O Som Do Coração
6 Capítulo 6
Notas iniciais
(Exepto um agradecimento aos reviews, é claro ♥)
Então, eis um novo capítulo.
Hansen acordou bem cedo na manhã seguinte. Estava um dia cinzento, seco mas frio, e estava tudo branco no exterior graças à fina camada de geada que se formara durante a noite.
Depois de se levantar, tratar da higiene pessoal e vestir, o holandês desceu para a cozinha.
À exepção do ressonar de Alfred vindo do piso superior e do de Luciano – este bem mais baixo – que estava no sofá da sala, toda a casa estava silênciosa.
Ele tinha ouvido a belga regressar na noite anterior mas mesmo assim sentia-se... Digamos que ele próprio não queria admitir os seus ciúmes e que portanto aquilo que sentia era apenas preocupação.
Dita belga desceu alguns minutos depois, um sutil perfume de sais de banho emanando de sua pele quentinha e recém lavada. Bella adorava tomar banho pela manhã, então sempre levantava antes dos hospedes, podendo, assim, dar-se ao luxo de usar a banheira.
Ao chegar na sala e ver Luciano adormecido no sofá, ela logo fez beiço. Sabia que o brasileiro não tinha dinheiro para pagar um quarto individual, mas lhe cortava o coração vê-lo todo apertado no sofá.
– Bom dia, irmão. – disse ao entrar na cozinha, onde Hansen fumava – O Luci dormiu outra vez no sofá?
Olhou pelo ombro e quase sorriu inconscientemente ao sentir o cheirinho. No entanto limitou-se a soprar uma nuvem de fumo. Aquele não era o comportamento normal dela.
– Bom dia, pelos vistos sim.
– Hn... – ela suspirou, um tanto tristonha – Pois bem, isso já se resolve. Não? – sorriu ao irmão, pegando seu avental e o vestindo – Algum pedido para o pequeno-almoço, irmãozão?
Hansen deu de ombros.
– Não tenho muita fome mas como o que puseres na mesa.
Bella encarou seu irmã e piscou.
– Irmão... Estás bem? – pôs-se na ponta dos pés e lhe segurou o rosto com ambas as mãos, o olhar fixo no do maior – Tens febre? Sempre pedes-me algo ao pequeno-almoço...
Encarou-a por uns momentos e depois desviou o olhar.
– Não tenho apetite, só isso.
Ela entendeu aquilo como uma repulsa, e afastou-se do irmão, procurando pelos armários.
– Então eu vou-te fazer um bolo de laranja! Eu bem sei que gostas. – sorriu.
As suas bochechas voltaram a arrefecer quando as mãos quentinhas delas o soltaram. Sorriu um pouco e suspirou.
– Pode ser waffles?
A belga voltou a encarar Hansen e sorriu largamente, não conseguindo baixar o tom contente:
– Claro que pode! – disse e depois enrubesceu de leve, cobrindo a boca com a mão e rindo sem graça – D-desculpa. E-eu vou ao mercado comprar tuas geleias preferidas e já volto para fazer-te os waffles!
– N-Não precisas de ir já! – abanou as mãos – Usa antes mel. Está demasiado frio para sair agora.
Ela voltou a piscar, fazendo biquinho.
– Ah, mas com geleia é tão melhor. – cruzou os braços e soltou um suspiro, logo sorrindo e voltando a encarar o mais velho – Ir-mão-zão~
Ele pestanejou também e corou um pouco.
– Uma vez não é vez, não me importo de comer com mel. – coçou a nuca e murmurou – Ninguém faz waffles tão boas como as tuas.
Bella piscou, surpresa com o comentário de Hansen. Ia lhe pedir para a acompanhar até o mercado mais próximo, assim ele não ficaria preocupado sobre ela sair no frio, mas ouvi-lo elogiar seus waffles... Ela não podia ficar mais feliz!
Com o rosto rubro e o peito inflando de alegria, Bella voltou a sorrir e virou-se em direção aos armários, pegando os ingredientes necessários para o que pretendia fazer.
– P-pois então eu faço-te waffles! – estava tão feliz! – A-as melhores que já comeste!
O mais velho encostou-se no balcão e cruzou os braços, observando-a um tanto divertido.
– Obrigado.
Enquanto misturava alguns ingredientes no liquidificador, a belga verificava o que mais podia servir junto além do mel. A geleia preferida de Hansen, a de uva, havia acabado, e Bella não tivera tempo para comprar mais um pote.
Sorrindo, ela teve uma ótima ideia ao abrir a geladeira.
– Que 'tás a fazer? – o holandês perguntou, curioso ao vê-la esconder algo de si.
– Se-gre-do~ – sorriu.
Desconfiado, aproximou-se sorrateiramente dela e espreitou (ou pelo menos tentou) pelo seu ombro.
– Diz-me...
