Notas iniciais
Queremos agradecer as reviews lindas que vocês tem nos mandado *-*
E pedimos desculpas caso haja erros de digitação ou formatação.
Esperamos que gostem do capítulo de hoje :)

Capítulo IV:

O dia tinha começado absolutamente normal para Afonso. Depois de ter chegado à floricultura e comido uma fatia de bolo que tinha comprado pelo caminho, ele abriu a loja. Regou as plantas e estava a terminar de ajeitar um vaso de rosas quando o telefone tocou. Correu até ele e atendeu, sentindo o seu coração dar um pulo quando ouviu a voz do outro lado, que lhe era tão conhecida.

– Arthur?

– Afonso...

O português ficou de imediato preocupado só pelo tom tristonho que o outro tinha.

– Que se passa?

Ficaram ao telefone durante mais de meia hora. Pelos vistos, Francis tinha-se chateado e dado um tempo com Arthur e o inglês ficara destroçado.

Como não sabia como ajudar, Afonso sugeriu:

– Não queres aparecer lá em casa? Eu faço o jantar e podemos conversar melhor...

Ah... Claro, se não for incômodo.

Afonso garantiu que não era, e eles combinaram de jantar lá pelas sete da noite. Apenas por causa daquilo, o português fecharia a floricultura mais cedo naquele dia.

Mal desligara o telefone, um brasileiro abatido e com os olhos vermelhos chegou.

– Bom dia.

Olhou pelo ombro.

– Bom dia?

O aspecto que o brasileiro tinha era horrível e a preocupação de Afonso instintivamente aumentou. Foi até ele e tocou-lhe levemente nas olheiras.

– O que te aconteceu? Estás bem? Fizeram-te alguma coisa? Estás doente? Precisas de ir embora? Eu não me importo se quiseres tirar o dia.

Luciano sorriu de leve e balançou a cabeça, tirando seu casaco e vestindo o avental.

– Martin não dormiu em casa ontem. – esfregou os olhos – Passei a noite em claro, me desculpe o atraso...

Deu um estalido com a língua. Não gostava nada de o ver assim.
– Não estás atrasado. Tens a certeza que não queres tirar o dia? Devias dormir... Se precisares podes usar o sofá da “staff room”.

– Não, eu quero trabalhar...

Luciano encarou o mais velho e mordeu o lábio. Sabia que não podia, mas...

Deu um passo para frente e abraçou Afonso de qualquer jeito, escondendo o rosto no ombro do mais velho.

– Desculpa, mas eu estou precisando de um abraço...

O português estagnou, mas de imediato o choque passou e ele retribuiu o abraço, esfregando com cuidado as costas de Luciano.

– Shh, tem calma... De certeza que há uma boa explicação para isso.

O carinho fez Luciano relaxar um pouco, e ele apertou um pouco o abraço, esfregando sem segundas intenções o nariz no pescoço de Afonso. Ele tinha um cheiro agradável de flor, e aquilo o estava acalmando.

– Obrigado. Sério, você é um ótimo amigo.

Riu um pouco e deu um subtil aperto no abraço.

– Exagerado... – sentiu-se a arrepiar e suspirou – Hum... Isso faz cócegas.

– Desculpa. – ele disse, porém não cessou o abraço. Fazia tanto tempo que não abraçava alguém. – Mas eu realmente gosto de você. Foi a melhor coisa que me aconteceu aqui na Europa.

Corou novamente, ainda que de forma discreta.

– Exagerado mais uma vez.

Por instinto, deu-lhe um pequeno beijo na têmpora e parou de lhe esfregar as costas para fazer cafuné.

– Gosto mesmo-- – ao sentir o beijo, Luciano corou e se afastou um pouco – Quem é você e o que fez com o meu chefinho? – mal terminara a frase, sentiu o carinho no cabelo, e instintivamente fechou os olhos, soltando um suspiro de contentamento e voltando a encostar a testa no ombro do menor.

Sorriu de lado, continuando o carinho.

– Já disse mil vezes que não sou “chefinho”.

– É sim. – afastou-se outra vez e o encarou – Meu chefinho fofo. – deu um meio sorriso e acarinhou-lhe a bochecha.

Eles se encararam por um tempo, e Luciano piscou. Aquilo não seria uma boa ideia. Na verdade, seria ridículo e estaria sendo um canalha tanto com Martin – mesmo que ele merecesse – quanto Afonso.

Mas... ah, ele realmente gostava do menor e--

– Chefinho... – ele aproximou-se de Afonso, segurando-lhe o rosto com ambas as mãos – Obrigado pelo carinho. – murmurou e deu-lhe um beijinho cálido e superficial no canto da boca – Me sinto melhor, vou verificar os pedidos.

O português estava-se a preparar para reclamar mais uma vez. Não era “chefinho” e também não era “fofo” mas a atitude inesperada de Luciano deixou-o um tanto intimidado.

