O Sussurro da Academia
10 Capítulo 10: A Implosão
Notas iniciais
A manhã seguinte nasceu cinzenta e úmida, o céu coberto por um manto de nuvens que parecia sugar a cor do mundo. Para Temari, o mundo já não tinha cor. Ela não tinha dormido. Passou a noite se virando na cama, seu corpo exausto, mas sua mente ardendo, projetando a imagem de Shikamaru e Hinata saindo da biblioteca na escuridão, uma e outra vez. Cada repetição adicionava um novo detalhe doloroso, uma nova camada à sua certeza. A raiva inicial, quente и violenta, tinha se dissipado durante as longas horas de solidão, dando lugar a algo mais frio e pesado: uma mágoa profunda, o tipo de dor que se instala nos ossos e se recusa a ir embora.
Ela se levantou e se preparou para as aulas com uma precisão robótica. Seu quarto, normalmente seu santuário de ordem, com os livros alinhados por tema e as roupas dobradas com precisão militar, parecia uma cela. Cada objeto, cada livro, a lembrava dele. O tabuleiro de shogi no canto, com uma partida deles esquecida pela metade, era uma afronta silenciosa, um monumento a uma cumplicidade que ela agora questionava. Ela se sentia uma idiota. Uma tola que tinha confundido cumplicidade intelectual com lealdade, que tinha acreditado que sua mente afiada era suficiente para prendê-lo.
Ela decidiu ir para sua primeira aula pelo caminho mais longo, o que passava pelo dormitório feminino. Não sabia porque fez isso. Talvez uma parte masoquista de si quisesse ver, quisesse a prova final e irrefutável para que pudesse finalmente deixar a raiva tomar conta e apagar a dor. O campus estava despertando lentamente, o ar frio beliscando seu rosto. Outros estudantes passavam por ela, rindo, bocejando, vivendo suas vidas normais, e Temari se sentia como um fantasma os observando de outra dimensão.
E então, ela viu.
Aconteceu em câmera lenta. O mundo pareceu perder o som. Hinata estava saindo do seu prédio, caminhando lentamente na direção do edifício de Letras, a cabeça baixa, o olhar fixo no chão. A princípio, Temari sentiu apenas uma pontada de irritação. Mas depois, seus olhos focaram. E seu coração parou.
Não era a figura de Hinata que a tinha paralisado. Era o que ela estava usando.
O casaco.
O casaco de flanela verde e cinza de Shikamaru. O casaco que ele usava quase todos os dias, que estava sempre jogado na parte de trás da sua cadeira, que cheirava a café e a preguiça. Temari conhecia cada fio daquele casaco, cada pequeno rasgo perto do punho. E agora, ele estava envolvendo outra mulher.
A imagem se gravou na sua mente com a clareza de uma fotografia. O casaco parecia enorme nos ombros pequenos e encolhidos de Hinata. As mangas, compridas demais, cobriam suas mãos, e ela as puxava para baixo, um gesto pequeno e inconsciente que gritava familiaridade, como se já o tivesse usado mil vezes. Ela parecia pequena e segura dentro da peça de roupa dele, protegida do mundo. Protegida por ele.
O ar abandonou os pulmões de Temari numa golfada silenciosa. Foi um golpe físico, uma dor surda e profunda no centro do seu peito, como se uma parte dela tivesse sido arrancada sem aviso. O mundo à sua volta se desfocou, e tudo o que existia era aquela imagem, a prova final e inegável da sua exclusão.
Flashback.