Rapidamente, Bella escondeu alguma coisa no bolso frontal de seu avental, girando o rosto para trás.
– Não conto--! – a loira corou ao perceber que seu irmão estava tão próximo de si. Embora não fosse a primeira vez que se tocavam ou se abraçavam, Bella podia sentir o halito quente, e cheirando a fumo, de Hansen em seu pescoço – É-é segredo...
Fez uma expressão amuada e segurou-a delicadamente pelos ombros, rodando-a para ficar de frente a si.
– É nada, mostra-me.
E eles continuavam perto...
– S-se eu conto, dei-deixa de ser surpresa... – desviou o olhar. Se encarasse seu irmão de tão perto, talvez fizesse asneira.
Hansen suspirou e sorriu minimamente.
– Se for uma surpresa eu acabo por saber na mesma.
Ela fez biquinho.
– Mas eu quero que fiques ansioso...
Tirou-lhe o cabelo da frente da testa, pondo-o atrás da orelha.
– Ansiedade causa stress.
Bella corou mais um pouco. Desejava tanto os carinhos do holandês... Entretanto, não de um jeito tão fraternal...
– Pois então vais ser um homem stressado. – sorriu de canto e desvencilhou-se do contato, desligando o liquidificador e pondo a massa na assadora de waffles.
O holandês suspirou, talvez um pouco triste por ela se ter afastado. Mas quem queria ele enganar? A belga só o via como o seu “irmãozão”.
Voltou ao seu canto, encostado no balcão.
– Talvez...
O clima pareceu pesar, e Bella sentiu-se mal com aquilo.
Notava que, a cada dia que se passava, Hansen e ela estavam cada dia mais afastados um do outro. Já não dormiam mais no mesmo quarto; o mais velho só entrava no seu em raras ocasiões e sempre com a permissão dela; tinha de lhe pedir beijos de boa-noite... Não se tratavam mais da mesma forma, e aquilo a magoava.
– M-mas se tu chegares a ficar stressado... Eu cuido de ti. – garantiu.
Ele riu um pouco e ajeitou o seu cachecol.
– Mesmo que me torne num velho rezingão?
Bella riu e implicou com o irmão, passando um pouco de massa na ponta do nariz dele.
– Tu já és~
– Sou nada-- Hey! – virou um pouco o rosto e espirrou, tentando depois limpar a farinha.
A belga começou a rir, as mãos sujas de massa de waffle.
– Estão gostosas~ – disse e começou a lamber seus dedos, risonha.
– Eu ainda não provei nem sei qual é a surpresa. – resmungou amuado.
– A surpresa é surpresa~ – riu e pegou a colher onde tinha um pouco de massa – Toma. Podes lamber a colher.
Resmungou qualquer coisa mas pegou na colher.
– Isto está bom.
Bella sorriu, ainda lambendo seus dedos.
– Fica melhor pronto. E com a tua surpresa.
– Diz-me o que é. – pediu, meio que resmungando por causa do suspense.
– Não. – ela manteve-se firme, sorrindo em seguida e dando um beijo estalado na bochecha de Hansen – Não vai demorar... Podes arrumar as mesas, se faz favor?
As suas bochechas tingiram-se de vermelho, ele acenou afirmativamente com a cabeça e foi fazer o que ela pediu.
Aproveitando-se de que Hansen estava ocupado arrumando a sala de jantar para o desjejum – mal Bella sabia que ele estava absorto em pensamentos por ela –, Bella foi preparar a surpresa de seu irmão, tendo de esconder as waffles sob um paninho branco assim que ficaram prontas.
Nos finais de semana era comum os hóspedes acordarem um pouco mais tarde – Luciano sempre era o primeiro, Alfred o último. –, e a belga queria aproveitar esta oportunidade para tomar seu café da manhã à sós com seu amado Hansen. Sorridente, aproximou-se por trás do mais velho e lhe abraçou a cintura.
– Ir-mão-zão~ Vamos tomar o pequeno-almoço juntos? Só nós dois, como antes?
O mais velho estagnou e olhou para baixo, para os braços da belga. Não sabia se haveria de aceitar mesmo que fosse algo muito inocente. Só que o loiro gostava de estar com ela e naquela casa nunca havia sossego.
Acarinhou-lhe levemente um dos braços e murmurou:
– Pode ser.
Bella, sorrindo sempre, pediu para Hansen sentar-se e não espiar a surpresa. Embora curioso, o holandês fez o que sua irmã pedia e ficou quieto, esperando seu desjejum.
– Aqui está~! – ela disse enquanto pousava o prato com waffles fresquinhas cobertas por um fio de chocolate belga e morangos picados – Espero que gostes!
Pestanejou e observou o prato, que cheirava muito bem. Involuntariamente, sorriu e pegou nos talheres.
– Tenho a certeza que sim.
