O Sussurro da Academia
5 Capítulo 5: A Aliança dos Amaldiçoados
A pergunta de Shikamaru pairou no ar denso da pequena cabine de estudo, não como uma acusação, mas como uma corda de salvação atirada na escuridão. "Não foi um sonho, não é, Hinata?". Eram as primeiras palavras que alguém lhe dirigia que não a tratavam como louca ou infantil. Eram as primeiras palavras que validavam o terror que estava sufocando-a por dentro.
As lágrimas que ela tinha segurado com tanta força finalmente escaparam, não em soluços altos, mas em trilhas silenciosas e quentes que desciam pelo seu rosto. Ela não conseguiu responder com palavras, apenas abanou a cabeça, um movimento pequeno, mas carregado com o peso de uma noite inteira de pânico solitário.
Shikamaru assentiu lentamente, a sua expressão calma funcionando como uma âncora para a tempestade de emoções dela. Ele não mostrou pena, apenas uma compreensão sombria e pragmática. — Eu sei — disse ele, a voz ainda baixa. — Também aconteceu comigo. Não estamos seguros aqui. Podemos ir para outro lugar?
O "nós" foi a segunda corda de salvação. Ela já não estava sozinha na sua loucura. Hesitante, ela levantou-se, as pernas ainda tremendo um pouco, и seguiu-o para fora da biblioteca. Ele não a apressou, caminhando ao seu lado num silêncio confortável, deixando-a se recompor.
Ele не a levou para o barulho do refeitório ou para o pátio exposto. Em vez disso, guiou-a para um dos jardins de estufas abandonados nos fundos do campus, um lugar que a maioria dos estudantes nem sabia que existia. Era um santuário de vidro e ferrugem, com plantas selvagens crescendo pelas frestas do chão de pedra. O ar era húmido e cheirava a terra molhada. Era isolado, silencioso. Perfeito.
Eles sentaram-se num banco de ferro velho, a tinta descascando. Por um longo momento, apenas o som da chuva fraca batendo nos painéis de vidro quebrou o silêncio.
— Você primeiro — disse Shikamaru, finalmente. — Me conta exatamente o que aconteceu. Cada detalhe. Não importa o quão estranho pareça.
A voz dela começou como um sussurro frágil, mas, à medida que falava, ganhava força. A força que vem de finalmente ser ouvida. Ela contou sobre a mensagem, sobre o número que não existia, sobre a foto distorcida da torre com a figura disforme. Contou como a imagem tinha desaparecido do seu celular, como Sakura, com a melhor das intenções, a tinha tratado como se estivesse delirando. E, pela primeira vez, contou a alguém sobre o seu passado, sobre o incidente de cyberbullying no ensino médio, explicando porque é que uma mensagem anónima e invasiva era o seu pior pesadelo tornado realidade.
Shikamaru ouviu tudo sem a interromper, o seu olhar fixo num ponto distante, a sua mente processando cada palavra como peças de um tabuleiro de shogi. Quando ela terminou, ele não ofereceu palavras vazias de conforto. Em vez disso, contou a sua própria história.
— No meu caso, não foi o celular. Foi a realidade física — ele descreveu a sombra da torre se dobrando, o reflexo do relógio marcando uma hora impossível e, finalmente, a imagem que viu na tela do seu celular: a silhueta no topo da torre e a marca da mão fuliginosa por dentro do vidro. — Temari achou que eu estava tendo um esgotamento por causa das provas.
— Então... não estamos loucos — disse Hinata, a voz embargando-se com um alívio avassalador.
— Não. Estamos sendo assombrados — a resposta dele foi direta, sem rodeios. — E a coisa que está fazendo isto é inteligente. Ela nos isola, nos faz parecer instáveis para os nossos amigos. É a estratégia perfeita: dividir para conquistar.
A clareza com que ele falava era assustadora, mas também estranhamente reconfortante. Ele não estava entrando em pânico. Estava analisando o inimigo. — Mas eu encontrei uma coisa — continuou ele. — Uma pista.
Ele pegou no seu celular e mostrou-lhe a foto que tinha tirado do anuário antigo, dando zoom no símbolo na t-shirt do calouro. Depois, mostrou-lhe a foto da base da torre, com a mesma marca gravada na pedra. — Este símbolo. É a única conexão tangível que temos. Liga o que quer que esteja acontecendo agora a um desaparecimento de um estudante em 1998.
Hinata inclinou-se para ver melhor, o medo sendo momentaneamente substituído por uma curiosidade focada. — O que você acha que significa?
— Não sei. Mas é por aí que temos de começar. É a única jogada que temos no tabuleiro. Precisamos descobrir a origem deste símbolo. O que ele representa, a que culto ou clã ele pertencia. Se descobrirmos isso, talvez descubramos o que estamos enfrentando.
O "nós" estava lá de novo, solidificando a aliança deles. — E como fazemos isso? — perguntou ela.
— Em segredo — disse ele, o seu olhar sério encontrando o dela. — Não podemos contar a mais ninguém. Não por enquanto. Eles não acreditariam e só iriam nos atrapalhar. Isto tem de ficar entre nós dois. Você consegue fazer isso?
