O Sussurro da Academia
3 Capítulo 3: O Contágio do Medo
O silêncio no quarto de Hinata era ensurdecedor. Um segundo antes, era um refúgio de paz, com o cheiro suave de lavanda vindo de um pequeno difusor sobre a cômoda e a luz amarela do abajur criando um ambiente acolhedor. Agora, o ar parecia ter sido sugado do ambiente, substituído por um vácuo gelado que arrepiava a pele dos seus braços. O brilho da tela do celular iluminava seu rosto pálido, os olhos arregalados fixos naquela imagem impossível. A figura escura, os membros disformes, a torre do relógio distorcida como se vista através de água suja. E a notificação de falha, uma sentença digital que zombava dela: "O número não existe."
O celular. Tudo sempre começava com o celular.
A memória veio como um soco no estômago, tão nítida que a fez perder o fôlego. O ensino médio. A vibração incessante do aparelho. As notificações que chegavam como pequenas facas digitais, uma após a outra. Uma foto privada, tirada de seu celular antigo, espalhada por toda a escola. As mensagens anônimas, os risos nos corredores, o inferno que durou meses. Ela aprendeu da pior forma possível como um aparelho que deveria conectar podia isolar, como uma tela podia tornar-se uma arma. O medo que sentiu agora não era apenas sobrenatural; era antigo, enraizado. Era o mesmo pânico de ter sua privacidade violada, de um inimigo invisível saber exatamente como a ferir.
O ar pareceu ficar mais denso. Frio. Ela conseguia sentir o frio entrando pelas frestas da janela, embora soubesse que a tinha fechado. Cada sombra no canto de seu quarto, antes familiar, agora se contorcia com um potencial maligno. A porta de seu armário, que ela sempre deixava entreaberta, era um rasgo de escuridão infinita, e ela podia jurar que ouviu o barulho de um tecido se mexendo lá dentro. O som da sua própria respiração era alto e ofegante, um tambor descontrolado em seus ouvidos, abafando o tique-taque suave do seu relógio de cabeceira.
Ela largou o celular na cama como se ele queimasse, afastando-se de costas até o corpo bater na parede fria, o impacto a fazendo estremecer. Seus olhos varriam o quarto, procurando uma ameaça que não conseguia nomear. A janela. A cortina balançou. Foi o vento? Tinha a certeza de que a tinha fechado. Seu coração saltou para a garganta. Ela ficou imóvel, prendendo a respiração, à espera de outro movimento. Nada. O silêncio voltou, mais pesado do que antes.
"Você está vendo coisas." A frase de Temari para Shikamaru, que ela tinha ouvido mais cedo no Ichiraku, ecoou em sua mente. Seria isso? Uma memória traumática a pregar-lhe peças?
Não. A imagem estava no celular. Ou esteve. O frio era real. E se era real, ela não podia ficar ali sozinha.
Com as mãos a tremer, ela pegou no celular de novo, abraçou os joelhos por um segundo para tentar controlar a trepidação que subia pelas suas pernas e saiu do quarto, os pés descalços sentindo o frio do chão do corredor. Só havia uma pessoa a quem ela podia recorrer, alguém cuja mente lógica e pragmática poderia colocar ordem no seu caos.
A porta do quarto de Sakura ficava a apenas dez metros de distância, mas pareceu uma maratona através de um campo minado de sombras projetadas pelas luzes de emergência do corredor. Hinata bateu, um toque fraco e hesitante.
A porta abriu-se, revelando uma Sakura de pijama e com uma expressão cansada, provavelmente ainda remoendo o encontro tenso com Sasuke. Mas sua irritação desapareceu no instante em que viu o estado da amiga.
— Hinata? O que aconteceu? Você está branca como um fantasma.
— Sakura... eu... eu não sei — a voz dela era um sussurro trêmulo, quebrado. — O meu celular... eu recebi uma coisa. Uma coisa horrível.
Sakura puxou-a para dentro, fechando a porta e guiando-a até à beira da cama. O quarto de Sakura era uma bagunça organizada, com livros de medicina abertos e notas adesivas coloridas coladas na parede como um mosaico de ansiedade acadêmica.
— Calma, respira fundo. Senta aqui. Me conta, o que você recebeu?
Em vez de responder, Hinata apenas estendeu o celular com a mão trêmula, a tela ainda acesa.
Sakura pegou no aparelho, o rosto sério e concentrado. Ela rolou a tela para cima e para baixo. Sua expressão de preocupação suavizou-se, dando lugar a uma confusão gentil.
— Hina... não tem nada aqui. Só as suas conversas com as meninas do grupo de estudos.
— O quê? — Hinata pegou no celular de volta, o coração a afundar. A tela de mensagens estava aberta. A notificação de falha da sua resposta ainda estava lá, solitária. Mas acima dela... nada. O histórico estava limpo. A imagem e a mensagem do número desconhecido tinham desaparecido como se nunca tivessem existido. — Não... não, estava aqui! Eu juro! Tinha uma foto da torre, com uma... uma sombra estranha! E a mensagem de erro da minha resposta ainda está aqui, olha!
Sakura olhou para a notificação de falha.
