Notas iniciais
Olá novamente, caros leitores.
Mais uma vez, obrigada por todos os comentários que têm deixado...Como devem ter raparado, não temos o hábito de os responder então perdoem-nos ;A;
Espero que gostem do cap~

Na manhã de segunda-feira, Afonso levou um pequeno susto quando um brasileiro, um pouco amuado, chegou na floricultura lhe chamando.

– Chefinho!

Afonso piscou ao vê-lo se aproximar de si.

– L-Luci? Que estás a fazer aqui a esta hora? – perguntou, uma vez que o mais jovem só trabalhava no turno da tarde.

Luciano segurou o europeu pelos ombros e fê-lo encarar-lhe, nervoso.

– A Liza me disse que você pagou dois euros pelo nosso beijo. É verdade?

Corou ao lembrar-se disso e suspirou.

– Correcção: A Liza é que me obrigou a pagar. Mas como era para os animais abandonados não vi muito problema nisso.
– M-mas eu não vendi aquele beijo para você! Ele não tinha nada a ver com os animaizinhos! – fez beiço, apertando um pouco os dedos em torno dos ombros de Afonso.

O lusitano inclinou um pouco a cabeça e fez uma expressão confusa.

Luciano suspirou e mordeu o próprio lábio. Talvez o que estivesse fazendo fosse algo idiota, sem sentido e totalmente egoísta, porém ele sentiu-se chateado com aquilo.

– Quando nós nos beijamos... Quando eu beijei você... – corou de leve – Eu fiz porque queria. Eu não estava vendendo aquele beijo, como eu fiz com as outras pessoas... – desviou o olhar, fazendo biquinho – N-não era para você ter pago aquilo.

O pequeno português ficou mais confuso e ainda sem entender. Mas não entendia. Luciano não o tinha beijado por causa do azevinho?
– Então?

– Então você não devia ter pago... – encarou o mais velho e corou um pouco mais – Porque eu... Nós... – suspirou e se inclinou para frente – Para mim foi especial. Não se vende algo especial. – murmurou e beijou outra vez o menor, um toque superficial e acanhado.

Novamente, Afonso tinha sido apanhado desprevenido. Corou e segurou carinhosamente a bochecha do brasileiro, afastando-o o menos possível de si.
Na verdade, não se queria afastar só que...
– Luci...? Que estás a fazer? – murmurou.

O brasileiro deu um passo para trás. Fora rejeitado.

– Você não vai pagar por esse. – disse e foi para a estufa.

– Luci? Hey, espera-- – já ia atrás dele mas a campainha por cima da porta tocou e entrou alguém.

Afonso olhou para a porta no mesmo instante, deparando-se com um rapaz alto, bonito e loiro.

– Bom dia. – ele cumprimentou – Gostaria de encomendar duas dúzias das suas rosas mais vermelhas, por favor. – sorriu de canto. Afonso não achara-o confiável.

Sorriu um pouco de volta por educação.

– Bom dia. Só um momento.
Como as rosas eram sempre flores muito pedidas, ele deixava-as na parte frontal da loja. Escolheu as que achava melhores – e picou-se em querer num dos espinhos – e pousou no balcão para as arranjar.
Lembrou-se que não tinha fitas alí e foi até à estufa.

– Luci... Podes chegar-me as fitas, se faz favor? Eu não chego à prateleira alta...

Luciano cuidava das flores quando Afonso entrou na estufa. As regava e verificava as que estavam machucadas, assim como arrancava as pétalas murchas que podiam diminuir a beleza dos ramos.

Olhou para Afonso e sorriu, deixando o regador de lado.

– Claro. – afastou-se e esticou o corpo quando precisou pegas os rolos de fita, entregando ao mais velho.

– Obrigado. – murmurou e encarou-o por um breve momento.

Queria dizer-lhe alguma coisa, justificar-se, mas não conseguiu pensar em nada e por isso regressou ao balcão e foi terminar o ramo.

