O Retorno De Um Estranho
18 O Passado Tem Um Preço
Notas iniciais
Capítulo anterior:
– E qual o nome que constava na certidão original?
– Não me lembro, eram tantos nomes que apaguei, criei... mas de uma coisa te asseguro: Não era Estevão San Romãn.
Fabiola sentou na cama, de olhos arregalados.
– Então... Estevão San Romãn é um impostor!
22 anos atrás...
– Eu sentirei a sua falta, Maria. — disse Frederico Rivero, enxugando uma lágrima que escorria pelo rosto triste de sua cunhada.
– Eu também, Estêvão... só Deus sabe o quanto. — lamentou-se.
Por fim abraçaram-se. Era a hora de partir.
– Tome, leve como recordação. — estendeu uma sacolinha para Maria. Havia um livro.
– Não parece alguém que curte Sheakspeare. — riu Maria, ainda triste com a partida.
– Não, mas... achei que você gostaria. Sabe que não tenho o hábito da leitura... que isso fique só entre eu e você.
– Sim. — sorrindo do machismode Frederico que tinha certeza que sentiria falta.
O vôo de Maria é chamado pela última vez, interrompendo o momento.
– Promete que nos escreve?
– Humrum...
Frederico abraçou novamente a Maria. Como seria difícil para ela esquecê-lo!
Gentilmente, ela se soltou do abraço e com um último olhar, segurou a única mala que tinha e partiu rumo ao desconhecido...
Frederico, por mais machista que fosse, jamais tratou Maria com indiferença, pelo contrário, a admirava e muito. Haviam se tornado amigos desde que se casou com Patrícia, e agora ela estava viajando, sabe-se lá Deus quando retornava...
Triste, mas com um orgulho típico que lhe caracterizava, colocou o chapéu na cabeça e voltou para casa...
****Meses depois...
Frederico terminou a ligação. Era de um hospital, dizendo que seu pai estava muito mal e precisava de alguém que o acompanhasse.
– Eu disse tanto para o meu pai permanecer aqui no México, mas ele, ansioso, acabou viajando com a falecida mulher de mala e cuia para a Venezuela... Não posso deixar meu pai sozinho, Patrícia.
– Pretende viajar? — disse ela, indiferente.
– Meu pai é viúvo, precisa que eu o auxilie.
– Pode ir. Eu fico aqui no país.
Frederico se irritou e levantou da cadeira.
– O que diabos você vai fazer aqui sozinha? Uma mulher sempre acompanha o marido, não importa o momento. Juramos cumplicidade ao juiz, se esqueceu?
– Ai, Frederico. Isso faz tanto tempo!
– Não importa! — indignado com o descaso de Patricia. — Você vai comigo para Aruba. Passaremos alguns meses até a total recuperação de meu pai.
– Eu não vou, já disse!
– Isso não foi um pedido, e sim uma ordem. Arrume suas malas porque, amanhã mesmo, partiremos.
Aquilo irritou deveras Patrícia. Saiu da sala e avançou para o quarto.
"Era pra esse velho morrer de vez, assim não teríamos problemas." Pensou a víbora.
Duas da tarde do dia seguinte eles já estavam no avião, partindo para a Venezuela.
Patrícia era cabeleireira. Seu ótimo desempenho da função possibilitou uma oportunidade de emprego num salão de beleza no centro da cidade.
Frederico era mecânico. Havia aprendido a profissão com o pai e, sem recursos para uma educação de qualidade, abdicou da escola e se dedicou ao trabalho desde cedo.
Cuidava de seu pai com um desvelo tal, que quem o visse, diria que se tratava de outra pessoa. Frederico era fechado, mas amava muito a Severiano, a quem considerava seu maior herói.
Graças ao seu empenho, Severiano melhorou consideravelmente seu estado de saúde, o que permitiu sua volta para casa.
Com o passar do tempo, notou uma certa distância da parte de Patrícia, parecia alheia a tudo o que ele dizia, estava ansiosa e muitas vezes de mal humor. Frederico achou que eram coisas de mulher e não lhe deu caso. Fariam três anos de compromisso e, no entanto, Patrícia ainda não havia lhe dado o filho que tanto queria.
Vendo que o pai já dispunha de saúde suficiente para ficar sozinho, Frederico pensou na possível viagem de volta ao México, mas Patrícia contestou veementemente. Disse que seu sogro poderia piorar de uma hora para outra e que não deveria ser ingrato com o pai, já que este sempre fez de tudo pelo filho.
Frederico ficou desconfiado de imediato. Patrícia não queria vir de jeito nenhum. Como agora, de repente, mudava sua opinião? Tinha algo de muito errado ali.