E como esperava, estavam óptimos.
A belga, que havia sentado ao lado de seu irmão, olhava-o com curiosidade. Gostava dos traços de seu rosto, assim como tinha uma pequena paixão pela cicatriz que adornava a testa larga.
Hansen era um homem bonito, de voz grossa e seca, porém gostosa de se ouvir; os olhos de um verde mais escuro que os seus, o olhar frio e distante, embora sincero; a pele clara e macia... e as mãos. Bella amava as mãos de Hansen: grandes, de dedos longos, e sempre cuidadosas. As tulipas que ele cultivava no jardim atrás da pensão eram um exemplo de que um homem aparentemente rude podia ser bastante delicado. Era uma pena que o inverno não as deixasse florir...
– E então? – ela questionou, os olhos brilhando em expectativa – Fiz bem? Gostas?
Encarou-a e o seu sorriso aumentou.
– Sim... Estão óptimas, obrigado.
Pegou num morango com a colher e estendeu para ela.
A belga piscou, um tanto surpresa com o gesto carinhoso do mais velho.
Voltando a sorrir, fechou os olhos e abriu a boca, esperando que Hansen lhe desse a fruta na boca.
Ele pousou o morango, coberto de chocolate, e perguntou:
– Está bom?
– Sim~ – ela riu – Mas também quero waffles. – fez biquinho.
Hansen riu ligeiramente e partiu um bocadinho de waffle, misturando chocolate. Voltou a levantar a colher para ela morder.
– Está bom~ – ela disse, sempre sorridente, e logo correu até o balcão da cozinha e pegou um suco fresquinho de laranja, assim como mais waffles, calda e morangos – Fiz-te um montão!
– Vou precisar de ajuda para comer isso tudo, a menos que queiras que fique obeso. – disse por implicação e pegou em mais algumas waffles para si.
– Se ficas obeso não arranjas namoradas~ – implicou também. Porém, ao perceber que poderia se entregar, sentou-se e tratou de pegar algumas para si – P-por isso vou-te ajudar.
– Quem disse que eu quero namoradas? – pestanejou e despejou morango nas suas waffles – Por falar nisso, como correu o teu jantar?
Bella piscou. Seu irmão não desejava namorar?
– Ah! Foi ótimo! – ela sorriu, exagerando um pouco –O Felipe foi muito querido... Após o jantar, passeamos e ele indico-me bons livros.
Sabia que era feio mentir.
Felipe não era um mau rapaz, ao seu ver, mas ele não lhe causava nenhum impacto, bom ou ruim. Não sentia nenhuma atração por ele e volta e meia se pegava pensando no irmão. Lhe doía agir tão maldosamente com uma pessoa que queria seu bem, mas que culpa ela tinha de amar Hansen?
Mentia mais para si mesma do que para o holandês, uma vez que achava que, se continuasse a se enganar, poderia começar a gostar de outro alguém, e desistir daquele amor sem futuro.
Desviou o olhar, concentrando-se agora nos morangos que tinha no prato.
– Hum... Ainda bem.
Eles ficaram em silêncio, Bella comendo suas waffles.
Talvez seu irmão estivesse feliz por si, certo? Ele apenas era quieto e não costumava conversar consigo, uma moça, sobre rapazes e possíveis namorados.
Mas... Ela não podia negar que o clima ficara estranho.
– S-se estás satisfeito, eu preciso ver uma coisa no meu quarto antes dos hóspedes levantarem... – ergueu-se – C-com licença.
Acenou com a cabeça e terminou de tomar o pequeno-almoço sozinho depois de ela sair.
Colocou os pratos sujos na máquina de lavar-louça e ajeitou a mesa. Quando terminou, decidiu ir dar uma volta pelo jardim.
Como Bella, os pensamentos de Hansen resumiam-se ao amor platônico que sentia. Tinha os mesmos receios que a irmã, e não conseguia deixar de sentir ciúmes daquele tal Felipe, que agora fazia sua irmã feliz.
Desejava ser ele a invadir a mente de sua amada; desejava ser o responsável por seus sorrisos mais doces; responsável pelos sonhos mais tranquilos; responsável pelo êxtase mais libidinoso...
Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos.
Jamais seria digno de desposar Bella.
Só não sabia que este era o maior desejo dela.
~※~
Logo após o almoço – e de responder um questionário estranho de Bella sobre a noite anterior –, Luciano seguiu para o shopping onde combinara um café com Michelle.
Para ser cortês, levou-lhe uma simples rosa amarela, agora sabendo que seu significado era amigável e que a moça não entenderia errado seus sentimentos.
Aguardou-a na praça de alimentação, olhando de minuto em minuto o visor do seu celular, ansioso tanto por uma ligação dela quanto algum sinal de vida de Afonso.