Por momentos, não conseguia saber o que ele ia fazer e quase que pensou coisas erradas. Depois chegou à conclusão que o facto do beijo ter sido demasiado próximo da sua boca devia ter sido um acidente – mesmo que isso não o impedisse de ficar ligeiramente corado.

– Ok... Vou acabar os arranjos.

Luciano foi para atrás do balcão, verificando os pedidos para o Natal – havia alguns poucos de aniversário – e se encarregando da tabela de preço. Questionou Afonso sobre aumentarem o valor dos arranjos naquela época, porém o português preferiu deixar as coisas como estavam.

A manhã ia já a meio quando o telefone tocou. Ambos os lusófonos fizeram uma pequena competição para lá chegar mas Afonso, por ser pequeno, passou por baixo do braço de Luciano e atendeu.

– Bom dia, é da Colubris... Sim claro. Deixe-me só apontar... – pegou num papel e escreveu uma morada, soletrando depois o nome enquanto escrevia – Pode repetir o nome, por favor? Santiago? Ok, Do: Santiago para-? Michelle? Com dois 'l'? Pronto... Obrigado. – pousou o telefone e esfregou a mãos – Encomenda de ramo com flores vermelhas. Vamos nós aos cravos~.

Luciano sorriu e em seguida piscou. Aquele nome não lhe era estranho...

– Chefinho, pode me dizer o endereço do pedido?

Afonso entregou-lhe o post-it onde tinha escrito a morada e foi à estufa buscar cravos.

O moreno sorriu ao reconhecer o endereço da Agência onde Martin trabalhava. Então o namorado de Michelle estava lhe oferecendo flores.

– Chefinho, posso fazer um arranjo também? Preciso agradecer uma amiga... ah! Eu também conheço o lugar, posso ir entregar!

– Chamaste-me “chefinho” outra vez por isso não deixo. – disse para implicar e pousou os cravos no balcão para começar a fazer o arranjo.

– M-mas chefinho! – Luciano foi atê ele e o abraçou por trás, colando sua bochecha na do mais velho – Eu preciso agradecer a gentileza dela! A Michelle ficou comigo enquanto eu esperava pelo Martin ontem. – fez bico.

Olhou pelo ombro e “bateu-lhe” no nariz com um cravo.

– Voltaste a chamar-me esse nome e por isso a minha decisão mantem-se.

O mais jovem aumentou o bico e beijou a bochecha de Afonso.

– Eu vou pagar. Por favor, Afonso.

– Eu não quero que me pagues, quero que pares de me chamar isso. – resmungou e sentiu a sua cara aquecer – O-ok, vai lá fazer o ramo.

Luciano sorriu e deu um ligeiro aperto em Afonso, contente:

– Obrigado, obrigado! – agradeceu e deu outro beijo no mais velho, correndo até a estufa e pegando rosas brancas – Ahn... Chefinho? Qual o significado das rosas brancas?

Semicerrou os olhos e encarou-o. Ia cometer um homicídio ainda...

– Não digo. Voltaste a chamar-me essa coisa.

– Chato. – murmurou e deu de ombros, sentando-se ao lado de Afonso e iniciando o arranjo – Se significar “amor” e eu me der mal com o namorado dela, mando a conta do hospital para você.

– Não é problema meu~ – sorriu de lado e começou a contar os cravos. Faltava ainda qualquer coisa mas ele não sabia exactamente o quê.

Enquanto Afonso encarava seu arranjo e se questionava o que faltava, Luciano começou a sentir a cabeça pesada.

Depois de esperar por Martin até a Agência fechar – e mais um tempo do lado de fora, na chuva –, o brasileiro permaneceu a noite toda acordado, preocupado com o namorado.

Naquela manhã sentiu-se sem fome e um pouco enjoado, e o jejum somado ao cansaço acabou por lhe vencer, e Luciano deitou o tronco sobre o balcão, dormindo por entre as rosas.

Ao principio, Afonso nem tinha notado mas quando ouviu um leve ressonar assustou-se e encarou Luciano.

– ...Eu avisei. – murmurou para si mesmo.

Não podia deixar o brasileiro a dormir ali no meio da loja por isso meteu-se na árdua tarefa de pegar nele ao colo para o deixar no sofá da staff room.

Ao sentir-se pousado numa coisa fofa e confortável, Luciano acomodou-se ali e abraçou-se na primeira coisa que achou – um travesseiro velho. Por sentir frio, encolheu-se e continuou a dormir, exausto.

Afonso sabia que ficar naquela sala durante muito tempo, ia congelar o brasileiro. Como não tinha nenhum cobertor por ali, cobriu-o com o seu casaco e deixou a caixa dos doces tradicionais (que sempre comprava de manhã para ir comendo durante o dia se tivesse fome) em cima da mesa, bem em frente ao moreno.

Quando achou que estava tudo bem, voltou para terminar o seu arranjo.

Levou cerca de uma hora até Luciano acordar. O moreno abriu lentamente os olhos e não situou-se, apenas notando que haviam lhe posto num sofá quando levantou-se e deixou cair o casaco de Afonso.

