O Sol Negro E A Lua Branca
36 A Banshee Canta
Notas iniciais
Yoruichi cavalgava por entre todos. Caçadores, em suas perfeitas posições, marchavam com disciplina. Lobisomens caminhavam, falando alto e gritando injúrias aos inimigos. Os magos estavam montados em cavalos brancos, garanhões de pelos bem cuidados. Os feiticeiros estavam todos separados, conversando, como se estivessem em uma caravana de férias. Alguns enfeitiçaram tapetes e voavam no céu. Fernando, um dos amigos portugueses mais estimados de Yoruichi, dissera: “Vivi toda a minha vida, um pouco mais de trezentos anos, bêbado. Por que encararia sóbrio a hora de minha morte?” Eles eram o povo dela, e Yoruichi não poderia estar mais orgulhosa deles.
Ela era a única do principal grupo de comando que não estava em uma carruagem. Ichigo estava em uma, Rukia e Byakuya na outra, os Ishida ocupavam uma elegante carruagem — assim como as famílias mais nobres de magos e alguns feiticeiros, inclusive Benedict e Urahara. Eles não cometeriam a burrice de expor Ichigo e Rukia, e nem a de deixarem óbvia a sua localização. O demônio que tentasse capturá-los teria que tentar a sorte em mais de vinte carruagens.
Se fosse em um outro tempo, Yoruichi aceitaria sua morte de bom-grado. Houvera uma época muito sombria de sua vida em que ela até mesmo suplicara por isso. Mas, agora, a feiticeira tinha um marido que amava e uma filha — não se lembrara de um momento mais feliz de sua longuíssima vida do que o dia em que Kisuke viera trazendo uma pequena menina no colo, que dizia chamar-se Ururu. Yoruichi precisava sobreviver, para que pudesse cuidar dela.
///
Ichigo havia se preparado física e psicologicamente para quase tudo — menos civis. Estava esperando encontrar demônios, sibilando com suas línguas de serpente, e não mulheres, com seus vestidos e chapeis rosas, de braços dados com elegantes cavalheiros de cartolas. Todos olhavam para o grande exército e especulavam do que se tratava, as mulheres tampando suas faces brancas com leques.
Mas Ichigo ficou verdadeiramente chocado quando passaram por um bairro pobre de Ciel, esquecido pelo resto do reino. As mulheres tinham faces hostis, os homens tinham traços rudes, meninos magrelos e sujos corriam descalços pelas ruas. Ele cruzou o olhar, através de uma fresta entre as cortinas, com dois garotos — um moreno e um ruivo, com tantas sardas no rosto quanto estrelas no céu. Eles observaram Ichigo, naquela carruagem, exatamente como o Kurosaki já havia tantas vezes observado a carruagem da família real — um desprezo selvagem por todas essas pessoas que não entendiam o que era a fome de verdade. E, agora, Ichigo era uma dessas pessoas.
Ele abaixou a cabeça, com muita vergonha de si mesmo. Quis chorar. Era como se ele estivesse traindo algo.
Passou pelas pequenas casas de madeira com aparência suja, a estrada de terra, as rodas da carruagem branca levantando poeira. Ichigo não queria estar nesta carruagem — ele deveria estar lá fora, conversando com todos os soldados, caçadores ou magos ou feiticeiros ou lobisomens, que dariam sua própria vida por ele.
Quando ele conseguiu ver o belo palácio de Ciel, as torres claras, finas e elegantes — nuvens brancas rodeando seus picos —, a imagem dos dois garotos veio a sua mente. Os lábios comprimidos, os olhos selvagens, os cabelos açoitando os rostos, os ossos protuberantes. Os garotos os assombravam, porque eram retratos dele próprio há dez anos atrás. Ichigo estava sendo assombrado por si mesmo.
Mas, pensou, quando eles já estavam bem longe da pobreza, nada dessa riqueza adianta em dois certos pontos inevitáveis: quando você nasce e quando você morre. Olhou as casas coloridas, com lindas fachadas e jardins floridos, o exército marchando pelas ruas, as pessoas fechando suas portas e janelas, com medo. Ichigo precisava renascer hoje se não morreria. No entanto, ele estava disposto a morrer por isso.
E, numa carruagem a muitos metros dali, uma princesa também estava disposta a morrer por algo.
///
— Não saia da carruagem — ordenou Byakuya.
