O Segredo de Janis | Supernatural Fanfic
2 Quem avisa...
Foram mais de 35 horas dirigindo, com apenas uma parada de quatro horas para dormir um pouco.
Janis estava exausta, mas chegar até Silverton era só a parte fácil da sua missão.
À primeira vista, Silverton era apenas uma pequena e pacata cidade do interior. Ficava no meio das montanhas rochosas, aninhada em um vale, rodeada de florestas e parques nacionais. Parecia ser um excelente lugar para esquiar no inverno, o que deveria atrair muitos turistas, mas naquele momento do ano, verão, parecia uma cidade fantasma.
Desde que havia entrado na cidade até chegar à praça central onde ficava a prefeitura, Janis só tinha passado por dois carros e um punhado de pessoas caminhando nas calçadas, o que a fez deduzir que o motivo era a baixa estação. Mas isso foi só até ela passar em frente à delegacia e encontrar uma multidão.
Parecia que toda a população da cidade estava reunida ali. As pessoas tinham armas enormes nas mãos e deveriam estar se preparando para caçar alguma coisa grande. Em cima de uma caminhonete, Janis viu a maior concentração de armadilhas de urso da sua vida. O xerife da cidade sinalizou para que ela parasse o carro e se aproximou:
— Bom dia. – ele a cumprimentou de forma educada – O acesso aos parques está fechado por tempo indeterminado.
— Pode ficar tranquilo, porque eu só vim visitar uns, er... – ela pensou em uma alternativa para 'caras que vão morrer em breve' e disse – uns amigos.
— Ótimo! – ele respondeu enquanto a encarava através dos óculos aviador – Contanto que vocês fiquem dentro de casa, estarão seguros. Houve ataques de urso nas redondezas, mas nós já estamos cuidando disso.
Pelo tamanho das armadilhas e quantidade de armas, estava mais para ataque de King Kong, mas ela guardou aquele pensamento para si mesma.
— Entendi. – comentou – Então, obrigada e... boa caçada.
Com um aceno de cabeça, o xerife se despediu, voltou para o meio da multidão e Janis seguiu em frente.
Até aquele momento, ela não tinha se permitido pensar muito no que estava fazendo, mas ver a multidão armada fez alarmes soarem em seus ouvidos. Ela não queria admitir, mas no fundo sabia que não era coincidência os dois homens estarem ali exatamente naquele dia.
Ela se afastou da praça da cidade, sempre seguindo as instruções de seu GPS. Não demorou para que chegasse ao Motel Sunshine e, como o resto da cidade, o lugar estava meio deserto. No estacionamento só havia uma SUV vermelha e um carro antigo preto que ela de alguma forma sabia que pertencia aos irmãos.
Janis estacionou o mais perto possível daquele carro que a sua coragem já meio abalada lhe permitiu. Saiu do próprio, tentou inutilmente desamarrotar o vestido que estava usando e caminhou até a porta onde sabia que eles estavam hospedados.
— Okay. – disse numa dose de coragem e bateu três vezes na porta.
O coração dela estava a mil. Por um momento, ela se arrependeu de ter ido até ali. Aonde estava com a cabeça? Tinha sido só um sonho! Era mais provável que ela estivesse ficando louca do que aquilo tudo ser verdade e os dois homens estarem mesmo ali. Ela poderia estar no meio de um surto psicótico naquele exato momento! Ela precisava urgentemente ir a um hospital.
Janis chegou a dar um passo para trás, na direção de seu carro, mas a porta do quarto se abriu. Na verdade, uma greta se abriu, e naquele pequeno espaço apareceu o rosto do homem de cabelos longos que ela tinha visto no sonho.
— Sam! – ela exclamou num misto de felicidade por não estar louca e com medo porque isso significava que todo o resto era mesmo real.
— Como você sabe meu nome? – ele perguntou desconfiado – Quem é você?
— Longa história! – ela riu sem graça ao perceber o erro que tinha cometido. Chamá-lo pelo nome tinha sido uma péssima maneira de começar o assunto. – Eu, hã, vim aqui para te contar uma coisa. Pode parecer meio louco, – ela riu nervosamente – mas eu ando tendo uns sonhos malucos, não eróticos ou qualquer coisa assim, sabe? E, na última vez, você estava nele! Olha só! E o outro cara também. O seu irmão. Dean o nome dele, né?
Os olhos de Sam ficaram alertas. Ele olhou em volta, para a vizinhança, depois voltou a encarar Janis.
— Vou te deixar entrar, você vai se acalmar e contar exatamente o que viu nesses sonhos, tudo bem? – ele quis saber.
— Me parece um bom plano. – ela concordou ainda mais nervosa, se é que aquilo era possível. E se ele fosse um psicopata? Ela devia ter bolado um plano melhor.
