O Sultão
47 Emoções Duplas
Notas iniciais
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Capítulo 46
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Bella
Edward não conseguiu resgatar os pais na noite que planejou. Os rebeldes da Maniza atacaram o acampamento das nossas tropas e para não colocar os dois num perigo maior ele adiou o resgate por alguns dias.
Jasper também conseguiu se recuperar mais e aos poucos está me ajudando com os problemas do governo ── Por ele ser homem os conselheiros do sultanato aceitam melhor suas escolhas do que as minhas ── Só, que também vejo nos seus olhos a preocupação com a guerra e o futuro do seu casamento ── Ele sabe que a volta dos seus pais pode trazer muitas mudanças para Edward e eu, Alice e ele como casal.
─ Sabia que Edward chorou por horas depois que falou para ele que nossos pais estão vivos?
O olhei.
─ Não. ─ respondi.
A gente estava sozinho na principal sala de reuniões do palácio.
─ Ele tem tentado ser forte por você, mas a volta deles tem uma força muito grande na gente.
─ É normal. Toda grande mudança assusta e na maioria das vezes até as pessoas mais independentes precisam do amor dos pais para estarem completos. ─ coloquei minha mão na sua. ─ Só, que a volta dos dois não é fácil. Ela está trazendo muitos sentimentos duplos, que deixam vocês vulneráveis. A gente. E pessoas fortes não são muito boas lidando com a fraqueza.
Vi um sorriso fraco nos seus lábios e ele aspirou.
─ Acho que por Husam a volta deles é mais difícil para você e Edward, mas também não sei se vou conseguir equilibrar a convivência da Alice com a minha mãe ou com o meu pai.
─ Acha que eles não vão aceitá-la por ela ser estrangeira e plebeia?
─ Acho que a visão de mundo dos dois é muito diferente da dela e Alice tem estado muito sensível nos últimos dias.
Expeli o ar.
─ Sei que a força que os pais têm na nossa cultura é muito maior que no ocidente e que não vai conseguir estar sempre neutro entre os três, mas por todos é melhor não cair no erro de estar sempre defendendo seus pais.
Meu cunhado aspirou de novo.
Olhei para o exterior das minhas mãos.
─ Eu sei. Uma esposa ocidental nunca vai conseguir olhar os sogros como uma árabe-muçulmana olha. ─ murmurou.
Sorri.
─ E você?
O olhei.
─ Eu? ─ perguntei.
─ Acha que vai ter problemas com os meus pais?
─ Acho que conhece a resposta melhor do que eu. ─ respondi e num compromisso oficial fora do palácio percebi que Alice está diferente. Muito calada. ─ O gato comeu sua língua?
─ Não o gato, mas o filhote dele. ─ respondeu.
Não compreendi muito.
Ela olhou para os lados e falou baixo:
─ Estou grávida.
Pisquei com força e um sorriso leve apareceu nos meus lábios, mas o fechei quando precisei saber do mais importante:
─ Está feliz?
Alice sorriu com a mesma leveza que tive.
─ Muito. Não achei que ia estar ─ ouvi medo na sua voz. ─ só, que não sei se Jasper também vai estar.
Coloquei minha mão na sua.
─ Se foi um bebê de lua de mel não acho que ele tinha planos de esperar para ser pai.
─ Não foi planejado. A gente esteve se protegendo, mas a proteção falhou.
─ Por que ele não sabe?
─ Estou esperando os pais dele voltarem. Não acho justo colocar mais peso nele. ─ sua resposta continuou baixar para não ser ouvida pelos ouvidos errados.
Não falei mais nada. Não acho que Jasper desejar esperar, mas se eu estiver errada ela não precisa de falsas esperanças e os irmãos Cullen as vezes são imprevisíveis.
Aplaudimos o representante do Médico Sem Fronteiras ── Com o dinheiro pessoal dos dois Edward e Jasper são grandes financiadores do trabalho dessa organização e quando as pessoas que trabalham nela souberam das dificuldades que os sumaneses da fronteira estão tendo pela guerra chegaram a Suma para ajudá-las.
Mais aplausos.
O discurso dele foi ligeiro e Alice esteve conversando com ele, mas eu pouco consegui falar com todos da equipe que o acompanharam ── Jasper está me ajudando com o governo, mas minha carga de trabalho continua pesada ── Edward tinha muitos compromissos marcados. Ele é uma “máquina” de trabalhar.
─ Ajuda Majestade. Ajuda! ─ no exterior do prédio do evento uma moça um pouco mais velha que eu furou o bloqueio dos meus seguranças, abraçando minhas pernas quando correu para mim e se ajoelhou na minha frente.