Michelle chegou uns minutos atrasada, por causa do trânsito e ao chegar à praça de alimentação não conseguia encontrar Luciano no meio de tanta gente. Enviou-lhe uma sms a perguntar a sua localização.
Luciano assustou-se ao sentir o celular vibrar no bolso da calça, e riu de si mesmo ao ler a sms de Michelle. Respondeu-lhe que estava em frente à loja do Burger King.
Ela colocou-se em bicos de pés e procurou pelo restaurante. Ao ver o moreno, sorriu e correu até ele:
– Luciano~!
– Oi, guria! – Luciano sorriu e a abraçou, como se já se conhecessem há anos – Você está linda! Não vai me dizer que se produziu toda só pra mim. – brincou e piscou o olho, fazendo ela corar.
– N-não, seu parvo! – riu também, ajeitando seu cabelo, que Luciano via solto pela primeira vez – Mais tarde vou encontrar o Santiago...
O brasileiro sorriu e estendeu a rosa a ela.
– Então esconde isso dele ou perco a cabeça. – brincou.
As suas bochechas ganharam uma tonalidade mais rosada e ela aceitou a rosa, cheirando-a de seguida.
– Own... Muito obrigada! É linda!
– De nada. – ele voltou a sorrir, oferecendo seu braço para a mais velha – Vamos tomar café onde? – só esperava ter dinheiro para pagar a conta...
– Que tal naquele ali? – apontou para um restaurante que ficava ali perto – Podemos levar os cafés para a esplanada. Está frio mas... Bate lá o sol.
Luciano olhou para o pequeno café que ali havia e, com um sorriso – ele poderia pagar um café pequeno e um pão-de-queijo! –, acenou com a cabeça.
– Parece ótimo.
Michelle, então, aceitou seu braço e encaminharam-se para a lojinha, onde fizeram seus pedidos.
E depois de serem atendidos, Luciano levou o tabuleiro até à mesa (ignorando as reclamações de Michelle por não a ter deixado pagar) e sentou-se.
Michelle soltou um muxoxo e cruzou os braços, o que chamou a atenção de Luciano.
– O que foi?
– Tu pagaste tudo! – ela franziu o cenho.
– E o que tem? Você é minha convidada! – e, mentalmente, agradecia por ter achado algumas notas no bolso de sua calça.
Michele suspirou e respondeu:
– Mas, Luciano... Não fica bem...
Luciano piscou e em seguida sorriu, tomando a mão dela e lhe acariciando os dedos.
– Michelle, calma. Viemos aqui como amigos e não paguei seu café com segundas intensões. – ele segurou-lhe a mão e ela corou – Fico lisonjeado que se preocupe com meus sentimentos, mas sei que você adora seu namorado, assim como eu adoro o meu. – sorriu outra vez – E se você tanto insiste, eu deixo você pagar da próxima vez!
– Mesmo?
– Mesmo.
– Fica combinado então?
Luciano riu e acenou com a cabeça.
– Super combinado!
A morena sorriu e apertou a mão de Luciano.
– O teu namorado é sortudo, tu és um amor.
O sorriso de Luciano enfraqueceu um pouco, e ele riu nervosamente, decido a mudar de assunto:
– Mas me diga, Michelle: o que trouxe você à Portugal?
Michelle estranhou a súbita mudança de assunto vinda do brasileiro, porém sorriu animada por lhe perguntarem sobre seus motivos para morar tão longe de casa.
– Formei-me em design tem um ano, e vim de Seychelles tentar arranjar um bom trabalho. – sorriu, bebericando seu café.
– Design? Que legal! – ele foi sincero e Michelle sorriu acanhada – Você tem algum trabalho seu mesmo? Digo, com você?
A morena riu baixinho e balançou a cabeça em negação.
– Infelizmente, não.
– Ah! – Luciano suspirou, coçando a nuca e mordendo seu pão-de-queijo – Ah! Então... Que tal, da próxima vez, você me mostrar alguns desenhos? Eu vou adorar!
Michelle piscou, corando mais um pouco.
Não estava acostumada a receber tanta atenção, e nem mesmo Santiago, com quem estava saindo, mostrava tanto interesse em seu trabalho. Aquilo a fazia feliz. Luciano era um bom amigo.
– Mas não são assim nada de especial...
Luciano ignorou e sorriu.
– Eu nem desenhar uma árvore sei! Tenho certeza que os seus desenhos são mais bonitos que os me-- – o seu telemóvel vibrou e ele pegou nele. Ao ver que era uma sms de Afonso, o seu coração deu um pulo e ele logo riu ao ver o que dizia: “Onde estão os meus rebuçados?! >:(”
Tinha-os escondido no dia anterior no armário e trocado por caixinhas de tic-tac na gaveta do balcão de atendimento. Isso foi uma 'vingança' porque Afonso era um chato que reclamava ao ser chamado de “chefinho”.
