O Senhor de Gondor

2 Capítulo 2 - Destino


Quando abriu os olhos, Wallor percebeu o brilho do sol atravessando a pequena janela acima da cama, fazendo reluzir o lençol branco que o cobria. Levou a mão ao rosto e esfregou os olhos, ainda entorpecido. Do lado de fora, o canto dos pássaros chegava suave, quase irreal. Uma dor intensa pulsava em sua cabeça; ao tocá-la, sentiu as faixas que envolviam o ferimento.

Sentou-se na cama e apoiou os pés no chão frio de madeira. O quarto era simples, mas acolhedor. Havia vasos de flores espalhados pelos cantos, bacias com água limpa e panos dobrados sobre um pequeno banco. Deu alguns passos com cautela, a mão ainda pressionando a cabeça dolorida.

A porta se abriu, e uma garota loira de olhos esverdeados, levemente amarelados, entrou carregando uma bandeja com um recipiente cheio de água. Tinha idade próxima à dele. Ao vê-lo de pé, deixou a bandeja cair no chão, produzindo um estrondo, e levou a mão à boca, assustada.

— Você acordou!

— Onde estou? perguntou Wallor, confuso.

— Papai! O garoto acordou! gritou ela, virando-se para o corredor.

Pouco depois, um homem de cabelos negros e curtos, barba cerrada e porte forte entrou no quarto. Aproximou-se com passos firmes.

— Você está bem, garoto?

— Acho que sim… minha cabeça dói muito.

— Não é para menos. A pancada foi feia. É quase um milagre você estar vivo.

— O que aconteceu comigo?

— Ela o encontrou, disse o homem, lançando um olhar à garota. Estava boiando num riacho aqui perto. Ela o trouxe sozinha até nossa casa.

Wallor inclinou levemente a cabeça em agradecimento.

— Obrigado.

A garota respondeu com um sorriso tímido.

— Então, quem é você? O que aconteceu? perguntou o homem.

Wallor hesitou.

— Meu nome é… eu não me lembro. Na verdade, não lembro de nada.

Nesse instante, outro garoto entrou no quarto. Era loiro, de cabelos longos, um pouco mais velho que a menina.

— Então o dorminhoco acordou.

— Este é Barad, meu primogênito, explicou o homem. E esta é Hildwyn, minha filha mais nova. Eu sou Karick.

Conversaram por um longo tempo. Explicaram que Wallor havia permanecido desacordado por quatro dias. Falaram também da mãe das crianças, uma mulher de Rohan, o que explicava os cabelos claros dos filhos, tão diferentes do pai, de traços típicos de Gondor. Ela havia morrido recentemente, assassinada por um orc.

— Esses malditos orcs tinham desaparecido por séculos, dizia Karick, com a voz carregada de ira. Viraram quase lenda. E agora retornam em número absurdo, tomando Gondor. Às vezes aparecem por aqui, mas temos sorte de viver além das montanhas. O rei agora é Eithor.

— Eithor? repetiu Wallor.

— Sim. Nosso rei, Guildor, morreu em batalha. Eithor tomou o trono junto com seus orcs. Nosso povo foi escravizado.

Karick então pousou a mão no ombro do rapaz.

— Agora descanse. Sua cabeça já sofreu demais. Mas diga… como devemos chamá-lo, cabeça enfaixada?

Wallor olhou pela janela. Um pássaro pousou no parapeito. Uma lembrança fragmentada atravessou sua mente: um homem, uma voz distante, a palavra “Wallor”, e a sensação de estar sendo salvo.

— Wallor… acho que esse é o meu nome.

— Nome forte, comentou Barad, rindo. Podemos chamar de Wall?

— Pode.

Hildwyn trouxe então uma faca elegante, com o símbolo de Gondor gravado na bainha.

— Isto foi encontrado com você.

— Isso lhe traz alguma lembrança? perguntou Karick.

Wallor observou o brilho da lâmina refletindo em seu rosto.

— Não.

O tempo avançou como um rio silencioso. Wallor passou a viver com aquela família, acolhido como um filho. Ajudava cortando lenha, caçando, aprendendo a sobreviver. Karick treinava os jovens no manejo da espada sempre que podia. Dizia que não desejava que lutassem, mas que saber se defender era uma necessidade.

Wallor demonstrava talento natural com a lâmina, como se o corpo lembrasse de algo que a mente havia esquecido.

Onze anos se passaram quase em paz naquele vilarejo esquecido, feito de casas de madeira e poucos comércios. As pessoas eram simples, sorridentes. Ele criou raízes, amizades, histórias.