A imprensa adorou ter o que fotografar e filmar.
─ O que...? ─ me assustei, meu coração acelerou. Muito.
─ Eles vão me matar. Eles vão me matar. ─ a olhei e levantei a cabeça olhando para Soraya do meu lado.
A moça chorou alto.
Olhei para o meu chefe de segurança.
─ O tio e o pai dela a obrigaram a casar com a pessoa que a estuprou e desejam matá-la por estar tentando se divorciar dele. ─ respondeu baixo para não ser ouvido pelos jornalistas.
Senti o choque no meu rosto e Alice ── que estava só um pouquinho mais atrás de mim ── vacilou no equilíbrio, mas ela o recuperou e virou para o lado vomitando forte.
Movi a mão para um dos meus seguranças.
─ Leve a Princesa.
Ele caminhou para ela e com a assistente dela os dois entraram de novo no prédio do evento.
Olhei novamente para a moça.
─ Calma, por favor. ─ pedi suave.
Ela me olhou, mas continuou chorando.
Levantei a cabeça de novo.
─ Levem ela para o carro da Princesa. ─ olhei para Soraya. ─ Vá com ela.
Minha assistente moveu a cabeça e se curvando colocou as mãos nos ombros da moça.
─ Obrigada, Majestade. Obrigada. ─ a moça se afastou falando, mas o som de chorou continuava na sua voz.
Movi a cabeça, me virando para procurar Alice e a encontrei num salão vazio ── Para dar privacidade a gente o segurança que mandei com ela caminhou para o corredor.
─ Você tem falar para Jasper. Sei que você se sentiu enjoada pelo que ouviu do tema violência, mas com sua reação a imprensa vai começar a desconfiar de uma gravidez e ele não vai gostar de ser o último, a saber. ─ me abaixei na sua frente, colocando minha mão na sua.
─ A lei que Jasper criou não cobre toda espécie de violência contra mulher?
A olhei.
─ Cobre, só que as pessoas demoram a se acostumarem com as mudanças e muitas famílias obrigam as mulheres estupradas a casarem com seus agressores para manterem a honra da família “limpa’. Mas, não ache que só acontece em Suma. Na maioria dos países árabe-muçulmanos a acusação de uma mulher estuprada só tem valor se quatro homens testemunharem a favor dela comprovando o estupro e não é raro elas serem mais punidas do que seu agressor.
─ Punições piores que o casamento? ─ sua voz tremeu.
─ Depende da visão de mundo das pessoas. Acho o casamento com o agressor muito pior que chibatadas injustas ou morte por fuzilamento ou degolação.
Alice tragou a saliva e acho que sem querer a deixei mais enjoada.
Ela aspirou.
─ Conheço você há anos. Me explica por que nunca pesquisei mais da sua cultura?
Ri involuntária.
─ A maioria das pessoas nos EUA não conhecia minha origem.
─ Só que eu conhecia. ─ murmurou.
Sorri.
─ É, mas meu comportamento perto de você sempre foi mais ocidental do que árabe-muçulmano. Acho que nunca mostrei nada que te deixasse curiosa para conhecer mais da minha cultura.
Mais calma Alice também sorriu.
─ Vamos. Você tem descansar e eu uma moça desesperada para ajudar.
Levantou.
─ Fale com Jasper. Ele criou a nova lei e é homem. A família vai respeitar mais uma ordem dele que sua.
Expeli o ar. Não gosto muito do que falou, mas pelo menos ela aprende ligeiro.
─ A coloquei no seu carro com Soraya. Você vem comigo.
Alice moveu a cabeça. Caminhamos para o exterior do prédio. Meu motorista abriu a porta do carro e ela colocou sua mão na minha. Fechei meus olhos e no palácio Husam veio para os meus braços.
─'Umi*! ─ ele me abraçou e o carreguei ── Jasper estava atrás dele.
─ Bella. Habibti* ─ ele beijou a testa de Alice.
Ela sorriu.
─ Oi, Jasper. ─ respondi e beijei Husam. Também falei para o meu cunhado da moça que pediu ajuda.
─ Vou falar com ela. ─ ele respondeu depois de me ouvir. ─ Vem comigo? ─ perguntou para Alice.
A cor sumiu do rosto dela. Ela sabe que não vai conseguir ouvir mais relatos de violência.
─ Não. O calor está sendo difícil para mim hoje. Vou descansar um pouco.
Ele moveu a cabeça e beijou a testa dela de novo.
─ Tchau, pequeno. ─ também beijo Husam e caminhou, mas parou virando a cabeça para mim. ─ Sua assistente vai estar comigo mais um pouco.