– Com licença, Michelle, eu preciso responder uma sms. – Luciano sorriu e digitou rapidamente: “Não sabia que você trabalhava aos sábados, chefinho!”, ignorando a pergunta do mais velho – Pronto! – Michelle sorriu e eles terminaram de tomar seu café – Então? Quer fazer o que, agora?
Michelle encarou-o curiosa e sorriu, pedindo acanhada:
– Era o teu namorado? Bem... Eu precisava de ver se adiantava algumas prendas de Natal... Se não te importasses de vir comigo ali à loja de relógios... Queria oferecer um ao Santiago mas os relógios de homem parecem-me todos iguais.
A resposta de Afonso não se fez tardar: “Eu não sou CHEFINHO!!! Onde.estão.os.meus.rebuçados?! Ficas despedido até aparecerem.” e no final tinha um bonequinho a soprar irritado.
O brasileiro preferiu não responder. Se bem conhecia Afonso, de nada adiantaria contar ou não onde estavam os doces.
– Vai ser um prazer ajudar você! Já trabalhei como vendedor, talvez eu possa ser útil. – sorriu.
– Não te importas? Obrigada Luciano! És o maior! – segurou-lhe o braço e arrastou-o pela multidão.
Ele sorriu e acompanhou a morena pelas lojas.
Com os concelhos de Luciano, Michelle comprou um belo e discreto relógio para Santiago, de pulseira de couro e detalhes em dourado. Era fino e requintado, e combinava muito com o argentino.
Quando chegaram perto do pequeno ringue de patinação que montaram dentro do shopping, um grupo de pessoas chamou a atenção de Luciano.
– Michelle... O que eles estão fazendo?
A morena olhou e pestanejou.
– Não sei. Deve ser alguma angariação de fundos. Vamos lá ver! – quase que arrastou Luciano, que riu com o gesto.
Ao aproximarem-se, o brasileiro reconheceu uma das pessoas:
– Liza?
Ao ouvir seu nome no meio de tanta confusão, Elizabeta desviou a atenção das moedas que contava e olhou para Luciano, sorrindo abertamente ao reconhecê-lo:
– Perdição! Digo-- Luciano! – ela riu e foi abraçar o brasileiro, que corou e olhou para Michelle, sem entender o motivo da húngara tê-lo chamado de “perdição”.
– Oi, Liza! Ah, eu posso chamar você assim, não posso? – sorriu acanhado – O que vocês estão fazendo? É legal!
– Claro que podes! – sorriu abertamente e depois cumprimentou Michelle, apresentando-se por educação – É uma angariação de fundos! Estamos a vender beijinhos por um euro que depois reverte para uma associação de protecção dos animais.
– Sério?! – o brasileiro demonstrou interesse – E eu posso ajudar? Eu acho trabalho voluntário super legal! – sorriu e olhou para Michelle, que havia se encolhido ao seu lado, tímida – Mi, quer ajudar?
– N-não posso, Luciano... O Santiago está á minha espera. – sorriu e apertou junto ao peito a sacolinha onde estava o relógio que comprara.
Luciano e Elizabeta sorriram à morena e Michelle se despediu de ambos, acenando para o moreno antes de sumir pelo shopping.
– Então, Liza? Posso ajudar? Tenho o dia livre, mesmo! – riu.
A húngara observou-o atentamente.
– Na verdade... Serias uma grande ajuda!– sorriu abertamente e agarrou-o pelos ombros – Isto claro, se estiveres disposto a dar beijinhos e abraços~
Luciano também riu, retribuindo o meio abraço e caminhando com Elizabeta até o local onde as pessoas podiam se inscrever para o projeto.
– Vai ser um prazer abraçar e beijar pelos animaizinhos~ – sorriu.
Elizabeta deu um sorriso malicioso e, enquanto Luciano se inscrevia, mandou uma sms para Bella: “Bella~ Adivinha que perdição encontrei no shopping? Trata de trazer o Afonso aqui o mais rápido possível. Tenho um plano.”.
No outro lado da cidade, Afonso resmungava sozinho ao tentar colocar uns vasos na prateleira mais de cima. Era nessas coisas que Luciano sempre era mais útil que ele mas... O lusitano era demasiado orgulhoso para lhe pedir ajuda ou sequer admitir isso em voz alta.
Estava quase na hora de almoço e já não havia clientes. A maior parte das senhoras, donas de casa, aproveitavam o sábado de manhã para assear as campas no cemitério e por isso depois de se irem abastecer de flores e velas, a floricultura ficava vazia.
No entanto, a campainha tocou, e logo uma loira entrou apressada:
– Afon-si-nho~
Ele franziu o sobrolho e encarou Bella, que logo sorriu:
– Olá~ Preciso de um favor teu.
– O quê?
– Tenho de comprar uma prenda para o meu irmãozão. Preciso da tua ajuda. – inventou a primeira coisa que ocorreu.
