Notas iniciais
Desculpe-me a demora, queridos. Tenho uma outra fanfiction em reta final e ocorreu-me uns problemas pessoais. O capítulo novamente vai ser menor, mais light, mas imagino que o próximo seja maior. Agradecimentos à: Togarmo, Byakuya e Néphé, que comentaram no último capítulo. E, ah, leitores fantasmas: aproveitem para deixar aí seus comentários!

Sentia-se completamente vazio. Se alguém abrisse seu crânio, tinha quase certeza de que esta pessoa não encontraria nada. Estava oco. Seus olhos eram buracos negros e não significavam nada. Grimmjow estava no limbo, meio morto meio vivo, desanimado consigo, num estado catatônico. Ficava a maioria do tempo no quarto, olhando para o teto, lembrando do pobre pai. Só saía para ajudar a controlar Hiyori, porém não tinha mais nenhum interesse nela.

Começou a pular as refeições; talvez pudesse simplesmente morrer de fome lenta e pacificamente, grudado nos lençóis brancos. Lobisomens podiam se curar de graves ferimentos, porém precisavam de muito mais alimento do que pessoas comuns. Não iria demorar. Grimmjow só queria sumir; simplesmente parar de existir. Faria isso, se não fosse pelas interrupções dos criados da casa.

Uma batida na porta. Falando no Diabo... Grimmjow emitiu um ruído, mas virou-se e decidiu fingir estar dormindo.

— Príncipe Grimmjow — chamou uma voz feminina. Não parecia ser a da ruiva que sempre aparecia por lá, a que ele nunca se dera o trabalho de saber o nome. — Príncipe Grimmjow, por favor abra a porta.

Grimmjow bufou, mas resolveu se levantar. Talvez um rosto novo o distraísse dos pensamentos suicidas. Ouviu seus ossos se estalando enquanto ele andava. Destrancou a porta.

Uma mulher de cabelos de um vibrante verde-água, com a idade semelhante à dele. Usava a roupa de copeira, os cabelos longos e grossos estavam presos em uma cola baixa. Tinha largas olheiras, parecia relaxada, mas era uma garota linda. Poderia ser uma versão feminina de Grimmjow: cabelos coloridos, corpo bonito, mas rosto acabado. Portava uma bandeja nas mãos, que continha pão, geléia e queijo, além de uma jarra d’água e um copo. Ela equilibrava-os com maestria.

— Eu não estou com fome — Grimmjow grunhiu.

— O senhor pulou o café da manhã e o almoço. Precisa comer.

Grimmjow apoiou-se com o braço na parede.

— Não quero.

Neliel abaixou o olhar, mas depois mirou-lhe nos olhos.

— Compreendo que esteja mal. Sinceramente, eu também não estou muito bem. — Ela suspirou, exasperada. — Mas deixar de comer não vai fazer isso sumir.

Grimmjow pensou nas palavras que caminhavam por sua mente. Sumir andando lentamente, nunca deixando de fato o recinto, dando socos em seu estômago.

— E como faz para sumir? — soluçou Grimmjow, sussurrante, os olhos brilhantes das lágrimas contidas.

Neliel mordeu os lábios vermelhos, porém rachados.

— Não sei. Sinceramente, não sei. — Nell balançou a cabeça, depois dirigiu-lhe um sorriso torto. — Mas pretendo viver para descobrir.

Ela empurrou a bandeja para o príncipe, a ponta batendo no osso da pélvis de Grimmjow. Ele observou o objeto, relutante, e em seguida o pegou.

— Obrigado. — A palavra era estranha em sua boca, tinha um gosto metálico. Ele poucas vezes a falara, principalmente para uma criada.

Neliel sorriu docemente para ele, depois foi embora.

///

Orihime se sentia um pouco sobrecarregada com tudo aquilo. Os moradores do castelo viviam em seus quartos, dentro de seus próprios mundinhos. Todos que presenciaram a invasão do Hueco Mundo, ou foram atacados na estrada, estavam tristes e traumatizados. Perderam Tier Halibel. No entanto, Orihime suspeitava que não era apenas isso o motivo do sofrimento — pois o castelo já andava em clima sombrio há algum tempo. As mortes, a guerra, o casamento arranjado de Rukia com o príncipe Luisenbarn. Sentia que escondiam algo dela.