Luciano suspirou e retornou aos seus afazeres, brigando consigo mesmo sobre a atitude que tomara minutos antes. Por mais que Afonso negasse, estava apaixonado por Arthur, e Luciano tinha Martin... Mesmo que seu relacionamento tivesse esfriado nos últimos meses, era desleal beijar o português apenas porque ficara chateado que este lhe comprar um beijo que não estava à venda.

– Sou um idiota. – resmungou baixinho e esfregou os olhos.

Seguiu para o banheiro e lavou o rosto, não sabendo que, no mesmo instante, Martin saía da floricultura com um grande buquê para Michelle.

Depois do loiro sair, Afonso foi à 'staff room' buscar um penso rápido para que o corte do espinho não sangrasse. Ao ouvir barulho, chamou.

– Luci?

– Banheiro. – o brasileiro gritou ali de dentro e secou o rosto, saindo em seguida – Precisa de-- Chefinho! Você cortou o dedo! – aproximou-se de Afonso e lhe tomou a mão, levando o dedo machucado até a boca, sugando o sangue.

Afonso pestanejou e depois riu um pouco.

– Que 'tás a fazer? Faz cócegas...

– Vem cá. – ele puxou Afonso pelo pulso e procurou pelo kit de primeiros-socorros, sentando-se num banquinho enquanto o português sentava-se na sua frente – Vamos limpar isso antes de infecione. – sorriu um pouco e umedeceu o algodão com água oxigenada – Talvez arda, ok?
O português abanou a cabeça e riu.

– Eu sei. Mas não dói nada, só não queria manchar tudo de sangue.

Ele fez biquinho e começou a limpar o corte.

– Por que está rindo? – soltou num muxoxo e foi cuidadoso – Que bom que não está ardendo... Mas, na mesma, vamos cuidar disso aqui. Ainda mais porque você vive com as mãos na terra.

– Sim, mãe. – disse por implicação e suspirou, observando-o fazer o curativo.
Era estranho ter outra pessoa – que não António – a tratar de si nessas pequenas coisas e o português sentia-se egoísta por estar a gostar daquele cuidado e atenção.
– Pronto! – Luciano sorriu após cobrir o corte com o curativo, dando um singelo beijinho nele em seguida – Quando casar sara.

– Oi? Isso é algum ditado? – perguntou com curiosidade.
O moreno ergueu o olhar e, ainda segurando a mão de Afonso, voltou a sorrir.

– Sim. É um ditado bem popular lá no Brasil... – riu – Embora a gente fale mais para as crianças pequenas... Eu não sei o real significado real do ditado, pode significar tanto que as coisas ruins logo passam ou que o amor cura tudo... Não sei mesmo.

– Interessante. Aqui temos uma parecida que é “Quando casares dou-te uma prenda.” Só que é usada em sentido irónico. – sorriu e levantou-se – Obrigado pelo curativo. Bem, vou buscar os meus rebuçados~

– De nada. – o mais jovem disse e começou a guardar o kit de primeiros-socorros.

Afonso tinha saído pela porta mas depois voltou a entrar.

– Podes ligar para o fornecedor a pedir mais rosas, se faz favor? Temos poucas.

O moreno estava sobre um banquinho quando ouviu o pedido de Afonso.

– Pode deixar. – disse risonho e pulou dali, quase se desequilibrando e indo até o telefone – Posso pedir mais margaridas? Também temos poucas...

– Sim... Faz isso, por favor. – acenou e foi até à estufa.

Conseguiu resgatar os doces e voltou para o balcão, enchendo as gavetas com eles.
Luciano sentou-se ao balcão e discou o número do fornecedor. Pediu algumas rosas e margaridas das mais variadas cores, assim como aproveitou e encomendou alguns quilos de terra negra, pois nunca era demais.

– Arrã. – sorriu para o nada, enrolando o fio do telefone no indicador esquerdo, fazendo anotações em um pequeno caderno – Vocês podem entregar em meia hora?! Seria ótimo! – riu e emendou – Sim, eu sou brasileiro, moça. Nasci em Porto Alegre, mas me mudei para o Rio de Janeiro com sete anos... Claro, seria um prazer. Até mais. – desligou.

