O Shepherd Errado
1 Parte I
Notas iniciais
O que ela tinha na cabeça quando decidiu que morar com Amelia seria uma boa ideia? Era como viver com um Derek Shepherd Edição Feita Sob Medida Para Tirar a Meredith do Sério. Ela era irritante, deixava as portas abertas o tempo todo, falava demais, era muito sentimental e dona de uma teimosia que só podia estar no sangue. No entanto, para compensar, a convivência com a morena não era feita só de coisas ruins: as crianças eram apaixonadas por ela, e ela era uma boa ouvinte, mesmo que nada boa com conselhos ― não que Meredith fosse dar ouvidos de qualquer forma ―, Amelia era impetuosa, apaixonada, exatamente como Derek, e elas iam juntas para o hospital todas as manhãs, conversando ou ouvindo o rádio. Maggie e Alex estavam lá também, é claro, mas Amelia ocupava o banco da frente e fazia os comentários mais perspicazes. Ah, senso de humor, mas é claro que ela tinha isso também.
As duas brigavam o tempo inteiro, como cão e gato, desde as brigas e implicâncias mais estúpidas que se pode imaginar ― como pelo fato de Amelia trancar a porta e dar apenas uma volta na chave, não duas, ou lavar os pratos antes dos copos ― até suas diferenças mais gritantes e todo o remorso que a morte de Derek havia deixado.
― Você é igualzinha ao seu irmão! ― Meredith dizia.
― Isso foi um elogio? Porque você era casada com ele, então... ― respondia Amelia, com um sorriso astuto.
― Cala a boca!
Mal dava para contar as vezes em que Grey havia expulsado ela de casa e voltado na decisão no mesmo dia. Amelia nem se incomodava em ir pegar suas coisas mais.
Era uma sexta-feira, elas haviam discutido mais cedo, para variar, e, mais uma vez, Amelia havia sido expulsa de casa. Ela esperou no hospital até ficar de madrugada, bastou o relógio apontar duas da manhã e ela abriu a porta, foi caminhando lenta e silenciosamente no escuro até a cozinha quando as luzes se acenderam, revelando Meredith, e uma garrafa de tequila com 1/3 de seu conteúdo, sentada no tapete perto do sofá.
― Pensei que tivesse te mandado embora ― disse a loira.
― Eu... só estava indo pegar as minhas coisas ― mentiu, parada no meio da sala como se estivesse congelada.
― Não, você estava indo pegar o pote de geleia na geladeira e deixar a colher em cima da pia sem lavar para as formigas aparecerem de manhã. Você sempre faz isso.
Então Mer deu o décimo sexto gole da noite, a este ponto a bebida descia feito água. Amelia riu, um pouco engasgada.
― Isso não é verdade! ― protestou, depois deu-se um momento para olhar para a mulher em sua frente.
Mer estava exageradamente bêbada. Amelia detestava vê-la assim, como se estivesse perdida e machucada, já haviam se passado quase dois anos. A neurocirurgiã não se incomodava em reconhecer o quanto se importava com aquela mulher, o quanto era grata por poder ser parte da vida dela e de seus filhos, mesmo Meredith sendo a pessoa mais complicada e imprevisível de todo o mundo. Amy aproximou-se, com passos curtos e lentos como quem tenta capturar um passarinho, e sentou-se ao lado dela, recebeu olhares de protesto, mas já estava acostumada. O controle remoto foi usado para apagar a luz novamente e a garrafa de tequila foi estendida para Amy, mas tomada de volta assim que Grey percebeu o que havia feito.
― Desculpa ― disse a loira, após um longo suspiro. ― Sinto falta dele.
― Eu também, pelo menos você pôde se despedir...
Meredith engoliu em seco. Elas já haviam tido essa discussão pelo menos um milhão de vezes, era sempre a mesma coisa: Amelia a culpava por não ter ligado antes de desligar os aparelhos, a culpava por não ter podido estar lá para ver seu irmão partir, era como se Meredith tivesse o tirado dela para sempre, e ela não sabia como fazer para recuperar. Meredith pensou por um momento que as coisas estavam evoluindo, entretanto, o tom de voz de Amelia denotava outra coisa.
― Por que diabos você sempre tem que entrar nesse assunto? Ele já não está morto o suficiente para você? ― questionou Meredith, sem se importar com a ambiguidade da pergunta.
― O que nós estamos fazendo aqui?
― Eu estou bebendo e você me importunando com sua vida mal resolvida.