– E como queres--
– Vem comigo ao shopping!
Afonso balançou as mãos em frente ao corpo, em negação.
– M-mas Bella, eu--
Bella fez um biquinho e tomou as mãos do português intimamente.
– Vamos~ Ainda não sei o dar pro irmãozão~ – fez olhinhos de filhote.
O português pensou em negar novamente o pedido, porém a expressão de Bella lhe lembrava – e muito –, de um certo ajudante seu, e Afonso simplesmente não conseguiu resistir àquilo.
– Ok, ok. Dá-me um tempo para fechar tudo.
Bella sorriu.
– Eu espero~
Mal Afonso virou costas, ela mandou um sms à Elizabeta: “Já o convenci. Vamos já caminho.”
O português demorou nem dez minutos a deixar tudo direitinho e depois seguiu a belga.
Por insistência de Bella, Afonso pegou seu carro e dirigiu até o shopping, tendo de “aturar” a belga a conversar pelos cotovelos. Gostava imenso dela, mas não estava com muita cabeça para ouvi-la falar sobre coisas triviais.
Chegaram ao shopping em poucos minutos e, depois de estacionar e caminhar por entre algumas lojas – porque, claro, Bella sabia ser discreta –, a loira tomou o amigo pelo braço e disse, falsamente surpresa:
– Afonsinho! Olha e Liza ali! – sorriu e acenou para amiga, nenhum sinal de Luciano por perto – Liza!
Afonso respirou fundo. Muito fundo. Estar com duas mulheres num shopping seria a sua morte.
A hungara sorriu de lado.
– Olá Bella! Olá Afonso! – correu até eles e abraçou ambos – Por aqui? Que surpresa!
– É~ Eu preciso tanto comprar uma prenda pro irmãozão e pedi pro Afonso acompanhar-me. – insistiram na coincidência e sorriram – E tu, que estás a fazer?
– A angariar fundos, Bella.
A húngara explicou por cima como funcionava o projeto e as brincadeiras. Vários voluntários estavam pelo shopping vendendo beijos ou abraços ou então oferecendo flores de papel para os visitantes, afim de chamar a atenção deles sobre o abandono de animais e o quão horrível é este crime.
– O Luciano está a ajudar. – a húngara disse, sorridente.
O lusitano semicerrou os olhos.
– Esse idiota... Escondeu os meus rebuçados!
As amigas piscaram, um tanto confusas sobre o que Afonso se referia.
– Bem, ele está perto do ringue de patinagem. Por que não vais ter com ele? – Elizabeta sugeriu e Bella escondeu uma risadinha.
– Vou. E vou mata-lo. – resmungou e caminhou até lá. O brasileiro estava de costas e por isso Afonso agarrou-lhe nos ombros e fez uma voz assustadora – Onde estão os meus rebuçados?
Luciano estava se divertindo bastante com a angariação. Brincara com várias crianças, conhecera senhoras queridas – e outras um tanto pervertidas, que tentaram ultrapassar o selinho que ele vendia... –, abraçara e beijara pessoas divertidas e carismáticas.
Ele apenas não esperava encontrar seu chefe, um português pequenino e resmungão, naquela tarde de céu claro, no shopping a lhe perguntar sobre as balas sumidas.
– O-oi? Chefinho? O que faz aqui?
– Vim recuperar os meus rebuçados. – disse a brincar e depois soltou-o – E também vim acompanhar a Bella, ela precisava da minha ajuda.
Luciano revirou os olhos e riu, a mão direita cheia de flores de papel.
– Eu escondi no armário da estufa, seu viciadinho. Vai ficar gordo se comer muitas balas.
O português estalou os dedos.
– Foi o único sítio onde não procurei! – cruzou os braços e suspirou – Não me importo de ficar gordo. “Gordura é sinal de formosura”.
– Não, é sinal de veias entupidas – implicou outra vez.
Afonso ia protestar algo, porem uma dupla de moças, bonitas e risonhas, tocaram o ombro de Luciano.
– Olá! – elas se riram – Tás a vender beijinhos?
– Sim! Por um euro!
– São dois então~! – uma delas pegou numa moeda de dois euros e deu ao brasileiro.
Afonso ficou sem entender o que se passava e levantou uma sobrancelha quando Luciano se baixou um pouco para dar um selinho em cada uma.
Ao se afastar da segunda moça, esta lhe segurou pela nuca e questionou, muito provocante:
– Só isso? E se eu te pago mais, dás-me um beijo decente?
O brasileiro corou um pouco e pestanejou. Bem, era uma forma de conseguir mais dinheiro, não?
– Como assim, “decente”?
A moça, que tinha longos cabelos loiros, sorriu perante a pergunta de Luciano e lhe mordeu de leve o lábio inferior, fazendo-o corar mais ainda.
