O Segredo Por Trás dos Olhos
4 Uma Dor Compartilhada
Notas iniciais
Acordei com o cheiro inebriante das famosas panquecas de minha mãe. O sol invadiu meu quarto por entre a cortina branca ainda fechada. Caminhei até o banheiro, ainda sonolenta, lavei meu rosto para logo depois olhá-lo no espelho com um leve sorriso nos lábios, estava me sentindo bem naquela manhã.
Meus longos cabelos escuros tinham pequenos cachos formados em suas pontas, contrastavam com minha pele clara... Penteei-os. Antes de sair do banheiro dei uma última olhada no espelho, encarei-me nos olhos pelo reflexo, meus grandes olhos castanhos. Outro sorriso. Talvez estivesse com a autoestima exageradamente elevada naquela manhã. Não ligava.
Desci a escada ainda descalça, dando bom dia para meu pai que finalmente arrumava nossa velha porta. Minha mãe estava logo ao lado, na cozinha, servindo o café da manhã. Sentei-me logo após desejar á ela um bom dia, ela me retribuiu com um belo sorriso.
Um barulho. A porta caíra no chão. Olhei assustada para trás procurando por meu pai, ele estava caído, a porta ao seu lado. Levantei-me desesperada gritando por ele.
– Pai... PAI, PAI! Tudo bem? – Ajoelhei-me ao seu lado virando seu rosto para olha-lo. A cena se passou como um déjà vu em minha mente. –Não, não... — sussurrei. — Mãe, me ajuda, o papai... – Ela não estava lá. — Mãe? MÃE? Não, não, não...
Levantei-me desnorteada procurando por ela, subi correndo as escadas... Ela não estava em lugar algum. Entrei no banheiro com pressa, abri a torneira e joguei água em meu rosto.
– Acorda, acorda! – Sussurrava em meio às lágrimas... Mais água... Mais água!
Olhei meu reflexo no espelho.
– Não, não, não... – Meus olhos estavam... Roxos.
Escuridão.
Acordei assustada, meu coração estava acelerado.
– Foi só um sonho... – disse pondo a mão sobre o peito tentando regular a respiração. – Tá tudo bem.
Acendi o abajur notando finalmente o quarto em que estava, e aquele não era o meu quarto... Quem dera tivesse sido apenas um sonho, para que eu não fosse obrigada a acordar e sentir aquele aperto no peito, a dor da realidade que me derrotava, meu pai estava morto e minha mãe desaparecida.
Olhei o relógio em cima da cômoda, 01h42min AM, ainda era madrugada. Voltei para cama na esperança que o sono me atingisse novamente, em vão, não consegui pregar os olhos!
Um barulho do lado de fora me chamou atenção, acho que não era a única acordada àquela hora. Abri com cuidado a porta apertando os olhos ao escutá-la ranger alto, se a ideia era não ser notada ela acabara de ir por água abaixo.
Caminhei cautelosamente pelo corredor até um cômodo iluminado. Me encostei no batente da porta escondendo meu corpo, deixando para fora o suficiente para enxergar o que acontecia lá dentro. Era o tal do Zool, parecia estar cozinhando algo. Considerei se devia entrar e falar com ele ou simplesmente voltar para o quarto e tentar dormir, porém antes que pudesse me decidir fui surpreendida por ele:
– Está servida, Tessa? Estou fazendo chocolate quente, tem o suficiente para nós dois. – disse com um sorriso no rosto.
– O-oi... – falei com um sorriso amarelo.
– Vai querer? – disse sacudindo levemente as canecas.
Fui até ele pegando uma delas e me sentei agradecendo.
Ficamos por alguns minutos em silêncio nos analisando disfarçadamente.
– Então, a cama do Lukke não te agradou? – me perguntou com o mesmo sorriso.
– Anh? N-não é isso... – disse sem graça – Tive um pesadelo e não consegui dormir mais... E você? Costuma assaltar a geladeira na madrugada?