― Não foi isso que eu quis dizer. ― Elas se entreolharam por segundos. ― Nós duas, eu e você. O que estamos fazendo? Morando na mesma casa, como se tudo estivesse bem, como se não houvesse um grande abismo, um abismo que ele deixou, que nunca vai ser preenchido e isso está nos destruindo aos poucos.
Houve um momento de silêncio, um longo momento, era como se elas tivessem apostando quem resistiria ficar mais tempo sem dar uma resposta afiada, até que Meredith disse, finalmente:
― Você tem razão. ― E se calou.
― O que você acabou de dizer? ― perguntou Amelia, com um sorriso vitorioso nos lábios. ― Eu devia ter gravado.
― Devia mesmo, porque não vai ouvir de novo ― disse Meredith, fazendo a morena rir. Ela tomou outro gole, deixando a garrafa escorregar e um pouco de tequila escorrer pelo canto de sua boca.
Amy tirou a bebida de suas mãos e pôs em cima da mesa de café, logo em seguida olhou para Meredith e tocou seu rosto de forma branda, deslizando o polegar sobre o rastro de tequila em seu queixo, limpando. Os olhos delas se encontraram no processo, e foi como uma grande onda se quebrando na beira do mar e voltando depressa para o oceano. Não sabiam como romper o contato, e Meredith tinha os sentidos entorpecidos, mas sua visão captou muito bem o modo com qual a luz fria daquela noite entrava pela janela e tocava gentilmente o rosto da mulher em sua frente, fazendo os olhos dela se tornarem translúcidos. Era demais para ela conseguir resistir, foi se inclinando tão lentamente que mal percebia o que seu corpo estava fazendo. Amelia abriu a boca e então a fechou, como se quisesse protestar, mas não o fez, ela simplesmente esperou que suas bocas se encontrassem para entreabrir os lábios e sentir seu corpo se arrepiar por inteiro.
Levou alguns segundos para elas recuperarem a consciência. Amelia acordou primeiro e afastou-se gentilmente, tentando processar o que havia acabado de acontecer e garantir de que não era tudo fruto da sua imaginação. Mas afinal, por que ela estaria devaneando sobre beijar a viúva de seu irmão?
― O que foi isso? ― A pergunta era mais para ela do que para Meredith.
― Seus olhos são tão parecidos com os dele ― desculpou-se.
Alguma coisa nessa frase fez o estômago de Amelia revirar, mas então ela começou a rir, uma risada descontraída e contagiante, Mer não resistiu a rir também, logo as duas estavam em gargalhadas no chão da sala, perdendo o fôlego.
― Isso foi muito estranho! ― disse Amelia, tentando controlar o riso e recuperar o ar.
― Muito. Céus, eu estou tão envergonhada!
― Acho que depois dessa eu deveria beber ― brincou. ― Você... é a esposa do Derek ― concluiu o óbvio depois de uma curta reflexão.
― Foi só um beijo, relaxa! ― disse Meredith, tentando alcançar a garrafa de tequila, mas desistindo no processo.
― Só um beijo ― repetiu. ― Não foi tão ruim, eu digo... Foi bom, na verdade...
― Sem dúvidas, foi... um bom beijo.
Meredith começou a perder-se nas palavras, praticamente engasgando-se nelas. Então se olharam novamente, foi a vez de Amelia tomar um gole de tequila, mesmo sabendo que jamais deveria ter feito isso e que o dia seguinte reservaria algumas pilhas de arrependimento. A distância entre elas foi eliminada novamente, Amelia colocou-se sobre Meredith, fazendo as costas da loira encontrarem-se com o chão. Suas bocas estavam unidas num beijo sufocado, repleto de urgência e desejo, por um momento, foi como se o resto do mundo não estivesse ali, apenas as duas e suas mãos por todas as partes. Até a luz ser subitamente acesa e elas separarem o mais rápido que conseguiram.
Alex Karev estava parado entre o arco da sala com aquela cara de paisagem que só ele sabia fazer.
― Hm... Eh... ― gaguejou. ― Eu e Jo brigamos, eu só... Ah, vocês sabem, eu tenho a chave. Boa noite!
Ele apagou a luz e subiu as escadas num piscar de olhos. As duas mulheres ficaram de pé no meio da sala, ambas com os corações acelerados, até Meredith ir cambaleando para seu quarto, mas antes ela parou no começo da escada e olhou para Amelia, que não havia sequer saído do lugar.
― Até amanhã... ― despediu-se e subiu.
“Nem me fale sobre isso”, pensou Amelia. Como ela poderia dormir depois do que havia acontecido? Sua sorte fora aquele gole de tequila tê-la deixado sonolenta. Mas o dia seguinte ela precisaria encarar estando sóbria.
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