Notas iniciais
Hei :3
Bem, nós duas sabemos que temos outros projetos "abandonados" e etc, mas a Labi e eu não resistimos em fazer esse RP lindo para vocês :D
Como a Labi não consegue postar suas fics pelo tablet dela, ficarei responsável por isso, o que justifica as outras histórias dela estarem paradas.
Quanto as minhas... bem, é preguiça mesmo D:
Esperamos que gostem!

O som do coração:

Capítulo I:

Era final de Outubro quando um voo em especial pousou no aeroporto da cidade do Porto, Portugal. Seria apenas o final de uma viagem comum de passageiros comuns se um casal em especial não estivesse desembarcando naquele exato momento.

Os dois jovens latino-americanos viajaram do caloroso e festeiro Brasil para a Europa, onde morariam no belíssimo país português pelo ano seguinte. Contente com a novidade, e mais contente ainda pelo novo emprego do parceiro, Luciano, como um típico turista, sacou sua máquina fotográfica de dentro da mochila e começou a guardar memórias de seu novo país.

– Ah, Martin! – o moreno corria e girava em torno do namorado, fotografando até mesmo os funcionários do aeroporto, pedindo para alguns posarem consigo – Esse lugar é demais! – Luciano abriu um sorriso contente, seu lábios robustos espichando-se para os lados, os dentes claros contrastando com sua pele morena.

– Luciano! Pelo amor de Deus, pare de correr! Parece criança.

Martin, envergonhado do comportamento infantil de Luciano, encurvava ligeiramente os ombros para frente, cobrindo parcialmente o rosto com a mão esquerda, pondo-a em sua testa.

Jovem, belo, alto... O rapaz loiro vinha de uma família argentina, porém morava no Brasil desde os nove anos de idade. E conhecia o brasileiro desde seus treze. Inteligente, sofisticado, sexy, Martin seguia a carreira de modelo, e exatamente por culpa de seu corrido trabalho que agora o casal mudava-se para outro continente.

Luciano tinha a mesma idade que seu companheiro argentino, porém era um pouco mais baixo que Martin. Festeiro, gentil e um pouco inocente, o brasileiro via com bons olhos a profissão do outro rapaz. Ainda incerto sobre que carreira seguir, não tinha ensino superior e ajudava nas despesas com pequenos trabalhos que fazia – caixa de supermercado, entregador de pizza...

O moreno, ao ouvir a censura do outro, riu faceiro e coçou a nuca, agarrando um punhado de seus cachos castanhos antes de voltar a afastar a mão dos fios. Como um cão fiel, obedeceu Martin e pôs-se ao lado dele, puxando o mais alto para um singelo beijo.

– N-não faça isso, idiota! – o loiro afastou- de si de forma abrupta, cobrindo os lábios rosados com a mão que antes escondia seu rosto.

– Ah, qual é, Martin~ – ele sorriu – Você me ignorou a viagem inteira. – fez biquinho – Vamos~ me dê um beijinho.

– Definitivamente não, Luciano! – negou outra vez, espalmando a mão esquerda no meio do rosto do moreno, empurrando-o para trás e impedindo a carícia – Vamos logo! Pegue nossas malas, ainda temos que pegar um táxi até Guimarães.

Luciano soltou um ar numa baforada, mas depois riu.

– Tá, tá.

Ele pegou sua única mala e as quatro de Martin – segurando uma em suas costas, outra em sei ombro esquerdo e as outras duas eram puxadas. Só conseguiu levar também sua mala porque era um ótimo equilibrista.

O casal seguiu até o ponto de táxi do aeroporto, seguindo, enfim, para sua nova cidade.

~※~

Na belíssima cidade de Guimarães, os jovens encaminharam-se para sua moradia temporária: a pensão de uma tradicional família holandesa.

Os donos, dois irmãos de criação, seguiam com o trabalho de seus falecidos pais. Bella, a jovem e gentil belga, adotada pela família Ackerman, recebeu os novos hóspedes com um delicioso bolo de baunilha.

O casal, após conhecer os demais hóspedes da pensão (Roderich, um jovem músico austríaco que estudava para se tornar maestro; Alfred, o estadunidense que fugira para Portugal com seu irmão para concretizar seu sonho de ser um jogador de futebol profissional; o irmão mais jovem de Alfred, o gentil e tímido Matthew, que estudava Letras e o reservado arquiteto russo, Ivan), conheceu seu novo quarto. A pensão era pequena, tinha poucos quartos e, excetuando a dona, não havia alma feminina entre aquelas quatro paredes.

A primeira semana seguiu-se tranquilamente. Excetuando Roderich, que achava exagerado o comportamento de Luciano, o brasileiro fez amizade com todos da pensão. Extrovertido e de fácil convivência, Luciano logo ficou íntimo dos irmãos norte-americanos e do russo, o último já combinando algumas bebedeiras com o jovem moreno.

Quando o trabalho de Martin iniciou-se, porém, o argentino passou a dar indiretas super diretas de que seu namorado deveria arranjar alguma fonte de renda para ajudá-lo nas despesas em Portugal. Luciano, claro, já emendou que logo comprariam uma casinha simples para morarem, porém qualquer ideia sua de “juntar os trapos” era censurada ardentemente pelo argentino. Ele não ligava, ria e achava graça dos insultos de Martin, que sempre se calava quando se beijavam e iam para a cama.

Após um mês em Portugal, entretanto, as indiretas de Martin começaram a se tornar mais frequentes e, orgulhoso, o brasileiro pegou seu amado e velho violão e saiu sem destino certo. Procurou, em bares, restaurantes e outros lugares, algum trabalho como cantor ou lavador de pratos, o que tivesse, porém por ter apenas dezenove anos e não possuir muita experiência, teve todas as suas tentativas negadas. Chateado, com fome, com frio – como um país podia ser tão gelado?! –, Luciano estava abatido e, quando uma chuva fina e gelada iniciou, ele correu para o primeiro abrigo que encontrou: a marquise de uma simples e pequena floricultura.

Cansado, mas não menos esperançoso de que arranjaria um trabalho, Luciano resolveu usar o antigo provérbio brasileiro de que “quem canta, seus males espanta” e sacar seu violão, começando a cantar para se aquecer e esquecer do dia turbulento.

Dias de chuva como aquele, torrencial e frio, representavam um imenso aborrecimento para grande parte das pessoas que tinham de sair de casa para seguir com o seu dia-dia. No entanto,esse ódio não era partilhado por toda a gente.