Sam abriu a porta devagar. Ele botou alguma coisa no bolso e depois mostrou as duas mãos livres para Janis que, sem ver outra forma de resolver aquilo, entrou no quarto.
Apesar de ser uma tarde ensolarada, o cômodo estava escuro porque todas as cortinas estavam fechadas. O ar estava pesado e havia areia branca espalhada pelo chão e perto das janelas. Em uma das paredes um mural enorme de recortes de jornal estava pendurado.
— Acolhedor. – ela disse com ironia na mesma hora que Sam fechou a porta do quarto e revelou o outro homem, que estivera escondido ali atrás. Na mão esquerda ele tinha uma faca de caça, na direita uma pistola, e ela estava apontada diretamente para a cabeça de Janis.
Janis gritou, e Sam entrou na frente dela.
— Dean, abaixa a arma. – pediu – Ela não é um demônio nem um metamorfo.
— Do que vocês estão falando? – Janis arfou atrás dele.
— Olha pra ela – Sam, ignorando Janis, pediu a Dean – e me diz se você realmente acha que ela é uma ameaça.
— Só porque ela é bonitinha e parece ser indefesa não significa que ela o é. – Dean olhou para arma, depois para o irmão, que ainda mantinha sua postura protetora, e a abaixou – Merda, Sammy! Você ainda não aprendeu que nesse trabalho não podemos confiar em nada nem ninguém?
— Olha, se te faz sentir melhor, podemos testá-la. – disse Sam – Só não aponte mais a arma pra ela.
Depois de um momento tenso, Dean assentiu. Ele colocou a faca num bolso interno da jaqueta e a pistola no cós da calça, nas costas, de forma que a jaqueta a escondesse. Então Sam se virou para Janis.
— Desculpe por isso. – pediu – Nós não somos os vilões, mas precisamos ter cuidado.
— Eu sei que vocês não são. – uma Janis estranhamente tranquila respondeu. Apesar de tudo, ela se sentia segura com aqueles dois. – Eu vi no meu sonho.
— Certo. – Sam continuou – Nós vamos falar sobre seus sonhos em alguns minutos. Mas primeiro você precisa fazer algumas coisas para mim, tudo bem? – ele a guiou até fazê-la se sentar em uma das cadeiras perto da mesa bagunçada, cheia de garrafas de cerveja e embaladens de comida vazias.
— Os testes. – ela disse e Sam assentiu. Mas antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa foi interrompido por Dean.
— Beba. – ele disse, colocando um copo cheio de água na frente de Janis. Sam o olhou feio, mas Dean apenas o ignorou.
— O que tem aí dentro? – Janis perguntou a Dean, não porque desconfiasse dele, mas porque queria entender o que estava acontecendo.
— H2O e algumas frases em latim. – ele respondeu e sorriu como se tivesse contado uma piada ótima. Sam olhou para ele como se dissesse "menos, por favor", o que fez o sorriso de Dean murchar na mesma hora.
— Pode beber. É só água. Como é seu nome? – Sam perguntou.
— Janis. – ela respondeu e levou o copo aos lábios. Nada aconteceu.
— Janis, tipo, Janis Joplin? – Dean quis saber, enquanto entregava para Sam uma faca pequena.
— Meu pai tinha muito senso de humor. – ela deu de ombros, enquanto observava Sam fazer um pequeno corte com a faca prateada em seu antebraço. Tirando o "ai!" que escapou de seus lábios, nada mais aconteceu. Ela continuou. – Ele dizia que eu, hã, era rebelde como ela. Não o mesmo tipo de rebeldia, claro! Já que eu não uso drogas. Na verdade, eu nunca entendi, apesar dele ter me garantido que um dia irei.
— Você fala do seu pai no passado. Aconteceu alguma coisa com ele? – Dean perguntou e ganhou um pisão de Sam que, para disfarçar o que tinha feito, se levantou e foi mexer em uma mochila em cima da cama. Janis achou aquilo muito engraçado, mas resolveu não comentar. Dava para ver o quanto aqueles dois eram companheiros.
— Ele desapareceu. – ela explicou olhando para Dean – Ninguém sabe o que aconteceu com ele.
Aquele tinha sido o maior trauma da vida dela. Gregory a tinha adotado quando era um bebezinho e, assim, se tornado pai solteiro. Ele era um vendedor que quase nunca estava em casa, mas era muito presente na vida de Janis. Ela o amava e jamais aceitaria o fato que um dia ele havia saído dizendo que voltava em três dias e nunca mais voltara.
— Sinto muito. – Dean disse – Tenho certeza que não foi por vontade própria que te ele deixou.