Afonso – já a empanturrar-se com os rebuçados – colocou mais alguns arranjos natalícios na loja e começou a atender os primeiros clientes que apareciam.

Luciano se levantou e retirou o avental, vestindo sua usual jaqueta.

– A moça da revenda me pediu para buscar as flores, eu já volto.

Acenou-lhe com a cabeça em sinal que tinha entendido e terminou as encomendas.
O mais jovem suspirou e saiu da floricultura, seguindo até a revenda.

Ao chegar no local, foi recepcionado pela moça com quem conversara pelo telefone.

– Bom dia. Vim buscar as rosas e as margaridas que encomendei.

Ela aproximou-se toda risonha, ajeitando o rabo-de-cavalo loiro.

– Bons dias~ – sorriu – Tu és o brasileiro com quem falei?

– Sim. Luciano, muito prazer.

Ela sorriu e estendeu a mão para o cumprimentar.

– O meu nome é Rosa. Prazer em conhecer-te. Gosto do teu sotaque~

Luciano também sorriu e cumprimentou Rosa.

– E eu gosto do seu nome. É muito bonito.

Rosa piscou e corou de leve, começando a puxar, toda saltitante, Luciano para dentro da estufa.

– Nunca tinhas estado cá, pois não?
– N-Não, eu--
Rosa sorriu-lhe e arrastou-o pela estufa enorme, mostrando-lhe os tipos de flores que havia ali.

Luciano nunca tinha visto tantas flores num único lugar. Mesmo morando no Rio de Janeiro há anos, nunca tivera a vontade de ir ao Jardim Botânico ou outros lugares floridos. A mistura de cores – rosa, vermelho, azul, amarelo, roxo, branco... – formava um degradê lindo, e a diferença de tamanho e forma das pétalas deixava a atmosfera muito mais romântica.

– Eu nunca vi um lugar tão lindo. – ele disse, realmente surpreso, encarando o teto da estufa, que era de vidro e deixava os raios solares daquela manhã limpa chegarem até eles. Abrindo os braços, Luciano sorriu – Eu quase posso me sentir em casa outra vez.

Rosa sorriu abertamente e aproximou-se dele.

– Tens muitas saudades de casa?

O moreno maneou a cabeça, ainda sorrindo e de olhos fechados.

– Muita. O calor do sol, o barulho das ondas quebrando, a multidão, o cheiro... Eu amo aquele país.

– E por que vieste para cá? – questionou-lhe curiosa, atenta aos traços do rosto de Luciano.

Luciano encarou a moça e sorriu, baixando os braços.

– Por amor.

– Por amor? – repetiu e por curiosidade perguntou – Tinhas alguém cá em Portugal?

Maneou com a cabeça.

– Não. – sorriu e colocou as mãos no bolso da jaqueta – Ele é modelo e veio trabalhar aqui... Vim junto.

Ele? – mordeu o lábio inferior e pareceu chateada – T-tu és...

O brasileiro se arrependeu de ter mencionado Martin. Ele já sofrera tanto por culpa de suas preferências.

– Conhece Legião Urbana, Rosa? – ela maneou em negação – Foi uma banda marcante na história brasileira. O vocalista, Renato Russo, faleceu em 1996, com apenas trinta e seis anos, vítima de complicações da AIDS... Era homossexual, mas não deixou que a crítica o impedisse de marcar uma geração inteira... E as que vieram em seguida. – sorriu. – Eu tinha quatro anos quando ele morreu, mas suas músicas marcam a minha vida até hoje.

Ela ouviu-o atentamente e acenou com a cabeça.

– Eu compreendo. Só- Desculpa... Venho de uma família muito religiosa. Mas acho que as tuas preferências não fazem de ti má pessoa. – sorriu um pouco.

Luciano forçou um sorriso.