Afonso Moreira divertia-se a fazer arranjos florais enquanto ouvia a chuva bater com força sobre o telhado das estufas da sua floricultura, a Colubris.

Assobiava uma melodia qualquer e por vezes olhava pelo ombro para ver se tinha algum cliente mas... Nada.

O temporal fazia o influxo de clientes ser muito menor que o normal e isso era prejudicial para o português mas por outro lado, naquele dia em especifico, não era tão mau assim.

Estava cansado por não ter dormido nada e estava sozinho na floricultura. Lovina, a sua cunhada, tinha ido ao médico por se sentir enjoada e normalmente era ela quem o ajudava na loja. Claro estava que o seu irmão não ia deixar a esposa indisposta trabalhar, e sinceramente, Afonso não se importava lhes fazer esse favor e lhe dar uma folga.

Perdido nos seus pensamentos, o português quase deu um salto quando o sininho da porta, que estava preso a um beija-flor de madeira, tocou.

Duas senhoras de meia idade entraram aos risinhos e deram os bons dias a Afonso, que logo foi até elas oferecer ajuda. A vida estava complicada para toda a gente naquele pequeno país e os seus clientes já não compravam tantas plantas exóticas ou objectos de decoração como antes... Mas uma coisa era certa, sempre apareciam pessoas à procura de arranjos, quer para assear cemitérios quer para oferecer.

Ambas disseram que estavam só a ver e agradeceram quando Afonso lhes segurou nos guarda-chuva para os colocar no bengaleiro atrás da porta de entrada.

Elas caminharam até aos lugar onde os arranjos que Lovina tinha feito no dia anterior se encontravam e o português voltou ao balcão onde estava anteriormente. Talvez tivesse sorte e conseguisse novas clientes, quem sabe...

Nem cinco minutos tinham passado quando o sininho voltou a tocar e entrou mais gente.

– Oh, que fofura!

– Sim~ Era muito bonito!

Afonso franziu ligeiramente o sobrolho e olhou para a porta, vendo duas pre-adolescentes a pousarem os seus guarda-chuvas.

Aproximou-se delas e sorriu.

– Boa tarde, precisam de ajuda?

Uma delas corou um pouco e disse atrapalhada.

– N-Nós... erm... Nós vimos o cantor e decidimos entrar e...

– Qual cantor?

A senhora que tinha entrado antes comentou:

– O cantor que está lá fora. Não foi contratado por si?

– ...Não. – disse confuso e entrou numa pequena porta que dava para uma divisão que Lovina chamava de 'Staff Room' por implicancia. Era apenas um comôdo que servia como escritório e que tinha mais uma porta (para a casa de banho) mas Afonso gostava de lá estar por causa do cheirinho a livros antigos que tinha.

Espreitou pela janela e foi com algum espanto que viu um grupo de pessoas à volta da sua marquise na entrada, bem ao lado das palmeiras, escondidas entre guardas-chuvas. Ouvia uma voz cantar mas não conseguia ver quem era. Estava bastante curioso, mas deu de ombros e voltou para o seu trabalho. Fosse quem fosse, não estava incomodar e atraía clientes.

Quando saiu da 'staff room', tinha a loja com mais gente ainda e teve de se apressar a atender os pedidos e a registar todas as encomendas.

Foi complicado, mas o português deu conta do recado, mesmo que tenha ficado exausto e alíviado quando o último cliente saiu após fazer um pedido bastante elaborado e especifíco para um ramo que queria oferecer à sua esposa.

Espreguiçou-se e olhou para as horas, não seria por fechar mais cedo que haveria problemas. No entanto... Tinha algo que precisava de fazer antes.

Foi à maquina de café que tinha no escritório e fez um chocolate quente rapidamente enquanto olhava pela janela. Agora, sem ninguém à volta, ele via um rapaz sentado no chão a tocar violão. Não sabia quem era mas devia estar a congelar.

Quando o chocolate ficou pronto, foi até lá fora e aproximou-se do vulto.

– Senhor? – tratou-o por 'você' por respeito – Está tudo bem? – nem sabia o que lhe dizer.

Os dedos de Luciano pararam no mesmo instante, a nota melódica encerrando-se de maneira um tanto abrupta, assim como a palavra “delícia” fora interrompida no meio da sílaba “lí”.

Luciano ergueu os olhos, o castanho escuro de suas íris focando-se na silhueta esguia do estanho que encontrava-se parado ao seu lado e, com um sorriso largo começando a delinear-se em seu rosto juvenil, o brasileiro ergueu-se.

– Ah! Desculpa, guri, não vi você aí. – disse, girando o violão pela corda de suspensão e deixando o instrumento em suas costas, segurando o braço deste com a mão esquerda, bem próxima à pestana.

Era natural que Luciano, com seus um metro e oitenta e cinco, imaginasse que Afonso, com seus pouco menos de um metro e setenta – da última vez que lhe mediram, ele tinha 1.67. –, fosse mais jovem que si. Era uma mania de muitos usar a altura para tentar julgar a idade dos outros, e, certamente, os brasileiros ocupavam o ranking número um quando se tratava disso.

No instante seguinte, quando a visão do moreno – ah! Sua pele se contrastava tanto com a do estranho, que era naturalmente alva – acostumou-se entre a penumbra da rua e a luz branca de dentro da floricultura, Luciano pensou que, para um garoto, Afonso tinha traços adultos demais. E olheiras demais.

– Eu estou bem. – respondeu, finalmente, ao português, sorrindo outra vez enquanto achava engraçado o sotaque do menor.

Afonso levantou uma sobrancelha e pestanejou. Não fazia a mais pequena ideia do que era um 'guri' ou para que é que isso servia já que os seus conhecimentos de 'brasileirismos' eram quase nulos e se limitavam áquilo que por vezes ouvia nas novelas.

Observou o rapaz alto e bonito e depressa concluiu que devia ser algum universitário, talvez de intercâmbio já naquela zona era raro ver-se algum brasileiro.

O português, curioso por natureza, voltou a pestanejar e então perguntou:

– O que é um 'gúri'? Ou...'gurí'? Ou lá que raio é?

Um relâmpago iluminou o céu e fez o lusitano se distrair, Lembrando-se então do que tinha ido lá fora fazer e ofereceu-lhe o chocolate quente.

– Muito bem, acredito. Só está à frente da minha loja, a cantar, num dia gelado e com chuva torrencial. Atitude super comum de quem está bem. – disse num tom implicativo e depois suspirou – Beba chocolate quente. Deve estar aí a congelar...