Wallor cresceu. Os cabelos caíam sobre os ombros, a barba curta moldava o rosto. Barad tornara-se um homem alto e orgulhoso, de longos cabelos. Hildwyn transformara-se numa mulher forte, admirada por muitos, destacando-se entre os moradores de cabelos escuros herdados de Gondor.

Numa tarde, Wallor e Barad estavam sentados numa mesa de madeira na taberna ao ar livre, à beira da estrada principal. Hildwyn aproximou-se, tomou a caneca de Wallor e bebeu um gole.

— Hidromel?

Ela bateu a caneca na mesa, fazendo respingar a bebida de Barad.

— Ei, isso era meu!

— Você me devia um.

Barad protegeu o próprio copo como se fosse um tesouro. Os três riram. Eram irmãos de escolha.

Pouco depois, uma mulher passou correndo pela estrada com uma criança nos braços.

— Orcs! Orcs aqui!

Ao longe, um homem montado num cavalo negro avançava, acompanhado de seis orcs. Espantavam moradores, chutavam portas, proclamando a posse da vila em nome do rei Eithor.

O cavaleiro aproximou-se de Wallor.

— Saiam do caminho.

— Não, respondeu Wallor, firme.

O homem desmontou, puxando a espada.

— Está desacatando as ordens do rei?

Barad posicionou-se ao lado de Wallor. Hildwyn ficou logo atrás.

— Ajoelhe-se.

Wallor começou a ceder, mas num movimento rápido tomou a espada da mão do homem e a apontou para seu rosto.

— Ajoelhe-se.

Os orcs avançaram. O combate explodiu como faísca em palha seca. Wallor e Barad derrubaram os inimigos com precisão. Não eram Uruk-hai. Faltava-lhes técnica, sobrava brutalidade.

Quando o último orc caiu, o homem agarrou Hildwyn pelo pescoço.

— Larguem as armas ou ela morre.

Wallor trocou um olhar com Barad. Ambos riram.

Hildwyn pisou no pé do agressor e mordeu sua mão. A faca caiu. Ele se ajoelhou, implorando.

— Vá embora, ordenou Wallor. Nunca mais volte.

O homem tentou atacar novamente, mas Wallor foi mais rápido e decepou-lhe a mão. O sangue desenhou um rastro pela estrada enquanto ele fugia.

A vila celebrou naquela noite.

Mais tarde, à luz da fogueira, Barad notou um homem observando Wallor. Tinha uma cicatriz profunda cruzando o rosto.

— Ele não tira os olhos de você.

— Não é daqui, comentou Wallor.

— Talvez esteja interessado em você, brincou Barad.

Antes que respondesse, Hildwyn o puxou para dançar. Wallor, constrangido, errou passos e afastou-se ao fim da música.

No meio da multidão, uma mão forte segurou seu braço. Era o homem da cicatriz. De perto, parecia mais velho do que aparentava.

O homem pressionou o polegar na testa de Wallor.

— Wallor?

— Sou eu.

O estranho cravou a espada no chão e se ajoelhou.

— Meu senhor.

— Levante-se. Foram só alguns orcs.

O homem o observou atentamente.

— Quantos anos você tem?

— Dezenove.

— A idade está certa… o rosto também. Você bateu a cabeça?

— Sim. O que você sabe sobre mim?

— Você é Wallor, filho de Guildor. Herdeiro de Gondor.

O mundo pareceu inclinar-se por um instante.

— Isso não pode ser verdade.

Barad aproximou-se, atônito.

— Ele é Aratus, explicou o homem. Escudeiro de Guildor. Seu padrinho.

Mais tarde, na taberna, Aratus contou sobre a queda de Gondor, sobre Eithor, sobre a última resistência, sobre a cicatriz que quase lhe roubara a vida.

Wallor começou a lembrar fragmentos: a cachoeira, a faca, a voz que o chamara de última esperança.

O peso da verdade pousou sobre seus ombros como uma armadura invisível.

— Reúna um exército, insistiu Aratus. Seu povo espera por você.

Wallor olhou pela janela. Viu Hildwyn dançando, Karick rindo, Barad erguendo a garrafa.

— Meu lar é aqui.

Aratus baixou a cabeça.

Na manhã seguinte, contaram tudo à família. Karick ponderou, Hildwyn provocou, mas todos compreenderam.

A decisão ainda ardia dentro de Wallor como uma brasa que se recusava a apagar.

Notas finais
1 - Hildwyn, significa "Guerreira" na língua de Rohan.