Certa noite, ela ouviu um barulho vindo do porão. Espiou do topo da escada, sentada em um degrau. Reconheceu Shinji e Ishida, que saíram do porão, mas não entendeu bem o que eles diziam ou o que faziam. Pensou em ir até lá embaixo, mas desistiu quando ouviu um uivo, claríssimo, feroz e impetuoso até para ela que estava tão longe.

Num outro dia, enquanto a realeza estava retirada em seus belos aposentos, Orihime decidiu ver o que tinha no porão.

A porta rangeu quando ela a abriu impetuosamente, arrastando a madeira no chão. Inoue viu os grãos de pó sob o sol, caindo vagarosamente no chão. Viu a escada se desenrolar até chegar ao fundo, como uma cascata. Ela rangia a cada passo, porém parecia resistente.

A luz do Sol foi enfraquecendo, até que apenas restasse uma singela iluminação. Orihime sentiu o cheiro de mofo, azedo, viu equipamentos de ferro que ela não sabia o que eram. Não demorou-se a olhar para eles. Viu um candelabro com velas recém-usadas, derretidas.

Concentrou-se quando viu correntes no chão. Caminhou até lá, lentamente. Percebeu que as correntes estavam presas na parede; tentou puxa-las, mas nem ameaçaram soltar. Quando pegou uma das argolas que se punha no pulso, notou sangue seco e pedaços minúsculos de pele. Assustada, olhou para as redondezas, em busca de mais respostas. Várias marcas de garras perfuravam as paredes e o chão. Em um cantinho, o pedaço de uma unha se escondia. Tinha formato retangular, mas a ponta era afiada. Não parecia ser a de um humano, mas também não parecia ser de nenhum animal que ela já vira.

O que Uryuu e Shinji estariam abrigando neste porão?

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O movimento na ferraria estava fraco naquele dia. O vento assobiava e levantava a poeira do chão. Os poucos cidadãos que se aventuraram a sair na rua naquele dia usavam toucas ou lenços nas cabeças. Ichigo via o cachecol de mulheres tremeluzindo e os cabelos delas voando. Ele estava trabalhando na ferraria de seu pai, que servia também como amolador e chaveiro. Ichigo já se sentia bem e disposto há alguns dias, mas não quisera retornar ao castelo. Estava envergonhado por causa da situação com Rukia; e seu pai aprovara a ideia do filho ficar em casa, pois temia por ele.

— Ichigo, varra o chão — pediu Isshin.

Ichigo suspirou. Já o varrera há pouco tempo, porém o vento carregava a areia para o piso novamente.

— Estou amolando um alicate, pai. Agora não.

Isshin suspirou e mergulhou a espada aquecida na água. Uma nuvem de fumaça, por um momento, cobriu o rosto de Isshin.

— Os negócios não estão muito bons — comentou o homem. — Este reino não consome muitas armas. O exército compra de uma ferraria maior e tradicional. Os plebeus não ligam muito pra esse tipo de coisa. Lucramos muito mais com chaves e a amolação de tesouras. Acho que vamos precisar nos mudar pra uma casa menor.

— Já pagamos para o Estado esta daqui?

A casa que os imigrantes recebiam era uma espécie de empréstimo, que precisava ser paga por parcelas.

— Está quitada praticamente desde sempre — uma voz de homem com um timbre cantarolado falou. — O menino da profecia que arrisca a própria vida pelo menos merece uma casa de graça.

Urahara Kisuke surgiu pela porta, usando um terno negro que o deixava esguio e um cachecol de lã. O cabelo loiro claro, já bagunçado normalmente, estava ainda mais por causa do vento. Portava um sorriso educado no rosto alvo.

— O que você está fazendo aqui, Urahara? — rosnou Isshin. Ele estava bravo com o conde. Kisuke e Yoruichi esconderam a profecia dele, e só há pouquíssimo tempo, quando seu filho já estava envolvido demais — em coma — o contaram. Isshin Kurosaki acertou um soco no queixo de Kisuke nesta ocasião.

