O Som Do Coração
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Capítulo XXI:
Os dias não estavam sendo fáceis para Bella. A belga sofria com as náuseas da gestação, e Hansen, um ótimo companheiro e um atrapalhado pai de primeira viagem, não sabia como ajudá-la.
O holandês pesquisava sobre tudo, desde desejos gestacionais até possíveis doenças durante este período. Claro que, naturalmente nervoso, ele tentava examinar sua mulher com base nos sintomas que ela sentia, e acabou diagnosticando-a com três doenças impossíveis.
– Estás bem? – ele perguntou, os olhos fixos no laptop, quando Bella voltou a se deitar, voltando de mais uma visita ao banheiro.
– Sim... O médico disse que os enjoos são normais, mas... – ela suspirou e acariciou a barriga, que começava a apontar – Eu não reclamaria de ficar um dia sem passar mal.
Levantou o olhar do computador e encarou-a, o seu semblante ficando também preocupado ao vê-la pálida:
– O médico não receitou nada para as dores?
Bella balançou gentilmente a cabeça, sorrindo sempre.
– Sim, mas eu só tomo uma dose por dia... antes do pequeno-almoço. – ela explicou, acomodando-se ao lado de Hansen na forma de lhe pedir mimo – Não preocupa-te, Hansi, – a loira segurou a mão do holandês e fê-lo descansá-la sobre sua barriga – é por algo maior.
O mais velho acarinhou-lhe de imediato a barriga, algo que passou a ser um hábito que ele amava, e inclinou-se para o lado para se poder encostar no ombro dela.
– Gostava de poder ajudar de alguma forma m-mas... Eu nem sei o que fazer...
Ah, se Hansen soubesse o quão fofo ficava atrapalhado! E o quanto Bella o amava cada dia mais!
Bella beijou-lhe o canto da boca e sorriu, aconchegando-se no meio abraço do irmão.
– Podes ajudar-me a escolher o nome do bebê~
Hansen pestanejou algumas vezes e virou o rosto para a tentar ver:
– Eu? Eu não tenho jeito nenhum para isso. E-E ainda nem sabemos se é menino ou menina... Tens melhor gosto que eu para essas coisas.
Ela riu e roubou-lhe um beijo, esfregando seu nariz no de Hansen. Era gostoso poder beijar, abraçar e amar Hansen após tantos anos escondendo seus sentimentos. Não podia ser mais feliz, ainda mais quando gerava um fruto daquele amor tão bonito.
– E o papá não vai ajudar a mamã a escolher o nome do bebê? – sorriu – Podemos dizer os nomes que gostamos... E escolher quando soubermos o sexo do nosso bebê.
Hansen sorriu um pouco e beijou-lhe a testa enquanto que ela pegava no computador para pesquisar nos sites para arranjar ideias.
– Eu gosto do teu. Mas como não é practico ser igual, que tal Isabella?
– É bonito! – ela sorriu, corando de leve ao sentir Hansen acarinhando novamente sua barriga – E se for um menino? Gosto imenso de Jean... Marco...
– Parecem nomes... Franceses? – ajeitou a sua posição na cama, baixando-se até ficar quase encostado na barriga dela – Rutger? Não espera... Já tivemos um cão com esse nome, não podemos chamar igual...
Bella riu mais uma vez, agora acariciando os cabelos de Hansen, que caíam por sobre os olhos dele por não estarem penteados com gel. Por mais que estivessem assustados, a belga sentia que Hansen seria um ótimo pai.
– Rutger era um amor, mas a mamãe não gostava dele... – suspirou e fechou os olhos – Para menina... Annabel? Menino... Lorenzo?
Ele acenou com a cabeça:
– Soa italiano, mas é um bom nome. – sorriu e fechou os olhos em contentamento, ronronando levemente com o mimo.
– Mas vais reclamar de qualquer nome que eu disser? – a loira riu e puxou o irmão para um beijo, enchendo-o de beijos pelas bochechas depois – E que tal Enzo?
O loiro mordeu-lhe a bochecha e sorriu:
– Gosto desse!
Ela suspirou baixinho e retribuiu a mordida, contente por, finalmente, terem entrado em acordo.
– Enzo... E se for menina, Annabel ou Isabella? – questionou baixinho, bocejando em seguida – Qual preferes?