A noite do festival de outono, há alguns meses. O ar estava gelado. Tinham se afastado da multidão barulhenta, das lanternas e da música, e estavam sentados num banco isolado, observando as estrelas. Ela tremia, abraçando os próprios braços. — Está com frio — afirmou ele, a voz um murmúrio preguiçoso. — Eu sou do deserto. Qualquer coisa abaixo de vinte graus para mim é o ártico — respondeu ela, tentando soar dura. Ele suspirou, um som que ela conhecia tão bem, o som que precedia cada esforço que ele fazia. E, sem dizer mais nada, ele tirou seu casaco de flanela. O mesmo casaco. E o colocou sobre os ombros dela. Estava quente e tinha o cheiro dele, um cheiro que era só dele. — Problemático — disse ele, olhando para o céu. — Agora sou eu que estou com frio. Ela riu, um som genuíno e feliz, e o puxou para mais perto, envolvendo os dois no casaco. Naquele momento, sob as estrelas, a intimidade entre eles era a coisa mais quente e segura do mundo.
Fim do Flashback.
A memória, antes tão quente, agora queimava como gelo. O mesmo gesto. O mesmo casaco. Mas a mulher era outra.
Temari sentiu o gosto amargo da bile na sua garganta. Ela se virou bruscamente, incapaz de continuar a olhar. Não foi para a aula. Voltou para seu quarto, andando como um autômato, seu corpo dormente. Fechou a porta, e a armadura que ela usava para enfrentar o mundo finalmente se desfez.
Ela não gritou. Não jogou coisas. Sua dor era mais profunda, mais silenciosa. Ela simplesmente escorregou pela porta até se sentar no chão, abraçando os joelhos, e se deixou chorar. Chorou pela traição, pela humilhação, mas acima de tudo, pela perda daquela intimidade silenciosa que ela pensava que era única. Chorou como a menina solitária que cresceu no deserto, lutando para ser forte, e que tinha, por um momento, baixado a guarda e permitido que alguém a visse.
Depois que as lágrimas secaram, restou apenas um vazio frio. Ela pegou o celular. Precisava de uma âncora. Precisava de casa. Discou um número que sabia de cor. A chamada de vídeo demorou a ser atendida, mas finalmente, o rosto de Kankuro apareceu na tela, um sorriso se formando. — Ora, ora, se não é a nossa irmã preferida! A que se lembrou que nós existimos!
Seu tom brincalhão morreu no instante em que ele viu o rosto dela. — Temari? O que aconteceu? Você está com uma cara péssima.
— O Gaara está aí? — a voz dela era um fio, rouca do choro.
Kankuro desapareceu da tela por um momento, e quando voltou, o rosto calmo e sério de Gaara estava ao seu lado. — Temari. O que está acontecendo? — A voz de Gaara era tranquila, mas seus olhos de cerceta a analisavam com uma preocupação intensa.
E ali, a milhares de quilômetros de distância, sentada no chão do seu quarto de dormitório, a mulher mais forte que eles conheciam desabou. Ela contou tudo. Não a parte dos fantasmas e dos sussurros, claro. Mas a parte que importava, a parte que doía. Contou sobre Shikamaru, sobre a distância, sobre o segredo. E, por fim, sobre o casaco.
Kankuro ouvia, sua expressão passando de choque para uma fúria protetora. — Esse desgraçado preguiçoso... Eu vou pegar o próximo voo para aí e vou quebrar todos os ossos do corpo dele, um por um!
— Kankuro, cale a boca — disse Gaara, sua voz baixa, mas cheia de autoridade. Ele nunca tirou os olhos de Temari. Ele esperou, deixando-a esvaziar toda a dor. Quando ela terminou, ele ficou em silêncio por um momento, processando. — A dor que você sente é por causa do que ele fez, ou por causa do que você acha que ele fez?
A pergunta era típica de Gaara. Direta. Analítica. — Eu vi, Gaara. Com meus próprios olhos.
— Você viu dois amigos compartilhando um momento de conforto, ou dois amantes compartilhando um segredo? — continuou ele, a voz calma. — Sua dor está nublando seu julgamento. Você conhece o Shikamaru. Ele é preguiçoso, é um idiota às vezes, mas ele é desleal?