Ele abriu a porta e saiu de lá muito rapidamente, deixando Rukia sozinha. A princesa aproximou-se da janela, espiando a batalha pela fresta da cortina. Havia caçadores, em armaduras, cercando a carruagem. Byakuya estava correndo por entre todos, matando demônios com belos golpes de espada, arcos brancos perfeitos.
O palácio tinha um portão alto, que fora destruído pelas belíssimas esferas de poder dos magos. Os feiticeiros entendiam muito de magia demoníaca, então eles conseguiram derrubar sem muita dificuldade todas as defesas invisíveis do castelo. Na verdade, Ciel não estava fazendo muita força para não ser invadida — tudo aquilo parecia uma terrível armadilha.
Hitsugaya ficara em casa. Byakuya posicionara alguns de seus soldados para proteger o reino Kuchiki também. Ele não duvidava de que os demônios pudessem atacar lá também, mesmo sabendo de que seu principal objetivo era capturar Ichigo e Rukia. A princesa ficava mais tranquila só em pensar no seu irmão seguro.
Rukia pensou em Ichigo. Ela sabia que ele estava em alguma carruagem, mas não a encontrava em lugar nenhum. Perguntas assombravam sua mente: “Será que ele está seguro? Pode estar ferido? No que ele deve estar pensando agora mesmo? Será que tem medo?”. Rukia treinara quase dois anos para este momento, e estava morrendo de medo. Toda a sua coragem evaporara.
O palácio de Ciel era alto, claro, com milhares de janelas de vidro. Extremamente elegante, como quase tudo naquele reino. Rukia ficara perplexa — quando imaginara um reino governado por demônios, imaginara um lugar imundo, feio, seco e sem vida. Mas toda aquela cidade, as roupas, as casas e flores, pareciam tão belas e de tão bom-gosto. Rukia ficou se perguntando há quanto tempo demônios já governavam o reino, e se ele tinha mais influência humana ou demoníaca. Lúcifer era o anjo mais belo do Senhor, a frase veio em sua mente. Mas ele traiu Deus e decaiu. Seria possível que o Inferno se parecesse com Ciel? Que a decaída de Lúcifer nada mais fosse do que a luxúria, a vaidade? E, se sim, o castelo onde Rukia morara a maior parte de sua vida não simbolizava o Inferno, onde bens materiais importavam mais do que os espirituais?
A princesa espiou mais uma vez pela fresta da cortina. Caçadores atiravam flechas que rasgavam o ar, lutando lado a lado com feiticeiros, que invocavam facas certeiras. Lobisomens, que descreviam uma perfeita parábola no céu com seus saltos, eram iluminados pela luz rósea dos poderes dos magos, que explodiam dezenas de demônios de uma só vez.
Rukia avistou uma cabeleira ruiva vindo em sua direção, saltando por entre os arbustos cortados artisticamente. Era Ichigo, cercado por vários demônios — ele lutava com muita habilidade, os movimentos fortes com a grande espada, os desvios rápidos. Os guardas perto da carruagem de Rukia ficaram surpresos quando ele passou correndo por eles, entrando onde a princesa se protegia.
— Deus, Ichigo! — exclamou Rukia.
Ichigo arfava, gotículas de suor escorriam por sua testa. Ele tinha um corte superficial na bochecha, e dele corria um filete de sangue que coloria seus lábios. Os braços estavam arranhados. Os olhos brilhavam com empolgação. Ichigo parecia um louco. Seu coração pulsava forte com a adrenalina.
— Temos que entrar naquele castelo — afirmou ele. — E salvar Karin e Yuzu.
///
Rukia arfava, às vezes sorria. Ela estava sentindo que o medo movia suas pernas, que a adrenalina percorria seus braços. Finalmente tivera a oportunidade de demonstrar o que ela havia aprendido — Rukia girava, atingindo os olhos dos demônios com suas adagas, desviando de todos os golpes com destreza. Ela era pequena, rápida, escorregadia. Tinha perdido a conta de quantos demônios havia matado. Na verdade, nem sabia mais se todos os inimigos eram demônios. A maioria era de humanos possuídos, mas também havia lá soldados genuínos — soldados que lutavam por sua própria escolha.
Rukia não sentia dor nem medo nem remorso. Ela não pensava no amanhã e nem no ontem — só no agora. Só em que golpe usar para atingir o estômago de um, como desviar das garras de outro, em como levantar quando ela atingia o chão. Em como proteger a sua vida, mesmo que Rukia fosse perdê-la amanhã.
