O Retorno Dos Mortos
1 Mais um dia
Notas iniciais
A pedra em minha frente voa alguns metros toda vez que eu a chuto. Único barulho audível é das minhas botas de cano baixo sobre as folhas secas na estrada completamente vazia. Alguns meses atrás eu estaria morrendo de medo de estar em uma situação como essa. Mas não agora. Não depois em que o mundo se tornou o inferno e nós fomos obrigados a conviver com criaturas tão terríveis. Não tenho uma opinião ainda formada sobre tudo que está acontecendo. Tudo é muito recente. Só sei que agora somos a caça ao invés do caçador. Somos as prezas. O alimento. E é isso assustador.
As coisas não podiam acontecer assim. Eu não devia estar aqui, andado há meses, fugindo do caos que San Antonio se transformou. Eu devia estar sentada em uma carteira de faculdade estudando os cálculos complexos que tanto sonhei, e contando os dias para chegada das férias de verão para ver meus pais. Até que parte de contar os dias para vê-los eu ainda faço, mas agora é para me certificar de que eles estão pelo menos vivos. Isso doí. Não tínhamos uma aproximação muito grande, até porque passei a maior parte da vida em dormitórios. Mas eles são meus pais e precisam estar vivos. Eles são minha única esperança.
Ao ouvir barulho de galhos secos quebrando, seguro a Katana com força.
A Katana tinha sido um belo achado, estava morta de fome e acabei passando por um restaurante japonês. Em uma parede preta, lá estava ela, suspensa. Naquele dia não comi peixe, mas consegui algo útil. Também achei uma pistola dias depois, ao lado de um corpo praticamente devorado, acabei com toda a munição tentando acertar a cabeça de um doente. Não sabia manusear uma arma, na verdade nunca tinha pegado em uma. Mas para uma primeira vez eu até tinha me dado bem, acertei a barriga e o ombro esquerdo. Não o matei apenas deu tempo de correr.
Olho a floresta densa ao meu lado. O barulho aumentou. Em meio ao verde, sai uma criatura deplorável. Está mais lento do que o normal. Culpo seu pé com o osso exposto. Com as mãos pálidas e o rosto já em decomposição, ele anda em minha direção fazendo um barulho estranho, parecido com um gemido. Sem demorar, me aproximo e passo lâmina afiada em seu pescoço, o corpo cai formando uma grande poça de sangue.
Não me sinto nem um pouco bem fazendo isso. Lembro-me do primeiro infectado que matei, seu nome era Peter. Sei disso porque em seu crachá de porteiro estava escrito seu nome. Assim que vi aquele corpo pálido e fedido estendido pelo chão, e tendo consciência que eu tinha provocado aquilo, chorei muito por semanas. Estava no estágio de negação. Achava que existia a possibilidade de ter alguma cura ou acordar no outro dia e ver que foi apenas mais um dos tantos pesadelos que costumava ter. Acabou que isso não era o que realmente estava acontecendo. Os mortos estavam andando sobre Terra, e se você bobeasse, se tornaria um deles.
Agachei perto do rosto irreconhecível. Sua boca ainda mexia, tentando achar algum pedaço de carne viva para saciar sua fome infinita.
- Sinto muito que isso tenha acontecido com você – digo com a voz rouca, mesmo sabendo que não faz diferença alguma para ele. Mas para mim faz.
Olho para o céu. Preciso de um lugar para dormir. O sol está próximo do horizonte. Eles ficam mais ágeis de noite, não quero correr o risco de esbarra com um bando. Estaria perdida.
Avisto uma placa indicando que a cidade mais próxima está a 5 km. Apresso o passo. Minha barriga faz barulho me lembrando de que faz um bom tempo que estou sem comer. Nota mental: achar comida o mais rápido possível.