As palavras dele eram um bálsamo e um tormento. Ela queria gritar que sim, que ele era. Mas a pergunta de Gaara atingiu o cerne da questão. Ela não sabia. Não tinha certeza. Tinha apenas a dor. — Eu não sei — admitiu ela, a voz falhando. — Eu só sei que dói.
— Então descubra — disse Kankuro, sua raiva dando lugar a um conselho prático. — Você não é nenhuma donzela indefesa, Temari. Você é a nossa irmã. Se esse cara está mentindo, destrua-o. Mas se houver algo mais, e você destruir tudo por orgulho... vai se arrepender.
Eles ficaram ali, os três irmãos, compartilhando um silêncio através de uma tela, um oceano de distância entre eles, mas mais próximos do que nunca. A conversa não resolveu o problema. Mas fez algo mais importante. Lembrou a Temari de quem ela era.
Ela desligou a chamada, sentindo-se esgotada, mas com uma nova clareza. A tristeza ainda estava lá, uma ferida aberta. Mas por baixo dela, seu espírito de luta começava a se agitar. A sugestão de Kankuro ecoava na sua mente. Destruí-lo. Mas seu instinto, sua inteligência, dizia que a pergunta de Gaara era o caminho a seguir. Descobrir.
Ela não ia agir por impulso. Ia guardar sua dor para si, trancá-la bem fundo. Ia observar. Ia analisar. E ia descobrir a verdade. Seja ela qual fosse.
Shikamaru estava perto da cafeteria, mexendo distraidamente um café que não tinha intenção de beber. Sua mente estava a milhas de distância, perdida num labirinto de símbolos antigos, espíritos sofredores e o rosto aterrorizado de Anko Mitarashi. O barulho normal do campus, as conversas e risadas dos outros estudantes, era apenas um ruído de fundo, como a estática de uma rádio que ele não conseguia sintonizar. Ele se sentia fundamentalmente desconectado do mundo ao seu redor, um sentimento que era ao mesmo tempo solitário e estranhamente focado. Sua missão era a única coisa que importava.
— Noite longa na biblioteca?
A voz dela cortou seu transe como uma lâmina de gelo. Era seda fria, desprovida de qualquer calor. Ele ergueu o olhar e a viu. Temari estava parada em frente à sua mesa, de braços cruzados, sua postura uma muralha impenetrável. Seus olhos, normalmente tão vivos e cheios de desafio, estavam duros e opacos como jade polido.
Shikamaru sentiu um nó de ansiedade se formar em seu estômago. A exaustão da noite anterior, a nova e pesada informação que carregava... ele não tinha energia para aquilo. — Temari. Bom dia.
— Poupe-me da sua falsa simpatia, Shikamaru — disse ela, sua voz tão baixa que só ele podia ouvir, mas cada palavra era um estilhaço. — A pergunta foi simples. A noite foi longa? Imagino que sim, para você ter que emprestar seu casaco para sua... companheira de estudos.
A menção do casaco o atingiu como um soco. Ele fechou os olhos por um momento, a imagem de Hinata tremendo de frio passando pela sua mente. Tinha sido um gesto de puro instinto protetor, mas agora, sob o olhar acusador de Temari, sentia-se sujo, como se tivesse sido pego cometendo um crime. — Olha, é complicado.
— "Complicado"? — ela riu, um som áspero e sem humor que fez com que algumas pessoas na mesa ao lado olhassem para eles. — Essa é a melhor desculpa que você consegue arranjar? Você, o gênio da estratégia, e a sua melhor jogada é "é complicado"? Eu vi vocês. O Naruto viu vocês. O Kiba viu vocês. Ou você acha que todo mundo é estúpido?
— Não é o que você está pensando — disse ele, a voz baixa e frustrada. A verdade era tão absurda que a mentira parecia a única opção sã. Como poderia ele explicar? “Na verdade, estamos sendo assombrados por um espírito torturado que sua rival de esgrima do passado ajudou a aprisionar, e a Hinata é uma espécie de para-raios para a dor dele.” Era ridículo. Ela o internaria.