Agora, não eram apenas os olhos de Ichigo que brilhavam — ele todo cintilava em uma luz resplandecente, sua espada ardia em fogo celestial. Ichigo dominava seu próprio poder, enviava demônios de volta ao Inferno com as chamas do Céu.
E fora assim, berrando, chutando, apunhalando e golpeando, que Rukia e Ichigo encontraram os três príncipes infernais: aqueles que possuíram Aizen, Gin e Tousen.
///
Aizen e Gin pareciam estar esperando Ichigo e Rukia. Os dois estavam sentados a uma longa mesa, um banquete de carnes em cima da toalha branca rendada, taças de vinho — ou alguma substância de cor semelhante — nas mãos. Karin e Yuzu também estavam lá, amarradas nas cadeiras com cordas. Lágrimas não paravam de correr dos olhos castanhos de Yuzu, as bochechas brilhavam á luz das velas, uma luz fúnebre e amarelenta.
— Irmão! — gritou Yuzu, quando viu Ichigo e Rukia passando pela porta. — Por favor, nos tire daqui!
Karin estava quieta, com uma face impenetrável. Havia um corte no seu lábio superior; o fogo de uma das velas postas na mesa refletia em seus olhos vazios. Talvez ela pensasse que tudo aquilo nada mais fosse que uma alucinação, que seu irmão mais velho nunca iria resgatá-la.
— Eu vou — respondeu Ichigo, não muito alto. Ele estava emocionado, quase a ponto de chorar. Suas irmãzinhas estavam vivas, mas o que eles haviam feito com elas até agora? — Karin, Yuzu, não se preocupem. Eu estou aqui agora. Eles nunca mais irão machucá-las.
Yuzu sorriu, soluçou e chorou. Karin piscava muito pouco.
— Ah, que momento de família lindo — suspirou Gin, sorrindo. —Demônios promovendo reencontros familiares. Isso não é incrível, Sousuke?
Aizen passou a mão pelos cabelos castanhos sedosos.
— Claro, claro — resmungou, depois ergueu os olhos, mirando exatamente Ichigo e Rukia. — Ora, que grosseria a minha. Sentem-se!
Ichigo e Rukia o encararam de um modo nada amistoso. Eles não estavam dispostos a ter um jantar amigável. Ergueram suas armas. Aizen bufou e fez um amplo gesto com as mãos.
— Ora, larguem as armas. Estou tentando ser civilizado aqui — replicou.
Ichigo enrijeceu ainda mais a postura; sua mão segurava a espada com força.
— Por que está fazendo isso? — perguntou Rukia.
— Devem estar famintos — prosseguiu Aizen. — Comam alguma coisa.
— Tem veneno nessa comida? — perguntou Ichigo.
Aizen e Gin riram, como se Ichigo tivesse contado alguma coisa muito engraçada.
— Se houvesse veneno nessa comida, suas irmãs já estariam mortas há muito tempo — respondeu Sousuke.
Gin ergueu um dos seus dedos finos e compridos — o fogo da vela tremeluzia, dando uma luz bruxuleante ao local. Tudo não passava de um banquete de luz e sombra, como nas pinturas barrocas que Rukia adorava. Todo aquele conflito entre o Bem e o Mau, Céu e Inferno, a tormenta e a agonia.
— Na verdade, esta carne trata-se de algo muito melhor. Uma carne que poucas pessoas têm a chance de provar na vida.
O demônio sorria, como se houvesse contado uma grande piada. Ichigo olhou para todos aqueles grandes pedaços de carne cozida, ornamentados e temperados. Viu as bochechas molhadas de Yuzu, o sangue nos lábios de Karin, as taças de líquido vermelho. Uma ânsia de vômito subiu por seu esôfago. Ichigo gaguejou:
— V-vocês deram carne humana para elas?
Gin tomou um gole do vinho, que podia muito bem ser sangue.
— É o melhor tipo de carne.
Ichigo gritou. Ele avançou em um grande salto, a espada na mão, mirando o pescoço do demônio.
Gin desviou; Ichigo cortou a mesa em dois pedaços. A taça de vinho de Gin balançou e caiu, quebrando em centenas de cacos de vidro. Observando a cena, entretido, Aizen serviu-se do vinho tinto que restara na garrafa e tomou um gole.
Yuzu gritava e chorava. Karin estava tentando libertar-se das amarras. Rukia correu até Ichigo.