— Vejo que Ichigo já está bem disposto — observou Kisuke, se desviando da pergunta de Isshin. — Como se sente?

Ichigo deu um pequeno sorriso sarcástico que mostrou seus dentes.

— Bem — Kisuke estava desconfortável —, não queremos ser pegos de surpresa deste jeito novamente. Sabemos que a batalha final ocorrerá no Samhain do ano que vem. Precisamos estar preparados.

— Claro, claro — Ichigo concordou, e deixou o alicate de lado. — Vamos treinar, não é?

Urahara deu um sorriso pequeno.

— Começamos logo após o Ano Novo.

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Seja lá o que aquilo fosse, Orihime sabia que Uryuu Ishida estava envolvido. Esperava que não fosse nada de tão mal, pois ela estava apaixonada por Uryuu. E achava que o homem contribuía. Ele a respeitava e a honrava, a fazia se sentir bem e bonita. Mas não se casaria com ele se ele fizesse barbaridades naquele porão.

Resolveu falar francamente com Ishida Uryuu. Ele tentou se esquivar várias vezes das perguntas, inventou mentiras, mas contou a verdade quando ela o segurou pelo braço e o levou até o porão, apontando freneticamente as correntes e as marcas de garras.

Lobisomens existem. Vampiros existem. Demônios existem.

Ela já acreditava nestes seres, mas ficou em pânico ao saber que eles estavam tão perto dela e que ela, provavelmente, também corria perigo.

Não dormiu por duas noites quando Ishida contou sobre a profecia, sobre Rukia e Ichigo serem a grande salvação do mundo — ou a destruição dele.

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O vento estava forte e balançava as copas das árvores; o céu tinha uma cor leitosa de cinza. Grimmjow e Neliel saltitaram pelas folhas secas, laranjas e amareladas. Era final de outono e a maioria das árvores já estava sem suas folhas — pareciam nuas. Grimmjow aceitara, depois de uma dezena de conversas fiadas na porta do quarto, sair e pegar um pouco de ar puro com Neliel o acompanhando.

Neliel sentou no chão, o vestido dela dobrado em várias camadas, uma cesta com frutas colocada com cuidado no chão. Grimmjow deitou de supetão, sujando sua roupa cara que ele já usava há dias. Uma folha laranja caiu lentamente em sua barriga. Grimmjow fechou os olhos e respirou fundo; seus cabelos espalhados ao redor de sua cabeça como uma coroa.

— Como era o outono do Hueco Mundo? — indagou Neliel, o observando. Era tão bonito; um verdadeiro dândi. O maxilar quadrado, o queixo fino. Os olhos azuis; a pele bronzeada.

— Seco. — Grimmjow riu. — Mas o jardim ficava bonito. Quando criança, eu tinha a mania de ficar deitado debaixo de uma árvore, observando as folhas caírem. Certa vez, meu pai se deitou ali e ficou observando as folhas caírem também.

O sofrimento de Grimmjow ainda era tão visível que parecia uma ferida em carne viva. Ele inspirou, crispou os lábios e depois soltou o ar.

— Sinto tanta saudade dele.

Neliel acariciou a testa de Grimmjow lentamente, até mesmo as pequenas rugas recém adquiridas com saudade e tristeza.

— Eu sei. Sinto muito.

///

Neliel se preparava para outro pesadelo, mas desta vez teve um sonho. O roçar de sua pele nua na de um homem, um toque suave e quente. Mãos enlaçando sua cintura, seus dedos no braço dele. Uma trilha de beijos molhados. Aconchego, segurança e calor. Um dedo enrolando uma mecha de seu cabelo. Lábios doces como mel beijando suas bochechas, seu nariz, sua testa e sua boca com ternura.

Davi sorriu, com as mãos tocando seus ombros delicadamente.

— Adeus, Nell.

Notas finais
Desculpa quaisquer erros. COMENTEM, digam o que acharam, do que gostaram e do que não gostaram, digam o que pode ser melhorado e como posso melhorar, sugiram, façam observações e brincadeiras! No próximo capítulo, vai ser o Natal! XD