A vida se torna tão depreciativa quando alguém tem tudo o que qualquer pessoa poderia ter e que almejar; além do que se poderia sonhar ter em suas mãos e deixá-lo vazar por entre os dedos. Quando se segue o rumo capitalista temos simples escolhas: ver a derrota ou me encarar.

Um caso simples. Nem um pouco complicado é escolher entre duas alternativas. Contudo, eu acho, Antoni Müller não sabia distinguir uma coisa de outra, quando a que lhe estava nas mãos apagava tudo que a seguinte causara, no caso, viver.

Müller saíra apressado de casa, deixando sua família, que era composta de Angélique Bernadini e o pequeno recém-nascido Guillerme Müller, em segurança no lar sem saber para onde iria o comandante da casa. A causa disso fora um simples telefonema no meio da noite. Sim, o relógio não existe no mundo dos negócios. Mas, como sou bonzinho, digo-lhe as horas. Eram exatamente 22h e 34min e 15s quando Müller entrou no carro e partiu, destinando-se a sua fábrica de perfumes.

Os perfumes franceses são muito conhecidos pela fragrância e duração do belíssimo aroma. E, principalmente, eles são muito caros, uns chegam a ser quase um salário, nos países subdesenvolvidos, de um trabalhador. Foi pensando nisso que Müller investiu todas as suas ações na bolsa de valores a uma semana atrás. Nesse período sua empresa teve um dos maiores disparos em vendas. Calculando essa ocasionalidade Antoni Müller decidiu apostar, colocar suas ações a disposição de compradores. Houve êxito. Com apenas 10% de ações vendidas, ele adquiriu três meses em dinheiro que poderia sua fábrica produzir. Ficou contente, quem não fica? Porém, quis mais. Então, por mera coincidência, sua empresa sofreu o maior desfalque nas vendas. Uma outra concorrente quebrou todas as propostas de venda que ele mais seus sócios e empregados fizeram, ou seja, sua empresa caiu do pedestal.

— Vamos ficar ricos, Angélique! — exclamara ele na mesma noite em que colocara suas queridas ações da empresa à venda, antes de saber a notícia que veria dali a uma semana.

— Querido, por que você fez isso, sabendo que o mundo do dinheiro sempre oscila? — perguntara sua esposa, um pouco preocupada. E estava certa por agir assim.

— Deixa comigo. A sorte nunca esteve do nosso lado como agora! Eu posso senti-la ao meu lado.

Realmente, eu estava ao lado dele, esperando-o desconsiderar sua escolha para não poder vê-lo no dia que receberia um telefonema no qual trazia a má notícia de sua vida: falência, queda na bolsa, dívidas, desonra.

Bom, percebe-se que ele não desconsiderou.

Faltavam poucos minutos para se decidir. Müller se encontrava, agora, na cobertura do prédio sede de sua empresa; ele mirava o céu estrelado com nuvens cinzentas e o chão gelado com luzes piscantes. Fitava o chão e o céu, como se para ele o melhor modo de alcançar aquele mar estrelado acima da terra fosse mergulhar nas outras águas de pedras abaixo, logo ali, bem pertinho.

Agora, Antoni se lembrava de suas brincadeiras de infância. Quando ele pulava de árvores, macieiras que havia na casa de sua falecida avó. Sempre fora o mais corajoso dos que brincavam, era o mais rápido, mais forte e tinha a sorte do seu lado. Müller recordava cada passo que dera para chegar até aqui, seus estudos na faculdade, a perda de momentos bons por causa dessa incessante busca pelo dinheiro, entre outras oportunidades de fazer o que se gostava ao invés de ter dor de cabeça com cálculos matemáticos.

Antoni Müller sorriu, seus olhos brilhando.

— Sou o mais corajoso de minha família. Por que não encarar a morte? — disse ao vento, tentando de alguma forma receber um conselho sobre sua fala. Queria consolar-se em um desconhecido, alguém que o ajudasse sem saber que ele era um importante perfumista.