Gin suspendeu Ichigo no ar, e o pegou pelo pescoço com as mãos magras, porém firmes. O ruivo ergueu a cabeça, buscando por ar, tentou se libertar — porém seus braços estavam colados ao corpo, como se pesassem toneladas.
Gin — ou seja lá qual fosse seu nome real — sorriu, mostrando os dentes. Pareciam presas naquela luz.
— Não é tão valente sem sua espada, não é, Nephilim?
Ichigo sorriu, fazendo seus lábios tremerem. Depois, acertou um chute em cheio na barriga do demônio. Ele urrou e voou por alguns metros. Ichigo caiu em pé, ao ser libertado do controle de Gin. Rukia lançou uma faca de trajetória perfeita, mirando a cabeça do demônio. Infelizmente, ele levantou-se a tempo de desviar-se parcialmente. A faca passou zunindo por sua cabeça, fazendo um pequeno corte em seu queixo, e atingiu seu ombro. O demônio gritou.
Aizen tirou um grão de poeira do paletó, e Rukia voou. As costas dela atingiram a parede, e ela gemeu. Ele levantou-se, caminhando elegante e pacientemente, e ergueu a mão. Todos os ossos de Rukia se contraiam, apertando seus órgãos, seus músculos. Ela respirava com dificuldade, como se algo tampasse sua garganta. Yuzu berrou um grito ensurdecedor, assustador — quase como um grito de banshee. Karin mexeu-se mais na cadeira, balançando os braços e urrando de raiva. A visão de Rukia foi se tornando turva, e a última coisa que ela queria iria acontecer — a princesa ficaria inconsciente.
Ichigo saltou, tão rápido que os olhos de Yuzu não conseguiram capturá-lo. Ela apenas viu um borrão, uma espada de fogo descreveu um corte limpo no pulso de Aizen e sua mão caiu no chão. Naquela luz, o sangue parecia preto. O príncipe do Inferno gritou, uivou e urrou, com dor e raiva. Ele ergueu-se do chão, flutuando, e Ichigo levitou também. Aizen ergueu a única mão que lhe restava, e lentamente foi a fechando em punho. Ichigo sentiu como se estivesse sido espremido como um limão — o nariz sangrava, os olhos pareciam estar prestes a explodir. Olhou para baixo, para Karin e Yuzu que gritavam. Ichimaru Gin aproximou-se de Rukia, que soluçava, e a ergueu pelo pescoço com algo que beirava a delicadeza.
— Sorte sua que não podemos matá-lo antes do Samhain, Nephilim — sibilou Sousuke, aliviando o aperto em Ichigo. — Vocês são os receptáculos de Lilith e Lúcifer, e eles ficariam muito chateados se algo acontecesse com vocês.
Aizen ficou encarando Ichigo por mais alguns segundos. Não parecia inclinado a soltá-lo; na verdade, estava bastante disposto a matá-lo.
— Olhe que mocinha adorável! — exclamou Gin, lá embaixo. Ele acariciou o rosto de Rukia. — Se ela não fosse o receptáculo de Lady Lilith eu iria encher sua linda carinha de socos.
Rukia murmurou algo, tentando ficar acordada. Se ao menos tivesse forças para enfiar as mãos na bota, pegar o recipiente e levá-lo a boca...
— Mas há muitas coisas que não deixam marca alguma...
Gin passou os dedos pelos lábios claros da princesa, enfiou dois deles em sua boca. Ichigo viu a cena e quis gritar, libertar-se e matá-lo. Mas só conseguiu resmungar algo incompreensível. Rukia mordeu com força os dedos do demônio, e ele gritou, largando-a no chão. Deitada, porque ela não tinha forças para se levantar, a princesa riu. Cuspiu o sangue demoníaco, que tinha um gosto metálico e pútrido, como se o receptáculo já estivesse morto há muito tempo e apenas o demônio o mantivesse vivo.
— Sua putinha! — Gin praguejou, balançando a mão.
Ele chutou a barriga de Rukia, mas ela continuou rindo. Dessa vez, talvez tenha cuspido mais do que o sangue do demônio.
E, de repente, mãos de pedra enormes surgiram do chão como o pé-de-feijão de João. Elas agarraram Aizen, apertando seus ossos como ele fizera com Ichigo. Uma cobra percorreu o corpo de Gin, o enlaçando como uma corda. Ela era prateada e tinha olhos esmeralda. Eles brilharam quando uma descarga elétrica percorreu toda a serpente, dando um choque no demônio.