– Tudo bem.

O brasileiro comprou as flores e os sacos de terra que precisava e seguiu para um ponto de táxi, uma vez que não conseguiria andar até a floricultura com tanta coisa e peso.

– Para onde? – o taxista questionou e Luciano deu as coordenadas.

O senhor deu a partida no carro, e o brasileiro encarou a rua pela janela.

Depois, se encolheu no banco e escondeu o rosto.

E chorou.

Afonso achou estranho a demora do brasileiro e associou talvez ao possível transito que sempre havia nas ruas principais.
Depois dos clientes terem saído, ele aproveitou para varrer a floricultura porque qualquer bocadinho de terra no chão o deixava nervoso.

Varrer dava-lhe a oportunidade de devanear. E por momentos, lembrou-se do beijo de Luciano. Era errado... Era errado ter gostado. Luciano era uma pessoa comprometida! Não se devia apegar a ele. Nem podia. Só que já era tarde demais. O brasileiro era sempre tão carinhoso e atencioso consigo...
Abanou a cabeça, como se isso o fizesse esquecer o que estava a acontecer consigo.

Dito brasileiro passou pela porta no instante seguinte, a cabeça baixa e os braços cheios de flores.

– Chefinho... Pode pegar as flores? Ainda tem algumas no táxi e alguns quilos de terra também...

Apressou-se a ir segurar as flores e mal as afastou, encarou Luciano, preocupado:

– Luci? O que te aconteceu?

Luciano forçou um sorriso e deu as flores para o português, seguindo para o táxi e terminando de descarregá-lo, agradecendo ao motorista com um aceno de cabeça. Levou as compras para a estufa e começou a plantar algumas flores, já utilizando a terra nova.

O mais velho seguiu-o e ajoelhou-se ao seu lado.

– Luci? Se precisares... Podes falar comigo.

Luciano encarou o mais velho e sorriu, limpando as mãos num paninho antes de acarinhar o rosto de Afonso, passando o polegar direito sobre a base da cicatriz do europeu. Era suave ao toque.

– O que aconteceu vai continuar a acontecer e não há nada que possamos fazer. – seus dedos, excetuando o polegar, começaram a acariciar a orelha do menor – Eu tenho que aprender a conviver com isso... Já devia, mas ainda dói. – riu sem achar graça – Mas obrigado. De verdade, muito obrigado.

O português corou um pouco por causa do carinho e inclinou levemente a cabeça para o lado da mão de Luciano.
Não entendia o que ele estava a dizer, ou sequer do que estava a falar. Mas não gostava de o ver assim tão triste.
Sentando-se no chão, Afonso segurou-lhe o pulso levemente e afastou-o do seu rosto. De seguida, deu um puxão e trouxe Luciano para o seu colo, abraçando-o.

– De que estás a falar?

Luciano caiu num estrondo sobre o português, corando até as orelhas ao sentir o menor lhe abraçar. Percebeu que seu peito aquecia rapidamente e que seu coração estava aos pulos, assim como sua respiração se tornava falha e agitada.

Não podia se sentir assim...

Porém aquele abraço era tão querido e desejado.

– Não é nada... – suspirou e retribuiu o carinho, fechando os olhos.

– Quem nada é peixe. – murmurou e acomodou-o no abraço de forma a que o moreno se encostasse no seu ombro.
Por saber que o moreno gostava de festinhas no cabelo, dobrou o braço e acarinhou-o.
Luciano estremeceu de leve com o carinho. Por mais que não admitisse, realmente se submetia ao ter seu cabelo, nuca e pescoço acarinhados.

Suspirou.

– Não presta falar sobre isso...

– Mas, Luci... – desceu os carinhos para a orelha esquerda do brasileiro – Diz-me... Talvez eu possa ajudar.

O moreno mordeu o lábio inferior e escondeu parcialmente o rosto na curvatura do pescoço de Afonso, sua respiração quente acarinhando a pele gelada do mais velho. Ele suspirou outra vez.