– Ah! – Luciano piscou ao ver o copo de plástico oferecido, não evitando sorrir outra vez – Muito obrigado. Eu adoro chocolate-quente! – disse, como se o estranho quisesse saber de seus gostos.

O brasileiro agradeceu baixinho, contrastando com seu tom de voz natural, e pegou o copo, sorvendo deliciado a bebida quente e doce, mais um sorriso se delineando em seus lábios.

– Nossa, isso está uma delícia! – claro que ele declarara aquilo com a boca cheia de chocolate-quente, e, pelo líquido estar quente, Luciano começou a ofegar e a balançar a mão livre em frente à boca, queimando superficialmente sua língua. Aquilo sempre acontecia.

Vendo a expressão confusa – e talvez curiosa – de Afonso, Luciano engoliu a bebida e ergueu o polegar direito em sinal de que estava tudo bem e que o líquido lhe agradava. Sempre, sempre, cada gesto seu era acompanhado de um sorriso.

– Ah, que educação a minha! – ele coçou a nuca antes de estender a mão livre para o português – Meu nome é Luciano. Obrigado pelo chocolate-quente, guri.

Afonso corou um pouco por culpa de tanta simpatia e esticou a mão para o cumprimentar de volta.

– Prazer, Luciano. Chamo-me Afonso e continuo sem saber o que é um “guri”. – suspirou e depois afastou-se para levantar alguns vasos que tinham caído com o vento – Mas de nada. Obrigado eu. A loja encheu graças a ti. – sorriu um pouco e voltou a aproximar-se do moreno sorridente – Precisas de alguma coisa? Estás perdido?

Sem querer, tratou-o informalmente apenas por o outro lhe parecer mais novo. Foi algo instintivo e ele nem reparou que o tinha feito.

A rajada de perguntas de Afonso fez Luciano piscar os olhos e demorar um segundo a mais do que o necessário para captar e traduzir a mensagem do português. Em seguida, ele soltou uma risada.

– Ah. “Guri” é o mesmo que “garoto” ou “menino”. – não deu maiores detalhes. Brasileiros tinham a mania de achar que tudo se entendia com poucas informações – Bem, eu... Eu já estou morando na cidade tem um mês, mas admito que nem sei de onde vim. – sorriu acanhado e bebeu mais um pouco do chocolate-quente – Nossa, esse é o melhor chocolate-quente que já bebi! Foi você quem fez?

Ao ouvir a explicação da palavra, Afonso colocou as mãos na cintura e encarou o brasileiro.

– Menino o caraças! Eu não sou menino nenhum!

Simplesmente odiava quando confundiam a sua idade apenas por causa sua altura. Que culpa tinha ele de ser baixo? Melhor, ele não era baixo, na verdade, tinha estatura normal, por isso, a culpa era de Luciano por ser alto.

Mas claro que ao ter os seus dotes culinários (coisa da qual ele se orgulhava imenso) elogiados, a sua expressão suavizou e o lusitano coçou a nuca.

– S-Sim, fui eu...

Luciano riu outra vez, murmurando um “foi mal” antes de acocorar-se perto dos vasos caídos.

– Deixa eu ajudar. – pegou um vaso de gardênias e trouxe junto ao seu peito – Vai deixá-las aqui fora ou pôr lá dentro? – questionou ignorando a exaltação de Afonso momentos antes – Ah... Eu senti um gosto diferente no seu chocolate-quente... Você pôs algo nele? – sorriu e pegou o vaso com as margaridas.

– N-não é preci-- – tarde demais, o brasileiro já estava a ajudar. Suspirou pela milésima vez – Essas são cá fora... Não se dão bem em espaços interiores. – murmurou de seguida, sorrindo ligeiramente – Misturei chocolate normal com um bocadinho de chocolate preto e açúcar baunilhado.

– Ok! – disse e ajeitou da melhor forma que conseguiu os vasos, tendo uma atenção especial em uma flor que ele desconhecia, mas que tinha um dos talos quebrados – Ela se machucou... – murmurou e em seguida acariciou a pétala branca, voltando a encarar Afonso e sorrir para o português – Nunca pensei nisso. Obrigado pela dica. – apoiou as mãos nos joelhos e ergueu-se, pegando a capa de seu violão, retirando o instrumento de seu tronco e tentando guardá-lo, o que se tornou difícil por estar escuro e Luciano não querer apoiar a mochila no chão.

O lusitano de um pequeno estalido com a língua e fez uma nota mental para depois ajeitar aquele vaso e caminhou até ao brasileiro, segurando-lhe na capa do violão.

– Deixa que eu ajudo.

Houve mais um trovão e a chuva começou a intensificar, entrando pela parte lateral da marquisse.

– Esta noite vai piorar.– resmungou.

Luciano agradeceu a ajuda com um meio sorriso e olhou para a crotina de água que caída da marquise, soltando um longo suspiro. Martin iria esgoelá-lo quando chegasse na pensão.

– É o que parece. – colocou a mochila do violão nas costas e voltou a sorrir à Afonso, bebendo o resto do chocolate-quente e estendendo o copo para o menor – Obrigado pela bebida e pelo abrigo, mas é melhor eu encarar a chuva. – riu.

Pegou no copo e pestanejou. Encarar a chuva? Aquele brasileiro devia ser doído. Mas quem era ele para julgar?

– De nada, obrigado pelos clientes. – riu um pouco e suspirou – Queres um guarda-chuva?

Luciano riu também.

– Não sei o que você diz com “obrigado pelos clientes”, mas acho melhor dizer que não foi nada. – sorriu e depois balançou teatralmente a mão – Nah~ eu já estou molhado mesmo, dá nada. – piscou-lhe o olho e sorriu outra vez – Obrigado, novamente, pela ajuda. Estou te devendo uma.

Afonso corou e ficou todo atrapalhado, nada habituado a que as pessoas simplesmente lhe piscassem o olho. Ainda para mais, um rapaz bonito e de sotaque engraçado.

– De nada e nada disso. – disse e acenou – Adeus. – virou costas e entrou novamente para a loja.

Estava quase na hora de fechar e por isso tinha de apagar as luzes e fechar as portas.

Enquanto Afonso ajeitava a floricultura para o fim do expediente, Luciano fechou melhor seu casaco e encarou a chuva, que piorara naquele pouco tempo de conversa com o português. Não era assim tão mal tomar banho de chuva – o brasileiro realmente amava aquilo! –, o que era ruim era a temperatura baixa da água que caía. Tão diferente da chuva que ele estava acostumado.

