escadas acima.

— Não dá pra chamar sua mãe pelo primeiro nome, é esquisito, vai totalmente contra meus princípios. – Sussurrei em seu ouvido enquanto ficava alguns degraus abaixo dela. Autumn joga a cabeça para trás e simplesmente ri.

O quarto dela era branco e rosa, tudo bem delicado e combinava bastante com a imagem de Autumn. Ela me fez sentar em sua cama perfeitamente arrumada e começamos a conversar.

— Maxine, de qual país você vem mesmo?

— Ucrânia. – Respondi, guardando o iPod na mochila.

— Uau. – Ela pasmou. – Mas seu inglês é tão bom! Mal parece.

Sorri timidamente.

— Não é de lá que tem aqueles ovinhos coloridos super legais?

— Pessânkas. – Eu a corrigi rapidamente. – Eu sabia fazer quando era menor. Quer dizer, ainda faço, mas não é tão legal quanto na época que eu tinha seis anos.

— E o que você faz agora, aqui, em Ohio?

— Meu pai. Trabalho.

— Entendo. – Ela disse, abrindo um largo sorriso. – Você gosta daqui?

— Claro. – Disse, baixo, como de praxe. – Aqui é legal e –

A porta abriu-se abruptamente e Adam adentrou o quarto com passos largos. Abriu a boca para perguntar algo para Autumn, mas deteve-se em mim:

— Oi, tudo bem, Maxine?

— Tudo. – Acenei com a cabeça, mas a voz parecia não se firmar direito no ar.

Então ele tornou para a irmã.

— Então, maninha, queria saber se aquele livro que eu te emprestei ainda está com você... Eu tô precisando dele.

— Ah, sei qual você está falando... – Ela saltou da cama num só movimento e pegou um pequeno livro escondido numa gaveta da escrivaninha. Ele passou o braço por ela e a envolveu num abraço e depois deu um rápido beijo em sua testa.

— Valeu, maninha.

E saiu do quarto tão rápido quanto entrara.

— Já conhece o Adam, né? Um fofo.

— Ele é da escola, certo? – Acho que pela primeira vez na vida eu mentira, ou ao menos tentava fingir que não sabia de algo.

— Acho que você já sabe disso, Max.

O meu celular vibrou no bolso e eu o tirei rapidamente para atender:

— Um minuto, Autumn.

Minha mãe calmamente pedia para eu ir para casa, já estava ficando tarde.

— Ya pidu.* – Respondi em ucraniano mesmo. Mamãe gostava de manter a cultura dentro de casa antes que os Estados Unidos a tirasse de nós. (* Já estou indo.).

— Tenho que ir. – Eu comecei, arrumando a saia amassada e pegando a bolsa.

— Ok, eu te levo até a porta, então.

Despedi-me dela cordialmente e andei apressada até a porta de casa.

Minha mãe estava na janela esperando por mim e quando me viu, logo abriu a porta. O cabelo curto e negro deixava o rosto com feições curtas e apertadas ainda mais bonitinho. Ela me beijou a testa e eu subi para meu quarto e mergulhar num livro de inglês.