– Ah, sabe como é, as coisas ficam mais gostosas na madrugada. – disse me olhando com um sorriso brincalhão agora.
Senti meu rosto corar, ele estava falando da comida ou de mim? E porque daquele sorrisinho?? Segurei firme a barra da camiseta que me cobria forçando-a para baixo, certificando-me que estava cumprida o suficiente.
– C-como assim? – Perguntei. Ele pareceu me analisar por alguns instantes, até que arregalou os olhos...
– Wow! Não... Ér, quer dizer, estou falando da comida, você me entendeu, né?
– Entendi, entendi! Claro, a comida... – respondi com um sorriso forçado. Como sou idiota, claro que ele estava falando da comida, era óbvio!
O silêncio encheu o cômodo novamente, estávamos constrangidos demais para dizer algo, mas o silêncio não ajudava. Tudo que se ouvia era o barulho que eu fazia, propositalmente, ao sorver o chocolate quente. Era isso ou naquele silêncio ele conseguiria ouvir meus pensamentos que me diziam o quanto eu era burra....
Olhei para a caneca dele, parecia estar vazia a muito tempo. Ele estava esperando que eu terminasse meu chocolate por educação, ou estava querendo conversar? Acho que seria eu a romper o silêncio.
– Então... – falei chamando sua atenção – Mais cedo o Lukke disse algo sobre você não ser um de nós... E, bom, seus olhos me parecem bem normais...! – Zool riu.
– Você tem razão, eles também me parecem bem normais.
– Mas então, se você não é um ateneu, ou um psi-ateneu, o que você faz aqui?
– Bom, essa é uma história meio longa... – disse enfatizando o “longa”.
– Então, a não ser que você tenha um compromisso no meio da madruga, temos bastante tempo... – Respondi tentando fazê-lo rir.
– Tudo bem, mas antes... Deixa eu te ajudar com esse bigode. – Disse pegando um guardanapo, levando até meu rosto, e limpando o chocolate que havia ali. Agora sim estava envergonhada.
– E-eu não tinha percebido. – disse querendo enfiar minha cabeça no vaso que havia em cima da mesa.
– Tudo bem. – respondeu divertido.
Como conseguiria olhar para ele pela manhã? Era constrangimento demais para uma madrugada só.
– Então, onde estávamos?
– Estávamos na minha história... Pronta?
– Sim.
– Vamos lá... Era uma vez, em um reino muito distante... – segurei o riso ao máximo até não conseguir o conter, soltando uma gargalhada que o interrompeu... – Hey, para de rir, estou falando sério... – disse rindo também – O que foi? Também estou com bigode?
– Para de me zoar! – falei em meio ao riso.
– Agora é sério, sem risadinhas, por favor...
– Tudo bem, mas conta direito.
– Estou contando direito, você que é uma péssima ouvinte...
– Não sou não... Vai, conta logo.
– Vamos ver... – disse colocando o indicador no queixo – Reza a lenda que-
– Você está de sacanagem comigo! – falei segurando o riso.
Ele me respondeu com uma cara de culpado.
– Tudo bem, já entendi, você quer falar sério. Vou te contar o que houve, tentarei ser breve:
“Há alguns meses houve um acidente em minha casa, um incêndio; Quando o fogo se alastrou consegui correr para fora a tempo e comecei a gritar por meus pais. Não sabia em que parte da casa eles estavam e se estavam bem... Preocupado procurei por meu celular nos bolsos, mas havia o esquecido dentro da casa; olhei em volta procurando por telefones públicos para que eu pudesse chamar bombeiros, mas não tinha nenhum por perto.
Comecei a gritar por ajuda por ajuda, mas já era muito tarde e as ruas estavam desertas, as 2 casas mais próximas da minha estavam vazias.