— Ah, não? Então me ilumine, Shikamaru. O que eu estou pensando? O que está acontecendo entre você e a Hinata que exige encontros secretos de madrugada e te faz mentir descaradamente para mim e para o Naruto?
Ele abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. Qualquer defesa que ele pudesse oferecer soaria a uma mentira ainda maior. A verdade era impossível de compartilhar, e qualquer outra coisa seria uma traição à confiança que Hinata tinha depositado nele. Ele estava encurralado, uma posição que odiava mais do que qualquer outra. E assim, ele ficou em silêncio, seu silêncio uma tela em branco onde ela podia projetar todas as suas piores suspeitas.
Para ela, o silêncio dele foi a confissão final. A última esperança que ela tinha, uma pequena e teimosa chama de que talvez houvesse outra explicação, se apagou de vez, deixando apenas cinzas frias. — Foi o que eu pensei — disse ela, a voz se quebrando por uma fração de segundo antes de se solidificar em puro aço. Ela descruzou os braços e deu um passo atrás, criando uma distância física que espelhava a emocional. — Acabou, Shikamaru. Seja o que for que vocês dois têm, podem ter. Mas não me procure mais. Não fale mais comigo. Acabou.
Ela se virou e foi embora, cada passo firme e decidido, sem olhar para trás. E Shikamaru ficou ali, olhando para sua figura se afastando, com o gosto amargo do café e do fracasso na boca. Tinha tentado proteger um segredo para salvar uma vida, e no processo, tinha destruído a única relação em que se sentia verdadeiramente ele mesmo.
Shikamaru caminhou até a estufa abandonada, seu refúgio, sentindo o peso do mundo nos ombros. A discussão com Temari se repassava na sua mente como um veneno. Cada palavra dela, cada olhar de desprezo... ele sabia que, da perspectiva dela, ela tinha toda a razão. E essa era a parte mais frustrante. Sua incapacidade de se defender, a necessidade de proteger um segredo que nem ele entendia completamente, o tinha transformado num mentiroso aos olhos da única pessoa que ele sentia que conseguia ler sua mente. Ele se sentia um rei idiota no seu próprio jogo de shogi, sacrificando sua rainha sem ter um plano claro para a vitória.
Ele empurrou a porta de vidro da estufa, o rangido familiar ecoando no espaço úmido e silencioso. O cheiro de terra molhada e de plantas apodrecendo encheu seus pulmões. Hinata já estava lá, sentada no banco de ferro velho, esperando.
Ela ergueu o olhar quando ele entrou, e o pequeno sorriso que se formou em seus lábios morreu no instante em que ela viu seu rosto. Sua empatia era uma faca de dois gumes; ela sentia a dor dos outros como se fosse sua. — O que aconteceu? — perguntou ela, a voz suave, mas cheia de uma preocupação genuína. — Você está... pálido.
— A Temari. Ela nos viu — a confissão saiu dele, a voz desprovida de emoção, o que a tornava ainda mais pesada. — Ela acha que... nós dois...
Hinata corou violentamente, um calor de vergonha subindo pelo seu pescoço. Ela olhou para o casaco dele, que ainda estava dobrado ao seu lado, e a compreensão a atingiu. A discussão, a raiva dela... tinha sido por causa deles. Por causa dela. — Ah, não... Shikamaru, a culpa é minha. O casaco...
— Não — cortou ele, sentando-se pesadamente ao lado dela, mas mantendo uma distância respeitosa. — A culpa não é de ninguém. É desta situação toda. Desta... coisa. Ela está nos isolando, nos virando uns contra os outros. Era exatamente isso que eu temia.
Ele enterrou o rosto nas mãos, seu controle habitual vacilando por um momento. Vê-lo assim, tão vulnerável e derrotado, despertou algo em Hinata. Durante toda a sua vida, ela tinha sido a pessoa a precisar de proteção, a precisar de ser salva. Mas agora, olhando para ele, ela sentiu uma onda de força protetora. Ele tinha sido sua única âncora naquele pesadelo. Tinha a protegido, tinha acreditado nela quando ninguém mais o fez. A gratidão que ela sentia era imensa, uma dívida que ela não sabia como pagar.