– Hn... – coçou os olhos e seguiu até a floricultura, sorrindo ao ver o mais velho de costas – Desculpe ter dormido, Afonso. – murmurou e deixou-se abraçar o menor outra vez.

Ainda sentia sono.

Demasiado concentrado no que estava a fazer, o mais velho deu um pequeno salto e olhou pelo ombro.

– L-Luciano? Que estás a fazer?

Luciano soltou um suspiro e encostou sua testa no ombro de Afonso, como horas antes.

– 'Tô com sono e carente. Me mima?

– E quê? Agora és como um cãozinho? – sorriu e despenteou-o.

Sorriu também.

– Talvez eu seja mesmo. – apertou-o – Au!

Guinchou ao ser apertado e depois olhou pelo ombro, rindo um pouco.

– Os cães ficam lá fora, xoo daqui.

O sorriso de Luciano transformou-se num bico e ele largou o mais velho, voltando às rosas brancas, que ainda estavam no balcão.

– Foi mal. Esqueço que os europeus detestam abraços. – soltou num muxoxo.

– Detestar não é o termo mais apropriado, Sr. Brazuca.– disse e depois foi à estufa buscar mais um tipo de flores para misturar com os cravos.

Luciano suspirou e ficou quieto. Juntou as rosas num vasinho meigo e com detalhes em vermelho e sorriu satisfeito com o seu trabalho. Acariciou as pétalas e lembrou-se de sua mãe, que adorava flores. Ah, sentia falta dela.

Logo Afonso voltou e pousou umas folhas decorativas sobre o balcão. Olhou para o arranjo de Luciano e sorriu.

– Está bonito. Podias acrescentar rosas amarelas nos lados que ganhava um significado mais amistoso.

Luciano fez biquinho e enrubesceu.

– Estou me declarando, né?

Afonso pestanejou. E não era que Luciano ficava fofo assim corado?

– Não. Rosas brancas significam muita coisa mas normalmente são associadas a pureza e sorte. As amarelas simbolizam amizade. Também podes usar rosa-suave, porque essas são para mostrar a ausência de maldade. O que preferires... A maior parte das pessoas não liga mesmo. Mas creio que as rosas a que te referes são as vermelhas vivas. – apontou para os cravos – Eu uso mais cravos no lugar das rosas por ser uma coisa diferente.

O brasileiro ergueu o olhar e encarou Afonso, sorrindo aliviado ao saber que não estava a se declarar para ninguém.

– E qual o significado dos cravos, Afonso? – chamou-lhe assim apenas para conseguir a informação.

– Depende da cor. Os vermelhos escuros denotam amor profundo e carinho. – explicou.

– Oh! Isso é legal! – sorriu – Então eu posso comprar um para o Martin também? Talvez assim ele pare de me ignorar... – a última frase devia ter ficado em seus pensamentos, porém Luciano acabou por dizê-la.

Levantou os olhos do ramo e encarou Luciano.

– Oh, isso explica o teu estado hoje de manhã. Aconteceu alguma coisa entre vocês ou foi do nada?

Luciano corou e coçou a nuca. Maldita língua maior que a boca!

– Foi do nada. Acho que nosso namoro está abalado... – suspirou tristonho – Mas não liga! – forçou um riso – Não é importante para você.

O mais velho colocou as mãos na cintura.

– Importa sim, tu és meu amigo e não gosto de te ver triste. E escusas de sorrir para mim que isso não engana.

Mesmo assim, Luciano continuou sorrindo.
– Somos amigos, Afonso? Mesmo?!

O lusitano levantou uma sobrancelha, sinceramente perdido por causa da pergunta.

– Huh... Sim?

O moreno sorriu e em seguida foi até a estufa, pegando rosas amarelas para complementar seu arranjo.

Se Afonso o considerava um amigo, era porque ele gostava de si, certo?

Afonso colocou uma etiqueta numa das folhas, onde escreveu o nome do destinatário e depois pousou numa jarra o ramo.

– Luci, está pronto para-- Luciano, está pronto para entregar.

Luciano voltou com um sorriso ainda mais largo nos lábios.

– Ouvi mal ou você me criou um apelido? – piscou-lhe o olho.

– Ouviste mal. Foi um soluço. Agora, entregas para fazer. – apontou para os ramos.

– Ah! – Luciano piscou e depois sorriu outra vez, terminando seu ramo – Ficou bom? Acho que precisa de mais cor, não?

– Ficou bom, não mexas mais. – sorriu e passou-lhe o ramo dos cravos – Levas tu, então?

Luciano pegou ambos os ramos e cheirou as flores, sorrindo bobamente. Tinham um cheiro tão agradável!

– Levo sim! Vou indo lá antes que fique tarde. – piscou e foi até a porta.

Ao ver-se com ambas as mãos ocupadas e com avental, o moreno piscou e olhou para Afonso.