Em um surto de desespero e adrenalina corri para dentro de casa novamente procurando por meus pais. Me enrolei em um cobertor que estava jogado no sofá e corri para o andar de cima, continuei a chamá-los até que ouvi minha mãe gritando por socorro dentro do quarto.
Tentei abri a porta, mas estava trancada, juntei todas as minhas forças para tentar arrombá-la, porém havia inalado fumaça demais e estava muito tonto e fraco. Lembro-me de ter descido as escadas procurando algo que pudesse usar contra a porta, mas uma enorme pilastra caiu me acertando, cai no chão sem forças, ela estava em cima de mim, me imobilizando. Minha morte era certa, sabia disso.
De repente vi Lukke em meio à fumaça, ele correu até mim e sem nenhum esforço levantou a pilastra que me prendia, me levantou e me levou para o lado de fora. Me sentei na calçada ofegante, tossindo e com muita dor, o golpe da pilastra havia quebrado um de meus braços. Novamente estava me sentindo tonto, me deitei na calçada vendo tudo girar, quando meus olhos pousaram em Lukke lhe pedi que tirasse meus pais de lá, mas antes que pudesse ouvir sua resposta, apaguei...
Quando acordei estava aqui em baixo, Sophitia cuidava de mim, ela engessou meu braço e pediu que eu repousasse, mas insisti em voltar lá para cima, precisava ver a casa e saber dos meus pais já que ninguém me dizia nada. Estava confuso com as pessoas daqui, todas tinham olhos roxos, isso sem falar na força que Lukke usou para levantar a pilastra sem esforço algum, estava tudo muito estranho. No começo achei que era coisa da minha cabeça, que eu é que estava muito fraco devido à fumaça inalada. Mas de tanto eu insistir que tudo era muito estranho, Lukke me contou toda a verdade sobre os ateneus, e que na hora que viu o incêndio estava voltando para cá usando o relógio de invisibilidade. Ele também me disse que a força era a habilidade individual dele, e que todos tinham uma.
Imagina minha cabeça como estava! Uma confusão. Precisava de um tempo, então subi para a cidade, fiquei um bom tempo por lá pensando no que havia acontecido e no que eu iria fazer daquele momento em diante. Á noite fui ao velório dos meus pais. Sozinho e sem saber pra onde ir voltei para cá pedindo para ficar por um tempo até decidir o que faria, Lukke aceitou com a condição de que eu não subisse para a cidade, pois alguém poderia me ver. Concordei, e visto que ele tinha salvado minha vida era justo que eu guardasse seu segredo. E aqui estou eu...”
– Sinto muito pelos seus pais... – Falei entristecida.
– Também sinto muito pelo seu pai, Tessa...
– Bom, só o tempo curará nossas feridas. – disse vendo Zool concordar.
Ficamos, por um bom tempo, calados, cada um absorto em seus próprios pensamentos.
– Acho que vou dormir... – Disse esfregando os olhos.
– Bom fim de noite. – me respondeu sorrindo. Aquele sorriso realmente insistia em estar ali, estava começando a admirar isso nele.
Levantei-me de lá e caminhei até o quarto. 03h27min AM, a hora voou!
Desabei na cama pensando em tudo o que havia acontecido e em alguns poucos minutos peguei no sono.
X-X-X
Batidas na porta. Acordei num pulo.
– Quem é? – Perguntei.
– É o Zool, posso entrar?
– Espera um pouco, por favor... – Gritei indo em direção ao banheiro.
Lavei com pressa o rosto e penteei os cabelos, já que não tinha uma escova de dente, fiz com o dedo mesmo! Olhei no espelho cumprido arrumando a camiseta cumprida no corpo e fui até a porta abrindo-a.
– Desculpa a demora. – disse tímida.
– Tudo bem... Vim te convidar pra tomar café da manhã... Deve estar com fome.
– Ah, tudo bem... Eu vou sim.
Zool olhou sorrindo para a camiseta que eu vestia.