Foi com uma pequena dificuldade que Luciano achou a pensão. Só tivera sucesso porque marcara como ponto de referência uma árvore grande e de galhos torcidos que ficava em frente ao sobrado de tonalidade alaranjada. Por estar completamente encharcado, o brasileiro preferiu tocar a campainha, surpreendendo Bella, que lhe veio atender.

– Lu-ci-a-no! – a belga franziu de leve o cenho e tocou na ponta do nariz do moreno com o indicador direito – Vais adoecer se andares na chuva, parvinho! – em seguida, ela deu um de seus costumeiros sorrisos, e pediu para o brasileiro aguardar um pouco enquanto ela ia buscar uma toalha sequinha.

Ao ouvir a campainha soando, Martin, que revisava pela quarta vez só naquela noite, saiu de seu quarto e pôs as mãos na cintura, permanecendo no topo da escada.

– Luciano da Silva. Onde você esteve até agora?

Bella, sempre cooperativa, logo chegou com a toalha.

– Fui procurar emprego, oras. – ele sorriu e agradeceu à moça, passando a secar os cabelos enquanto Bella pegava seu violão e tratava de secar a mochila do instrumento.

– Hn. E conseguiu alguma coisa? – o argentino passou a descer os degraus, ainda com seu ar insolente.

– Não. Minha idade e falta de experiência não ajuda... e depois começou a chover, daí nem tive muito tempo. – continuava sorrindo, porém cada vez mais fraco.

– Ah. Então vá tomar um banho antes que adoeça. Vou voltar a trabalhar. – disse e voltou para o segundo andar.

Luciano soltou um suspiro e Bella abraçou a mochila do violão, o instrumento sendo muito pesado para si.

– Ai, ai...O meu irmão não vai gostar, mas... – ela riu e piscou o olho para o mais jovem – Como é uma ocasião especial e ainda demora para o jantar, podes usar a banheira desta vez. Mas não demores, ok? – sorriu.

– Uia~ – Luciano também riu – Vou tomar banho de chuva mais vezes, então. – retribuiu o sorriso e a piscadela e aceitou o convite da loira, retirando seu casaco e entregando à belga antes de subir e pegar roupas secas e quentinhas.

Ignorando a secura como Martin o estava tratando, e imaginando que aquilo era resultado do novo trabalho, Luciano seguiu para o banho, suspirando em contentamento ao poder usar a banheira. Podia contar nos dedos as vezes que tomara banho de banheira e não encher uma mão.

Enquanto relaxava e se aquecia da chuvarada de antes, Luciano recordou-se de Afonso quando voltou a sentir o gosto do chocolate-quente que o português lhe oferecera. Precisava retribuir o favor, mas não fazia ideia de como chegara na floricultura do menor.


~※~


Afonso tinha corrido até chegar a casa. Não usava carro porque a floricultura ficava a dois quarteirões dali e não havia necessidade de poluir o ambiente por tão pouco.

Mal chegou, acendeu a lareira. A sua casa era pequena: tinha apenas um andar e um pequeno jardim nas traseiras, sempre arranjado e agradável. A sua sala era apenas separada da cozinha pelo balcão, dando um aspecto aconchegante à divisão. Havia livros por todo o lado e o português quase que desistia de os arrumar porque sempre acabavam nos locais errados. As suas prateleiras tinham poesia, história e até mesmo livros sobre flores e seus significados já que ele tinha de aprender a fazer arranjos novos e truques para melhorar as suas flores.

Foi tomar um duche rápido e vestir roupa velha de andar por casa, conforto acima de tudo. O seu jantar consistia naquele dia a um simples prato de sopa pois não tinha fome e não lhe apetecia perder muito tempo a cozinhar.

Sempre que alguém acaba de encontrar a posição perfeita para se sentar no sofá, há sempre algo a impelir esse alguém a levantar-se. E neste caso, Afonso não era expção: a campainha tinha tocado.

A resmungar, lá foi ele abrir a porta, deparando-se com António, o seu irmão mais novo, na porta.

– Boa noite!

– ...Boa noite? – repetiu, um tanto desconfiado – Está tudo-

– TIO AFONSO! – uma voz bem familiar ao português gritou e uma menina saltou para o seu colo – Tinha saudades tuas, tio!

A irritação do lusitano desvaneceu e deu-lhe um beijo na bochecha.

– Olá parvinha! Como estás?

Sofia era a filha de António e Lovina. Era uma menina de seis anos, simpática e nada envergonhada que amava visitar e ficar com Afonso por saber que ele lhe contava histórias, via filmes com ela e dava-lhe muitos doces.

– Estou bem! Posso ficar contigo hoje? Posso? Por favor!

Como António ainda estudava e trabalhava ao mesmo tempo, por vezes Afonso oferecia-se para tomar conta dela para dar um pouco de descanso ao seu irmão e cunhada. E não eram poucas as vezes em que a pequena ficava a 'brincar com as flores' junto do tio.

– Por mim podes, claro. – sorriu e olhou para o mais novo à procura de confirmação. Porém, o semblante de António deixou-o preocupado. Sentindo que algo estava errado, pousou-a no chão e disse-lhe para ir escolher um filme. Sofia, sorriu e correu logo para a estante dos Dvd's.

Afonso então suspirou – Que aconteceu?

– É a Lovina... Ela teve de ficar no hospital hoje e eu queria ficar com ela... Então se não te importasses...

– Claro que não! A Sofia pode ficar aqui sempre que quiser. Mas que tem ela?

O espanhol coçou a nuca.

– Não sei ainda. Tive de ir buscar a Sofia à escola e só agora é que vou ao hospital.

– Vai ficar tudo bem, não te preocupes. – deu-lhe um abraço e pegou na mochila com as coisas da sobrinha.

Antônio sorriu um pouco mais aliviado, pondo-se na ponta dos pés tentando ver sua pequenina, que agora empilhava vários filmes na mesa de centro de seu amado tio.

– Tchau, pequena! – disse e alargou o sorriso quando a menina, com suas longas madeixas presas em tranças, correu em sua direção e pulou em seus braços.

– Tchau, papá! Manda beijos pra mamã? E para o maninho ou maninha também. – sorriu e puxou as bochechas de seu pai, que riu e lhe encheu de beijos, fazendo a menina também rir.