Sorri e na nossa ala banhei, alimentei Husam e depois de escovar seus dentes o coloquei na minha cama para ver tevê comigo.
─ Eu era desse tamanho? ─ apontou para o desenho na tela dela.
Sorri.
─ Era.
Sua boquinha se abriu num ó.
─ E também estive numa barriga?
O coloquei nas minhas pernas.
─ Esteve, mas nem toda mamãe carrega seus filhos aí. Às vezes elas também os carregam aqui. ─ coloquei minha mão no coração e ele colocou o ouvido no meu peito para ouvir as batidas dele.
─ É forte! ─ se surpreendeu.
Sorri mais.
─ É. As mamães têm que ser fortes para cuidar dos seus filhos e algumas crianças têm mais de uma mãe.
─ Por quê?
Mordi os lábios.
─ Às vezes a mamãe que carregou a criança na barriga dela tem que se afastar do filho e uma mãe que o carrega no coração cuida dele.
─ Eu não tinha nenhuma, mas agora tenho você e o papai Edward.
Sua resposta me emocionou, mas não chorei.
─ Às vezes as crianças também têm dois papais.
─ Eu tenho?
Não consegui responder. Ainda é difícil olhar para o meu sogro como pai dele.
─ Olhe o desenho. O bebê está feliz.
Husam virou a cabeça para a tevê e não me perguntou mais ── me senti aliviada por ele não me perguntar também como nascem as crianças ── O desenho acabou e ele viu outro, mas dormiu na metade do terceiro.
Movi a mão no seu cabelo e com o computador na cama respondi e-mails, li novas propostas de leis e licitações para serviços básicos do país só desejando estar mais tempo do seu lado.
Bateram na porta.
─ Entre. ─ respondi sem levantar a cabeça, mas reconheci o som dos movimentos. ─ Oi, Jazz. ─ o olhei.
Ele sorriu.
─ Posso?
Movi a cabeça colocando o computador do meu outro lado e ele sentou num sofá do dormitório.
Husam se moveu me abraçando mais, mas continuou dormindo.
─ Ele te adora.
─ E eu a ele. ─ respondi.
Jasper sorriu de novo.
─ Sempre o achei parecido comigo, mas me convenci que eu estava doido.
─ Ele tem o seu queixo e os mesmos olhos de Edward.
Moveu a cabeça.
─ Estive falando com a moça. O casamento dela não tem validade. Ela só assinou os documentos porque o pai estava apontando uma arma para a cabeça dela.
Sacudi a cabeça.
─ É melhor não falar para Alice.
─ Ela está grávida e a gravidez a tem deixado muito sensível. ─ sorriu. ─ Eu sei, mas estou esperando ela desejar me falar.
Me surpreendi.
─ Você é melhor nisso do que eu. Não percebi nenhum sintoma.
Jasper sorriu mais.
─ Ocupada como está você não ia perceber nem se o mundo estivesse quadrado.
Também sorri.
─ Parabéns? ─ o tom da minha frase veio errado.
Sorriu leve.
─ Obrigada. ─ murmurou e olhou para Husam. ─ A moça vai estar num hotel por alguns dias até eu ter certeza que a família dela e o agressor não vão mais ser um problema para ela.
Movi a cabeça.
─ Falou para ele dos meus pais? ─ perguntou.
Também olhei para Husam.
─ Comecei, mas ainda não consigo falar tudo. ─ Olhei para Jasper novamente. ─ E com ele tão pequenininho tenho que ter cuidado para não o confundir se não for devagar.
Moveu a cabeça de novo.
─ Fale no seu tempo e no do Edward. Meu pai está desacordado e minha mãe nem lembra que tem filhos.
─ Como se sentiu quando os viu?
Ele juntou as mãos.
─ Quando vi minha mãe no campo de refugiados também achei que estava doido. Ela estava acarinhando meu cabelo e me olhava com muito amor. “Mãe” a chamei, me levantando. ─ Jasper parou me olhando. ─ Ela sorriu leve e falou: “Não sei se tenho filhos, mas se os tiver espero que tenham a mesma bondade que vejo no seu rosto”.
Sorriu fraco,
─ Senti como se tivessem me dado o mundo e muito ligeiro o tirado de mim. Ela não se lembrava de mim ou de Edward, mas estava cuidando de mim.
Vi muita emoção no seu olhar.
─ “Edward tem muito mais” respondi. “Ele é seu irmão?” perguntou. ─ sua voz tremeu. ─Apertei meus lábios e movi a cabeça ── muito emocionado para conseguir falar.