— Shikamaru... — começou ela, a voz suave, tentando encontrar as palavras certas. — Obrigada. Por tudo. Por me ouvir. Por não me achar louca. Por... por me fazer sentir segura.
As palavras pareciam insuficientes. O que ela sentia era uma conexão tão profunda, uma gratidão tão avassaladora, que não podia ser expressa verbalmente. Era uma emoção pura, nascida do trauma partilhado e do cuidado genuíno que ele lhe tinha demonstrado. E num impulso, movida por aquela onda de emoções que ela não conseguia decifrar, ela fez a única coisa que seu coração lhe disse para fazer.
Ela se aproximou e, antes que sua própria timidez a pudesse parar, se inclinou e o beijou suavemente na bochecha.
O tempo parou. O som da chuva fraca nos painéis de vidro da estufa pareceu desaparecer.
O beijo foi rápido, inocente, casto. Mas o gesto pendurou no ar entre eles como algo pesado e irrevogável. Shikamaru ficou completamente imóvel, seus olhos arregalados de surpresa. O toque suave dos lábios dela na sua pele era uma sensação tão inesperada que seu cérebro, normalmente tão rápido, simplesmente desligou.
Ele se afastou instintivamente, não com repulsa, mas com puro choque, colocando uma mão no ombro dela para criar uma distância suave. — Hinata... não.
O "não" foi suave, quase um sussurro, mas a atingiu como um tapa. O calor no seu rosto se transformou numa queimadura de humilhação. Ela recuou, seu corpo se encolhendo, as lágrimas ardendo em seus olhos. Que estupidez. O que ela estava pensando? Ele estava sofrendo por causa da sua namorada, e ela... ela tinha feito aquilo. Tinha confundido sua aliança, sua cumplicidade, com algo mais. Tinha estragado a única coisa boa que lhe tinha acontecido no meio daquele pesadelo. — Desculpa... eu... eu não devia... — gaguejou ela, levantando-se de repente, seu único desejo era o de desaparecer. — Eu tenho que ir.
Ela praticamente fugiu da estufa, deixando um Shikamaru atordoado para trás, a mão tocando instintivamente no lugar onde os lábios dela tinham estado. A aliança deles, antes tão sólida, estava agora fraturada por uma tensão horrível e embaraçosa que ele não fazia a mínima ideia de como consertar.
Hinata corria pelo campus, sem destino, as lágrimas turvando sua visão e se misturando com a chuva fina que recomeçava a cair. A humilhação era uma brasa quente no seu peito, queimando cada vez mais forte. Que estúpida. Que idiota. A palavra "não" de Shikamaru ecoava na sua cabeça, suave, mas com o peso de uma porta de cofre se fechando. Tinha estragado tudo. Tinha tornado a única aliança segura que possuía em algo estranho e embaraçoso, uma fonte de vergonha. Ela só queria chegar ao seu quarto, ao seu refúgio, e desaparecer debaixo dos cobertores até que o mundo deixasse de existir.
Ela não estava prestando atenção para onde ia, apenas fugindo de si mesma, e por isso não o viu até ser tarde demais. Ao virar a esquina de um dos prédios de aulas, uma figura alta bloqueou seu caminho, fazendo-a parar de repente para não esbarrar.
— Hinata?
Era o Naruto. E sua expressão não era a que ela esperava. Havia preocupação, sim, mas por baixo, havia uma dureza, uma tensão no seu maxilar que ela nunca tinha visto nele. Ele tinha estado à sua procura.
Ao vê-la de perto, o rosto banhado em lágrimas, a expressão de pânico, a preocupação dele se intensificou, mas a suspeita também. Uma memória invadiu a mente de Naruto, nítida e dolorosa.
