O Sofrimento é a mais doce das recompensas
1 Capítulo Único - O Sofrimento é a mais doce das recompensas
Notas iniciais
Passos enchiam o corredor outrora vazio.
Uma fria aragem corria pelas frestas das janelas. Era um dos Invernos mais rigorosos que Tóquio vira nas últimas décadas. Um frio que contrastava com uma outrora alegre personalidade de uma certa Loira de olhos azuis.
Esta, nitidamente mais velha, trazia pela mão uma Pequena de cabelos rosados e olhos cor de vinho. Ambas vestiam roupas de cor preta. A cor da morte, a cor do desespero. Uma cor que tudo traz mas nada leva.
Nada fizera prever aquele acontecimento. Tão pouco a Loira queria lembrar-se de tal coisa. A dor que a trespassava cada vez que o fazia era demasiada. A Pequena puxou a saia da mãe. Estava assustada com aquele local escuro e tão sem vida. Quem não os conhecia [1] não saberia os momentos alegres que aqueles dois tinham tido, nem que eles tinham dado origem àquela Pequena. Ninguém poderia sequer adivinhar que aquela família tinha sido completamente despedaçada, contrariando completamente todas as visões de um mundo pacífico, totalmente oposto ao que fora durante a adolescência da Loira.
A sua mão livre precipitou-se para rodar a maçaneta. Um sentimento de vazio assomou o seu coração e o seu peito pareceu ameaçar dilacerar-se naquele momento, tal fora a mágoa que aquele simples gesto provocara. A Pequena olhou para a mãe sem entender. Ainda era demasiado nova para entender a dor de perder alguém querido.
Finalmente a Loira tomou coragem, fechou os olhos, inspirou fundo e abriu a porta. O silêncio e a escuridão enchiam aquele lugar. As janelas abertas sopravam os panos brancos que cobriam a mobília ali deixada, que antes carregava em si molduras e recordações.Tudo fora com o tempo. A Pequena arregalou o olhar ao ver aquilo e escondeu-se atrás da sua mãe, assustada. Para ela o vazio avassalador parecia aterrorizador, mas para a Loira, era apenas reconfortante.
- Apenas um passo mais perto do meu amado... – Ela murmurou, pousando a mão num dos sofás empoeirados. Lágrimas escorreram pela sua face. A Pequena olhou-a atrapalhada. Não entendera o motivo pelo qual a sua mãe ficara assim.
A Loira, no entretanto sentiu-se fraquejar. Os joelhos tremiam, e ela acabou por cair no chão. A sua mão livre segurava o pendente em forma de estrela, aquele que uma vez o seu amado, o seu cavaleiro andante lhe oferecera. Na sua mente uma triste melodia [2] soou baixo mas de forma persistente, determinada em deixar todas as suas recordações virem ao de cima. A Pequena acabou por abraçar a mãe, de forma desajeitada, com os seus bracinhos, apertando com os seus dedos pequenos e frágeis as vestes negras que a sua mãe ostentava. Ela chorava, não por entender a importância daquele lugar mas sim pela imensa dor que a sua mãe parecia estar a passar.
A Loira passou a sua mão trémula pelos cabelos da sua pequena filha, acariciando os seus fios rosados de forma a tentar de alguma forma tranquilizá-la. Depois num tom calmo, ainda que choroso, disse:
- Foi aqui que, um dia, eu e o teu pai fomos felizes.
A Pequena olhou-a sem entender, mas anuiu com a cabeça. Nessa altura, a Loira sorriu. Acabou por ganhar força nas pernas, levantando-se e cautelosamente, aproximou-se de um dos móveis, pegando num jornal que ali estava pousado, amarelecido pelo tempo, segurando-o com as suas mãos trémulas. Ela sabia bem o que iria encontrar ali. Sabia que recordações isso traria à tona. Sabia bem o que leria ali. As fotos de várias pessoas, e apenas uma a chamava à atenção. Mamoru Chiba, o seu amado, o seu príncipe. Junto de tantas outras pessoas que tinham morrido naquele acidente. Naquela altura ele teria vinte e dois anos, nem a Loira sabia mais precisar no tempo tal acontecimento. Apenas sabia que o tinha perdido para sempre. Menos ela e a pequena que estava abraçada à sua perna, o fruto do seu amor de conto de fadas que acabara num pesadelo.
“Nem sempre o nosso futuro é certo, muito menos previsível” — A Loira, suspirando de forma bem audível, pensou. Lágrimas toldaram a sua visão. O sofrimento era demasiado.
- Menina Tsukino-Chiba, já terminou? – A Loira ouviu a voz do dono do apartamento, que lhe permitira entrar ali uma última vez. O apartamento tinha sido vendido, e era a última oportunidade que ela teria de visitar aquele lugar. Ela olhou para a porta, e somente acentiu. Limpou as lágrimas com as costas da mão, e depois olhou para a sua pequena.
- Chibiusa, vamos? – Ela perguntou de forma calma, segurando a mão da Pequena cuidadosamente, enquanto esta procurava tentar seguir os passos da sua mãe. Ambas saíram do apartamento, mas a Loira estacou, olhando uma última vez para o interior do apartamento, sorrindo de leve. As boas e más recordações seriam encerradas de vez.
- Itekimasu [3], Mamu-chan... – Ela disse, num tom de voz baixo, fechando depois a porta por detrás de si.
[1] N.A.: Neste momento refiro-me a Usagi e Mamoru
[2] N.A.: Leia-se a “Sailor Star Locket”
[3] N.A.: Itekimasu – Vou indo, estou de saída.
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