– Mas vai assim? – Disse rindo. – Acho que você precisa disso. – Disse chacoalhando uma calça. – Peguei com uma das meninas, achei que você ia precisar.
– Ah! Obrigada... Vou vestir.
Entrei no banheiro e a vesti, era o meu tamanho! Dei um nó na barra da camiseta para ficar mais justa e sai.
– Prontinho, podemos ir.
– Então vamos.
Caminhamos um pouco até um salão onde deveria ser o refeitório, as mesas cumpridas estavam lotadas, ateneus, ateneias, tantos olhos roxos... Burburinhos tomavam conta do salão.
– Eu vou sentar naquela mesa ali, você pode pegar o que quiser para comer e sentar lá... – Ele me disse.
– Tudo bem.
Caminhei em direção a uma mesa grande e farta, que fica no meio do salão, onde todos se serviam a vontade. Pães, torradas, frutas, bolachas, sucos, café, leite, chocolate... Onde eles arrumavam essas coisas? Suco era uma boa pedida. Peguei uma bandeja e me servi com algumas coisas e peguei um suco, quando me virei esbarrei sem querer em uma garota derramando todo o suco em sua roupa, foi o suficiente para um escândalo, ótima maneira de começar a manhã!
– Por acaso você é cega, garota? Olha o que você fez! – Ela dizia com nojo da própria roupa.
Ela tinha longos cabelos ruivos e cacheados que pareciam tão revoltados quanto ela, seu nariz fino e empinado pareciam combinar muito bem com sua personalidade, sua boca também era fina e pequena. Era a típica ''garota perfeita'', seria mais perfeita se suas sobrancelhas não me assustassem tanto. Eu nunca tinha visto uma sobrancelha artificial tão mal-feita e estranha, nada nela funcionava, o formato, o tamanho, a grossura...
– Olha, foi sem querer...
– Shiiu! – Disse apontando o dedo para mim. – Não fala nada, menina! Sai daqui!
Que garota dramática... Sai revirando os olhos, até que achei a mesa que Zool havia me apontado.
– Oi... – Disse sentando.
– Tessa, deixa eu te apresentar algumas pessoas. – Falou se referindo as pessoas que estavam sentadas com ele.
– Esses são os irmãos Betron e Sophitia.
Sophitia tinha cabelos curtos, loiros e ondulados, tinha a pele clara e usava óculos, seus lábios eram naturalmente bem avermelhados. Era bem magra e alta. Betron era muito parecido com ela, afinal eles eram gêmeos, tinha um rosto fino e o cabelo bem cortado rente á raiz, ele parecia bem sério.
– Olá. – cumprimentei sorrindo.
– Oi! – me disseram simpáticos.
– Ah não! O que “essazinha” está fazendo aqui? – disse a garota, a quem eu tinha sujado a roupa de suco, sentando-se à mesa conosco. Ela havia trocado a roupa, que rápida.
– Meu nome é Tessa, caso esteja interessada.
– Não queridinha, não estou interessada!
– Hayley, não fala assim com ela, por favor, não começa logo cedo! – disse Zool repreendendo-a.
– Humph! Ah, eu não acredito! Essa é a garota?
– É ela sim, Hayley. – Disse Betron. – Dá pra ficar quieta agora?
– Eu não acredito que vocês acham que isso ai vai salvar a gente! – Ela disse apontando o dedo pra mim.
– Acho que perdi o apetite, com licença. – Disse me levantando.
– Não, espera Tessa, senta, por favor. – Zool me puxou de volta. — Ela não vai mais te chatear... Não é?
A garota revirou os olhos... Qual o problema dela? Que menininha nojenta!
– Mil desculpas, eu não quis chatear a famosa filha do cientista! – falou a garota sarcástica.
– Do que ela está falando Zool? Por acaso tem mais alguma coisa sobre MIM que EU deveria saber?
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