Notas iniciais
"A shot in the dark,
A past lost in space
Where do I start?
The past and the chase?
You hunted me down
Like a wolf, a predator..."
(She wolf, David Guetta feat. Sia)

Victor ainda não queria ir para casa. Precisava pensar. E não havia lugar melhor para pensar do que o Fifties.

Ainda mais hoje que Anelise estará cantando lá. Ela era a pessoa perfeita para falar sobre isso.

Quando chegou ao bar, sorriu ao ver Anelise no pequeno palco improvisado para shows ao vivo. Ela retribuiu o sorriso e ele se sentou na sua mesa habitual, que por sorte estava desocupada.

Apesar da música e das pessoas conversando, ele conseguia se concentrar em si mesmo. Fez seu pedido habitual – Jack Daniel's, guaraná e gelo.

Pensou em Haryan. Como ela pôde ser tão descuidada e burra ? Se bem que ela não tinha culpa, não se lembra de nada... mas ele sabia que aquela garota era perigosa. Garotas inocentes demais são perigosas, porque inspiram em você seu lado protetor e quando você vê está correndo atrás dela, preocupado com o que ela pode fazer, porque a inocência é terrível. Ela pode confiar nas pessoas erradas, achar que o que está fazendo é bom e fazer uma tragédia, enfim. Riu se lembrando de quando foi buscá-la, sabendo que ela estaria no bosque. É uma dedução precisa porque eles estão acostumados com a escuridão, lugares fechados. E se não forem estações de trens abandonadas, são sempre os bosques. É incosciente, mas eles sempre se escondem lá.

E a polícia do karma – ou Kapo, como era a sigla deles – iria buscá-la. Os Generais, que estavam acima da polícia e a supervisionavam, com certeza moveriam o mundo para achá-la. É perigoso para eles deixar suas criações soltas.

Talvez eles tivessem de ir para outro lugar. Começou a pensar em algum abrigo, algum lugar que pudesse deixá-la. E então olhou para Anelise e teve uma ideia. Esperou que ela tivesse uma pausa no show para falar sobre.

–- Hey Victor – Ela disse, sentando-se em frente á ele. — Deu saudades de mim ?

–- Haha. Precisava sair para pensar e aqui era um bom lugar. — Anelise era uma garota muito bonita, além de ter voz de veludo. Tinha os lábios carnudos e um ar de mulher independente – o que realmente era. Olhos profundos e cabelos lisos e compridos, parecia mais velha do que era, mas quando sorria parecia uma criança. Também era parecida com Victor, inclusive no passado. Ela foi para a Subterrânea junto com ele, mas conseguiu fugir antes que tatuassem os números em seu pescoço. Sortuda. Já Victor tinha os números, mas não conseguiram colocar o rastreador especial em seu braço direito. Rastreador... — Espera ! — Anelise o encarou com os olhos arregalados. — O rastreador !

–- Hã ?

–- O rastreador... já era para terem vindo procurá-la á muito tempo !

–- De quem está falando, Victor ? — Ele ia dizer, mas se lembrou de que falar sobre isso era perigoso.

–- Vamos para o meu apartamento.

–- Mas eu tenho que cantar...

–- Use seu poder de persuasão para convencer o dono de que precisa ir.

–- Odeio quando me faz fazer essas coisas – Disse ela, desabotoando mais um botão do vestido, deixando um poderoso decote. Ele riu e foi pagar sua bebida. Minutos depois ela voltou.

–- Vamos. — Ele riu, imaginando Anelise fazendo uma voz manhosa com qualquer desculpa idiota e um decote.

Foram até o apartamento dele, um lugar pequeno, cheio de prateleiras, livros e CD's espalhados. O jeito despreocupado de Victor refletia até no seu apartamento. Ela jogou sua bolsa em cima do sofá e se sentou em um pufe vermelho no canto da sala. Ele pegou uma garrafa de cerveja para cada um e se sentou no sofá.

–- Não sei como você conquista tantas garotas assim – Comentou ela, vendo-o sentado com aquele jeito largado no sofá, bebendo um gole de cerveja. Ele sorriu e deu de ombros. — Agora me conta. — Ele ergueu as costas do sofá e apoiou os braços nos joelhos.

–- Tem uma garota lá na casa da minha avó... ela perdeu a memória. Mas veio da Subterrânea, ela tem os números... — Anelise quase caiu para trás.

–- De qual divisão ?

–- 001. — Ela sussurrou um “oh meu Deus” e olhou para o lado, incrédula.

–- Mas o que ela ainda está fazendo lá ? É perigoso pra vocês !