– Ah... Você pode tirar meu avental? E me ajudar a vestir a jaqueta? – riu.

– Não deseja mais nada, alteza? – sorriu e foi até ele.

Teve de lhe dar um meio abraço para conseguir desapertar o nó atrás (sempre a reclamar que estava demasiado apertado) e depois pediu-lhe para se baixar porque senão não conseguia tira-lo por cima.

O mais jovem obedeceu, flexionando os joelhos até uma certa altura, inclinando a cabeça para baixo para ajudar Afonso.

– Obrigado. Esqueci do avental. – ele sorriu e ergueu o rosto.

Demasiado perto... Luciano tinha ficado demasiado perto. Tão perto, que Afonso conseguiu encara-lo de frente e observar atentamente a cor dos seus olhos escuros. Eram de um castanho tão bonito... E aquele sorriso era tão bonito...
Ficou a olhar uns momentos para ele antes de se aperceber o que estava a acontecer. Corou um pouco e tirou-lhe o avental.

– P-Pronto, já está. Vai l-lá entregar isso!
E fugiu para as estufas.

– Ué. – o maior piscou, não entendendo a reação de Afonso.

Suspirou e teve de baixar os ramos ao chão, uma vez que Afonso não havia lhe ajudado a vestir o casaco. Ajeitou-se e olhou para a porta da estufa, berrando:

– Estou indo lá. Não demoro.

Sorriu de canto ao não ouvir nada vindo do mais velho.

Luciano seguiu até o endereço do dia anterior. Andava com mais calma que antes, porém um pouco mais ansioso. Michelle tinha sido tão gentil consigo que o brasileiro desejava conquistar a amizade dela. Amigos nunca eram demais e ele sentia-se um pouco deslocado naquele país: seus melhores amigos eram Afonso e Bella. Mesmo que gostasse de todos da pensão – incluindo Roderich –, mal conversava com eles por culpa dos horários de trabalho ou estudo. O músico mal saía do quarto quando estava na pensão, e passava boa parte do dia na faculdade. Os irmãos ou jogavam videogame em seu tempo livre, ou estudavam – bem, Matthew estudava, Alfred fugia disso como o diabo foge da cruz. Ivan era, de longe, o homem que Luciano mais gostava de conversar, porém o arquiteto estava responsável por um novo projeto e mal aparecia para o jantar. Hansen parecia não ir com a sua cara; Martin o ignorava e Bella... bem, só restava a belga para lhe fazer companhia.

Quanto Afonso... Ele realmente gostava do português: era uma pessoa de fácil convivência e extremamente fofo, embora fosse rude consigo quando o chamava de alguma forma que não gostava. Afonso era bonito, gentil, tinha um dom com as plantas e era um expert na cozinha. Ah! Como Luciano gostaria de jantar outra vez na casa do mais velho...

Pigarreou e balançou a cabeça. No que estava pensando?

Ao ver as extensas portas de vidro, Luciano sorriu e dirigiu-se sem cerimônias até as secretárias.

– Bom dia. O senhor está à procura do senhor Martin Rodriguez novamente?

– Bom dia~ não, estou a trabalho. – Luciano sorriu e as moças se entreolharam, risonhas – A senhorita Michelle, por favor? Tenho uma entrega a fazer.

Uma das secretárias pegou no telefone e chamou por Michelle, que logo apareceu apressada. Com curiosidade, aproximou-se do brasileiro.

– Luciano? Que fazes aqui?

O moreno sorriu e entregou-lhe o ramo dos cravos.

– Venho a trabalho. Encomendaram estas flores para você~

Michelle piscou e sorriu largamente, pegando o ramo dos cravos e cheirando as flores, seu rosto adornando-se de um leve rubor.

– Oh, mas são lindas! – exclamou e procurou por algum cartão, sentindo-se ainda mais vermelha ao ler de quem era.

– Seu namorado gosta de você, hn? – Luciano piscou e a moça riu, escondendo parcialmente o rosto por detrás das flores, bobamente apaixonada – Ah. E essas – estendeu as rosas – são minhas.

A morena encarou o mais jovem e as rosas intercaladamente, pegando o vasinho com uma certa hesitação.

– P-por quê, Luciano? – questionou sem entender muito bem o que se passava.

Luciano sorriu.

– Queria agradecer sua gentileza ontem. – foi sincero – C-calma, eu não estou flertando você nem nada! – balançou as mãos em frente ao corpo, acanhado.

– N-não pensei isso! – Michelle fez biquinho e depois sorriu, também cheirando as rosas – Tão lindas. Obrigada, Luciano. – sorriu-lhe amigavelmente, olhando em seguida para os cravos. Eram tão bonitos!

– Você realmente está apaixonada por este Santiago, hn?

Ela enrubesceu e ergueu o olhar para o moreno.

– C-como podes afirmar isso? – voltou a fazer beicinho, e Luciano riu.

