O Sequestro de Novec

1 Ganho um hambúrguer de uma Deusa


Notas iniciais
Espero que goste, não esqueça de comentar. Obrigado, por estar aqui.

Olhei fixamente para a lixeira onde o fogo ardia, aquilo nos aquecia nas quase frias noites de Manaus, eu não tinha um relógio mas podia chutar que já eram quase quatro da manhã. Minha camisa estava suja o suficiente para eu ter nojo de olhar para ela, mas o que podemos fazer? Eu estava sentado em minha caixa de papelão, não muito confortável, confesso, mas depois de muito tempo ela até que é aconchegante.

— Sem sono, Pedro? – Perguntou uma voz atrás de mim.

Virei rapidamente, o que me deixou tonto, com os olhos piscando e meu corpo buscando estabilidade, levantei e disse:

— Quem é?

— Ah, não lembra mais de mim? Se bem que, pra vocês humanos o tempo é estranho mesmo, pra mim parece que foi ontem que te vi, literalmente falando. Então, é aqui que você mora?

— Quem é você? – Perguntei novamente.

— Ah claro, sou Lindera. – Disse ela, fazendo um movimento demonstrativo com as mãos. Ela estava de pé e era um pouco mais baixa que eu, mas tinha uma cara séria de “não mexe comigo ou te quebro”. – Foi bem mais fácil encontrar você por causa do fogo. Acho que não contei que sou a deusa do fogo, contei? Bom, olá, eu sou Lindera, deusa do Fogo e da Guerra.

— O que? – Perguntei.

— Você é muito lento, garoto. Não sei como Delísio te escolheu pra uma coisa tão arriscada. – Disse ela bufando.

Agora que minha visão estava em foco, pude ver a mulher com precisão, ela tinha aproximadamente uns vinte anos, seu cabelo era escuro e seus olhos de um tom de mel, a pele era bronzeada e com a luz que vinha do fogo, era quase alaranjada. Mas deusa? Não lembro de ter bebido nada alcoólico, ou será que ela bebeu? A minha reação foi essa: eu ri.

Percebi que a moça não havia reagido bem. Ela estreitou os olhos e bufou.

— Escuta aqui, eu vim aqui pra te ajudar, ou você para com isso ou você vai ter que fazer tudo sozinho.

— O que você quer comigo? Eu te devo algo? Acho que você tá me confundindo com Seu Carlos, ele que vive pedindo coisas emprestadas dos comerciantes. – Eu disse, apontando pro senhor que dormia no papelão ao lado.

— Garoto, eu vou te bater. E eu sou a deusa da Guerra, você não sabe o quanto isso pode doer. – Disse ela me frisando, senti um calafrio.

— Para com isso de deusa, se você é mesmo, me dá... deixa eu ver, um hambúrguer. – Eu disse fitando-a.

E o hambúrguer apareceu em sua mão. Não pude deixar de cair o queixo, acho que deixei sair um “uau”.

— É, você é uma deusa. Agora me dá o hambúrguer.

— Sua definição de divindades é estranha. – Disse ela rindo. – Você poderia pedir que eu incendiasse o parque, ou fizesse o fogo cantar uma incrível música pop.

— Hm, isso parece legal, mas estou com fome. Me dê o hambúrguer.

— Só lhe dou se você aceitar conversar. – Disse ela com o hambúrguer na mão. Minha resposta foi imediata, concordei com a cabeça. – Vamos conversar ali naquela mesa.

Andamos até lá e eu pensei em como poderia ter surgido um hambúrguer lá. Mas tem louco para tudo, eu só queria o hambúrguer, depois eu ia correr. Sentamos um de cada lado da mesa de xadrez do parque onde os idosos vinham jogar nas quintas. Aqui deveria estar mais escuro por estarmos longe do alcance da luz do fogo, mas ela irradiava uma luz.

— Bom, a primeira coisa que você precisa saber é que: existem deuses. Segundo: você está designado para uma missão suicida que vai salvar esses deuses. – Ela disse.

Pensei na ideia. Isso tudo era como um balde de água gelada na cara, franzi as sobrancelhas e fingi concordar, eu realmente ia correr depois que ela me desse o hambúrguer.

— Pedro, você precisa encontrar uma divindade desaparecida, ele é importante. – Disse ela calmamente.

— Hm, explique. – Disse fingindo interesse na conversa e não no suculento hambúrguer.

— O nome dele é Novec. Ele não é bem um deus, ele é mais que isso, bom, ele é o pai dos deuses. Acontece que ele estava dormindo, porque criar deuses é realmente cansativo, mas então ele acordou. E ninguém sabe onde ele está, nem mesmo os deuses de localização e profecias. Ele sumiu do mapa. – Disse ela com pesar.

— E onde eu entro nessa história? – Perguntei.

— Aparentemente, ele deixou um recado pros deuses. – Ela tirou um papel bege do bolso da calça jeans e me deu.

Criar deuses é chato, vocês são super ingratos, não tem comida para gato, vou para o meio do mato, chame o Pedro no parque ele é um mendigo, rato, prato.

— As rimas são horríveis. – Eu disse.

— Concordo. – Ela disse e pegou o papel de volta. – Você vai ter que encontrar ele.

Ela pegou outro papel do bolso, era bem pequeno, mas ela abriu e foi ficando maior, até cobrir quase toda a mesa.

— O Mapa de Velos, vai ajudar você, é tudo o que eu sei. Você deve começar imediatamente, Pedro, boa sorte. – Ela levantou e me olhou, com um sorriso ela disse: – A proposito você é filho de Linos, deus da Medicina e outras coisas, ele que deveria dizer isso pra você mas, tive que quebrar o protocolo para essa missão. Vá, você tem a minha benção.

