O Senhor de Gondor
4 Capítulo 4 - O Arruaceiro
Orthanc era imensa e vazia por dentro, o único lugar onde a natureza ainda não havia tocado. Subindo os degraus à frente, Wallor notou um pergaminho no chão. Próximo a ele, um galho espesso avançava pela pedra, vindo de Barbárvore, como se o Ent tivesse tentado, lentamente, alcançar o papel.
Aratus aproximou-se e desenrolou o pergaminho.
— Curioso…
— O que diz aí? perguntou Wallor.
— É uma língua antiga. Língua Negra.
— Você consegue ler?
— Não. Mas conheço alguém que talvez consiga.
Guardou o pergaminho no bolso e lançou um último olhar ao salão silencioso.
— Não sei por quê, mas sinto que isso é importante.
Despediram-se de Barbárvore e partiram ao nascer do sol. A viagem foi longa e cansativa, pela Velha Estrada do Sul e depois pelo Caminho Verde, até alcançarem Bree. Apesar da exaustão, nada os perturbou no caminho.
Ao chegar, Wallor percebeu que o povo não parecia exatamente acolhedor. Bree estava cheia de homens e anões. Estes últimos, no entanto, quase se confundiam com humanos. Ao longo dos anos, os anões haviam crescido em estatura, especialmente depois das expedições ao Mar do Norte, de onde retornaram com histórias sobre deuses antigos. Ainda eram um pouco menores que os homens, mas suas barbas enormes e modos rudes os tornavam inconfundíveis.
Aratus conduziu o grupo até uma construção chamada Pônei Saltitante. À primeira vista, parecia apenas uma taberna de madeira antiga, bem conservada. Ao entrarem, porém, ficou claro que também funcionava como hospedagem.
Os olhares no salão se voltaram para eles, acompanhados de murmúrios. Um homem, em especial, chamou a atenção de Wallor. Estava recostado numa cadeira, com os pés sobre a mesa, rodeado por canecas vazias. Dormia profundamente, roncando como se o barulho ao redor não existisse.
Aratus também o notou.
Aproximaram-se da mesa. De perto, Wallor percebeu que o homem tinha uma barba ruiva volumosa, botas enormes de couro grosso e cabelos longos, raspados nas laterais, lembrando a crina de um cavalo.
Aratus cutucou-o.
O homem despertou em sobressalto, caiu da cadeira e bateu a cabeça no chão.
— Quem é o patife miserável que me incomodou? Quer briga?
— Acalme-se, homem… ou devo dizer, anão? disse Aratus.
Wallor então notou que ele era apenas alguns centímetros mais baixo que Aratus.
— Aratus? Por Odin, há quanto tempo!
— Quem é ele? murmurou Wallor.
— Quem sou eu? Você não me conhece, garoto?
— Não, senhor.
O meio-anão estufou o peito.
— Eu sou Glorick, o Arruaceiro.
Aratus imitou a pose discretamente, como quem já ouvira aquela apresentação inúmeras vezes.
Um forte cheiro de hidromel acompanhava cada palavra de Glorick.
— Parece que passou da conta hoje, comentou Aratus, olhando para as canecas.
— Anões nunca passam da conta. Bebemos como se fosse água. Mas me diga… como foi sua missão?
Aratus apontou para Wallor.
— O resultado está bem na sua frente.
Glorick cuspiu a bebida no ar.
— Ele é o rei?!
Algumas conversas cessaram ao redor.
— Fale baixo, sussurrou Aratus. Este não é um lugar seguro.
Subiram para o quarto. Glorick entregou algumas moedas a Aratus, como se tivesse perdido uma aposta. O aposento era amplo, com várias camas e um tapete circular vermelho e branco no centro.
Ali, contaram tudo o que havia acontecido e quais eram os próximos passos.
— E aquele homem? Você tem notícias dele? perguntou Aratus. Ele poderia nos ajudar.
— Não era por isso que viemos a Bree? questionou Barad.
— Não. Glorick é apenas um velho amigo que reencontrei por acaso.
— Você fala daquele? Não sei se ele vai querer se envolver novamente, comentou Glorick.
— Vai sim. Agora encontramos o herdeiro que ele acreditava estar morto.
Glorick cruzou os braços, pensativo.
— Talvez…
— Onde ele está? perguntou Hildwyn.
— Da última vez que soube, estava no Condado.
— Então partiremos amanhã, decidiu Aratus.
— As chances de encontrá-lo ainda lá são pequenas. Guardiões nunca param muito tempo no mesmo lugar.
A palavra atingiu Wallor como um sino distante.
— Guardião?
— Sim. Um dos poucos que ainda restam.
Memórias antigas emergiram. A espada daquele homem que o salvara na infância. As inscrições élficas. Wallor puxou a pequena faca da bainha. O mesmo tipo de escrita marcava o cabo.
Hildwyn bocejou.
— Amanhã decidimos o resto. Preciso dormir.
Glorick despediu-se e saiu. O cansaço venceu o grupo rapidamente. Antes de adormecer, Wallor ainda viu Aratus parado junto à janela, observando a chuva cair.
Na manhã seguinte, pássaros cantavam no ar úmido. As estradas estariam enlameadas. Precisariam de cavalos.
Enquanto organizavam as coisas, três batidas ecoaram na porta.
Barad foi atender.
Ao abrir, um homem de sorriso amarelado estava diante dele, acompanhado por dois orcs. O ataque foi imediato. Barad conseguiu fechar a porta a tempo, mas a espada atravessou a madeira, ficando cravada do outro lado.
Gemidos e grunhidos ecoaram no corredor.
Silêncio.
A porta foi arrebentada.
Glorick surgiu no vão, machados em mãos.
— Andem! Este lugar está infestado de orcs. Dá pra sentir o fedor deles de longe!
Seguiram até o salão principal. Orcs dominavam o local. O dono da taberna estava rendido, uma lâmina pressionada contra sua garganta. Alguns dos homens ali eram os mesmos da noite anterior.
— Entreguem o garoto, ou ele morre.
O taberneiro chorava, implorando.
A imagem trouxe lembranças amargas. Pessoas mortas. Culpa antiga.
— Eu vou me entregar, disse Wallor.
— Está louco? reagiu Aratus.
— Não vou permitir que mais ninguém morra por minha causa.
Antes que alguém pudesse responder, dois machados voaram e derrubaram os homens que seguravam o taberneiro.
Glorick saltou para a frente como uma tempestade, recolhendo as armas no ar.
— Estão esperando o quê? Um convite?
A batalha explodiu.
Glorick movia-se com brutalidade e precisão, usando mesas como escudos, corpos como barreiras, machados como extensão do próprio ódio. Um orc tentou arrancar um machado cravado num inimigo.
— Tire… essas… mãos… imundas… do meu machado!
Cada palavra vinha acompanhada de um golpe.
Em pouco tempo, o salão estava tomado de corpos e respiração ofegante.
O taberneiro agradeceu, embora lamentasse a destruição. Compraram cavalos e partiram rumo ao Condado.
Durante o trajeto, Wallor conversou com Glorick sobre sua família. O anão falou das viagens marítimas, das minas ricas, da construção de barcos, do crescimento do próprio povo.
— Alguns dizem que foi um presente de Odin, concluiu, orgulhoso. Outros até passaram a se chamar de vikings. Mas nós somos da casa de Durin. Somos anões.
Ao fim de dias de viagem, chegaram ao Condado.
E a recepção estava longe de ser calorosa como diziam.
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