Ao chegar à pequena cidade, percebo que está silenciosa demais. Não gosto disso. Parece àqueles filmes de terror que está quieto demais e do nada uma assombração pula em frente à tela assustando todo mundo. Não quero que nenhuma aberração daquelas pule em minha frente.
Passo por ruas e mais ruas. Faço o mínimo de barulho possível. Em uma esquina, vejo uma lojinha de conveniência. Comida. Certifico-me que não tem nenhuma das coisas em volta e me aproximo. O sino escoa pela loja quando entro. Faço careta para aquele maldito sininho. Tão inútil hoje em dia.
As prateleiras estão quase todas vazias. Muitos produtos estão caídos pelo chão e outros abertos. Procuro por barrinhas de sereias e bolachas de agua e sal. Pego os poucos pacotes que sobraram e guardo na mochila. Esbarro com uma barra de chocolate. Tenho uma teoria que diz: não interessa o momento da sua vida, chocolate é sempre bem-vindo, e no apocalipse não é diferente. Pego e guardo junto com as outras mercadorias.
Ao sair, seguro a Katana com firmeza. Abro a porta e o sino toca novamente. Por sorte, não tem nenhum infectado por perto. No céu existe apenas um borrão alaranjado me avisando que preciso arranjar um lugar para dormir. Fito a redondeza. Descido entrar na casa em frente à lojinha.
A porta bate com um pouco de brutalidade na parede. A sala é grande e está desarrumada. Fecho a porta atrás de mim e passo para a cozinha. Não há muitos alimentos. Imagino que o antigo proprietário tenha pegado antes de abandonar a casa.
Os ossinhos da minha mão estão brancos de tão forte que seguro a Katana. Não vou mentir, estou com medo do que me espera no segundo andar. A pouca luz que entrava deixava o lugar mais assustador. Devagar fui subindo degrau por degrau.
Há três quartos na parte de cima: dois estavam com as portas abertas e o outro com a porta fechada. Entro no primeiro quarto, que parecia pertencer a um casal, estava todo revirado, roupas jogadas em toda parte do cômodo. Deixo o lugar e entro no próximo. Ergo as sobrancelhas ao ver tudo cor-de-rosa, certeza que era de alguma garota. Pôsteres preenchiam a parede. Sinto-me confortável. Parece que estava de volta no meu quarto na casa de meus pais, passava apenas os finais de semana, mas adorava grudar retratos de famosos na parede. Relutante, saio do lugar e paro em frente ao de porta fechada. Coloco minha mão sobre a maçaneta e com a outra envolvo a espada. Conto até três e abro.
Engulo um nó que se forma em minha garganta. Depois de Peter, chorei apenas uma vez, e não seria agora que iria me entregar às lágrimas. O quarto é todo colorido e repleto de bicho de pelúcia. No centro tinha um berço. Aquele lugar estava intacto. Todas as coisas no devido lugar. Aproximo-me do berço e fito um bilhete sobre o tecido branco. “Não sabemos onde você está nesse exato momento, meu amor. Mas saiba que você foi uma das coisas mais amadas e desejadas desse planeta. Perdoe-nos pelo o que fizemos. Com todo amor do mundo, sua família”. Largo o papel. Acontecimentos não muito agradáveis veem em minha mente. Sinto-me suja em estar em lugar tão puro como aquele. Precisava sair dali.
Bato a porta atrás de mim, ofegante. Minha vontade é deixar a casa, mas a escuridão tomou conta de tudo. Vou para o quarto cor-de-rosa e descido ficar ali. Tranco a porta e me encolho em um canto qualquer. Toda a fome que sentia desaparece. Minha cabeça insiste em pensar no bilhete. Nunca seria capaz de imaginar a dor daquela família. Uma dor irreparável.
O cansaço domina meu corpo. Minha mente vaga por tudo aquilo que estava acontecendo nos últimos tempos. Os olhos pesam e eu me deixo levar pelo acumulo de sono. Adormeço no breu que se tornou todo esse mundo.
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