O Sol de Dorne
1 O Sol de Dorne
Notas iniciais
Os lábios delicados se abriram em um sorriso, fazendo seu rosto inteiro se iluminar. Sorrisos sempre vieram fáceis para Elia Martell. Combinavam com ela, destacavam seus grandes olhos negros, os fazendo brilhar como uma noite estrelada, traziam luz à sua pele oliva e deixavam sua alma em chamas. Quando a princesa de Dorne sorria, o mundo inteiro parava para assistir. Nobres e plebeus ficavam hipnotizado por suas cores e eram aquecidos pelo calor que emanava dela, derretendo o gelo de seus corações. Elia era vida, era luz, era chama ardente, era o Sol.
Ela sorriu naquele dia – como não sorria há meses. Estava radiante em um belo vestido laranja e vermelho – as cores de sua casa – e, acima de qualquer coisa, estava profundamente feliz. Sentia-se completa, plena, realizada. Contrariando todas as expectativas, havia dado ao marido um filho homem, seu príncipe herdeiro tão esperado. Aegon – o sexto de seu nome – chegara ao mundo a sangue e dor, tão valiriano quanto o pai, Targaryen dos cabelos prateados aos olhos violeta. Tão pequeno. Tão belo. Tão dela. Os deuses lhe haviam sido bons, haviam atendidos suas preces desesperadas e permitido que desse um filho a Rhaegar, um irmão à sua preciosa Rhaenys, um futuro rei a Westeros. Havia cumprido seu dever como mulher, como esposa e como futura rainha.
Acima de tudo, havia sobrevivido. Apesar da saúde frágil, tivera força suficiente para trazer seu pequeno Aegon ao mundo e ainda estava ali. Estava viva! Poderia ver seus filhos crescerem, os ninar, acalentar, amar. Pegá-los nos colo, lhes sussurrar canções e um dia vê-los se transformarem nas pessoas esplendidas que estavam destinadas a ser. Um rei e uma princesa. Poderia sentir o toque do marido, seus lábios tomando os dela, seus corações batendo juntos, seus corpos se entrelaçando em um só. Poderia ver o nascer de um novo dia, sentir o sol queimando sua pele e o vento em seus longos cabelos negros. Sentia-se viva como nunca!
O Torneio em Harrenhal parecia ter restaurado suas forças e quando viu o marido ganhar a última das justas, sentiu o peito se encher de orgulho e amor. Rhaegar havia vencido Sor Barristan Selmy, o Ousado, se consagrando o grande vencedor do Torneio e provando seu valor diante a todo reino. Parecia um dia glorioso, até que o príncipe pegou a coroa de rosas azuis do inverno, passou diretamente por ela e a depositou no colo de Lyanna Stark, coroando a Lady de Winterfell a Rainha da Beleza e do Amor. A sua volta todos os sorrisos morreram.
Elia conseguia sentir os olhos em si, lhe dissecando como se fosse algum animal exótico e morto. Esperavam uma reação da futura rainha, se deliciavam com sua vergonha, riam por suas costas. Seu embaraço se tornara público e ela não fazia ideia de como reagir. Seu corpo entrava em erupção por dentro, a ira fervia seu sangue dornês – era uma descendente de Nymeria, afinal –, a dor de se preterida partia seu coração de esposa, a humilhação feria seu orgulho de princesa. Queria gritar, queria chorar, queria ter uma das lanças envenenadas de Oberyn, para mostrar ao marido o acontecia quando se pisava em uma víbora dornesa. Rhaegar a havia humilhado em frente ao reino inteiro.
Elia era sua princesa, sua futura rainha, sua esposa e mãe de seus filhos – os filhos que poderiam ter lhe custado à vida, mas que deu a ele, porque era seu dever – e, ainda assim, o glorioso Príncipe Dragão ousara humilhá-la publicamente. Havia passado diretamente por ela, sem um único olhar, um sorriso constrangido, um pedido silencioso de desculpas, e coroado uma menina nortenha – que ainda cheirava a leite e tinha gelo correndo por suas veias – a Rainha da Beleza e do Amor. Usando toda a dignidade que lhe restara, Elia Martell tentou manter a expressão serena no rosto. Era uma princesa e, mesmo que sentisse que estava engolindo espinhos, manteria sua compostura. Não daria mais motivos para que o povo falasse, cochichasse ou risse enquanto passava.
Há meio segundo um sorriso brilhava em seus lábios, iluminando seu rosto. Esse sorriso agora estava morto. Seu coração fora esmigalhado. Seu orgulho se encontrava aos pedaços. A constatação não poderia ser mais clara ou dolorosa. Elia Martell era o sol, era chama que aquecia e gerava vida. Rhaegar Targaryen, no entanto, não sabia apreciar seu calor. O Príncipe Dragão preferia o gelo mortal do Norte.
Naquela época, a dornesa ainda não sabia, mas no instante em que deu a coroa de rosas à Loba Stark, o marido condenou todos eles – e uma infinidade de outras almas inocentes – à mortes terríveis. Ainda assim, algo morreu dentro de Elia naquele dia. Em Harrenhal, o Sol de Dorne deixou de brilhar. Era o fim de um longo verão. Sua alegria fora uma falsa primavera. O inverno estava chegando.
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