E então ela evaporou e sumiu, tudo ficou escuro, mas pude distinguir a forma do hambúrguer, peguei-o e dei uma mordia e então eu corri.

Peguei o hambúrguer e deixei-o ao lado de Carlos, o velho senhor dormia encolhido em um lençol de trapos, o dia já já amanheceria e eu deveria partir agora.

— Aqui, amigo, coma isso. – Disse em voz baixa para ele, não que ele estivesse escutando, mas, bom, eu disse.

Tirei o mapa do bolso, era velho e fedia, quando desdobrei da primeira vez, era o mapa múndi, mas continuava dobrado, então desdobrei novamente, e era o mapa do Brasil, e depois da região Norte, depois do Amazonas, depois de Manaus e finalmente, lá estava o parque, agora o mapa estava grande demais e o dobrei de volta ao nível cidade. Nele haviam várias inscrições como: Lugar Favorito; Ultima vez que foi visto; Ele jurou atear fogo a esse lugar; Ótimas promoções de café orgânico. Todas escritas em vermelho e circuladas.

— Vamos pra mais próxima então. — O mapa mostrava que ficava ali perto, num café do Centro, estava como Ele adorava esse lugar.

Era capaz que eu encontrasse algo lá. Comecei a andar, o sol já havia nascido e castigava a todos com seu calor infernal, eu podia sentir meu corpo transpirar. Andei bastante, parecia que o local nunca chegaria, mas chegou, e lá eu estava, no centro histórico, cercado por casas bonitas antigas e pintadas de cores pasteis, menos uma, a tinta descascava e algumas janelas tinham papelão para tapar os buracos. Uma placa pendia na entrada. Eu entrei no Café Bom Dia. O nome não é nada sugestivo.

— Licença, posso falar com o senhor? — Eu disse a um homem que estava sentado numa cadeirinha de madeira e apreciava sua pequena TV.

— Se for pedir comida, ainda não temos sobras. — A voz dele era grossa e roca.

Eu me senti ofendido, eu não fui ali para comer, só ia comer algo se ele oferecesse! Então eu disse em um tom mais alto:

— Por algum acaso você conhece algum Novelha, Nobel, ou Novelo? — Perguntei.

Ele se virou e me encarou, me olhou de ponta a ponta, ele me julgava, tinha certeza disso, e com um dar de ombros, como se "é, ele não é bom mas deve servir" ele me disse:

— Você deve ser Pedro. Finalmente você veio. Venha garoto, sente-se aí, eu vou pegar uma coisa pra você. — E ele foi correndo para a cozinha.

Na mesa que ele estava usando tinha bolinhos e pães, sentei lá e comi. Eu disse que só comeria se ele oferecesse. Ele voltou correndo do mesmo jeito e disse:

— Aqui, pegue.

Ele me deu uma carta fechada. Eu não era muito bom em leitura mas mesmo assim tentei, quando passei a mão pela carta, ela esquentou. Abri-a.

Pedro, parece que você começou a tentar,

Para me achar, você deve iniciar

Pelo Teatro e achará

Duas pessoas que serão suas amigas (não rimou, mas continue lendo!)

Eles devem lhe ajudar, boa sorte, venha logo! Agora!

— Ele realmente vai brincar comigo? — Perguntei. Coloquei uma fatia de bolo entre dois papeis e embrulhei para viagem. — Qual o seu nome?

— Yukkarv. — Ele disse se aplumando. Eu não entendi nada.

— Hm, obrigado, Yucacarvo. — Eu disse sorrindo e me levantando.

— Yukkarv. — Disse ele corrigindo-me.

— Isso mesmo! Antes de eu ir, você é como eu?

— Filho de um deus? Não, não. Sou uma divindade menor, sou um deus menor, sou deus do Café.

Evitei um riso.

— Ah, e você mora aqui?

— Não, eu moro bem longe daqui, mas tudo isso faz parte do plano. Agora vá, garoto! — Ele disse entusiasmado.

Ontem ganhei um hambúrguer de uma deusa do fogo e guerra, hoje bolo e um café do deus do Café. Acho que estou gostando disso. Fui andando até o Teatro, que não era longe dali, haviam vários turistas de diversos lugares do mundo falando coisas estranhas, continuei andando e comendo pedaços do bolo. Já estava na frente do teatro, não sabia como eu iria passar, eu era um mendigo.

Tive uma ideia.

Andei mais e cheguei a uma das portas de acesso, estava escrito Atores e Produção, tinha um homem forte guardando a porta, ele lia seu jornal. Se você quer passar por um lugar sem demonstrar nada, passe com confiança, como se soubesse onde estava e o que ia fazer. Mas, não deu certo.

— Ei, ei. O que você está fazendo. — Ele disse quando eu estava a um pé de entrar no Teatro. Ele se aproximou de mim. — Nossa, você está fedendo!

Pensei rápido e disse:

— Eu sou ator, esse é meu figurino, eu estava ensaiando lá fora, mas acho bom falar com o diretor que eu odiei essa roupa. — Eu disse isso naturalmente.

Ele franziu as sobrancelhas, era meu fim, nem comecei a missão e já fracassei.

— Ah claro. Tenha um bom dia, senhor. — Ele sentou-se e voltou a ler seu jornal. Ele era um homem de meia idade, de pele morena e cabelos escuros.

Não disse nada, entrei. Aquela era uma entrada de serviço, mas mesmo assim era lindo ali. Eu poderia ficar apreciando o local para sempre. Mas ouvi um grito vindo de longe, de mais a dentro do Teatro.

— MATA ELE! PEGA A FLECHA! AAAAAH.

Corri para ver o que acontecia, quando cheguei a origem do som, não gostei do que vi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.