– Esse brilho no seu olhar. – tocou a ponta do nariz de Michelle, sorridente – Meu chefe também tem esse olhar bobinho e apaixonado, embora ele negue isso.

Michelle piscou e abriu um largo sorriso, o que chamou a atenção de Luciano.

– Que?

– Falas do teu chefe com tanto carinho. – apertou os ramos contra o peito – Se não soubesses que tens namorado, diria que estás apaixonado por ele~

Luciano corou até as orelhas, voltando a balançar as mãos em frente ao corpo.

– N-n-não! E-eu só-- – pigarreou e desviou o olhar para um canto qualquer – E-ele é um bom amigo e me ajudou muito desde que cheguei em Portugal e... – coçou a nuca – Ele gosta de outro.

– Gosta de outro? Hum... Isso não me convence. – piscou-lhe o olho e como Luciano parecia bastante atrapalhado, ela pediu desculpa e suspirou – Tens namorado, eu não devia dizer estas coisas. Desculpa, leio demasiados romances. – encarou-o novamente e sorriu – E obrigada novamente pelas flores, são muito bonitas. Foste tu que fizeste o ramo?

– Sim! O chefinho me ensinou e--

Michelle voltou a rir, escondendo o rosto entre as rosas e os cravos.

– Q-que?

– Nada~ – ela sorriu e suspirou – Quero te agradecer pelo ramo.

– Mas ele já é um agradecimento meu! – piscou, confuso.

A morena sorriu e abanou com a cabeça.

– Mesmo assim. Há alguma coisa que possa fazer por ti?

Luciano coçou a nuca.

– Um café? – sugeriu.

– Um café está óptimo! – sorriu – Ah! Podemos ir ao shopping sábado... Tem uma coisa que te quero mostrar.

– Ahn... Ok! – riu e olhou para o grande relógio na parede do prédio – A-ai! Eu estou atrasado! O chefinho vai me matar! – disse e se despediu de Michelle com dois beijos na bochecha – Sábado, então! – pegou o número do telefone portátil dela e acenou, saindo apressado.

Quando Luciano regressou à floricultura, Afonso estava a colocar talas nos vasos que tinham partido com a tempestade. Cantarolava uma melodia qualquer pois estava contente por saber que ia jantar com Arthur nessa noite. Pensava no que ia cozinhar (e nos argumentos a usar caso Arthur se oferecesse para o fazer) e nos ingredientes que teria de comprar.

Ao notar a felicidade de Afonso, o brasileiro ficou curioso e, um pouco mais íntimo do português, veio lhe sondar.

– Viu um passarinho verde, chef-- Afonso? – sorriu e lhe acariciou os cabelos presos.

Apesar de ter ouvido a campainha tocar, ele não esperava que Luciano se aproximasse tão rápido e deu um pequeno salto quando o moreno lhe mexeu no cabelo.

– P-Passarinho verde?

Luciano riu.

– É! Lá no Brasil dizemos que alguém viu um passarinho verde quando ela está muito feliz. – parou para pensar por um momento – Não me pergunte o motivo, nunca me questionei sobre isso. – voltou a rir.

Afonso corou.

– Mas eu não estou “muito feliz”. Apenas estava distraído.

– Arrã, sei. – piscou e se afastou, começando a cantar:

“Quero mover
As pás dos moinhos
E abrandar o calor do sol
Quero emaranhar
O cabelo da menina
Mandar meus beijos pelo ar...”

Pestanejou e sorriu um pouco. Conhecia a música e a voz do brasileiro era mesmo bonita.

Com uma tentativa frustrada de imitar o sotaque brasileiro, Afonso completou:

“Vento, ventania

Me leve pra qualquer lugar.”

Luciano piscou ao ouvir o mais velho lhe acompanhando. Olhou para Afonso e abriu um sorriso largo, contente. A voz dele era tão linda! E ele ficava tão fofo tentando falar português brasileiro.

Prosseguiu:

“Me leve para
Qualquer canto do mundo
Ásia, Europa, América...”

Por gostar de dançar, e por ter com quem cantar, Luciano tomou as mãos de Afonso com as suas e entrelaçou os dedos, sorrindo ainda mais ao menor:

“Me deixe cavalgar

Nos seus desatinos
Nas revoadas
Redemoinhos”

Luciano tinha as mãos bem quentinhas ao contrário de Afonso, que as tinha geladas por estar a trabalhar com folhas cheias de orvalho.

Instintivamente apertou-lhe um pouco a mão e pestanejou. O moreno tinha um sorriso verdadeiramente bonito que naquele momento estava a ser dirigido para si e o lusitano ficou um pouco acanhado mas sorriu brevemente para retribuir.

– Canta comigo, Afonso! – Luciano pediu, começando a girar para lá e para cá, dançando e puxando o português consigo.

“Vento, ventania
Me leve sem destino
Quero juntar-me a você”

O português riu e abanou a cabeça.

– Eu não sei dançar nem fazer o teu sotaque.

