O Retorno De Um Estranho
6 Seria Possível?
Notas iniciais
Capítulo anterior: Saindo um banho que demorou quase uma hora, Estevão enxugava os cabelos enquanto andava de um lado a outro no quarto, com uma toalha em volta de sua masculinidade. A água fria não foi suficiente para esquecer Maria.
Com tantas mulheres no mundo, se interessou justamente pela noiva do melhor amigo. Novamente, cruzava a vida de Maria. O destino lhe pregava peças. Vestiu-se e foi jantar com sua família. Já sentado à mesa, observava Alba acariciando os cabelos de Carlos e repreendendo-o por não alimentar-se direito.
Sorriu. Amava estar junto deles, mas ao ver a mesa com vários assentos disponíveis, sentiu que algo lhe fazia falta.
Ao dormir, custou-se a pegar no sono, mas quando suas pálpebras, já exaustas se uniram, teve um sonho estranho...
Estevão estava em um iate, aparentemente sozinho. De repente, Maria aparece no convés,segurando um bebê. Tenta aproximar-se dela, mas as ondas agitadas, balançavam o iate e o impedia de tocá-la. Um trovão o distrai e ele vira ao lado oposto à Maria e a criança, assustado, pois o tempo estava aberto e não havia sinal de chuva.
Virou para Maria de novo e... Mas espere! Onde estava Maria? E o bebê que ela segurava? Aonde teriam ido? Sua vista escureceu, não conseguia ver ou destinguir qualquer coisa. Andou às cegas, precisava refugiar-se em algum lugar, ou se apoiar em algo. Tateando o vazio, encontra o que se supõe ser um braço.
– Maria, é você?
Quem de fato estava ali, não o respondeu, apenas soltou uma gargalhada assustadora e o empurrou violentamente do iate, fazendo-o cair em um mar profundo, rodeado de medo, insegurança, solidão...
Acordou suando frio, os batimentos cardíacos alterados. Aquele sonho significava alguma coisa? Eram oito da manhã. Apesar de ser domingo, não conseguira mais dormir, e optou por uma caminhada matinal.
Geraldo levava seus parentes à rodoviária, no seu carro.
– Meu amor, não se esqueça de comer frutas e legumes, está bem? — orienta Carmen
– Geraldo já é adulto, velha. Sabe se cuidar sozinho. — Evando a censura.
– Geraldozinho nunca vai ser grande pra mim.
– Ora essa, deixa disso!
– Ok. Ok. Parem os dois. Obrigado pels preocupação, mamãe. Prometo que me cuido.
– Leva Mariazinha para passar um final de semana conosco.
– Não sei se ela poderá. Tem muitos casos pendentes.
– Mano, não te preocupa o fato de ela lhe dar com bandidos? — intervém Leonel, que assim como Carmen e Lupita, ia no banco traseiro do veículo.
– Muito, Leonel. Quando nos casarmos convencerei a ela para deixar o ramo da polícia.
– Vocês homens são uns machistas! — Intromete-se Lupita. — Nós, mulheres, exercemos o trabalho que outrora eram feitos unicamente por vocês, e o fazemos até melhor. Perigos, todos nós estamos submetidos a viver com eles. Se Maria gosta de sua profissão, por que não continuar nela?
Seguiu-se uma discussão acalorada no veículo.
Algum tempo depois, após os Salgado embarcarem, Geraldo parte em direção ao apartamento de Maria.
>— Já no apartamento...
– Desculpa por não ter levado seus pais ao aeroporto contigo. Dormi tarde ontem e hoje, passei a manha rolando na cama.
– Descansou?
Maria assentiu.
– Não há problema. Entendo o seu lado.
– Quer tomar algo?
– Um suco, por favor.
Maria vai à cozinha e retorna, momentos depois, com um copo de suco de uva à mão. Oferece-o a Geraldo e este, antes de pegá-lo, puxa Maria para um beijo. Como sempre, nada significava para ela.
Ao terminarem, Maria estende novamente o suco para Geraldo, e este o toma em suas mãos. Ela sentou em uma das poltronas que faziam parte dos moveis da sala, enquanto Geraldo estava no sofá. Não ousava ficar próximo a ele, pois diversas vezes Geraldo tentou tomá-la e ela, como sempre, dizia que não estava preparada, ou que só depois de concluído o enlace.
– Não entendo por que sempre senta longe de mim quando estamos sozinhos.
– Passei minha vida toda distanciada das pessoas. É um hábito ao qual ainda não me desprendi.