– Como namorado e namorada. – provocou-lhe e deu um passo para frente, tentando aprofundar o beijo.
O moreno se afastou de leve e coçou a nuca, completamente acanhado.
– Desculpe, senhorita, mas só podemos vender selinhos.
– Ah~ – ambas pareceram desapontadas, mas em seguida a que flertava consigo tirou uma caneta da bolsa e escreveu o número do seu celular na mão de Luciano – Então, quando te cansares de bate-chapas, liga-me – piscou-lhe e tomou o braço de sua amiga, se afastando.
O português, que tinha cruzado os braços ao observar a cena, resmungou:
– Oferecidas e desesperadas.
Luciano, rubro e um tanto desconfortável, encarou Afonso.
– Elas não foram as únicas. Mas as demais nem me perguntaram, apenas tentaram me beijar. – coçou a nuca – Queria saber o porquê...
O português ficou um tanto incrédulo e ainda abriu a boca para lhe responder porém percebeu a tempo que se dissesse que era por Luciano ser bonito ia deixar tudo muito estranho. Deu de ombros e suspirou:
– Não me perguntes a mim.
O brasileiro riu, tentando fazer suas bochechas voltarem à coloração normal.
– Ah! – sorriu e ofereceu uma rosa de papel para Afonso – Deseja ajudar no projeto? Você pode se voluntariar.
Afonso pegou na rosa e riu.
– Nãh. Não gosto de andar por aí aos beijos a desconhecidos. – procurou no bolso e tirou uma moeda de um euro, dando-a a Luciano – Pela flor.
Para a surpresa do europeu, Luciano negou com a cabeça e sorriu:
– É um presente meu.
– E se eu quiser dar um euro para contribuir, não deixas? – levantou uma sobrancelha.
Luciano sorriu, aceitando a moeda e dando um beijo na bochecha de Afonso.
– Pronto. Vendi um beijo!
O português corou ligeiramente e riu.
– Já fiz a minha contribuição e agora tenho de voltar. Até segunda!
– Até~ – Luciano sorriu e se despediu, voltando ao seu voluntariado.
O português voltou ao lugar onde tinha a barraquinha e onde ainda Bella conversava com a húngara. Foi até elas e acenou.
– Vou-me embora, até logo. Bella, vens ou ficas?
As amigas se entreolharam, Bella um tanto alarmada e Elizabeta piscando o olho para a amiga.
– V-vou! Só deixa-me ir abraçar o Luci! – disse apressada e arrastou Afonso consigo – Luci~ Tchauzinho!
Luciano se virou para a belga e riu ao ser esmagado por ela.
– Até mais tarde, Bella.
Ela sorriu e olhou para Afonso:
– Não vais abraçar o Luci?
Afonso abanou com a cabeça e cruzou os braços.
– Não. Ele escondeu os meus rebuçados.
A expressão de Luciano foi mágoa pura, e ele sorriu fracamente quando Bella empurrou de leve o português.
– Deixa, Bella. O chefinho não gosta mais de mim. – fez drama.
O belga encarou Afonso e empurrou-o novamente até ele embater contra o peito do mais novo.
– Gosta sim, ele só é idiota.
Ao sentir o corpo pequeno de Afonso contra o seu, Luciano sorriu e o envolveu num abraço carinhoso e íntimo, seu rosto colado no do mais velho.
– É verdade? Você gosta de mim, chefinho? – questionou num sussurro, para apenas Afonso ouvir.
Instintivamente, Afonso abraçou-se no tronco de Luciano para se segurar. As palavras do mais novo fizeram-no corar e ficar atrapalhado, a única coisa que conseguiu murmurar foi:
– ...E-Eu não sou “chefinho”.
Luciano riu baixinho, apertando de leve o abraço enquanto começava a acarinhar as costas de Afonso. Estava tão distraído que nem notou quando Bella, discretamente, chamou Elizabeta.
– Pois eu gosto de você. – ele declarou, afastando-se um pouco do português para encará-lo nos olhos.
Afonso pestanejou e sorriu ligeiramente, mesmo que continuasse envergonhado.
– E-Eu também gosto de ti.
Luciano corou de leve ao ouvir a declaração de Afonso. O europeu tinha uma expressão tão fofa! Os olhos escuros brilhando um pouquinho, o rosto vermelho, o sorriso torto...
Afonso era lindo. E tinha uma beleza distinta: embora usasse o cabelo comprido, tinha traços masculinos bem marcantes, e aquela cicatriz sobre o olho esquerdo... Luciano era curioso sobre ela, mas tinha medo de questionar os motivos daquela marca. Entretanto, achava-a envolvente, e a adorava.
– E-eu...
Os rapazes ouviram risadas abafadas e, ainda abraçados, olharam para Bella e Elizabeta.