Uma voz surgiu, alta, confiante e familiar:
— Belial e Azazel, venho enviá-los ao Inferno!
Yoruichi estava lá, de pé, a cabeça erguida, os olhos cintilando, o lindo vestido violeta manchado de vermelho. Ao lado dela, a bela cigana Soare controlava as mãos de pedra artisticamente.
Ichigo caiu no chão, mágica e suavemente como uma pluma
— Seu pai não gostará nada disso, feiticeira — sibilou Aizen, com um sorriso de escárnio. Ele tentou se libertar, agitando os braços, mas tudo o que fez foi que Soare apertasse mais a mão de pedra.
— Nunca fiz nada com o objetivo de agradá-lo — retrucou Yoruichi, as mãos na cintura.
Ela iria caminhar até o demônio Belial, mas parou na metade do caminho. Soare havia realizado um salto perfeito — as pernas esticadas como as asas de uma ave quando ela plana —, derrubando Yoruichi no chão. Quando a mulata abriu a boca para perguntar porque diabos Soare fizera aquilo, um enxame de moscas passou por cima de suas cabeças. E, de repente, Yoruichi entendeu. Belzebu, o demônio que habitava Tousen Kaname, materializou-se ali.
O enxame, zunindo — mais de mil olhinhos, mais de mil asinhas frágeis, mais de seis mil patinhas sujas —, percebeu que não havia atingido seu alvo. Então todas as moscas mergulharam em direção a Yoruichi e Soare. As feiticeiras rolaram, desviando-se a tempo. Soare levantou-se, esquivou-se, ajudou Yoruichi a levantar-se. O enxame parecia ser um só ser, movimentava-se sempre em grupo — era controlado por Belzebu.
Uma mosca entrou na boca de Soare; a feiticeira a esmagou com os dentes e cuspiu. Segurava Yoruichi pela mão todo o percurso — Soare era muito mais ágil do que a outra feiticeira. Ela movimentava-se como se estivesse dançando, graciosa, rápida, certeira — a saia vermelha mal podia acompanhar seus movimentos. Algumas moscas entravam no nariz e boca de Yoruichi — ela conseguia matar a maioria, mas o enxame não parecia diminuir de tamanho. Por trás das nuvens escuras dos insetos, Soare podia enxergar Belzebu — as moscas pareciam formar uma espécie de cortina. Ela ficou imaginando todos estes insetos adentrando a sua pele, esfregando as patas sujas, colocando ovos...
Todos eles queimaram numa explosão de luz, como se fossem fogos de artifício. Ichigo estava entre as feiticeiras, brilhando como um anjo vingador, a espada flamejante na mão. Em pouco tempo, todas as moscas haviam sido transformadas em cinzas. E, não muito tempo depois, foi a vez de seu mestre encontrar a morte. Belzebu pereceu sob a espada do Nephilim, gritando e urrando, queimando com o fogo celestial. Sua pele derreteu, seus ossos foram carbonizados, a alma que antigamente habitava seu corpo foi libertada.
Ichigo arfava, suando. Sangue escorria de seu nariz, molhando seus lábios secos. Ele não largou a espada — duvidava que conseguiria largá-la novamente.
Rukia levantou-se, cambaleante. Gin a observava, respirando vagarosamente. Ela foi até a mesa, até Karin e Yuzu, e cortou as cordas que as prendiam nas cadeiras.
— Vão para um lugar seguro — Rukia mandou, respirando com dificuldade. Ela apresentava uma grande marca roxa, em formato de mãos, no pescoço. Karin e Yuzu não se mexeram. — Vão! Rápido!
As duas se levantaram vagarosamente, como se tivessem medo de quebrar algo. Seus olhos eram grandes círculos escuros e assustados.
— Soare, vá com elas — pediu Yoruichi, dirigindo-se à amiga feiticeira. — Proteja-as.
Soare nada disse por alguns segundos; apenas inclinou a cabeça e pensou um pouco. Não queria deixar Yoruichi frente a dois Demônios Maiores, no entanto a situação já parecia estar sob controle. Ela caminhou até a porta, seguida pelas irmãs de Ichigo. Antes de sair, Karin lançou um olhar para o irmão mais velho, que dizia: “Fique bem”.
— Vou ficar — respondeu Ichigo, em um sussurro.
No entanto, ele não pôde cumprir a promessa.