Sentou-se direito novamente e fechou o computador, pousando-o sobre a mesinha de cabeceira.
– Isabella. Tem Bella no fim. – sorriu um pouco e puxou os cobertores para se deitar ao lado da loira.
– Isabella e Enzo... – a loira murmurou e se aconchegou no peito do irmão, fechando os olhos – Terão teus olhos...
– Os teus. São mais escuros... – disse com um sorriso e abraçou-a, escondendo-se no ombro dela sem sequer se importar que ficava todo torto.
– Eu amo-te... – ela disse baixinho, mais adormecida que acordada, mas sorriu ao ouvir a resposta do irmão:
– Eu amo-te demais, Bella. Tu e o pequenino aqui. – acarinhou-lhe a barriga novamente, beijando a clavícula da mais jovem antes de também fechar os olhos.
Não demorou muito para ambos relaxarem, sonhando com a criança que estava por vir.
~※~
António teve quase de empurrar o irmão pela porta do bar.
O lusitano estava relutante em entrar com medo do possivel encontro com Luciano. Não sabia como reagir.
Quando conseguiu fazer Afonso passar pela porta, sorriu, suspirando cansado pela tarefa árdua.
– N-não posso... – ele murmurou e deu meia-volta, pronto para fugir.
Antônio, revirando os olhos, estalou a língua e segurou o irmão pelo braço.
– Não faças isso.
– M-mas eu--
O espanhol sorriu, procurando pelo bar uma mesa mais reservada, e optou por uma que ficava quase escondida. O bar em si já não era muito iluminado, mas naquele lugar as lâmpadas estavam queimadas, e os casais mais pervertidos ficavam ali. Foi difícil convencer aos guardas de que eram irmãos.
– Pronto. Daqui vemos o Luci e ele não nos vê. – deu palmadinhas nas costas do mais velho – Se tiveres coragem, falamos com ele... – olhou para o palco vazio, entendendo que a hora do show não tinha chegado – Se não, vamos para casa quando quiseres e ele nunca saberá que estivemos cá.
Afonso ficou quietinho, encolhido na sua cadeira.
Queria muito ver o brasileiro e queria mais ainda poder abraçá-lo e dizer-lhe o que sentia mas... Não podia.
Suspirou e disse ao irmão:
– Ok, combinado.
O mais jovem sorriu de lado e, como era filho de deus, pediu uma cerveja para si. Afonso não queria nada, mas Antônio acabou pedindo uma porção de batatas fritas, para o caso de terem fome. E também porquê o português adorava batata frita.
Antônio percebeu o quão aflito Afonso estava. Seu irmão mordia com insistência o lábio inferior, assim como abria e fechava a caixinha de tic-tac de canela. Ele não comera mais nenhuma bala, porém não desgrudava da embalagem, e o som do doce girando pela caixinha já se tornava parta da rotina dos irmãos. Assim como aquele forte cheiro.
Afonso mantinha os olhos fixos no palco vazio, o medo e a ansiedade tomando conta de si. Queria tanto ver Luciano mais uma vez...
O que lhe pareceu décadas, logo Afonso notou movimentos perto do palco. Era quase meia-noite, e as luzes mais fortes estavam sendo direcionadas para aquele local. Logo, para um misto de felicidade e angústia, Luciano subia ao palco, o violão em mãos. O brasileiro se ajeitou no seu casual banco e afinou as cordas, os olhos voltados para elas. O bar ficara em silêncio, demonstrando o quanto gostavam de seu show.
– Boa noite. – ele disse de maneira recíproca, e sua voz soou estranha. Afonso percebeu que havia algo de errado – A música de hoje – ele começou a dedilhar as cordas – é para alguém que nunca vai ouvi-la.
As pessoas do bar começaram a cochichar entre si, estranhando aquela declaração sem sentido e as feições sérias e tristonhas do cantor. Luciano sempre irradiava alegria.
O brasileiro fechou os olhos e aproximou a boca do microfone, sua voz saindo bela como sempre, mas carregada de angústia:
“Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo”
Afonso, tal como todos os espectadores, arrepiou-se ao ouvir aquela voz que tanto gostava... não... que amava, num tom tão triste.
Mas ele não entendia o que poderia ter deixado Luciano assim e a sua vontade de o abraçar e proteger aumentava... Porém, sabia que nada podia fazer.