Não chorei, mas me emocionei o ouvindo.
─ Depois olhei para a cama que estava do meu lado e vi meu pai desacordado nela com uma grande cicatriz no rosto.
Me preocupei.
─ Edward sabe dela?
─ Sabe e daqui uma hora vai estar no campo de refugiados. ─ respondeu.
Senti minha pulsação acelerar, mas não sinto medo pela segurança do meu marido, só pelo seu emocional.
Jasper continuou:
─ A cicatriz é horrível, mas com o tratamento médico correto acho que ela pode desaparecer.
─ Sua mãe sabe quem ele é?
Aspirou.
─ Não, mas cuida dele com muita suavidade. ─ respondeu. ─ “Pai!” falei baixinho quando o vi e me abaixei perto da sua cama. ─ ele sorriu como se estivesse lembrando de um sonho muito bom, mas impossível. ─ “Sabe quem ele é?” perguntei. “Não, mas cuido dele há anos” ela respondeu.
Seu olhar estava longe.
─ “É enfermeira?” perguntei mais. “Não me lembro muito do passado. Só lembro que desmaiei e quando acordei na areia uma sombra desconhecida estava do meu lado” minha mãe continuou. “Não sei como cheguei aqui, mas desmaiei de novo e quando acordei só conseguia me sentir vazia e nem sei por que ou meu nome”.
Traguei a saliva.
─ Como você está? ─ perguntei.
Jasper aspirou novamente.
─ Quando achei que eles tinham morrido foi mais difícil para eu aceitar a morte dos dois do que para Edward. Ele tinha o governo para ocupar a cabeça. Meu irmão não teve tempo para viver o luto, mas desde que voltei não tenho conseguido sentir muito. Minha preocupação com ele tem sido muito grande.
Mudei a pergunta:
─ E como você se machucou?
─ Os rebeldes têm cães farejadores. O cheiro dos alimentos e medicamentos que levei no caminhão os agitou e os rebeldes os ouviram. Mas, as pessoas do acampamento tiveram tempo de esconder um pouco da carga que receberam do nosso governo enquanto eles me perseguiram de carro e só me alcançaram porque uma peça da moto que peguei para os afastar dos refugiados quebrou.
Reajustei meu corpo no colchão.
─ Tive que continuar a pé. Lutei com muitos rebeldes para escapar, mas um pouco mais a frente um grupo maior deles me esperava e depois de muito me machucarem me abandonaram numa estrada de terra achando que eu estava morto.
Jasper também reajustou sua postura no sofá.
─ Só, que sobrevivi e pela manhã pessoas do campo de refugiados me encontraram. Eles me encontraram e o resto você sabe.
Vinquei a testa.
─ E quando saiu do acampamento?
─ Era noite. Os rebeldes chegaram para procurar mais da carga, mas não estavam achando nada e enquanto continuavam procurando minha mãe me ajudou a escapar. ─ a emoção estava novamente nos seus olhos. ─ Eu jurei sobreviver para ajudar a trazer meus pais de volta para Suma e mesmo quando cães farejadores dos rebeldes me alcançaram no deserto isolado lutei para sobreviver me sujando com lama para esses animais perderem meu cheiro, me escondendo em cavernas muito apertadas e rastejando em chãos nojentos, e cheios de armadilhas, para os rebeldes não encontrarem o caminho que escolhi. Só, que também me machuquei mais e você viu o tamanho do estrago que tive.
Sorri. Tenho muito orgulho dele.
─ Por que nunca reconheceram seus pais?
Jasper meditou por um segundo.
─ A cicatriz no rosto do meu pai o deixou muito diferente do que era e minha mãe coloca uma burca sempre que uma pessoa entra na tenda médica ── Até os rebeldes respeitam a dignidade de mulheres muito religiosas ── Ela também... ─ parou meditando se continua ou não. ─ Parou de falar no árabe sumanes, só a ouvi falando o de Albane*.
A terra natal dela.
─ E... colocou uma aliança, que não costumava usar, para tentar afastar prováveis.
─ Todos sabendo que sua mãe cuida do seu pai também ajuda para que ela esteja protegida dessa espécie de agressão, porque mesmo ele estando desacordado os homens mais tradicionais sempre respeitam a presença do marido. ─ meditei.
─ É.
Mordi os lábios.
─ Acha que Edward consegue trazer eles sem se machucar?
Jasper me olhou com muita sinceridade e respondeu:
─ Acho que ele se colocaria na frente de qualquer bala para proteger os dois, mas por você vai tentar estar longe da morte.
Tremi.
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