Eles estavam no Ichiraku, há alguns meses, antes de tudo isso. Ele tinha contado uma piada idiota sobre o Kiba e o Akamaru, e a Hinata tinha soltado uma gargalhada. Não era seu sorriso tímido habitual. Era uma gargalhada genuína, livre, um som cristalino que o fez parar de comer só para ouvi-la. Naquele momento, ele pensou que faria qualquer coisa para ouvi-la rir daquela forma outra vez.
O contraste entre a alegria daquela memória e a angústia que via à sua frente era um soco no estômago. E a causa, ele agora tinha certeza, era o homem com quem ela andava passando todo o seu tempo. — O que está acontecendo? Por que você está chorando? Fale comigo. — A voz dele era suave, mas com uma urgência que a fez se encolher. — Foi o Shikamaru? Ele te magoou?
As perguntas, que deveriam soar carinhosas, saíram carregadas de uma tensão estranha, quase uma acusação. Seu olhar não era de pura preocupação; havia uma sombra de desconfiança nele. — Não é nada... eu... — ela tentou, mas sua voz era um soluço. Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, sentindo-se pequena e exposta, como uma criança pega fazendo algo errado.
— Nada? — a voz dele subiu de tom, a frustração se sobrepondo à preocupação. A conversa com Temari, a imagem que sua mente ciumenta tinha criado, tudo veio à tona. — Não minta para mim, Hinata! Eu te mando mensagens, tento falar com você, e você me ignora com respostas de uma palavra! A Temari viu vocês saindo da biblioteca de madrugada! E agora te encontro chorando, vindo exatamente da direção onde ele estava! O que você quer que eu pense?!
O tom acusatório dele, a última pessoa no mundo de quem ela esperava aquilo, foi a gota d'água. Ela já se sentia humilhada, agora sentia-se atacada. — Eu não estou mentindo! — sua defesa soou fraca, mesmo para seus próprios ouvidos.
— Não? Então me fale a verdade! O que está acontecendo? O que vocês dois estão escondendo? Eu sou seu amigo! Ou pelo menos, eu achava que era. Por que você não confia em mim? É o Shikamaru, não é? O que ele te fez? Ou o que vocês dois estão fazendo?
Cada pergunta era uma nova facada. Ele estava vendo tudo pela lente da suspeita que a Temari lhe tinha dado. Para ele, a incapacidade dela de explicar, suas lágrimas, sua angústia, não eram sinais do seu terror sobrenatural, mas da sua culpa.
E Hinata, já no seu limite emocional depois da humilhação com Shikamaru, sentiu algo se quebrar dentro de si. A gentileza, a paciência... desapareceram. No seu lugar, ficou apenas a dor. A dor de ser mal interpretada, de ser acusada pela pessoa que ela mais admirava. — Você não entende! — gritou ela, sua própria dor e humilhação se transformando numa raiva frágil. Sua voz, normalmente tão suave, estava cheia de angústia. — Você não sabe de nada! Me deixe em paz!
Ela passou por ele correndo, os ombros se esbarrando com força. E, desta vez, não parou. Correu até seu dormitório, deixando-o para trás, parado no meio do caminho, debaixo da chuva fina que começava a engrossar.
Naruto ficou ali, sentindo as gotas frias no seu rosto, se misturando com uma umidade em seus olhos que ele se recusava a admitir que eram lágrimas. As palavras dela — "Me deixe em paz!" — ecoavam na sua cabeça. Não tinham sido apenas palavras de raiva. Tinham sido uma demissão. Uma porta se fechando.
A preocupação que ele sentia se transformou lentamente numa raiva fria. Ele tinha tentado. Tinha tentado ser um amigo, tinha tentado ajudar. E em troca, recebeu gritos e segredos. Temari tinha razão. Ele estava sendo um idiota. Um idiota que se preocupava com alguém que claramente não se preocupava com ele. A dor no seu peito se solidificou em algo duro e pesado. Traição.