– Pois cante no seu! – sorriu e puxou Afonso para mais perto, fazendo-o subir em seus pés – Vem, eu guio você~ – riu e apertou o menor, mantendo-o firme enquanto dançava pra lá e pra cá.

“E carregar os balões pro mar
Quero enrolar as pipas nos fios
Mandar meus beijos pelo ar”

O mais velho ficou todo atrapalhado por toda aquela proximidade.

– M-Mas- Luci-- Luciano, estamos no meio da loja e pode entrar alguém.

Luciano sorriu e lhe deu um meio abraço, colando sua bochecha na de Afonso.

– Quem liga? Você está feliz, eu estou feliz.

Riu baixinho e deu-lhe uma palmada leve na nuca.

– Ligam os clientes que precisarem de ser atendidos.

– Eu danço com eles, se for o caso. – riu e fechou os olhos.

Afonso cheirava tão bem.

– Nem pensar. Ainda bates contra algum vaso e é só prejuízo.

Luciano suspirou e afastou-se de Afonso.

– Ok, já entendi. – pegou seu avental e vestiu-o – Eu não faço mais isso.

O português riu um pouco.

– Não tem mal. Agora tenho as mãos mornas~

Luciano ficou quieto, verificando os pedidos para aquele dia. Suspirou ao ver que não entendia metade do que estava escrito naquele papel, porém imaginou que conseguiria fazer um ramo de crisântemos.

Afonso foi terminar de arranjar as plantas envazadas e foi pousa-las nos lugares certos quando terminou.

Sorriu satisfeito com o trabalho concluído e pegou num rebuçado.

– Vou lanchar, já volto.

– Ok.

Quando ficou sozinho na floricultura, Luciano pegou a caixinha de tic-tac do bolso da calça e colocou uma grande quantidade na boca. Em seguida, verificou no livro de Afonso que raios era um crisântemo, sorrindo faceiro ao encontrar.

Foi lá fazer o ramo.

A floricultura depressa se encheu com o cheirinho de chocolate quente acabado de fazer. O lusitano adorava coisas doces e por isso passava a vida a comer bolos ou chocolate.

Voltou para o balcão.

– Que estás a fazer?

Um cheiro forte e gostoso de canela pode ser sentido quando Luciano abriu a boca:

– Trabalhando, ué. – disse e alternou-se entre crisântemos e alguns raminhos verdes, que ele desconhecia – Não é isso o que faço aqui?

Afonso rolou os olhos.

– Eu estava a perguntar que estás a fazer no ramo.

– Seguindo meus instintos.

Por algum motivo, parecia a Afonso que o brasileiro estava chateado e decidiu não o chatear mais. Levantou as mãos em sinal de paz e foi beber o resto do chocolate para a 'staff' room onde tinha um pequeno balcão com as coisas para lavar louça.

O trabalho de Luciano foi interrompido com o telefone, que tocou. Deixando a tesoura e as flores de lado, atendeu.

– Floricultura Colubris, Luciano falando. – piscou – Senhor, eu já lhe disse que não há nenhum “Luís” aqui. – fez-se quieto – Certeza absoluta. Ok, boa tarde.

Afonso apareceu mais uma vez e viu Luciano pousar o telefone.

– Quem era?

– Ah, eu não sei. Mas é a segunda vez que ligam perguntando por um tal “Luís”.

O lusitano empalideceu e sentiu o seu coração dar um salto.

– L-Luís?

– Sim, isso mesmo.

– D-Deve ter sido engano.

– Provável. – deu de ombros – Temos que entregar mais três arranjos hoje. Eu não vou conseguir fazer o com tulipas, mas acho que o com rosas, sim.

– Por que não? – Afonso pestanejou e coçou a nuca,sugerindo depois – Se quiseres podes tentar e caso não fique direito eu dou um jeito.

– Pode ser. – finalizou o arranjo com os crisântemos e deixou o vaso de lado, indo até a estufa e escolhendo algumas rosas.

Como era um ramo especial e apaixonado, Luciano correu para as vermelhas, sorrindo enquanto escolhia as mais bonitas. Voltou para o balcão e começou a cortar os caules e retirar os espinhos, mantendo-as todas no mesmo tamanho.

Naturalmente, ele voltou a cantarolar:

Uuuu...
Você é tão acostumada
A sempre ter razão
Uuuu...
Você é tão articulada
Quando fala não pede atenção”

Afonso tinha ido escrever algumas quadras nuns postaizinhos para desejar boas festas aos clientes, um pequeno presente. Desta vez, não conheceu a música mas sorriu um pouco e ficou a ouvir o brasileiro cantar.
Foi então que teve uma ideia. Estalou os dedos e voltou-se para o moreno:

– Luciano! Estava agora a pensar... Tu andavas a juntar dinheiro, certo? E se colocasses uma caixinha ou um mealheiro no balcão para as pessoas deixarem gorjeta se quiserem?

Luciano parou a música e encarou o mais velho, piscando um pouco. Em seguida, sorriu e balançou a cabeça.