Dean puxou uma das cadeiras e se sentou de frente para ela. Já Sam estava sentado ao seu lado e tratava do corte que ele mesmo fizera com desinfetante e band-aid.
— Está tudo bem. – ela disse a Dean – Mesmo que eu nunca aceite, já superei o que aconteceu e levei minha vida adiante. Ele não ia querer que eu ficasse remoendo o assunto.
Sam e Dean trocaram um olhar cheio de significado.
Sam pigarreou.
— Mas Janis, – ele falou – você disse que sonhou com a gente.
— Sim. – ela concordou e explicou em detalhes os vários sonhos indistintos que tinha tido no último mês, culminando no de duas noites atrás. Ela tentou se lembrar o máximo possível de detalhes, principalmente sobre o local onde tudo iria acontecer, mas parecia estar tudo envolto em névoa. A única coisa que ela viu com clareza dentro do sonho foi os rostos dos dois irmãos.
Enquanto Janis falava, Sam permaneceu sentado ao seu lado fazendo perguntas ocasionais, mas Dean se levantou impaciente, e ficou andando de um lado para o outro, indo de vez em quando verificar a rua por uma greta entre duas cortinas.
— Basicamente, estamos fudidos! – ele disse quando ela terminou.
— Não é bem assim Dean. A visão não significa que o final vai ser desse jeito. Essa é só uma das cenas que compõe a situação como um todo. Talvez, se a Janis tiver mais visões, a gente consiga alterar os fatos e mudar o desfecho. Talvez seja por isso que ela está aqui.
— Peraí! – Janis, que estivera observando Dean, virou-se para Sam – Quer dizer que vocês sabem o que está acontecendo comigo?
Foi Dean quem respondeu.
— Parabéns Janis! Você é uma Profeta do Senhor! – ele disse, abrindo os braços e sorrindo ironicamente – Sua função é saber de antemão os vários modos pelas quais iremos nos ferrar!
— Profeta do Senhor? Você quer dizer, de Deus? – ela perguntou assustada.
— Pelo que você nos falou, existe uma grande chance de você ser sim uma Profeta de Deus. – Sam disse calmo, como se estivessem todos falando sobre o tempo – Nós vamos perguntar a um amigo nosso que... – Sam olhou para Dean. Foi sutil, mas ela percebeu a conversa silenciosa que os irmãos tiveram naquela troca de olhares – enfim, ele sabe dessas coisas melhor do que nós. – concluiu – Mas independentemente do que ele vai dizer, quero que saiba que somos agradecidos por você ter vindo de tão longe para nos avisar. E até sabermos ao certo o que está acontecendo, iremos te manter em segurança. Você está bem? É muita coisa para assimilar.
— Estou. – mentiu. Ela estava a ponto de ter um colapso – Um pouco sobrecarregada de informações, mas bem. – o que não era totalmente mentira – Então, se Deus é real, quer dizer que o diabo também é?
Sam trincou os dentes.
— Ele, hã... – começou a dizer mas Dean o interrompeu.
— Lúcifer é real. Assim como todo o resto: anjos, demônios, fantasmas, vampiros, lobisomem e mais uma porrada de coisas que você nem faz ideia que existe. – ele disse indo mais uma vez verificar a janela.
— Dean e eu somos caçadores Janis. – Sam explicou – Nós matamos coisas. É o nosso trabalho.
— Que, por falar nisso, chegou mais cedo. – Dean disse indicando a janela para Sam – Vinte anos atrás, um esquiador morreu durante uma avalanche nessas montanhas. E agora o seu espírito está matando todos os que, de alguma forma, tem a ver com o aquecimento global. – ele explicou para ela.
— Porque só agora? – Janis foi prática, mesmo que em sua cabeça houvesse mais um milhão de perguntas que com certeza eles não tinham tempo de responder naquele momento.
— Achamos que foi por causa do degelo desse ano, que foi muito maior que nos anteriores. – Sam explicou – O corpo deve ter ficado enterrado durante todo esse tempo, mas agora que está a céu aberto por assim dizer, o espirito está vingativo.
— E nós precisamos ir. – Dean disse, já segurando uma enorme bolsa preta – Se o espírito se irritou com uma mulher que foi colher flores silvestres, imagina o que não vai fazer com 100 pessoas armadas até os dentes.
— Dean tem razão Janis. Nós dois precisamos ir. Você fica aqui e descansa, mas de jeito nenhum saia do quarto. Nós vamos deixá-lo protegido.
Janis não discutiu. Foi até seu carro pegar sua bolsa escoltada por Dean. Trancou a porta quando os dois irmãos saíram e jogou o que ela descobriu ser sal na frente da porta (aparentemente, aquilo matinha os fantasmas do lado de fora). Então ela se jogou na cama de Sam e caiu em um sono profundo.
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