Um tolo. Como pode encarar-me?

Ele inclinou-se mais um pouco sobre a grade de proteção a sua frente, a única coisa que o separava de uma grandiosa queda. Olhou para os outros prédios à volta. Como pode destruir uma coisa que fora construída por gerações? Perguntou-se Antoni.

Como? A empresa, que ele arruinara, tinha sido fundada pelo seu bisavô, que era alemão e fora morar clandestinamente na França e nela casou-se com a filha de um fabricante de perfumes, associando-se com o pai da moça, sua esposa, aprendera o segredo dos fabulosos e agradáveis perfumes franceses.

Verdade, lembro-me do cheiro de suas almas quando os dois, o bisavô e tataravô, morreram felizes.

Algumas lágrimas gotejaram dos olhos cinzentos de Müller. Veio-lhe a carga de sua família.

— Não posso. — confessou novamente ao vento que soprava forte. Estávamos no outono. Outono. Folhas douradas, mas mortas. Uma visão de que a morte nem sempre é dolorosa ou horrível.

Seu filho iria sobreviver à vaga lembrança de um pai covarde, que não encara as coisas? Sua esposa choraria as memórias dele por quanto tempo? Seu ato resolveria os problemas que ele mesmo causara? Perguntava-se Antoni Müller, diante de sua única saída perante aquele momento de desordem em sua mente e defronte ao lindo chão que o apararia.

Ele olhou para trás. Desistiu.

— Não vou deixar as coisas assim. — murmurou.

Virou-se para a grade de proteção, deixando-a as suas costas. Ainda bem que não atravessara. Pensou, colocando a mão direita sobre o peito. Depois abriu os braços e envergou-se para trás, esticando-se de modo mental para que sua angústia caísse no lugar dele. Em vão, ela o arrastou. Müller teve uma pequena tontura, desequilibrou-se sobre as pernas e passara a grade de proteção.

O coração de Antoni ficou saltitante. Seus dedos doíam, mas teriam que aguentar senão ele iria cair de uma altura de cinquenta metros, mais ou menos quinze andares.

Desci do terraço para esperá-lo e acolhê-lo quando ele chegasse ao chão.

Enfim, com a ajuda de uma leve brisa de manhã, seus músculos e ossos do braço desistiram.

O tempo passa rápido quando estamos à beira da morte. Os pensamentos são que desaceleram a cada segundo do veloz tempo.

Antoni Müller chocava-se com as brisas do vento outonal e com as memórias de seu passado e presente. Os sonhos de um futuro para si apagaram-se por completo, instantaneamente. Müller desejava estar ao lado de sua esposa, poder beijá-la, dizer que a amava. Também de poder colocar em seus braços o seu filho de olhos castanhos, que puxava a mãe mais do que a ele. Ele desejava. Era tarde para desejos se realizarem. Afinal a morte não é um gênio da lâmpada, mas um desejo pode lhe conceder: morrer.

Segundos infinitos em pensamentos imergentes.

— Te amo... — ofegou antes de chegar ao frio solo de cor negra e fria.

O corpo caiu em uma descompostura horrível. Nada bonito para tirarem-se fotografias, mas os humanos gostam disto: ver a desgraça do outro. Algo mórbido e gótico de se fazer, não?

Aproximei-me de sua boca e dela puxei sua alma cinzenta, um pouco pesada. O fio luzente mais amargurado daquela noite. Era perfeitamente cheirosa como as de seu pai, avô e bisavô. Entretanto, não duradouro era o aroma. Foi com apenas uma aspiração que seu delicado perfume antes anexo em sua alma se desfez.

Preferi não estar naquele local na hora em que a família Müller — nome de um famoso perfume na França, que há poucos dias perdera totalmente sua credibilidade. Flashes reluzentes se propagavam constantemente, quando eu deixei o corpo de Antoni Müller, o suicida, no chão. Para onde iria seu espírito? Certamente não seria o céu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!