“É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto”
Na segunda estrofe, Luciano abriu os olhos e voltou-os em direção de Afonso, fazendo o português pensar que havia sido visto. O brasileiro, entretanto, mal conseguia enxergar as mesas próximas ao palco, dirá onde os irmãos ibéricos estavam.
Afonso sentiu seu coração comprimir ao ouvir a declaração. Parte de si imaginava quer ele cantava para Michelle, mas algo em seu interior desejava que fosse para si.
“E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo”
Afonso suspirou tristemente mais uma vez.
Aquilo era exactamente o que gostaria de poder dizer ao brasileiro.
Antônio encarava seu irmão de soslaio, atento a cada gesto do mais velho. Via como Afonso apertava a caixinha de tic-tac por entre os dedos, como abria e fechava a embalagem, como a girava... Os olhos escuros estavam fixos no brasileiro a cantar, e sempre que Luciano abria os olhos e parecia olhar diretamente para Afonso, o português corava e desviava o olhar, tristonho.
“Eu já nem sei se eu 'tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira”
A canção lembrava, e muito, a relação entre Afonso e Luciano, o espanhol pode notar. Principalmente quando a música mencionava que alguém – no caso Afonso – chorava dores de outro amor. Se lembrava quando Luciano jantara em sua casa pela primeira vez, e como o brasileiro parecia magoado com a ideia de que o português sempre o veria como amigo, uma vez que estava apaixonado – Antônio só foi saber disso tempos depois – por Arthur.
A música acabou.
Luciano mantinha os dedos sobre as cordas, porém não as dedilhava. Afonso, com o coração em mãos, chegou a mencionar se levantar, porém algo freou suas ações: calma e timidamente, Michelle surgiu de alguma mesa e subiu lentamente até o palco, pondo-se ao lado do brasileiro sentado e lhe abraçando, o rosto de Luciano indo parar em sua barriga.
Afonso engoliu em seco e balançou a cabeça. Eles nunca poderiam ficar juntos.
– Vamos, Antônio. – ele murmurou e se levantou, a mão direita apertando com força a embalagem do doce, que sacudia e fazia seu barulho costumeiro.
Antônio, que observava com estranheza aquela jovem moça conversar algo com Luciano – que mantinha a cabeça em seu colo, os olhos fechados –, olhou para seu irmão e se levantou também.
– C-calma! Tu não sais daqui sem pagarmos a conta! – ele avisou, uma vez que os seguranças apenas permitiam a saída dos frequentadores do bar após mostrarem a conta paga.
Afonso esfregou os olhos, que ardiam, e balançou a cabeça, esperando “pacientemente” que seu irmão fosse pagar a maldita conta. A fila, entretanto, estava enorme, e ele esperou por quase meia hora.
Não tinha coragem de olhar para o palco, então não viu quando Luciano, silencioso, ergueu-se e deixou seu posto. Michelle ficou para trás, os olhos tão úmidos quantos os de Afonso.
– Pronto, Afonso! – o espanhol aproximou-se do irmão soltando um suspiro, uma vez que tivera que se espremer entre dois homens mais altos para pagar a conta – Podemos ir.
– Afonso? – os irmãos olharam para a mesma direção, e Afonso se encolheu ao ver Michelle – Afonso? O “chefinho” do Luci?
O mais velho ia negar, dizer que não fazia sequer ideia de quem é que era Luciano mas o seu irmão mais novo, que o conhecia demasiado bem para o seu azar, sorriu educadamente e segurou o lusitano pelos ombros, não fosse ele fugir.
– É ele sim.
– E-Eu--
Michelle tentou retribuir o sorriso mas também ela estava angustiada porque mesmo que o brasileiro não retribuísse os seus sentimentos, ele não deixava de ser seu amigo e partida inesperada dele tinha-a apanhado desprevenida.
– Prazer em conhecê-lo, Afonso.
Michelle lhe estendeu a mão, realmente disposta a fazer amizade. Afonso, entretanto, ainda estava um pouco atordoado e magoado, e o cumprimento não foi concretizado por si, mas por Antônio.
– Prazer, Antônio. – o espanhol sorria amigavelmente, diferente dos menores. Pareciam voltar de um velório – Muito bonita a canção do Luciano.