–- Exatamente – Disse ele, passando uma das mãos pelo cabelo – Já era para terem vindo buscá-la. Só caiu minha ficha agora... ela fez uma coisa aí, estou com preguiça de contar – Ela revirou os olhos – e deixou uma pista muito clara sobre onde ela está... mas com o rastreador, já poderiam tê-la encontrado.

–- Talvez não tenha dado tempo de colocar nela... como aconteceu com você.

–- Ou ela tirou... eu vou ver se ela tem alguma cicatriz no braço direito. — Ela assentiu.

–- Vai ver é masoquista como você – Ele sentiu um calafrio na nuca, onde estava sua cicatriz. Ele torceu o nariz.

–- Foi necessário. E queria pedir um favor para você.

–- O quê ?

–- Agora que ela fez essa merda, poderia ficar com ela na sua casa ? — Anelise tossiu.

–- Não. Eu estou namorando agora. — Ela disse isso num tom superior.

–- Outro idiota para me esquecer ? — Ela colocou a garrafa no chão e se levantou. Pegou a bolsa e foi em direção á porta, claramente ofendida. Ele suspirou e foi atrás dela, e a segurou pelo braço.

–- Aquela vez que eu te beijei eu estava bêbado Anelise. Nós já esclarecemos isso.

–- Precisava dizer que todos são pra te esquecer Victor ?

–- Mas é um pior que o outro Anelise ! Você merece coisa melhor !

–- Não acha então que eu te mereço ?

Victor se lembrou da noite de festa em que acabou beijando Anelise e dizendo que gostava dela. Antes disso, ela já gostava dele e ele sabia. Mas ele nunca conseguia vê-la desse modo, por mais linda que ela fosse. Desde então, o relacionamento dos dois tem altos e baixos, uma espécide de amizade colorida não correspondida. E tudo aconteceu antes daquela excursão de escola que acabou os levando até aquele lugar horrível.

–- Anelise...

–- É uma droga não conseguir te deixar bêbado de novo sabia ? — Ela disse. Ele riu. Ela o beijou no rosto e atravessou a porta.

–- Tchau, Victor. — Disse, antes de desaparecer escadas abaixo. Ele nem se preocupava em como ela iria embora, ela sempre se virava. Fechou a porta e voltou para o sofá. Pensou em Anelise, em Haryan... teria que trazê-la para o seu apartamento. Todos esses problemas o fizeram pensar que é realmente uma droga não conseguir mais ficar bêbado.



• • •



Haryan estava desesperada. Foi quando entrou no quarto que se lembrou de Audrey. Será que ela estava bem ? Como viria embora ? Desceu as escadas e procurou o telefone. Procurou na agenda o número dela, mas nada. Estava pensando até em pegar um táxi quando ouviu a porta abrir. Era Audrey, pálida como um fantasma.

–- Audi ! — Gritou Haryan indo abraçá-la. — Victor me tirou de lá de repente e quando cheguei aqui fiquei desesperada por sua causa....

–- Quem é você ? — Ela perguntou. Haryan franziu o cenho.

–- C-como assim ?

–- Você quebrou um vidro blindado Haryan – Ela olhou para o chão. Audi foi testemunha da cena.

–- Eu...

–- A última vez que alguém assim apareceu na nossa casa o resultado foi tragédia ! — O que ela quis dizer com isso ? Se lembrou de Kamile na hora. Do quarto todo destruído. Será que era dela que estava falando ?

–- Você veio daquele lugar que Paul falou ? Aquele lugar que levou a Kamile ? — Audi estava quase chorando. Haryan queria falar, mas não encontrava palavras. Audi correu escadas acima e Haryan foi atrás, pedindo para ela ouvir. Mas ela entrou no quarto e trancou a porta. Haryan iria dormir no sofá hoje. Desceu as escadas devagar, desolada. Porque todos a tratavam como uma aberração ? Quando isso iria acabar ? Quando encontraria as respostas ?

Dormiu com os olhos inchados de lágrimas.



• • •



Quando acordou no outro dia, ouviu a voz de Paul chamando seu nome e sentiu alguém cutucá-la. Quando abriu os olhos, ele realmente estava ali, rindo. Se levantou num pulo. Fazia dias que não o via. Se levantou do sofá na hora sem nem se lembrar da dor de cabeça que restou da noite entre lágrimas e insônia, e desceu as escadas.

Paul a abraçou e fez mil perguntas, se estava bem, e Rose observava tudo com um leve sorriso e braços cruzados. Mas os olhos dela estavam tristes, e Haryan logo percebeu que eles estavam falando sobre ela e sobre tudo que aconteceu. Paul deveria estar assim também, mas sabia disfarçar melhor do que Rose.