Antônio voltou a encarar seu irmão mais velho – e mais baixo – e lhe agradeceu mais uma vez, abraçando Afonso e lhe dando um beijo na bochecha, entregando sua filha ao irmão.

– Eu ligo. – disse e despediu-se dos menores, Sofia se dependurando no tio enquanto abanava para o pai que corria para o carro.

Depois de ter fechado a porta, Sofia suspirou:

– Tiooo~ Já jantaste?

– Ainda não... Por quê?

Ela sorriu e disse num tom manhoso:

– Eu tenho fome~

– Ai sim? E que queres comer?

– Bacalhau com batatas fritas!

Aquela era a especialidade de Afonso e o lusitano nunca iria recusar nada à sobrinha.

– Então vamos lá fazer bacalhau. Mas preciso de ajuda.

– Eu ajudo!

E se tinha pensado em não cozinhar, bem... Já estava de avental posto a descongelar bacalhau. Enquanto cozinhava, pensava numa conversa que tinha tido com Lovina uns dias antes.

Ela ia ter direito a ficar em casa durante uns tempos por culpa da sua gravidez que já ia em seis ou sete meses e o português ia precisar de ajuda na floricultura. A italiana tinha dito que lhe arranjava alguém mas como não voltou a falar com ela nem sabia se havia de por algum anúncio no jornal ou até mesmo nas portas dos cafés.

Deu de ombros e concentrou-se no que estava a fazer, afinal, não ia chatear a cunhada com esse assunto quando ela tinha mais em que pensar.

Após o delicioso jantar preparado por Afonso, o português e sua sobrinha escolheram alguns clássicos da Disney e pegaram um bocado de cobertas, travesseiros e tigelas de salgadinhos, pipoca e bolachas, aconchegando-se no sofá para assistir aos filmes. Sofia, como sempre, dormiu na metade da Pequena Sereia, a cabeça apoiada no ombro de Afonso.

~※~

Bella desligou o telemóvel e pousou-o no balcão, suspirando ligeiramente mas alíviada.

A sua amiga de longa data, Lovina, tinha-lhe ligado para a por a par das notícias. Pelos vistos, tinha tido uma dor muito forte e foi de imediato para o hospital e os médicos recomendaram-na a ficar lá por uns tempos, garantindo-lhe que a saúde do bébe estava em perfeitas condições.

O seu suspiro não passou despercebido a Hansen, que terminava de arrumar a louça no final do jantar.

– Que foi? Alguma coisa má aconteceu?

Ela sorriu um pouco e abanou a cabeça.

– Mais ou menos. A Lovina foi para o hospital mas está bem, eu acho.

– Ainda bem. – disse o holandês, já de si um homem de poucas palavras.

A loira tirou o avental e pendurou-o atrás da porta.

– Ela pediu-me para a substituir na Colubris mas eu não tenho tempo. – deu um estalido com a língua e encarou o mais velho – Não podes ir tu substitui-la?

Hansen rolou os olhos.

– Eu? No meio de flores?

– Sim? Tu gostas de tulipas, que eu saiba.

– Nem pensar.

Bella deu um de seus típicos sorrisos e andou pé ante pé até o irmão, abraçando-o por trás.

– Ir-mão-zão~ – o holandês parou de enxaguar a louça e fechou a torneira.

Sempre que Bella separava longamente as sílabas, Hansen sabia que a menor desejava lhe pedir alguma coisa. E, bem, ela geralmente conseguia.

Hansen sentiu os braços esguios da irmã apertarem de leve seu tronco, e suas maçãs coraram de leve.

– Sim?

– Vá lá~ será apenas durante algum tempo! – insistiu, esfregando o rosto nas costas do maior, o que deixava o holandês cada vez mais embaraçado – A Lovina está a ter uma gestação complicada e precisa de descanso!

– E quem vai tomar conta da pensão? Se tu já estás sem tempo comigo a te ajudar, que te resta se eu trabalhar fora? – Hansen virou o rosto para trás, os olhos cor de lima fitando os da irmã, também verdes mas de uma tonalidade um pouco mais escura.

Bella ergueu o olhar e inflou as bochechas, logo escondendo o rosto nas costas do mais velho outra vez.

– És um tremendo idiota.

O holandês suspirou e revirou os olhos, mantendo a mesma posição.

– E quanto ao brasileiro?

– Luciano? Que tem ele? – voltou a encará-lo.

– Ele não está atrás de emprego? Talvez possa substituir tua amiga por um salário pequeno.

A belga pestanejou e quando a 'luzinha' das ideias se acendeu, sorriu e deu-lhe mais um aperto

– É isso mesmo! És um génio!

Largou-o e saiu a correr até à sala, onde Luciano, Matthew e Alfred disputavam um jogo qualquer na playstation, o que resultava numa tremenda discussão porque ficar em silêncio não era definitivamente um dos pontos fortes do estadunidense.

Bella atravessou o campo de batalha (ignorando também Roderich que reclamava que queria ver as notícias) e sentou-se ao lado do brasileiro.

– Luciano~ Tenho boas notícias para ti!

O moreno, que acabara de vencer mais um turno de Mortal Kombat, entregou o controle para Matthew e direcionou toda a sua atenção para Bella, que agarrava-lhe a mão.

– Tem? E qual seria? – questionou, não se importando de ter suas mãos apertadas e os dedos separados, uma vez que a belga adorava mexer nas mãos das pessoas com quem conversava.

– Diz antes que sou incrível!

A menção da palavra “incrível” fez o músico se retorcer em frente ao piano, e Roderich preferiu deixar o recinto e estudar algumas partituras na calmaria de seu quarto.

– Ok, ok. Você é incrível. – Luciano riu, e neste mesmo instante Hansen chegou à sala, franzindo ligeiramente o cenho ao ouvir, por entre os berros de Alfred, o que o brasileiro dizia para sua irmã.

– É, eu sei. – riu também e prosseguiu – Enfim: tu já estás há duas semanasà procura de emprego e ainda não conseguiste, certo?

Luciano sorriu de lado.

– Ser novo, inexperiente e estrangeiro não está ajudando.

– E tem a crise. – ela completou, porém sorriu para confortar o maior – Maaaas~

– Mas?

– Eu tenho uma grande, grandíssima, amiga que está grávida e, infelizmente, a sua gestação estáa ter algumas complicações. – ela suspirou – A Lovina trabalha numa floricultura com o cunhado dela e o médico recomendou repouso absoluto.