– E aquela porta ali? — apontando em direção ao cômodo fechado. — Porque sempre fechada, e porque nunca a abriu para mim?
– Ah Geraldo. São alguns trabalhos, nada demais.
– E porque não os partilha comigo?
– São coisas bastante pessoais.
– Se você diz, não há porque eu duvidar, mas quando estivermos casados, terá que me dizer de seus segredos, certo?
– Esta bem. — disse mais por cortesia que por vontade.
Seguiu-se um silêncio constrangedor, mas já costumeiro. Eram um casal de estranhos, por assim dizer. Óleo e água, que por mais que se misturassem, acabavam, no final, separando-se. Ela, uma mulher que durante anos viveu exclusivamente para aprimorar-se tanto intelectual como profissionalmente, agora tinha que lhe dar com um rico magnata, que cresceu ao lado da família e nada nunca lhe faltou, oferecendo-lhe apartamentos luxuosos, carros importados e joias finíssimas, que Maria sempre recusou, porque não estava interessada na fortuna que Geraldo possuía.
Prestar contas a um homem que conheceu a tão pouco tempo, incomodava-a. Não conseguia se sentir a vontade quando estavam sozinhos porque para ela, ele não passava de um conhecido. Era uma situação embaraçosa. Sempre ouvira falar que o amor vem com o tempo, que quando menos se espera, podemos nos apaixonar, mas passavam-se os dias e ainda não conseguia vê-lo como o seu amado.
Não possuíam tantos assuntos em comum, ela não entendia quando ele falava de finanças e Geraldo, não sabia como argumentar sobre um caso dito por Maria. "Ainda consigo amá-lo!" disse a si mesma.
Lembrou-se de Estevão, coisa que já se tornava rotineira. Não sabia sobre sua vida e, para puxar assunto com Geraldo, resolveu começar um interrogatório sobre aquele homem tão intimidador.
– Hum... E sobre esse seu amigo... O tal de San Romãn? Me conte um pouco sobre ele.
– Ah sim, Estevão. Mora há uns vinte anos com a tia. Alba e Carlos, seu primo, são sua única família.
– E seus pais?
– Morreram. Primeiro a mãe, quando ele tinha uns quatro para cinco anos, e depois o pai, mas a data de sua morte é desconhecida para mim.
– Ele nunca se casou?
– Não, mas por algumas conversas que tivemos, teve uma desilusão amorosa no passado e desde então, nada de compromissos sérios.
– E sobre seu passado? Se vocês são melhores amigos, ele deve ter dito algo.
– Não, não me diz nada. O mais curioso é que sempre me diz que seu passado espelha seu futuro.
– Um pouco estranho, não?
– Muito estranho. As vezes fala de um erro. Sempre quando pergunto sobre esse erro, desconversa.
"Um erro... Que erro seria esse?" interessa-se Maria.
– Mas porque o interesse nisso tudo?
– Nada, só queria saber um pouco sobre as pessoas que te cercam. Será que ele é um psicopata?
Geraldo riu.
– A última coisa que Estevão seria era psicopata.
– Será?
– Coloco minha mão no fogo por ele. Nos dez anos que o conheço, nunca alterou-se ou mudou de personalidade. É bastante pacífico. Mas não falemos dele, senão de nós dois... O que resolveu sobre o casamento?
– Geraldo... Falamos sobre isso ontem. — dando ênfase na última palavra.
– Eu sei, desculpa. Ando muito ansioso por isso.
Uma das coisas que Maria mais odiava, era ser pressionada. Esse amor que Geraldo lhe dedicava, parecia se tornar um vício, e isso a preocupava.
– Só quero te lembrar, que você me fará o homem mais feliz do mundo!
Se não tinham nada a ver um com o outro, se não existia amor da parte de Maria, esse relacionamento iria adiante?
>— Enquanto isso numa praia paradisíaca, duas mulheres conversavam:
– Então te prenderam depois da minha festa? — gargalhou uma das mulheres.
– Sim. Mas não fui a única. Outros garotos foram presos, inclusive aquele tal Carlos, que Júnior havia levado para sua festa.
– Quem dirigia o veículo?
– Carlos.
– Esse garoto é burro. Se tivesse acelerado, os policiais não os teriam pego.
– O primo dele apareceu lá primeiro que o resto dos responsáveis dos demais. Estava irritado, mas era visível que se preocupava.
– Não me interessa o que se passa com esse trouxa. — disse uma, tomando sua água de coco.
– Com ele não, mas... Com o primo...