– A-ah... Sim... – ela concordou, logo recolhendo a mão para perto do corpo trêmulo. Ainda lhe custava aceitar que Luciano partira...
– Deves estar contente de ter uma música tão significativa a te homenagear.
A moça piscou os olhos, e riu sem achar graça.
– Que estás a dizer? – ela lacrimejou, embora nem piscasse.
Antônio, sem entender a reação de Michelle, prosseguiu:
– Ahn... A canção que o Luciano dedicou a ti?
– N-não brinques tão cruelmente com meus sentimentos! – ela pediu entre baixos soluços, e os irmãos piscaram – Isso é demais para mim.
Afonso, que até então se mantivera quieto, questionou:
– Michelle? O Luci não dedicou a canção a ti? – ela o encarou, limpando as lágrimas – Mas vocês são namorados... não?
A morena voltou a soluçar, tentando sorrir por entre as lágrimas. Usando a mão direita para limpar o rosto, ela respirou fundo antes de começar a murmurar, os soluços a atrapalhando.
– N-namorados? – outra risada carregada de mágoa – Não foi para mim que o Luci dedicou a música... – ela encarou Afonso, que deu um passo para trás – É tão difícil assim de ver, Afonso? – o português permaneceu calado, e Michelle desabafou – É tão difícil perceber que o Luci te ama?
Afonso pestanejou mais uma vez sem realmente entender o que ela tentava dizer, o que estava a acontecer e Michelle então lembrou-se do que Luciano havia dito sobre o Afonso quando ela ainda namorava com “Santiago”.
O brasileiro tinha-lhe descrito Afonso como sendo meigo, por vezes demasiado inocente, outras um pouco lento, tinha alturas em que conseguia ser feroz mas era maioritariamente calmo. Também lhe tinha dito que era bonito, que tinha um cabelo macio, uns olhos lindíssimos... Só pela forma e admiração com que Luciano falava... Michelle sabia que ele estava apaixonado. Custava-lhe entender como é que o lusitano não reparara nisso.
– A-A mim? – murmurou em pura confusão – Mas tu--
– A ti, Afonso. Só a ti.
Afonso balançou a cabeça para os lados, como se o que Michelle dissesse era a mais cruel das mentiras. Ele vira os morenos no palco, dias antes, e aquilo não podia ser apenas amizade.
– M-mas o beijo...
– Eu gosto do Luci, Afonso. – ela foi sincera – E por mim nós ficaríamos juntos... mas ele só ama a ti, por mais que me custe admitir. – ela soluçou e respirou fundo, tentando controlar as lágrimas – Quando nós nos beijamos, eu quem deu a iniciativa, e o Luci só se deixou levar, mas depois me deixou claro os sentimentos dele... e eu fugi enquanto ele voltava pra ficar contigo.
O lusitano encolheu-se um pouco, sentindo um aperto no coração.
Abriu a boca feito peixinho e depois conseguiu formular a sua pergunta:
– Mas então... Porque é que ele não estava em casa de manhã? Fugiu de mim? É isso?
– Já te passou pela cabeça que ele sabe que tu amas o tal inglês? – Michelle já não mais chorava, mas também perdia a paciência. Doía repetir que Luciano nunca gostaria de si da mesma forma como ela gostava dele. Magoava, humilhava. – E que tu o magoaste também?
– Mas eu não... – abanou com a cabeça e esfregou a testa porque a sua cabeça já doía. Talvez algumas coisas começassem a fazer sentido agora – Eu e o Arthur não temos mais nada... Onde-- Onde está o Luci?
Michelle piscou, verdadeiramente confusa.
– Não sabias?
Os irmãos a encararam, e Afonso sentiu novamente que algo de ruim aconteceria.
– Não sabia... o quê?
– O Luci está voltando para o Brasil... Hoje...
O português empalideceu bem rápido, encarando a morena como que esperando que houvesse algum erro:
– Hoje? Por quê? Quando é que ele foi? – segurou nos ombros dela, desesperado.
– A-agora... – ela olhou para seu relógio de pulso – N-no voo que decola em cinco minutos...
Afonso baixou os braços, nem querendo acreditar.
– Ele... Ele não pode ter ido...– os seus olhos não aguentaram mais e deixaram as lágrimas escapar de uma vez por todas – Ele... Deixou a morada dele?