Luciano ficou quieto por um tempo, depois perguntou:

– E...?

Bella riu e apertou as bochechas de Luciano. Hansen quase quebrou um copo com as mãos.

– E...? – ela sorriu – Que tal tu substituires a Lovina enquanto não arranjas emprego? É matar dois coelhos numa cajadada só: tu ganhas teu dinheirinho e minha amiga pode descansar em paz.

O brasileiro alargou o sorriso e abriu os braços, pedindo um abraço. A loira, para completo ciúmes de Hansen, abraçou o maior e este a balançou para os lados vagarosamente e alegremente.

– Ah! Guria, você é realmente incrível! – ele ria e acariciava os cabelos da mais velha, contente – Mas está tudo certo mesmo? Quando posso começar?

A belga sorriu e afastou-se um pouco para chegar uma caneta e uma revista velha que tinha em cima da mesa.

Enquanto escrevia a morada (que já sabia de côr por tantas vezes que lá ia) disse:

– Eu não sei, tens de falar com dono. Mas diz que é para substituir a Lovina que ele de certeza que percebe logo para que é. – rasgou um bocado do papel e deu-o ao brasileiro – Eu não sei qual é o salário ou o horário por isso o melhor é ires lá perguntar. – sorriu e despenteou-o – Boa sorte~

Luciano deu uma olhadela no endereço todo sorridente, em seguida segurando o rosto de Bella com ambas as mãos e dando um beijo estalado na testa de sua nova amiga. Se o holandês o havia posto no topo de sua lista negra? Imagine!

– Obrigado, obrigado! – disse e guardou o endereço no bolso traseiro de sua calça jeans, sem ideia de como agradecer à mais velha – Sério, obrigado! – voltou a sorrir, mas logo os amigos se afastaram quando ouviram um pigarrear forçado.

– Interrompo? – Martin questionou, subindo os óculos escuros de seu nariz para o topo de sua cabeça. Pelas roupas que usava, o argentino voltava de alguma reunião de seu novo trabalho.

– Mamá~ – Luciano afastou-se delicadamente de Bella, sempre fora gentil com as mulheres, e apressou-se até o mais alto, lhe dando um singelo e não menos apaixonado beijo nos lábios.

Claro que Martin censurou o namorado, dizendo não estarem em seu quarto, evitando olhar para os demais presentes na sala. Enquanto Alfred e Matthew haviam se distraído do jogo, Hansen aproximava-se da irmã de criação e lhe puxava carinhosamente pela mão, querendo tirá-la da sala. Bella, ao ver as feições de Martin, fez uma careta e agarrou-se no braço do holandês.

Ela não ia com a cara do argentino. Ah, mas não ia mesmo!

– Mamá--

– Não me chame assim, já pedi! – Martin suplicou, sendo seguido pelo brasileiro como se o mais velho fosse um cachorrinho, e entrou no quarto que dividiam.

– Tá~ – ele sorriu e abraçou o argentino pelas costas, dando um beijo casto em sua nuca – A Bella me arranjou um emprego, Martin! Amanhã cedo eu vou conversar com o dono da floricultura e combinar o meu horário.

Martin relaxou no abraço carinhoso de Luciano, soltando um suspiro ao receber o beijo.

– Amanhã passarei o dia todo trabalhando. – sentiu Luciano afrouxar-lhe o cinto e sorriu – Preciso passar por uns testes idiotas lá...

– Hn... Então, quando você chegar, topa jantar comigo? Digo, num restaurante da cidade?

O argentino tencionou um pouco o corpo quando Luciano lhe mordiscou o ombro por cima da camisa branca, e ele riu.

– Topo.

~※~

Quando Luciano acordou, Martin já havia saído para o trabalho.

A carreira de modelo não era fácil e não eram raras as vezes em que o casal não se via, uma vez que, dependendo do trabalho do argentino, os horários eram alternados.

Disposto a ir na tal floricultura que Bella lhe indicara, Luciano correu para o banheiro – o que irritou Roderich, que já estava se preparando para seu banho pré-faculdade – e vestiu a melhor roupa que tinha. Desceu as escadas sempre pulando um degrau, e tomou seu desjejum quase que apressadamente. A belga, achando tudo uma graça, tentou ajeitar-lhe os cachos rebeldes e macios.

– Então já vais? – ela deu um sorriso e Luciano balançou a cabeça.

– Vou sim. – recolheu suas louças sujas e colocou na pia, porém foi impedido pela belga de lavá-las.

– Então despacha-te! – riu e começou a empurrar o mais jovem para a porta.

Antes de deixar a pensão, Luciano agradeceu outra vez à pequena e, com o endereço em mãos, seguiu para a tal floricultura.

Avistou-a ao longe em poucos minutos – graças às informações que conseguira – e pensou que já a havia visto. Talvez tivesse passado na frente do estabelecimento com Martin e nunca tivesse reparado nela.

Com o seu melhor sorriso, Luciano abriu a porta de vidro e um pequeno sininho denunciou a sua presença.

– Com licença? O dono se encontra?

– Sou eu~ – Sofia disse e apareceu atrás de um vaso enorme que estava no chão – Em que posso ajudar~?

Afonso tinha-a levado consigo para a floricultura já que normalmente a menina se portava bem e ficava por alí a brincar.

Ao ouvir vozes, o português entrou pela porta das traseiras, que dava para as estufas, carregado com um enorme vaso de cravos.

– Bia! Quantas vezes eu disse para não fazeres isso? – pousou o ramo no balcão e suspirou aliviado – Sou eu. Em que posso-- – olhou para cima e pestanejou ao ver o brasileiro – Tu?

O brasileiro, ao ouvir outra voz direcionada a si, desviou o olhar da pequena arteira para Afonso, alargando o sorriso ao reconhecê-lo.

– Hei, Afonso! – Luciano acenou, saindo de perto da porta e indo em direção ao português, fazendo um rápido cafuné em Sofia no caminho – Então essa floricultura é sua? Nossa, que coincidência!

Quando chegou bem próximo ao menor, Luciano fez menção de abraçá-lo – algo comum entre os brasileiros –, porém estagnou a ação ao perceber um pequeno recuar de Afonso. Ele baixou os braços e colocou as mãos nos bolsos, sorrindo como se nada tivesse acontecido.

O português tinha corado um pouco e pestanejou mais uma vez.

– Como assim, coincidência? – estava verdadeiramente confuso apesar do seu tom de voz ser amâvel – Então eu não disse ontem que era o dono? Quero dizer- Que estás aqui a fazer?