– Olha só o que temos aqui! – a húngara disse sorridente, erguendo um visco sobre a cabeça de seus amigos, a belga rindo abobada ao seu lado.
Como não era uma tradição brasileira, Luciano não entendeu a moral do raminho sobre si, e piscou confuso.
– O que é isso?
– Um raminho de azevinho! – Bella disse.
– Tá, e o que significa isso?
– Que tens de beijar a outra pessoa abaixo do ramo. – Elizabeta explicou – No caso, o Afonso.
O moreno piscou outra vez e encarou Afonso, que não parecia estar gostando daquilo.
– Ok. – disse sem rodeios, dando um beijo na bochecha do menor.
As moças riram de novo e Elizabeta explicou.
– Não, não, Luci. Tem de ser na boca.
– É! E como namorado e namorada! – a belga completou.
Afonso suspirou e rolou os olhos.
– Deixem de ser infantis.
Elizabeta sorriu de lado.
– Que foi Afonso? Estás com medo de um simples beijo?
– Eu nã--
– Se não te conhecesse até diria que nunca beijaste ninguém antes. – Bella acrescentou, olhando para as suas unhas elegantemente pintadas com um súbito interesse.
Rubro, Luciano deu um meio aperto em Afonso, como se indicasse que ele não queria que o mais velho se afastasse.
– V-vamos lá, gurias. N-não se força ninguém a beijar outra pessoa... – murmurou.
– Ah, vamos lá! É só uma brincadeira entre amigos. – a húngara disse, dando um sutil empurro em Afonso.
Luciano encarou o português e suspirou, mordendo o lábio inferior em seguida.
– Desculpa, chefinho. – voltou a murmurar e fechou os olhos, inclinando-se para baixo e dando um subtil beijinho nos lábios de Afonso.
Este ainda pensou em afasta-lo porque aquilo não era correcto mas...
Os lábios de Luciano eram surpreendentemente macios e carnudos, agradáveis. Pousou uma mão sobre a bochecha dele e fechou os olhos, esquecendo onde estava e o que estava a fazer.
Foi então que algo lhe atiçou a sua curiosidade: canela.
Decidido a descobrir como é que os lábios do brasileiro sabiam tão bem, entreabriu um pouco os seus.
Ao perceber a permissão de Afonso, Luciano não pensou duas vezes antes de deslizar sua língua para a boca do português, segurando-o pela nuca com a mão esquerda enquanto a direita o puxava para mais perto pelo quadril.
Não demorou muito para que Afonso sorrisse de lado em triunfo ao sentir algo na boca do brasileiro... Um tic-tac!
Foi como se uma luzinha se tivesse acendido sobre a sua cabeça. Luciano tinha-lhe escondido os rebuçados e era mais que justo Afonso roubar os dele.
Com a língua, trouxe o tic-tac para a sua boca e depois afastou-se, cessando o beijo.
– Satisfeita agora? – encarou Elizabeta e depois rodou nos seus calcanhares – Enfim, já devia estar em casa. Até logo. Vens ou não, Bella? – começou a caminhar em direcção ao parque de estacionamento sem esperar pela resposta da loira.
Enquanto um Luciano muito corado era simplesmente abandonado após um ótimo beijo, as amigas se entreolharam: Bella tão rubra quanto o brasileiro e Elizabeta cheia de satisfação.
– E-espera, Afonso! – a loira se despediu dos amigos, porém Luciano estava um tanto torpe pelo beijo para retribuir – Afonso, espera por mim! – resmungou e correu atrás do amigo.
Claro que a húngara tinha outros planos. Não ia deixar aquilo como estava.
Seguiu os dois e puxou Afonso pelo pulso, cobrando-lhe:
– Deves-me dois euros.
O português pestanejou.
– Huh? Por quê?
– Porque beijaste o Luciano.
Afonso levantou uma sobrancelha, confuso.
– Isso foi porque tu puseste o azevinho. E eu já dei um euro!
A húngara apertou-lhe as bochechas.
– É, mas não estava no “contracto” que podias roubar-lhe o tic-tac. – implicou e depois abriu a mão – Dois euros, se faz favor.
Afonso corou e resmungou, procurando nos bolsos por 2 euros. Deu-lhe a moeda.
– Quem disse que eu roubei o tic-tac?
– Estou a sentir o cheiro. – piscou-lhe o olho e agradeceu pela moeda, despedindo-se dos amigos e voltando para o local do projeto.
Bella e Afonso, o segundo ainda corado, seguiram para o estacionamento. Afonso sequer lembrou-se de que a belga não comprara nada.
Mais próxima de Luciano, Elizabeta percebeu que, embora ainda vendesse beijinhos, abraços e flores de papel, o moreno estava um tanto avoado... e completamente rubro.
– Tão adorável. – murmurou para si mesma.
Aquilo tinha futuro.
Ah, se tinha!
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