Michelle fez que sim com a cabeça, conseguindo, finalmente, parar de chorar. Antônio, que não sabia como se envolver na conversa, pôs as mãos sobre os ombros de Afonso.
– H-hei, Afonso...
– Ele não estava bem quando partiu... – ouviram a mais jovem comentar, e a encararam mais uma vez – Estava magro e triste... Não era ele. Eu sinto muito, Afonso. Por mais que me doa, eu desejo a felicidade do Luci...
Afonso pestanejou:
– Q-Que queres dizer com isso? Michelle... Por favor, dá-me a morada dele ou o contacto... Qualquer coisa que seja... Eu preciso de falar com ele...
Michelle balançou a cabeça para os lados, voltando a chorar ao se sentir chacoalhada pelo mais velho.
– E-eu não sei, d-desculpa!
– Afonso, larga a Michelle!
– Um telefone?
– D-desculpa... E-eu realmente não sei. Ele não deixou-me nada!
Largou-a e pediu desculpa por ter sido bruto.
O seu coração estava em pedaços e não sabia mais o que fazer. Encarou o irmão:
– Será que se perguntar-mos na empresa de aviões nos digam algum contacto, alguma coisa?
O espanhol balançou a cabeça, encarando o chão.
– Eu não sei... Podemos tentar alcançar o Luciano... Talvez o voo não tenha partido.
– E-Então vamos! – segurou a beira da camisola do irmão – P-Por favor! Eu preciso de falar com o Luci!
Antônio mal teve tempo de dizer alguma coisa. Afonso recolheu suas coisas e agarrou o pulso do irmão, despedindo-se de qualquer forma de Michelle.
Ele desejava ver Luciano, e resolver as coisas com ele... Afinal, Luciano o amava.
O espanhol deu a partida no carro – não era louco para deixar seu irmãozinho nervoso na direção –, porém ele não tinha tanta esperança quanto Afonso. Apertava com força o volante, e encarava seu relógio de pulso a cada meio segundo. Pelas suas contas, o avião já havia decolado.
De Guimarães ao Aeroporto Sá Carneiro demorava mais de uma hora e obviamente que ao lá chegar o português estava com os nervos em franja.
António ainda nem tinha estacionado o carro e ele já saltara do carro e começara a correr para dentro do edifício.
Esperava que houvesse algum atraso, ou quem sabe, cancelamento do vôo!
– O-o voo para Brasil! – ele disse ofegante assim que chegou no primeiro guichê, assustando a pobre recepcionista – O voo para o Brasil! Onde fica o portão?
A recepcionista, após se acalmar e entender o que o português estava falando, piscou os olhos e sorriu-lhe:
– Desculpa, senhor, mas o último voo para o Brasil decolou faz uma hora. Deseja remarcar sua passagem para amanhã?
– N-Não... Obrigado... – afastou-se do balcão de atendimento e sentiu-se perdido, vazio, triste...
Pegou na caixinha dos Tic-Tac e no bilhete, que agora andava sempre consigo, e mal olhou para baixo as suas lágrimas começaram a cair silenciosamente. Ouviu António chamar, mas, mesmo assim, nem se moveu.
– Hermano? – Antônio chamou calmamente, abraçando o irmãos pelos ombros – O que houve?
Fungou baixinho e sentiu o abraço ser apertado.
– E-Ele foi embora...
Antônio emudeceu, uma vez que não havia algo a ser dito. Luciano havia partido com a ideia de que Afonso, seu querido e amado português, estava apaixonado por um rapaz imbecil e sem escrúpulos.
Aquilo magoava.
– Vamos para casa... Precisas descansar...
Afonso acenou levemente com a cabeça e desembaraçou-se do abraço, apenas limpando os olhos com as costas da mão depois.
– V-Vamos... – murmurou baixinho, soluçando para evitar chorar alto.
Antônio dirigiu lentamente até a casa de seu irmão, podendo ouvir os pequenos soluços que ele soltava vez ou outra.
Doía ver seu querido irmão a sofrer, ainda mais quando não havia nada a se fazer.
Ao dobrarem na rua do mais velho, notaram uma pequena movimentação. Na porta da casa de Afonso, Arthur parecia implorar algo a Francis, que se mantinha sério.
Quando se aproximaram do casal, o francês foi direto, ignorando os apelos do namorado:
– Afonso, temos que conversar.
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