– A moça que me atendeu na revenda, Rosa, pareceu gostar de mim mal me viu... – engoliu o choro e apertou o abraço – Ela me perguntou por quê eu vim para Portugal, já que sentia tanta falta de casa. Eu disse que foi por amor, mas foi só eu comentar que o Martin é um cara, ela mudou as feições... – respirou profundamente – Por mais que ela dissesse que ser... gay... não me fazia má pessoa, eu senti, chefinho. Eu senti no olhar dela uma repulsa tão grande para alguém tão jovem. E-eu não consegui segurar.

O português suspirou também e apertou o abraço.

– A única coisa a fazer é ignorar, sabes? Muita gente vai continuar sem aceitar e a ser enterrada nos seus próprios preconceitos... Se tu estás bem e feliz, não deixes que seja outra pessoa a meter-se entre ti e a tua felicidade. – beijou-lhe a têmpora – Não ligues ao que dizem. Se ligares, acabas magoado.

– Eu sei, chefinho, eu sei. – suspirou – Como eu sou assumido, já estou acostumado com esse preconceito estúpido, mas...

– Mas?

– Mas eu percebi que qualquer chance que a Rosa e eu tínhamos de ser amigos, ela descartou sem pensar duas vezes só porque eu namoro um cara. É ridículo... e magoa... – beijou-lhe o pescoço – E eu... nem sei se estou feliz... – murmurou.

Afonso estremeceu ligeiramente mas não reclamou.
– Por que dizes isso? – perguntou, apertando-o um pouco contra si.
Luciano suspirou, esfregando a ponta do nariz pelo pescoço de Afonso sem segundas intenções. Estava coçando.

– Deixa quieto. Não presta falar nisso.

– Se te magoa é porque presta. – suspirou e depois riu baixo – Pára de me fazer cócegas...

Luciano se afastou, olhando para o menor.

– D-desculpa! Esqueci que ele é sensível. – fez biquinho – Ou talvez magoa porque não presta. – suspirou e coçou os olhos. Não queria chorar.

Segurou-lhe nos pulsos e afastou-os da face de Luciano para que este o encarasse.

– Isso não faz sentido. O que vai nessa cabecinha pensadora?

O brasileiro sorriu de lado, deslizando suas mãos até segurar as de Afonso.

– Chefinho... Eu adoro você. – inclinou o rosto para frente e encostou sua testa na do europeu – Adoro mesmo. Você se tornou um grande amigo e eu me sinto bem quando estamos juntos. Gosto de conversar com você e sinto que nos conhecemos há anos... – beijou-lhe a testa – Mas tem coisas que eu não me sinto bem falando. Eu prefiro guardar isso pra mim e tentar resolver por conta própria, ok? Me desculpe.

Afonso ficou a encara-lo por uns momentos e demorou um pouco a entender o que ele tinha dito, corando por causa da proximidade.

– Eu-- Desculpa! Não me queria intrometer na tua vida. F-Foi instintivo perguntar. Desculpa...

Luciano riu e segurou o rosto de Afonso com ambas as mãos, dando um beijo na bochecha dele.

– Calma, não fica assim. Não está se intrometendo, e eu agradeço a sua preocupação. – sorriu, um pouco mais sereno – Você é meu melhor amigo, chefinho. Obrigado. – abraçou-o de novo.

O português sorriu um pouco e retribuiu o abraço, esfregando-lhe as costas numa espécie de massagem.

– De nada...

Eles ficaram pouco tempo naquela posição. O brasileiro se afastou e voltou a sorrir, segurando Afonso pelas mãos e se erguendo.

– Vamos nos levantar que o chão 'tá frio. – riu e puxou o menor – Vou fazer um café pra gente.

Afonso levantou-se, quase embatendo contra Luciano e abanou a cabeça.

– Não, eu faço chocolate quente. Ainda deve ter alguns bolos por ai.

– Ok~ – ele sorriu – Pois então eu vou comprar uns pãezinhos. Estou morto de fome.