Uma coisa que Luciano já sabia sobre Afonso: ele tinha a engraçada mania de fazer trezentas perguntas ao mesmo tempo. E o moreno gostava disso. Era fofo.

– Ahn... Sim, é uma coincidência. Não, você não disse, apenas foi super legal comigo. Eu vim por causa disso! – ele sorriu e retirou de seu bolso traseiro o endereço que Bella lhe dera, estendendo para o menor, que pegou e não entendeu nada – Eu estou morando na pensão da Bella, ela me disse que é amiga da sua cunhada e que você precisa de um ajudante. – voltou a sorrir – Então eu vim conversar com o dono, ou seja: você, sobre o emprego.

O lusitano levantou as sobrancelhas, surpreso por aquilo, e Sofia logo correu até Luciano.

– Como te chamas? Vens fazer arranjos de flores, é? Eu posso ensinar-te~!

– Bia... – Afonso suspirou e cruzou os braços, tentando fazer uma expressão séria mas que obviamente não resultou já que a pequena o encarou com os seus olhos muitos verdes, herdados de António, que muito se assemelhavam a um cachorrinho abandonado.

Mais uma vez, o português suspirou e encarou o moreno.

– Bem... Se ela recomendou é porque achou uma boa opção. Qual é a tua experiência na area?

Luciano, que agora tinha uma pequena portuguesa-espanhola-italiana agarrada na sua perna esquerda, sorriu acanhado e coçou a nuca com a mão direita – lhe era inevitável fazer cafuné na criança.

– Sinceramente? Nenhuma. – ao olhar para Sofia, esta lhe sorriu, e o moreno prosseguiu – Digo: já trabalhei com caixa lá no Brasil, assim como fui responsável por alguns depósitos... Posso... Posso ajudar na organização e tenho carteira de motorista e motociclista, se ajuda nas entregas...

O português realmente ponderou na proposta.

– Mas pelo que percebi ontem, tu nem conheces bem a cidade e por isso entregas é inútil.

Reparou então na expressão desesperançosa que apareceu nas feições do brasileiro. Ocorreu-lhe que Luciano fosse um estudante universitário e a vida não estava fácil para ninguém, encontrar emprego era difícil.

Coçou o queixo e suspirou.

– Ou então podes ficar cá nos arranjos e a tratar das estufas. É fácil de aprender e eu posso ensinar rapidamente. Mas aviso-te já que o salário não é tão grande assim e quanto a horários podes escolher se preferes de manhã ou de tarde.

Tinha achado o brasileiro simpático e pelos vistos Sofia também.

– Isso é sério?! – Luciano questionou, eufórico.

Ao ver Afonso manear lenta e cuidadosamente a cabeça em afirmação, o brasileiro ignorou se levaria um baita soco no estômago posteriormente. Apenas desvincilhou-se da pequena Sofia e deu dois grandes passos em direção ao português, enlaçando-o pelo tronco e o erguendo, abraçando o europeu com uma força e intimidade desnecessárias, encostando sua bochecha na dele.

– Obrigado, obrigado!

O gesto deixou Afonso rubro e atrapalhado.

– Ok, ok! Mas há regras aqui- P-Pousa-me no chão, páh!

Contacto fisico desnecessário e aleatório sempre deixavam o português envergonhado.

Luciano obedeceu, deixando que Afonso voltasse ao chão. Entretanto, estava tão feliz com a notícia do novo emprego que ele manteve o português junto de si pelo abraço, sorrindo bobamente enquanto fitava-o nos olhos.

No mesmo instante, Elizabeta, uma grande amiga de Lovina e Bella e, consequentemente dos irmãos Afonso e Antônio e do holandês, entrou na floricultura no intuito de saber notícias da italiana. Ao ver a cena, a húngara sorriu maliciosamente e olhou Luciano de cima a baixo, não conseguindo conter-se ao questionar:

– Afonso, que perdição é esta que arranjaste?

O português desviou o olhar de Luciano para a encarar e fez um pequeno 'loading', sem entender a situação. Porém, aquele sorriso malicioso que a húngara tinha fez o processe se acelerar.

Voltou a ficar rubro e afastou Luciano pelo peito.

– N-Não é nada do que estás a pensar!

Foi prontamente ignorado e ela comentou:

– É mesmo?

– Claro que é mesmo! – cruzou os braços e encarou-a com uma expressão emburrada, que a fez dar uma palmada na testa.

– Ah... Pensei que já tinhas ultrapassado o Sr. Sobrancelhas.

Luciano piscou, sem entender a reação de Afonso e sem saber quem era o tal Sr. Sobrancelhas. Entretanto, ao ver a expressão do português, imaginou que coisa boa não era.

Para tentar amenizar o clima tenso que se formara entre os amigos, Luciano andou até Elizabeta e lhe estendeu a mão.

– Prazer, Luciano da Silva. Vou começar a trabalhar aqui na... Na...

Sofia pulou ao seu lado e disse:

– Colubris! Colubris!

– Valeu. – ele riu para a menina – Na Columbris--

– Colubris. – Sofia corrigiu, e Luciano sorriu de novo.

Elizabeta lhe apertou a mão e mencionou qualquer coisa sobre Luciano ser o brasileiro que Bella tanto falava.

– Elizabeta Héderváry, amiga do viciado em bacalhau atrás de ti. – ignorando o “hei” de Afonso, a húngara, ainda segurando a mão de Luciano, olhou para o português – Fizeste um ótimo trabalho, hein Afonso? Bem melhor que o Arthur.

O português corou quase até às orelhas desta vez.

Arthur era um professor universitário que Afonso tinha conhecido nos últimos anos do secundário quando o outro tinha-se mudado de Inglaterra para Portugal.

Mesmo depois de terem seguido caminhos diferentes, isto é, Arthur continuou os estudos e Afonso desistiu,continuaram a conversar e a ver-se com frequência. Isso tinha resultado numa 'pequena' paixão por parte do português que realmente gostava do seu amigo. No entanto, o sentimento não era mutúo e eventualmente tinham acabado como 'amigos com beneficios' como por vezes o inglês intitulava a relação apesar de Afonso sempre ter esperança que se tornasse em algo mais.

– N-Não é nada disso do que estás a pensar!

Sofia pestanejou e olhou para a húngara:

– O Arthur é o namorado do tio?

– Não! – o lusitano continuou a protestar.

Luciano, sentindo que ele era o motivo de tanta confusão, coçou a nuca e olhou para todos.