Belial libertou-se da grande mão de pedra, enfraquecida sem a presença de Soare. O demônio foi tão rápido que Ichigo nem viu quando o braço perfurou a carne de suas costas, e ele caiu. Sua cabeça titubeou no chão, fazendo o cérebro chacoalhar dentro de seu crânio. Ele escutou Rukia berrar o seu nome, viu os pés da princesa correndo até si — depois, permitiu-se fechar os olhos e contemplar uma realidade melhor. Imagens de sua família, da época em que sua mãe ainda vivia, passaram por sua mente. Memórias claras e oníricas.
Rukia acertou um soco forte no rosto de Aizen, e sua cabeça virou e retornou ao lugar mecanicamente. Ele sorriu, e atingiu-a com um gancho. Rukia voou, mas conseguiu aterrissar de pé. Pegou a última faca que tinha e mirou bem. Lembrou das aulas que tivera com Ichigo e com o irmão. Os tornozelos estavam no local certo, os dedos seguravam a faca com firmeza. Era sua última chance, seu melhor tiro. Rukia arremessou a faca direto no rosto de Aizen.
O demônio a agarrou com sua única mão, a dois centímetros do nariz. Ele sorriu, e lançou a faca com força na direção de Rukia.
A princesa saltou para a direita, e a lâmina passou zunindo por seu ouvido esquerdo. A faca fixou-se na parede, o cabo balançando. Rukia respirou fundo. Foi por pouco.
Enquanto isso, Yoruichi estava lutando com Azazel, o demônio que possuíra Gin. Ele libertara-se da cobra, que jazia esfolada no chão, e resolvera matar a feiticeira.
Ichimaru Gin ergueu Yoruichi no ar, a prensando em uma parede, pressionando seu pescoço como ele fizera com tantos mais. E, como tantos mais, a feiticeira ergueu a cabeça buscando por ar — seu peito subia e descia muito rapidamente.
— Bem, na verdade, Condessa Yoruichi, eu apreciava muito o seu trabalho — observou Azazel, a voz cantarolada e irônica ao pronunciar o título de nobreza da mulher. — Você era uma das poucas feiticeiras que não transformara sua vida em um lixo inútil. Sua magia era interessante, demoníaca como a minha. De certa forma, você parecia muito com o seu pai.
Yoruichi cuspiu.
— Nunca mais me compare a ele — rosnou.
— No entanto — prosseguiu Gin, ignorando-a —, agora que você está casada com este mago... Tsc, tsc, tsc. Sua magia está uma verdadeira piada.
Yoruichi fechou os olhos, as pupilas movendo-se por baixo das pálpebras. Em um momento, ela flutuava no teto, e no outro Yoruichi encontrava-se caída no chão, Azazel com os pés no teto.
— Viu? — ele exclamou, lá de cima. — Magia patética!
Chifres brotaram do chão, e Yoruichi rolou, sentindo uma pontada de dor na barriga. Um dos cifres haviam atingido-a, atravessado-a. Azazel teria empalado Yoruichi se ela não fosse esperta o suficiente para sair da frente.
Ela urrou, tentando levantar-se. Não conseguiu. Azazel vinha flutuando vagarosamente, como se estivesse descendo uma escada invisível. Yoruichi precisava invocar um feitiço poderoso, mas já não tinha mais energia. Usara-a toda na batalha pelo castelo.
— Quando eu matá-la, você voltará para o seu lugar de direito, querida Yoruichi — disse Gin, em uma voz melosa e arrastada. — Talvez, se comportar-se bem, poderá governar o Inferno com seu pai.
Inferno.
Yoruichi teve uma ideia. Olhou para o banquete servido na mesa — sabe-se lá quantas pessoas haviam morrido para prepará-lo — e para toda aquela grande sala de jantar. Quantas pessoas haviam morrido neste castelo por obra de Azazel?
Estava na hora de deixar estas almas se vingarem.
Todos os pedaços de carne da mesa foram juntando-se — pernas, braços e troncos de viúvas, mendigos e fazendeiros — para formar um monstro sem nenhuma cabeça, sem olhos nem boca, mas que tudo via e que tudo devorava. As almas agitaram-se por cima da cabeça de Yoruichi, girando em torno do monstro, que marchava a passos lentos até Azazel.
Ele estava com os olhos abertos, surpreso. Tentou fugir, mas as almas prenderam seus pés no chão. O monstro estava cada vez mais perto.