Haryan preferiu não comentar nada a fingir com ele que nada acontecia e conversar apenas sobre coisas triviais. Pelo menos haveria alguma calmaria, e ela poderia se distrair e pensar em outra coisa. Foram até a cozinha tomar o café, ainda conversando. Até que Haryan se deu conta de que eles não sabiam sobre o vidro quebrado na noite anterior. Não tinha dado tempo de Audrey ou Victor contar qualquer coisa. Quando soubessem, tudo ficaria pior... nesse momento, o telefone tocou.

–- Haryan ? — Perguntou Paul enquanto mexia seu café com leite. Haryan piscou, saindo de seu devaneio. — Parece distraída...

–- Não é nada – Ela sorriu – Só um pouco cansada. — Haryan ouviu Rose atender o telefone e citar o nome de Victor. Por algum motivo queria prestar atenção á conversa. Tentou manter a conversa com Paul e prestar atenção ao mesmo tempo, o que exigiu muita destreza, ainda mais que Rose conversava baixo. Logo a conversa terminou e Rose voltou para a cozinha.

–- Victor está vindo para cá – Ela comentou, séria. — Disse que tem algo importante pra fazer e pediu pra você arrumar suas coisas Haryan. Ele explica quando chegar. — Haryan engasgou com o leite que estava bebendo. Arrumar suas coisas ? O que aquele idiota pretendia ?

–- Que coisas ? — Rose suspirou.

–- Pegue as roupas que te demos e coloque em uma das malas que estão dentro do guarda roupa. Franziu o cenho e antes de questionar mais, Rose pediu que fosse rápido, e questionasse depois. Haryan suspirou fundo e se levantou, mas nesse momento se lembrou de um detalhe importante.

–- O quarto está trancado.

–- Eu tenho a chave de todos os quartos, já destranquei. — Disse Rose. Haryan arqueou as sobrancelhas, deu de ombros e subiu para o quarto.

Audrey ainda dormia. Se lembrou do quanto ela estava chocada na noite anterior. E pensou que se Victor estava pensando em tirá-la dali, não era má ideia. Só causava problemas.

Tirou o vestido e o dobrou cuidadosamente, deixando em cima da cama de Audrey. Pegou um jeans e uma camiseta de um rosa antigo, que ganhara de Audrey, escrito "May I be me ?" e alguns desenhos esquisitos. Vestiu-os e começou a arrumar o resto das coisas.

Certificou-se de guardar o envelope com o colar e a foto antiga no bolso. Eram mais importantes e deveriam ficar bem guardados, caso perdesse a mala não os perderia.

E então, enquanto arrumava a mala pensando nas mil possibilidades da ideia de Victor, ouviu a campainha tocar. Correu para a sacada em frente ao quarto, de onde podia ver a porta da sala. Mas quando Paul a abriu, suas expecativas se desvaneceram. Não era Victor, e sim um daqueles homens de uniforme. Um oficial da Polícia do Karma. Sentiu seu estômago embrulhar e uma ansiedade crescente.

Vieram atrás dela.

Correu para dentro do quarto sem saber o que fazer. A janela estava trancada. Os outros quartos também. Só daria para sair descendo as escadas e aí seria vista.

Andava de um lado para o outro, desesperada, feito um pássaro engaiolado procurando uma saída. Eles com certeza iriam vasculhar a casa toda. E se lembrou da sua força extraordiária e foi até a janela. Sem muito esforço, a arrombou. Ia saltar quando viu a ponta de uma escada. Olhou para baixo e Victor estava subindo. Sentiu um alívio e esperou que ele chegasse até o parapeito.

–- Como conseguiu subir ? — Sussurrou.

–- Eu vi o carro da Kapo enquanto vinha para cá. Desviei, deixei a moto atrás da casa, pulei o muro e peguei essa escada no jardim.

–- Você sabia que era esse o quarto ?

–- Sim, eu sou muito observador e decorei a ordem. — Ela deu um risinho. Depois de olhar para o rosto dele por alguns segundos, perguntou:

–- Você sabia que eles viriam não é ?

–- Claro, e vim te buscar. Chega de conversa, vamos. — Ela assentiu e Victor ia descer quando ouviram uma voz grave e autoritária.