– Não tem por quê fazer isso.

– Mas podias juntar dinheiro mais rápido para pagares os estudos! – aproximou-se do balcão e pousou as mãos neste, encarando Luciano.

– Que estudos?

Afonso piscou, confuso.

– És estudante universitário... não?

O brasileiro ficou um tempo parado, apenas processando a informação. Em seguida, baixou o olhar e balançou a cabeça, voltando a tirar os espinhos do caule das rosas.

– Não. Eu não estudo.
– Não? – repetiu surpreendido e falou de rajada em seguida – Mas por quê? Não queres? Preferes estudar no Brasil? Na universidade daqui há o curso de Música! Devias tentar entrar, tens imenso jeito! Q-Quero dizer, esquece... É uma opção tua, não me devia intrometer, desculpa.

Luciano piscou e em seguida riu.

– Você nem me dá tempo de responder! – sorriu e depois voltou sua atenção às rosas enquanto explicava – Não sei que profissão quero seguir... eu gosto de cantar e tocar, mas não acredito que tenha o dom para isso... vejo pelo Roderich, um músico que mora na pensão comigo. – suspirou – Esse é um dos temas que sempre aparece nas discussões do Martin comigo: eu só tenho ensino básico, enquanto ele já é formado em moda.

O português suspirou.

– Eu acho que... Bem mais importante que o nível académico é cada um fazer o que mais gosta, quer dizer... – coçou a nuca apontou em redor da floricultura – Eu não tenho nenhuma licenciatura por opção e no entanto consegui trabalhar numa coisa que amo e por exemplo o meu amigo Arthur está numa área “intermédia” daquilo que gostava apesar de ter licenciatura. – deu de ombros e despenteou o brasileiro – Na minha opinião, quando se gosta de alguma coisa, não importa se não é o emprego com melhor salário mas sim aquele em não te custa levantar de manhã para ir trabalhar.

Luciano ergueu o olhar.

– Eu gosto de saber que vou ver você todos os dias.

O cérebro do pequeno português entrou em loading e Afonso apenas pestanejou, encarando o brasileiro, à medida que ia ficando vermelho até ás orelhas.

– O-Oi?

O brasileiro piscou, não entendendo a reação do mais velho.

– Ahn... Você disse que não importa o salário ou o que vou fazer se eu realmente gosto disso... Eu gosto de acordar e saber que vou ver você. – admitiu, inocente.

Afonso ficou a abrir e a fechar a boca como um peixinho e depois voltou para os seus cartões de Natal, bem envergonhado.

– I-Isso é lá coisa que se diga?

Luciano também voltou-se para seu arranjo, um tanto acanhado.

– Só queria saber se isso significa que eu gosto de trabalhar com você e se devo continuar com isso...

– E-Eu não sei? Não me importo que fiques a trabalhar aqui, gosto da tua companhia.

Luciano escondeu o rosto ao tornar a baixa-lo. Talvez ele tivesse dito alguma coisa de mal.
Para mudar o assunto, convidou:

– Hei... Topa um filme hoje?
– Oh...Hoje não dá, o Arthur vai jantar lá casa. Talvez amanhã? – sugeriu.

Apenas a menção do nome do britânico foi necessário para Luciano sentir-se diferente.

Não mudara sua expressão, nem reclamara verbalmente; porém algo dentro de si pareceu murchar. Ajeitou as rosas no vaso acastanhado e balançou a cabeça.

– Tá, pode ser.

Afonso sorriu e foi arrumar os postais.

– Combinado~
Lembrar-se do jantar fê-lo voltar a cantarolar enquanto trabalhava.

Aquilo fizera Luciano sentir-se ainda mais abatido. Entendia que Afonso cantava por Arthur, e não se esquecera que o português se negara a cantar consigo.

Terminou o arranjo de rosas e começou a fazer os de tulipas, sorrindo satisfeito ao perceber que, embora as flores tivessem pétalas mais altas e juntas do que as rosas, ficavam lindas se mescladas com raminhos verdes.

– Acho que terminei.

O lusitano aproximou-se dele e colocou-se em bicos de pés para conseguir ver pelo ombro do moreno.

– E tu dizias que não conseguias... Ficou muito bom!

Luciano ainda estava distraído, ajeitando uma tulipa que não ficara uma posição que lhe agradava, e não viu – e nem esperava – Afonso atrás de si.

Por instinto, girou o rosto para trás e encarou o mais velho.

– Obrigado.

Afonso deu um pequeno salto por se ter assustado e Luciano estava tão perto que sentia o cheirinho a canela.

– D-De nada.

Apesar da proximidade repentina, nenhum dos dois se afastou. Luciano e Afonso continuaram na mesma posição, o brasileiro percorrendo seu olhar por todo o rosto do português.