– Não o conheço.
– Ele é alto, forte, atraente. Muito gato.
– Qual o nome dele?
– Aparenta uns quarenta anos, mais ou menos.
– O nome dele, Elisa, diga logo!
– San Romãn. Estevão San Romãn.
A outra quase se engasga com a bebida.
– Tem certeza?
– Agora se interessou Fabiola? — começou Elisa, sarcástica.
– Você sabe o que se passou entre ele e eu, já havia lhe contado, uma vez.
– Sim, mas... Do jeito que ele é bonito, duvido que esteja sozinho. Se eu soubesse que teria chances com ele eu...
– Você não faria nada! — cortou Fabiola, ríspida. — Ele é meu, já te disse.
– Não está mais aqui quem falou. — estendendo os braços, em sinal de paz. — E se ele estiver comprometido?
– Não está. Ele é rico, sempre sai em colunas no jornal por qualquer assunto corriqueiro. Se tivesse alguém, já seria notícia nas rodas da alta sociedade, não se esqueça que também faço parte dela. Todos os relacionamentos de Estevão se resumem ao sexo, nada mais.
– Com você também foi assim...
Fabiola ficou calada. Essa era a sua reação sempre que a realidade recaía sobre si.
– E se ele se apaixona por alguém que não seja você?
– Isso não vai acontecer. — E com os olhos faiscando de raiva, finalizou. — Antes, eu seria capaz de matar!
Estevão verificava seus e-mails quando Rebeca lhe anunciou que Geraldo o esperava na sala.
– A que se deve a visita? — cumprimenta Estevão.
– Gostaria de conversar com você, se não estiver ocupado.
– De forma alguma. Vamos ao meu escritório.
– Antes eu queria ver tia Alba. — assim a chamava, a pedido da própria, apesar de não possuírem nenhum grau de parentesco.
Juntando-se a Geraldo, Alba aparecia sorridente, abraçando-o e apertando suas bochechas, como era costume. Carlos também estava presente no momento. Alba pediu um suco de mangaba enquanto os homens brindavam com um copo de uísque à mão. Conversaram animadamente, até a hora em que Alba se retirou, pois iria a casa de uma amiga para juntas, participarem de um leilão beneficente em prol de crianças órfãs. Carlos a acompanhou, queria agradar a mãe e, de verdade, criar juízo. Pensava até em começar um namoro...
Sozinhos no escritório da Mansão San Romãn, Geraldo e Estevão estavam sentados um de frente pro outro.
– Não sei por onde começar.
– Pelo começo, oras!
– Ah, engraçadinho. O assunto é sério, de homem pra homem.
– Sou todo ouvidos.
– É sobre Maria.
Automaticamente, Estevão se ergue um pouco mais da cadeira e redobra sua atenção para o problema de Geraldo.
– Pode falar.
– É um pouco difícil de explicar. Bom, faz quase um ano que não durmo com uma mulher.
– E isso obviamente, inclui Maria.
– Exato. Desde o dia em que a vi, não queria outra, somente ela.
"Maria nunca dormiu com Geraldo?" um sorriso de satisfação brotou internamente em Estevão, inevitavelmente.
– E o que te preocupa nisso tudo?
– Todas as vezes em que a procuro inventa uma desculpa esfarrapada.
– Deve ser insegurança. Porque não espera até o casamento?
– Daqui a três meses? Ainda é muito tempo.
– Três meses? — Estevão se assusta por tão pouco tempo.
– Esqueci de dizer: Marquei a data do casamento para daqui a três meses. Foi uma surpresa que fiz à Maria.
Ela não tinha sido a única que se surpreendeu.
– Qual a resposta dela a respeito disso?
– Disse que era cedo para ela, mas para mim, parece que são três anos.
– Devia deixar a escolha para ela, não?
– Sim, eu sei. Foi precipitada minha reação. Mas o que posso fazer se ela me deixa louco?
Nesse ponto, não havia o que discordar com Geraldo. Maria tinha esse poder de fazer um homem perder a cabeça, e Estevão estava ciente disso, por experiência própria.
– Mas voltando... Eu desconfio de algo relacionado a ela.
– Me diga.
– Me disse que nunca havia tido um relacionamento antes.
– E o que tem de mais?
– Ela não é uma qualquer, se respeita. É daquelas mulheres que gostam de flores, serenata... Agora raciocina comigo, Estevão.
– Ainda não entendi aonde quer chegar.
– Caramba! Tô querendo dizer que ela é virgem!
Continua...
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