A chuva caía com mais força agora, lavando o campus da Academia Konoha numa torrente cinzenta. Mas a verdadeira tempestade não estava do lado de fora. Estava dentro dos quartos e dos corações de quatro pessoas que, até ontem, se consideravam os melhores amigos.
No seu quarto impecavelmente arrumado, Temari se sentou na beira da sua cama, o celular na mão. Seu rosto era uma máscara de fúria fria, mas seus dedos tremiam ligeiramente. Ela abriu a lista de contatos e encontrou o nome dele: "Shikamaru Preguiçoso". Seu dedo pairou sobre o botão "Apagar". Uma torrente de memórias invadiu sua mente sem permissão: o riso dele, a forma como a desafiava no shogi, o conforto silencioso da sua presença. Por um instante, a hesitação, a dor, ameaçaram quebrar sua determinação. Então, a imagem de Hinata, pequena e segura dentro do casaco dele, voltou com a força de um tapa. Ela apertou o botão. "Apagar contato?" a tela perguntou. "Apagar", confirmou ela, a voz um sussurro no quarto silencioso. O nome desapareceu da sua vida digital. Mas ela sabia que apagá-lo do seu coração seria uma batalha muito mais longa e sangrenta.
Naruto caminhava sem rumo pela chuva, completamente encharcado, mas indiferente ao frio. Ele parou no meio do pátio vazio, a água escorrendo pelo seu rosto, se misturando com as lágrimas de frustração e mágoa que ele já não se preocupava em esconder. Ele cerrou os punhos com tanta força que as unhas se cravaram em suas palmas. Sentia-se um idiota. Um idiota traído pelos seus dois melhores amigos. A preocupação que sentia tinha azedado, transformada num ressentimento frio e pesado. Se eles queriam seus segredos, que ficassem com eles. Ele já não se importava. Era o que ele dizia a si mesmo, enquanto a chuva lavava um mundo que, de repente, parecia muito mais solitário.
No seu quarto, Hinata estava encolhida na cama, soluçando num travesseiro para abafar o som. Seu corpo tremia com a força da sua angústia. Era um pesadelo. Um pesadelo do qual ela não conseguia acordar. A rejeição de Shikamaru, a acusação de Naruto... as duas pessoas em quem ela mais confiava a tinham abandonado no mesmo dia. Não havia refúgio. Não havia lugar seguro. A aliança que lhe tinha dado uma fagulha de esperança tinha virado cinzas, e a amizade que ela valorizava acima de tudo estava em ruínas. Ela estava completamente só, uma alma em sofrimento no meio de um campus cheio de gente. E ela sabia, com uma certeza aterrorizante, que era exatamente isso que a criatura na torre do relógio queria.
Shikamaru não voltou para seu quarto. Voltou para a estufa abandonada, o lugar onde tudo tinha desmoronado. A chuva batia nos painéis de vidro, o som o isolando ainda mais do resto do mundo. Ele estava de pé, olhando para o banco de ferro vazio onde Hinata tinha estado sentada, onde ela o tinha beijado. Ele repassava cada movimento na sua cabeça, cada decisão, como um mestre de shogi analisando uma partida perdida. Sua lógica, sua maior arma, tinha falhado espetacularmente. Tinha calculado mal as variáveis mais importantes: as emoções. Sua tentativa de controlar o segredo, de proteger os outros, tinha resultado na implosão de todas as suas relações importantes. Tinha magoado Temari, magoado Hinata, e indiretamente, o Naruto. Um pensamento frio e terrível o atingiu, uma peça final se encaixando no seu quebra-cabeças de desastre. O livro dizia que o espírito se alimentava de dor, que procurava outras almas em sofrimento para compartilhar sua agonia. E ele, na sua tentativa genial de lutar contra o monstro, tinha acabado de lhe preparar um banquete. Ele não estava lutando contra o monstro. Estava alimentando-o.
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