— Hina, isso pode ser um bug. Às vezes o sistema tenta reenviar uma mensagem antiga que falhou, acontece. Você não acha que pode ter adormecido por um segundo e sonhado? Com o stress das provas, é normal ter pesadelos, ver coisas...
— Não era um sonho! Era real! — a voz de Hinata ficou mais aguda, uma ponta de desespero a surgir.
— Eu acredito em você — disse Sakura, a voz suave, mas seu olhar era o mesmo que se usa para acalmar um animal assustado. Um olhar cheio de pena. — Acredito que você viu algo que te assustou. Mas olha, não há nada no celular. O mais provável é que tenha sido um pop-up com vírus, ou um pesadelo muito vívido. Por que você não tenta dormir um pouco? Se quiser, pode dormir aqui hoje.
Hinata olhou para o rosto da amiga, procurando qualquer sinal de que ela acreditava, mas só encontrou a mesma preocupação condescendente que Temari tinha oferecido a Shikamaru. Ela sentiu as lágrimas se formarem nos cantos dos olhos, não só de medo, mas de uma profunda e terrível solidão. Era a segunda a ver algo impossível. E a segunda a ser tratada como uma criança delirante.
Depois de Hinata ter saído, visivelmente abalada, Sakura fechou a porta e suspirou, passando a mão pelo cabelo. A imagem da sua amiga, tão genuinamente aterrorizada, perturbou-a mais do que ela queria admitir. Sua mente científica procurava explicações lógicas: alucinação hipnagógica, paralisia do sono, estresse agudo. Ela pegou seu próprio notebook e, quase por instinto, pesquisou: "sintomas de psicose por privação de sono". A lista de resultados era longa e clínica, mas nada parecia se encaixar perfeitamente. Ela olhou para o celular de Hinata, que a amiga tinha esquecido na cama na pressa. Por um momento, sentiu um impulso de o analisar, procurar por malwares, qualquer coisa. Mas hesitou. Seria uma invasão de privacidade. Com um suspiro frustrado, ela colocou o aparelho de lado. A lógica dizia que Hinata estava exausta. Mas uma pequena parte de seu cérebro, a parte que a tornava uma boa médica, sussurrava que ela estava ignorando o sintoma mais importante: o puro e inegável terror nos olhos da sua amiga.
No seu próprio quarto, Shikamaru não sentia medo. Sentia o clique satisfatório de peças se encaixando. A validação era uma droga poderosa. Ele não estava louco.
A pesquisa tornou-se uma caçada. Ele abriu dezenas de abas, mergulhando na história digital da academia. A maioria dos caminhos levava a becos sem saída. Mas sua mente estratégica começou a ligar pontos que outros não veriam. Ele percebeu que a maioria das lendas de fantasmas eram recentes, histórias de calouros para assustar uns aos outros. A dele era diferente. Tinha raízes.
Ele encontrou um fórum de ex-alunos, um site arcaico do início dos anos 2000, com um design que era uma agressão aos olhos. A maioria dos posts era sobre reencontros de turma e queixas sobre professores. Mas, usando a palavra-chave "torre", ele encontrou uma thread de 2002 intitulada "Lugares Estranhos do Campus".
Um post anônimo dizia: "Alguém mais sente um frio bizarro perto da torre do relógio, mesmo no verão? E a sensação de estar sendo observado?"
Abaixo, uma resposta: "Sim! E às vezes, se você ficar quieto, parece que consegue ouvir... não sei... sussurros. Como estática de rádio. Minha colega de quarto dizia que era o vento, mas não soava como vento."
Outro post: "Isso é lenda antiga. Dizem que um aluno se atirou de lá nos anos 70. Mas a administração abafou o caso."
Mentiras, provavelmente. Mas a palavra "sussurros" brilhou na tela. Era a mesma palavra do artigo de jornal. Armado com essa nova peça, ele refinou sua busca. "Sussurros torre academia Konoha".
Foi assim que encontrou o artigo sobre Hayate Gekko. E o anuário. Levou quase uma hora, mas ele finalmente achou a foto do clube de esgrima. Um jovem de aparência cansada, com olheiras profundas que nem a má qualidade da foto conseguia esconder.
Shikamaru deu zoom na imagem. E então, ele viu. O símbolo.
Um círculo, com três vírgulas curvas girando para dentro, como um remoinho.
Um arrepio percorreu o corpo de Shikamaru, um arrepio não de medo, mas de reconhecimento. Ele minimizou a janela do anuário e abriu a foto que tinha tirado mais cedo, a da torre do relógio. Deu o zoom máximo que conseguiu na base de pedra da torre, a imagem ficando pixelizada.
Lá estava.
Gravado na pedra, quase apagado por décadas de chuva e vento, e coberto de musgo, estava o mesmo símbolo.
Não era uma coincidência. Era uma conexão. Uma linguagem. O símbolo ligava o desaparecimento de 1998, os sussurros, os calafrios, àquele lugar. Era sua próxima pista. E ele tinha a sensação arrepiante de que, ao contrário da sombra e do relógio, aquele símbolo era algo que ele não deveria ter encontrado. Era uma peça de um quebra-cabeça muito mais antigo e sombrio do que ele jamais poderia ter imaginado. E ele, um gênio preguiçoso que só queria paz, tinha acabado de o colocar no seu tabuleiro de shogi pessoal.
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