— Magia demoníaca — sussurrou Gin. — Você pode tentar negar, Yoruichi, mas sabe que esta é a sua origem.
O monstro devorou o demônio, que gritou e urrou até que finalmente morreu. Yoruichi respirou fundo — havia usado magia para invocar os mortos — e desmaiou.
///
Rukia não tinha armas, por isso ela improvisava. Já lançara talheres e pratos contra Aizen; já usara travessas que encontrara na mesa como escudos; garrafas de vinho quebradas como armas.
No entanto, ela estava perdendo.
Desde que Yoruichi e seu monstro mataram Azazel, Belial estava mais rápido e eficiente. A cada arranhão que Rukia conseguia fazer no demônio, eram cinco socos fortes que a atingiam. Seu nariz já estava quebrado — ela engasgava no seu próprio sangue — e Rukia só permanecia de pé por persistência.
Talvez fosse melhor desistir... Talvez fosse...
Rukia tentou chutar o demônio, porém ele segurou seu pé. Ela tentou puxá-lo de volta, mas o aperto em seu tornozelo era muito forte. A princesa olhou ao redor, procurando algo que podia usar como arma. Acabou vendo Ichigo, deitado no chão. Será que ele está inconsciente?, Rukia perguntou-se.
O demônio torceu o tornozelo de Rukia, colocando seu pé em um ângulo desumano. Ela gritou; lágrimas escorreram de seus olhos. Aizen a soltou e Rukia caiu no chão. Seu rosto estava inchado, seu nariz quebrado e sangrando; manchas roxas percorriam todo o seu corpo. Ela não levantaria tão cedo.
Ichigo levantou e cambaleou até Aizen, segurando a espada. Ele tentou um, dois, três golpes. Mas o nephilim estava lento, tonto, e Belial desviou de todos os seus golpes. Ele o empurrou até a parede, sem precisar utilizar muita força. Ichigo bateu com as costas na parede, deixando uma marca de sangue conforme deslizava. Sua mão, mole, não agüentou o peso da espada e deixou-a cair.
Aizen respirou fundo. Deslizou a única mão pelos cabelos, até que chegasse a nuca. Aqueles dois tinham sido uma grande dor de cabeça, mas pelo menos agora não tinham mais condição de revidar. Sangue de seu pulso pingava no carpete. O corpo vazio de Gin jazia morto, quase irreconhecível, estraçalhado. As almas já haviam deixado o monstro conjurado pela feiticeira. O próximo passo era amarrar Rukia e Ichigo em um local seguro e matar Yoruichi.
No entanto, Rukia e Ichigo não jaziam mais no lugar que deveriam estar. Eles haviam se arrastado pelo chão, deixando um rastro de sangue. Os dois pegaram um frasco transparente, contendo um líquido escuro, de suas botas. Deram as mãos, que estavam quentes e sujas de sangue. Ichigo sussurrou:
— Eu te amo.
Rukia respondeu:
— Eu também.
Eles tomaram todo o líquido do frasco, e logo começaram a ter espasmos involuntários. Belial correu até eles, gritando:
— O que vocês fizeram?!
Ele virou Ichigo, que estava deitado de bruços. Seus olhos estavam quase fechados, um tom fosco coloria sua íris. O nephilim reuniu suas últimas forças e riu.
— Estamos apenas morrendo do nosso jeito.
Belial se afastou e os observou morrendo. Eles eram impetuosos, afinal. O demônio havia os subestimado. Rukia e Ichigo tiveram a coragem de matar-se antes do Samhain, para que Lúcifer e Lilith não fossem invocados e nenhuma vida mais se perdesse.
Aizen escutou um ruído estrondoso do céu. Um raio atingiu o castelo, e parte do teto desabou. O céu estava tão branco que cegou Belial por alguns segundos. Depois, ele conseguiu enxergar o que pareciam ser meteoritos caindo.
Anjos desciam á terra, portando espadas flamejantes e asas majestosas. Eles matavam todos os demônios em seu caminho.
A última coisa que Belial viu foi a espada de São Miguel apontada para seu pescoço.
E a última coisa que Rukia viu foi uma graciosa mulher de cabelos azuis. Ela flutuava, o vestido leve de cetim farfalhando. Com os seus delicados braços nus, a mulher pegou a princesa no colo. Cantarolava.
— Nell? — Rukia sussurrou.
A linda mulher de cabelos azuis sorriu.
— Minha princesa.
Fale com o autor