Acenou afirmativamente com a cabeça e foi à 'staff room' tratar do chocolate antes que viessem clientes.

Luciano seguiu até uma padaria próxima – algo que ele adorara naquela cidade é que tudo era muito próximo – e entrou. Comprou alguns pães, frios – ele amava presunto e queijo – e, é claro, alguns bolinhos recheados para Afonso.

Deu um singelo sorriso ao pegar os bolinhos morninhos. Afonso era um cara legal... gentil... bonito... E fora involuntário ele se lembrar do beijo que trocaram no fim de semana... Assim como o beijo rejeitado daquela manhã.

Suspirou.

– Isso é errado, Luciano.

~※~

Michelle ajeitou o seu cabelo pela milésima vez naqueles cinco minutos. Estava a ansiosa pela chegada de Santiago e não parava de olhar para o relógio.

O argentino, ao vê-la tão bela e nervosa lhe esperando sentada naquela mesa tão arranjada do restaurante, sorriu apaixonadamente e caminhou lenta e silenciosamente até ela, abraçando-a por trás enquanto deixava o enorme buquê de rosas à sua frente.

– Me perdoe o atraso, minha princesa. – lhe deu um beijo cálido sobre os lábios, sorrindo em seguida – Quando você saiu, Amélia me alugou por mais uma hora e meia. – mentiu.

A verdade é que o argentino teve de ir à pensão tomar banho, e conseguiu fugir do brasileiro, que não o vira saindo para o encontro.

Sorte.

Ela ficou quase tão vermelha como as rosas, que pegou de imediato, e sorriu.

– Não faz mal... O-Obrigada...São muito lindas!

– Não tão lindas como você, Michelle. – sorriu galanteador e circundou a mesa, sentando-se em frente à morena. Ela tinha o tom de pele parecidos com o de Luciano... – Você está ainda mais linda de cabelo solto, querida.

– Obrigada, és um querido. – agarrou-lhe a mão e ficou a brincar com os seus dedos – Vamos fazer os nossos pedidos?

Martin sorriu e entrelaçou seus dedos nos de Michelle, acarinhando-lhe o pulso.

– Claro. Peça o que quiser. – abriu o menu com a mão livre – Hn... Acho que vou começar com uma sopa.

– É uma boa ideia. – levantou a mão e chamou pelo empregado, que logo apareceu para os servir.

Enquanto esperavam pela sopa, bebiam um pouco de vinho tinto e conversavam.

O problema?

Martin, ou Santiago, gostava demais de falar sobre si, e sempre que questionava à Michelle sobre a vida dela, tinha alguma referência ao trabalho dela com ele ou se o perfume que o argentino usava não era muito forte.

A moça rolou os olhos duas vezes, porém o sorriso de Martin lhe chamava a atenção, e a forma como ela a flertava – talvez fosse o sangue latino – a deixava sem chão.

Estava apaixonada.

– Essa sopa está maravilhosa. – ele comentou e em seguida fez uma careta – Garçom? Garçom, venha aqui, por favor.

O empregado foi até à mesa e questionou.

– Sim, senhor?

Martin ergueu um pouco o prato e apontou para este.

– Tem um fio de cabelo na minha sopa, garçom! – o garçom piscou. Não havia loiros trabalhando naquele restaurante, o que indicava que o fio era do próprio argentino – Como vocês ousam me servir uma comida intragável? – pousou o prato na mesa e ordenou – Me traga outra sopa. E para a moça também.

– M-mas, senhor--

– Agora!

O empregado encarou-o , perplexo com tanta falta de bom senso e lembrou-se que “o cliente tem sempre razão”. Respirou fundo.

– É para já senhor. – voltou à cozinha.
Martin encarou Michelle, que estava tão ou mais perplexa que o garçom com a atitude do argentino, e lhe sorriu.

– Me perdoe o comportamento, querida. – acarinhou-lhe a mão – Mas não suporto quando não fazem seu trabalho direito. Ainda mais um tão simples como este. – suspirou.

