O Retorno da Serpente
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Magali havia acabado de começar a faculdade de gastronomia. Mas claro, precisava de todo conhecimento que pudesse absorver. Ela até poderia morar em casa, mas ela queria ser mais independente, então começou a morar nos dormitórios do campus. Era uma das poucas faculdades no Brasil que havia isso. E não era apenas ela ali. Cascão estava lá estudando educação física, então ela não estava completamente sozinha. Desde que Quim e ela haviam terminado, seu amigo estava sempre lá para anima-la, assim como ela sempre tentava fazer o mesmo quando percebia que ele sentia falta de Cascuda.
A menina ainda se lembra do dia em que o nosso mundo quase deixou de existir. A guerra fora dolorosa. Muitos conhecidos haviam partido, muitos haviam se machucado e ainda com as feridas expostas. Não fisicamente, e sim emocionalmente. Mas, todos passaram a seguir com a vida. Tentar estudar, trabalhar, se divertir... viver. Menos uma pessoa.
Seu amigo troca-letras estava distante de todos. Ninguém nunca mais ouvira falar do Cebola. Dona Cebola estava sofrendo até hoje com o sumiço do filho, chora e reza todas as noites pedindo para que ele volte. Seu marido tentava muito aguentar a tristeza, mas era difícil quando até mesmo Maria Cebolinha, a irmã de Cebola, acreditava que o mesmo já estava morto. Aliás, a menina estava tão triste com o fato de não ter mais o Cebolinha para provocar e amar, que se tornou uma criança totalmente diferente do que era. A menina que antes, vivia sorrindo e brincando, hoje é fria, solitária e deixou de lado sua alegria de viver. Segundo o que Magali viu, faz muito tempo que essa menina nunca mais deu um único sorriso.
Lembrava também de como os amigos reagiram na época. Cascão não acreditava que seu melhor amigo havia simplesmente sumido, sem dizer nada. Ele não era de fazer algo assim, e não dizer nada para absolutamente ninguém. Enquanto a Mônica, mesmo não sendo mais apaixonada por ele desde que começou a namorar Do Contra, se sentiu péssima. Por mais que ele aprontasse, era seu amigo. Seu primeiro amor. Não queria que isso tivesse acontecido. Ninguém nunca mais soube do Cebola desde então. Até agora.
Os poderes de Magali como bruxa ficavam cada vez mais fortes desde o que a guerra havia começado. E um dos poderes que ela nunca imaginou ter, era o de ver as ameaças consideradas perigosas para o mundo em seus sonhos. Ela o viu. Cebola estava vivo! Mas, nas atuais circunstâncias, não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
A conversa, o plano, o que ele pretendia fazer com a criança, sua própria filha, e o que ele fez pra ela chegar ao mundo... era doentio.
— Ah, Meu Deus — disse ela se lembrando de tudo o que viu — preciso impedir isso.
Magali colocou seu casaco de couro amarelo (que o Cascão lhe deu de presente, e ela usava sempre) e calça jeans azul. Vestiu suas botas e saiu do dormitório partindo para o de seu melhor amigo. Bateu na porta várias vezes com força.
Cascão abriu a porta com sono, e sem camisa. Ele já estava dormindo e não gosta de dormir com blusas, faça calor ou frio. Magali o olhou um pouco vermelha. Não queria admitir, mas achava que aquela visão era muito agradável, mas já começou dizendo:
— Precisamos ir para Sococó da Ema, agora!
— Hã? — disse ele sonolento — Magá, do que você tá falando?
— É o Cebola — disse ela nervosa — ele voltou!
Cascão a olhou com o espanto gigantesco. Não poderia ser verdade.
— Peraí, como assim? Como...
— Cascão — disse ela quase surtando- eu te explico tudo no caminho, mas por favor, agora temos que ligar para a Mônica e pro DC. É CASO DE VIDA OU MORTE!
Ok, agora, ele sabia que era realmente urgente para Magali ter dito isso. Trocou de roupa, enquanto ligava para os outros dois amigos, que vieram na mesma hora.
DC já tinha um carro que comprou ano passado, e ele não precisou ir buscar Mônica, pois os dois moram juntos e já tinham dois filhos. Um casal de gêmeos. Pode ter sido cedo, mas os dois não se arrependeram por isso nem um pouco. Quando Cascão perguntou sobre eles, disseram que haviam deixado seus filhos com os pais de Mônica.
Magali explicava tudo o que viu em seu sonho, e quanto mais falava, mais assustados todos ali ficavam.
— Amiga, você tem certeza disso? — disse Mônica sentada na frente ao lado de seu namorado — pode ter sido só um pesadelo...
— Mônica, eu sei o que vi — insistiu Magali no banco de trás ao lado de Cascão — Não foi pesadelo. É real! O Cebola está possuído pela Morte e quer fazer o mesmo com a filha.
— WOW, PARA TUDO! — Cascão gritou — Filha? Desde quando aquele careca tem filha?
— Pelo o que eu ouvi da história e pelo o que o Arauto disse, a Serpente mandou ele ter um herdeiro para colocar a outra metade da Morte nela. Então o Cebola...- ela não conseguia nem falar. Era horrível demais. Mas só o seu olhar já dizia tudo.
— Mas — começou DC — Magá, por mais arrogante e estúpido que o Cebola seja, ele não... estupraria ninguém!
— A Morte tá revirando a cabeça dele, Do Contra. Pelo o que eu escutei, pelo o que eu vi... o Cebola que nós conhecíamos... não existem mais — terminou Magali, dizendo aquilo com aperto coração.
Os jovens adultos começaram a ficar mais nervosos assim que viram aquela velha placa da cidade onde todo o sofrimento havia se dado forma.
BEM-VINDO A
SOCOCÓ DA EMA!
População: 12200
— Welcome to hell — Cascão disse sussurrando.
Fale com o autor