Afonso tinha uma pele clara, as bochechas naturalmente rosadas, mas o que mais chamava a atenção de Luciano eram seus olhos. Tinham a tonalidade de um verde escuro, profundo... tão distinto dos olhos azuis e claros de Martin. O europeu também tinha algo que causava curiosidade em Luciano: uma sutil e rosada cicatriz por sobre o olho esquerdo. Era tão fina que mais parecia que um gato arisco lhe arranhara o rosto ao tentar fugir.

Mas... Qual seria a verdadeira origem daquela cicatriz?

Ao sentir-se tão observado, Afonso corou um pouco e pestanejou.

– Q-Que foi?

Luciano também piscou, desfazendo o contato visual e se erguendo do banquinho.

– Nada, me desculpe. – deixou a tesoura e os ramos no balcão – Vou fazer um café, aceita?

Apesar de ter acabado de beber chocolate, o português aceitou a oferta e foi buscar um saquinho para colocar o ramo pronto.

O moreno seguiu até a staff room e colocou o pó de café num saquinho sobre a boca de um bule. Aguardou a água da chaleira aquecer e depois foi despejando-a sobre o pó calmamente.

Quando o café ficou pronto, Luciano pegou duas canecas e ajeitou tudo numa bandeja, também pondo uma jarrinha de leite que ficava na pequena geladeira da sala.

– O café está pronto. – anunciou enquanto deixava a bandeja sobre o balcão.

O português sorriu ao sentir o cheirinho do café e foi até ao balcão, usando um pouco de leite para não ficar tão forte.

– Obrigado~

O café estava mesmo no ponto, nem muito frio nem muito quente. Enquanto bebia, olhou para o relógio pendurado ao lado da porta e ficou surpreendido com as horas.

Depois de pousar a chávena, ele disse ao moreno:

– Hoje vamos fechar mais cedo... Tenho de ir comprar umas coisas antes de ir para casa e já está em cima da hora.

Luciano, que ainda tomava seu café, piscou e olhou as horas. Não eram cinco da tarde...

Suspirou.

– Ah, ok. – apressou-se em tomar o resto do café e pegou a bandeja, indo até a sala dos fundos para lavar a louça. Quando voltou, retirou o avental e colocou o casaco – Vou aproveitar e entregar os ramos.

Afonso agradeceu-lhe e foi fazer mesmo – tirar o avental e vestir o casaco. Estava quase a sair quando deu um estalido com os dedos e procurou na loja por alguma coisa.

Ao regressar lá fora, voltava com as chaves numa mão e um cravo, grande, aberto e bem vermelho na outra.

Luciano, que se esforçava para equilibrar os três arranjos nos braços, piscou ao ver o cravo.

– Vai oferecer? – questionou, já sabendo a quem Afonso ofereceria a flor.

O lusitano suspirou e ficou a encarar a flor.

– Nãh... É só para deixar a arranjar a mesa.

– Ah. – Luciano suspirou e forçou um sorriso – Bom jantar, então. Que tudo se resolva. – disse e abraçou com mais força os ramos – Até amanhã.

– Obrigado e até manhã. – acenou com a mão livre e foi no caminho oposto, dirigindo-se ao supermercado.

Não sabia muito bem o que fazer e optou por um simples assado temperado com Vinho do Porto. E tudo, absolutamente tudo, tinha de estar perfeito.

Quando chegou a casa, arrumou tudo muito direito e acendeu a lareira, para que ficasse mais quentinho e aconchegado.

Colocou o cravo num simples jarro pequeno com água no centro da mesa e pôs os pratos e talheres quase que de forma simétrica.

O forno apitou, sinalizando que o assado estava pronto, duas horas depois. Afonso sorriu satisfeito e tirou a travessa para a pôr também na mesa. Tinha o coração aos pulos, cheio de expectativa, talvez quem sabe... O inglês tivesse desistido de Francis.

Respirou fundo e olhou para o relógio. Faltavam só cinco minutos e Arthur era sempre, sempre pontual.

Os seus devaneios foram interrompidos pelo telefone de casa, que tocou na outra ponta da sala. Correu para atender:

– 'Tou?

– AFONSO!

– Arthur? O que--

– Desculpa não ter avisado antes mas- Aconteceu um milagre hoje e... O nosso jantar pode ficar para outro dia?

– Um milagre?

Arthur continuou a falar entusiasmado do outro lado, nem reparando que o tom de voz do português se tinha reduzido a um simples murmurio.

Sim! O Francis convidou-me para sair com ele novamente e eu... Eu aceitei sem pensar duas vezes! Mas só agora me lembrei que tinhamos combinado. Não te importas que fique para outro dia, pois não?

– Claro que não... – murmurou mais baixo ainda e olhou para a mesa. Agora tudo aquilo lhe parecia ridículo, desde a comida a fumegar ao cravo... – Eu ainda nem tinha começado a fazer nada.

– Ainda bem... Seria um desperdício. – o outro suspirou – Bem, obrigado! És um grande amigo. Falamo-nos depois, agora estou atrasado!

E sem esperar sequer uma resposta, desligou.