–- Olá garota dos lobos. — Haryan se virou e em pé na porta estava o mesmo oficial que os viu na festa. Haryan gelou e Vitor quase caiu da escada de susto. Ela arqueou uma sobrancelha. Garota dos lobos ? De onde ele tirou isso ? Lhe soava familiar. O oficial deu alguns passos lentos em direção á ela, olhando fixamente em seus olhos. Cada passo fazia o assoalho gemer e o coração de Haryan se apertar. Mal conseguia respirar, mas sustentava o olhar feroz do oficial com a dignidade que Misha olhava para ela. Com a dignidade dos lobos.

–- Não se lembra de mim não é ?

–- Não me lembro de nada – Ela respondeu, fazendo um enorme esforço para não deixar sua voz sair entrecortada. Ele riu.

–- Como sempre. — Ele chegou perto o suficiente para tocar o rosto dela e afastou uma mecha de seu rosto, colocando-a atrás da orelha. Deu um passo para trás, com o Deja Vu que teve. Aquela cena, daquele homem colocando uma mecha do seu cabelo para trás da orelha estava em algum lugar da sua mente. Engoliu em seco e lançou um olhar furtivo, profundo e ameaçador como um lobo que observa sua caça.

–- Não me toque.

–- Sempre tão evasiva... eu sinto muito Haryan. Mas vou ter que te levar. Não tenho escolha – Ele pegou no pulso dela e começou a puxá-la. Haryan gritou e nesse momento Audrey acordou, sendo surpreendida por Victor que saltou a janela e foi atrás do oficial e de Haryan.

–- Solte-a ! – Disse Victor. O oficial riu com escárnio.

–- E se eu não soltar vai fazer o quê ? — Victor deu um daqueles sorrisos de canto, e segundos depois, Paul e Rose, que apenas esperavam na porta ansiosos, foram surpreendidos por um oficial caindo no meio do chão da sala. Haryan olhou para Victor, que ainda estava com o punho cerrado, o que havia acabado de dar um soco no oficial que o fez cair da sacada.

–- Você... — Haryan queria dizer “você é como eu” Mas a surpresa era tanta que mal conseguia falar. Mas o oficial também era e logo estava subindo as escadas de novo. Victor a puxou pela mão mas o oficial os alcançou. Audrey ainda tentava processar tudo, sentada na cama, atônita. O oficial puxou Victor pela jaqueta e ao virá-lo segurou seu pescoço e o ergueu no ar.

–- Então é você, um daqueles fugitivos sem rastreador – Disse o oficial. Victor deu de ombros.

–- É. — O oficial riu com escárnio.

–- Que bom. Dois em uma só viagem.

–- Só que não — Disse Haryan, que separou os dois e empurrou o oficial com força para o guarda roupa. Ele caiu com tudo, quebrando portas e gavetas. Audrey gritou.

–- Não se lembra de nada, mas se lembra como se bate – Comentou o oficial. Haryan não respondeu e apenas o encarou. Ele se levantou e avançou para cima dela, mas Victor o puxou e começaram uma briga acirrada, bloqueando golpes. Audrey tentava entender o que estava acontecendo, enquanto se encolhia na cama. Rose e Paul estavam na sala, gritando e discutindo, nervosos, o que fariam. Sabiam que não tinham chances de enfrentar um oficial da Kapo.

Na briga entre o oficial e Victor o primeiro a fraquejar seria lançado longe. E um vacilo de Victor deu uma brecha para o oficial dar um soco que o lançou janela afora. Até ele se reerguer, o oficial teria tempo de levá-la. Segurou Haryan pelo braço e a puxou. Ela tentou se soltar mas ele era mais forte, apesar da força extrema de ambos. Haryan gritava, arranhava, mas de nada adiantava.

–- É para o seu bem – O oficial disse.Haryan o encarava furiosa. Até que, ao chegarem á porta da sala, Misha entrou pelo portão aberto. Atrás dela vinham mais dois lobos, mais três, quatro, uma alcateia. Todos avançaram para cima do oficial. Ele conseguiu chutar alguns mas eram vários ao mesmo tempo. Arranhando, mordendo. Haryan tentava escapar em meio ao caos mas ele era muito ágil.

–- Malditos amigos os seus ! — Ele gritou, enquanto tentava não deixar Haryan fugir, e evitar os lobos.

–- Sou a garota dos lobos afinal – Nisso Misha saltou para cima dele e lhe deu um arranhão profundo no braço. Ele urrou de dor e Haryan aproveitou para fugir. Victor a esperava lá fora. Correram para a moto e em seguida para o apartamento dele. Haryan olhou para trás e Misha os acompanhava, correndo um pouco atrás deles. Sorriu.



Notas finais
Gente obrigada pelos comentários *-* espero que continuem gostando e comentando ! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.