– Mas... A minha não tem cabelos nenhuns. – pestanejou. Que raio de atitude foi aquela?
– É melhor precaver do que remediar, Michelle. – sorriu – Não queria que você comece algo que pudesse lhe fazer mal depois.

Michelle piscou e tentou sorrir, escondendo seu embaraço ao tomar mais alguns goles de vinho.

Eles prosseguiram com o jantar tranquilamente, embora Martin tenha pedido para outro garçom lhes servir.

Após o jantar, o argentino acompanhou Michelle até o apartamento dela, sorrindo delicadamente na portaria do prédio.

– Essa noite foi maravilhosa, Michelle.

Ela sorriu timidamente.

– Concordo... – mentiu parcialmente por causa de todo o sucedido no restaurante. Mas de resto, tinha sido uma noite agradável. Chegou-se próximo dele e beijou-o levemente – Até amanhã.

Ao notar que ela estava a se afastar, Martin enlaçou-a pela cintura e a beijou com mais intimidade, apertando-a contra si durante o ato. Quando se afastaram, Michelle estava rubra e um pouco desconfortável.

– Não vai me convidar para subir? – ele questionou, ainda abraçado em Michelle e passando a lhe beijar o pescoço.

– M-melhor outro dia, S-Santiago. – ela tentou desvincilhar-se com educação, mas ele era forte.

– Por que? Não gostou da noite? – insistiu, deixando-a nervosa.

– T-temos reunião amanhã cedo e-e... S-Santiago, n-não...

O argentino reprimiu um suspiro e se afastou, sorrindo à mais velha.

– Tudo bem, querida. – beijou-lhe a bochecha – Então, tenha uma boa noite e até amanhã.

Michelle suspirou e retribuiu o beijo na bochecha.

– Até amanhã, tem bons sonhos.

– Igualmente. – sorriu outra vez.

Quando Michelle entrou no prédio e, em seguida, no elevador, Martin torceu o rosto e praguejou.

– Mas que merda! – rosnou e começou a se dirigir para a pensão.

Não bastou as flores e o restaurante caríssimo! Michelle não o convidara para subir!

Entre resmungos e pragas, Martin entrou na pensão. Não desejou boa noite para ninguém e seguiu direto para seu quarto, pulando sempre um degrau.

Ao entrar em seu quarto, piscou surpreso ao ver Luciano, apenas com as calças do pijama, secando os cachos grossos e cheirosos.

– Luciano?

O brasileiro, que ainda não havia notado sua presença, girou sobre os calcanhares e encarou o namorado, sorrindo de lado.

– Desculpa, eu já desocupo o quarto. – disse e pegou uma camisa e seus chinelos, já se preparando para sair.

Quando passou pelo argentino, este lhe segurou pelo pulso.

– Fica, Luciano. – ele pediu, embora parecesse uma ordem. Fechou a porta do quarto e passou a chave, os olhos fixos no peito desnudo e bonito de Luciano – Fica.

Luciano sentiu-se corar perante o olhar desejoso de Martin, e quando o argentino lhe tomou a boca, ele estremeceu.

– M-Martin...

– Senti sua falta, Luci... – ele mentiu, puxando o moreno para perto, passando a lhe descer as calças – Senti tanto a sua falta.

O moreno sentiu-se dividido, mas feliz. Martin estava consigo outra vez, lhe tocando e lhe desejando.

Retribuiu o beijo, começando a retirar o terno do loiro e depois lhe desabotoando a camisa branca. Não queria saber por quê ele estava tão bem vestido e cheiroso, muito provavelmente estava em reunião, e apenas se deixava pensar nos toques de Martin, no calor de seu corpo... e no beijo que trocara com Afonso.

Era errado, muito errado...

Naquela noite, enquanto se amavam, Martin e Luciano traíram um ao outro ao pensarem em Michelle e Afonso.

E, para não gemerem nomes errados, eles se beijaram ao atingir o clímax.