Ela pensou na expressão de pena no rosto de Sakura. Pensou no seu próprio medo paralisante. Sozinha, ela estaria perdida. Mas com ele, com a sua mente calma e estratégica, havia uma hipótese. Uma pequena chama de esperança. — Consigo — respondeu ela, a sua voz mais firme do que tinha estado nos últimos dois dias.
Enquanto a improvável aliança se formava na estufa abandonada, do outro lado do campus, Temari saía da sua aula de Relações Internacionais, a cabeça latejando. A discussão сom Shikamaru na noite anterior a tinha deixado mais irritada do que ela queria admitir. Não era a história absurda dele que a incomodava, mas a forma como ele se fechou depois. Ela o conhecia o suficiente para saber a diferença entre a sua preguiça habitual e o seu modo de "recolhimento estratégico". Ele estava remoendo alguma coisa, e o facto de a ter excluído feria o seu orgulho.
Ela estava a caminho do refeitório quando o viu. Shikamaru saindo da biblioteca, não sozinho, mas com Hinata. Não havia nada de inerentemente suspeito nisso, eram do mesmo círculo de amigos. Mas a forma como eles caminhavam... estavam próximos, conversando em voz baixa, com uma intensidade que era incomum para os dois. Shikamaru parecia focado, protetor. E Hinata, que normalmente andava de cabeça baixa, olhava para ele como se ele fosse a única coisa sólida num mundo em colapso.
Temari parou, observando-os de longe enquanto eles se dirigiam para os jardins antigos. Uma pontada de algo que ela não quis nomear – ciúmes? suspeita? – torceu-se no seu estômago. O que é que aqueles dois, o génio preguiçoso e a herdeira tímida, podiam ter em comum para uma conversa tão secreta? A desculpa dele sobre "sombras tortas" de repente pareceu ainda mais oca. Talvez fosse tudo uma desculpa elaborada para outra coisa. Para se afastar dela. Para se aproximar de outra pessoa. Ela balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Era ridículo. Mas a semente da desconfiança, uma vez plantada, era uma erva daninha difícil de arrancar.
O plano de Shikamaru começou naquela mesma tarde. A secção de arquivos e coleções especiais da biblioteca ficava na cave, uma área que a maioria dos estudantes evitava. O ar lá em baixo era frio e cheirava a papel velho e a pó. As luzes fluorescentes zumbiam e piscavam intermitentemente, lançando sombras longas e dançantes pelas estantes de metal que se erguiam até ao teto.
— O que estamos procurando, exatamente? — sussurrou Hinata, o som da sua voz parecendo alto demais no silêncio opressivo.
— Qualquer coisa relacionada com a história da fundação da academia. Símbolos locais, cultos antigos, famílias fundadoras. Qualquer livro que pareça velho e esquecido — respondeu Shikamaru, já puxando um pesado volume encadernado a couro de uma prateleira.
Eles separaram-se, cada um explorando um corredor. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo virar das páginas e pelo zumbido elétrico. Hinata sentia os seus nervos à flor da pele de novo. Cada estalo do velho edifício, cada sombra projetada pelas luzes vacilantes, era uma ameaça em potencial. Ela tentou focar-se, passando os dedos pelas lombadas dos livros, os títulos quase ilegíveis. "A Geologia da Região", "As Guerras Feudais da Província", "Registos Paroquiais do Século XIX". Nada parecia certo.
Ela estava no final de um corredor, o mais distante da entrada, quando uma das luzes fluorescentes acima dela piscou violentamente e se apagou, mergulhando a sua secção numa escuridão quase total.
Ela congelou, o coração disparando. — Shikamaru? — chamou, a sua voz um fio.
— Estou aqui — a voz dele veio do corredor ao lado, mais perto do que ela esperava. — Foi só uma lâmpada. Calma.
Mas não era só a lâmpada. Com a escuridão, veio o frio. Uma queda de temperatura tão súbita e intensa que ela podia ver o vapor da sua própria respiração. Era o mesmo frio que sentira no seu quarto na noite anterior.
E então, ela ouviu.
Um som baixo. Um sussurro.
Não eram palavras. Era como estática, um chiado suave que parecia vir de dentro da sua própria cabeça. Era indistinto, mas estava lá. E estava ficando mais alto.
— Shikamaru, você está ouvindo isso? — perguntou ela, o pânico subindo pela sua garganta.
Houve uma pausa. — Ouvir o quê?
O sussurro ficou mais claro. E por baixo da estática, ela começou a distinguir um som. O som de unhas arranhando madeira, vindo do fundo escuro do seu corredor.
E foi então que a pesada porta de metal da entrada da cave, a única saída, se fechou com uma batida metálica e retumbante que ecoou pelo silêncio, mergulhando tudo numa escuridão quase completa e num silêncio ainda mais aterrorizante. O zumbido das luzes restantes tinha parado. Eles estavam presos. E não estavam sozinhos.
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