– A-ahn... Bem, Afonso, – o português evitou encará-lo – e-eu... Eu posso voltar mais tarde para discutirmos qualquer coisa...

Sofia agarrou a mão do brasileiro e lhe puxou.

– Ah,rapaz! Fica mais um bocadinho! – pediu – Falas com um sotaque tão engraçado.

Luciano riu e acocorou-se na frente da menina, acariciando-lhe os cabelos longos e soltos.

– Falo, é?

– Não há nada a discutir... Quando puderes começar, aparece. – disse e encarou Elizabeta de forma reprovadora e mais uma vez foi ignorado.

Sofia riu baixinho e confirmou:

– Falas sim~ É fofo! – agarrou-lhe na mão – Vem, eu mostro-te como é a loja!

– B-Bia! – Afonso tentou chamar a menina, porém ela já puxava o brasileiro pela floricultura e levou-o até a estufa.

Luciano, um adorador nato de crianças, seguiu-a de bom grado e, já íntimos, a menina foi para seu colo para poder lhe mostrar os vasos de flores que ficavam nas prateleiras mais altas para que Sofia não pudesse pegá-las.

– És mais alto que meu papai. – Sofia disse e segurou Luciano pelas bochechas – E tens essa cor engraçada... – percebeu e Luciano riu.

– De onde eu vim faz muuuito sol, – sorriu – então é normal minha cor por lá.

A menina sorriu também e pegou um pequeno vasinho branco, adornado por pequenos losangos coloridos.

– Mamã adora esse aqui. – ela mencionou, sentindo saudade da mãe.

Luciano olhou para o vasinho e para as flores ao seu redor, sorrindo em seguida e dando um beijo na testa da pequena.

– Bem, como agradecimento por você ter me mostrado tudinho, que tal você me deixar comprar flores para a sua mamãe? – os olhos de Sofia brilharam – Então você pode levar para ela.

– Sim, sim! – abraçou o brasileiro e desceu do colo dele, correndo até seu tio – Tio, tio! – mostro-lhe o vasinho – Eu quero flores para colocar aqui! O rapaz bonito vai dar-me!

O português tinha voltado ao seu arranjo com os cravos enquanto conversava com Elizabeta e a punha a par da situação de Lovina. Olhou para a sobrinha e depois para Luciano, novamente curioso:

– Huh? Que flores? Por quê?

No lugar de lhe responder, Luciano disse:

– Tio? – olhou de Afonso para Sofia e novamente para Afonso – Eu pensei que ela era sua filha.

Afonso enrubesceu um pouco e balançou rapidamente a cabeça, porém foi Elizabeta quem lhe respondeu:

– Afonso é o irmão mais velho de Antônio, pai da Bia e esposo da minha melhor amiga, Lovina. Bem, uma das minhas melhores amigas, não posso descartar Bella--

– Você conhece a Bella? – Luciano questionou, esquecendo-se completamente da pergunta de Afonso sobre o porquê dele querer presentear sua sobrinha.

– Sim. E já ouvi falar muito bem de ti, Luciano. – ela piscou.

O português não sabia se Elizabeta estava brincando ou flertando descaradamente com Luciano. O brasileiro, entretanto, não pareceu perceber qualquer coisa.

– Ah! A Bella é uma grande amiga. – sorriu e logo os dois entraram numa conversa trivial, Sofia voltando a puxar Afonso.

– Tio, tio! Eu quero flores lindas pra mamã!

Suspirou e pegou nela ao colo.

– Para levar quando a fores ver? – a pequena acenou afirmativamente com a cabeça e Afonso sorriu – Que tal jasmins?

– O quê? Isso não é a namorada do Aladin?

Ele riu e caminhou até à outra ponta da loja.

– Nada disso, isto são jasmins. Aqueles ali... – apontou para as flores brancas – Significam 'amabilidade'... – depois apontou para os amarelos – E aqueles, 'bondade'. Quais queres dar à mamã?

A pequena piscou e sorriu.

– Quero todas, tio. – disse risonha e Afonso suspirou.

Afonso pousou-a no chão e lhe afagou os cabelos, pedindo para que ela ficasse com Elizabeta. Claro que aquilo era para que a menina evitasse que a húngara assustasse demais o pobre brasileiro.

Enquanto Sofia brincava com Luciano, e este se dividia entre as duas moças, o português montava um belo arranjo para Lovina, intercalando as cores das flores no vaso pequeno e mimoso. Após terminar seu trabalho, Sofia escreveu um bilhete para a mãe, com erros de português e sua letra tremida: “Eu amu a mamaen” e assinou com seu apelido, “Bia”. Encheu o pequeno cartão com florzinhas, corações e desenhou-se ao lado de seus pais, Lovina segurando um bebê, e, ao lado de Antônio, Afonso.

– Obrigada, tio! – ela disse e beijou-lhe a bochecha, indo mostrar o vaso pronto para Luciano.

O moreno sorriu e agachou-se.

– Oh! Que arranjo lindo! – pegou o vaso e olhou para Afonso – Você tem um dom, Afonso.

Virou costas para limpar o balcão e aproveitar para se esconder.

– Obrigado, eu acho. É só o meu emprego.", deu de ombros e depois ouviu o brasileiro perguntar o preço. Olhou pelo ombro e piscou-lhe o olho – Dez euros em moedas de chocolate.

– Isso é muito chocolate, tio! – Sofia censurou e depois cruzou os braços, "Estás sempre a reclamar comigo que como demasiado chocolate!

Luciano riu e puxou a carteira do bolso traseiro, separando uma nota de dez euros.

– Isso é o suficiente? – sorriu ao português.

– Sim! – Sofia disse e pegou a nota, indo guardá-la no caixa de seu tio, que encarava Luciano.

Enquanto a menina se entretinha com as notas de dinheiro, separando-as por valor, Elizabeta cruzou os braços num canto e sorriu maliciosa. Ah, teria tantas fofocas para fazer com Bella!

– Obrigado. – Luciano disse, referindo-se ao emprego, e piscou – Estou te devendo duas.

O moreno, então, disse que voltaria depois do almoço, despedindo-se de Sofia com um abraço apertado e um manear de cabeça de Afonso e Elizabeta, deixando Colubris para trás.

Ah, trabalhar ali seria interessante.

Notas finais
Esse RP não será muito longo, mas esperamos que gostem de lê-lo tanto quanto estamos gostando de escrevê-lo.
Abraços o//