Fingindo que acreditava em sua preocupação, Frederico ficou de vez em Aruba.
Apesar de pouco estudo, tinha uma inteligência superior comparado a muitos, e investindo tudo o que tinha, em dois anos abriu uma oficina mecânica com os próprios recursos financeiros. Mas seu sonho sempre foi ser dono de uma empresa, não importava em qual ramo fosse, no entanto, não tinha capital para iniciar um negócio de tamanho porte. O dinheiro que arrecadava era inteiramente dedicado a esposa, seu maior tesouro, segundo ele.
Infelizmente, nem tudo ia bem como almejava.
Era uma manhã de sexta. Patrícia acordou bem cedo, preparou o café e saiu, dizendo que ia trabalhar. Nesse dia Frederico estava indisposto, e resolveu ficar em casa o dia todo. Não tomava remédios pois dizia que isso não era coisa de macho, mas uma forte dor estomacal o fez procurar por comprimidos. Revirando uma caixinha com diversos medicamentos, ele encontrou várias cartelas de anti-concepcionais. Não acreditou no que viu! Chegou até a imaginar que a mulher era estéril, mas ao ver que ela evitava a gravidez, ficou profundamente irado. Apesar do ódio que o consumia, não tratou do assunto com Patrícia. Veria até que ponto ela seria capaz de ir, enganando-o.
A cada dia que passava, ela o evitava. As suspeitas de Frederico aumentaram quando ela se negou a fazer amor com ele. Como havia se tornado costume, desde cedo ela saía a pretexto de trabalhar. Frederico pegou o número que ela havia lhe dado e ligou para o salão, procurando-a.
– Faz uma semana que não comparece ao trabalho. — disse a gerente.
Essa descoberta foi o limite para ele. Furioso, bateu o telefone com toda a força na base.
– Desgraçada, ela tem outro! — gritou, enquanto procurava pelo chapéu.
Saiu pelas ruas vendo se a encontrava, mas sua busca foi inútil. Retornaria a casa e esperaria que ela voltasse.
Três horas da tarde Patrícia aparecia na sala, com uma cara sonsa.
– Boa tarde, meu amor! — disse Frederico, com uma pontada de sarcasmo na voz.
– Oi Frederico... — respondeu, seca.
– Como foi no trabalho?
– Muito cansativo! Estou necessitando de um bom sono, vou dormir um pouco...
E saiu, deixando-o sozinho e mais irritado ainda.
À noite, quando entrava no quarto, sua mulher escrevia em algo. O escondeu assim que o viu passar pela porta. Ele fingiu que não tinha notado, mas quando ela saiu novamente para o "trabalho", Frederico revirou suas coisas e encontrou um diário.
O esfolheou e a cada folha se horrorizava com as palavras frias de Patrícia. Diversas páginas do caderno eram dedicadas a Maria, maldizendo-a de todos os modos.
Com quem havia se casado, afinal? Tirou a caneta da pagina marcada, onde ela estava escrevendo. Relatava uma tarde de amor com o amante. "Vadia!" Pensou ele. Tinha que descobrir quem era o amante, já que o nome estava escrito no diário. Elee a seguiu e viu quando Patrícia entrou em um motel, acompanhada de um homem. Havia algo de gélido em seu olhar, sinal de que aquilo não ficaria assim.
Dirigiu até uma casa de penhores, lá solicitou um revólver.
– Que tipo, senhor? — indagou o atendente.
– Qualquer um, desde que mate!
O atendente olhou para Frederico com medo.
– Ei, ei. Não vou matar uma pessoa. Só quero caçar com a arma. — disfarçando.
– Não seria melhor uma espingarda para a caça?
– Não tenho costume a manejar uma espingarda, melhor o revólver.
– Como preferir, senhor.
Na verdade, Frederico jamais tinha empunhado um revólver, mas seu orgulho, o sentimento de amor que mantinha pela esposa foi bruscamente pisoteado. Pensava que seris melhor pagar a vida toda por um crime, do que ter a honra manchada e uma reputação por agua abaixo.
– Artur! — Murmurou enquanto voltava para casa, pressionando o revólver escondido na cintura.
–-------
– Preciso de dinheiro, Frederico. — disse Patricia.
– Posso saber para quê? — Desconfiado.
– Comprar roupa nova.
– E o dinheiro do seu trabalho?
– Ah, Frederico... Mal dá para pagar um dia num salão...
– Quanto quer?
– Cinco mil.
– Tudo isto?
– Faz tempo que não te peço dinheiro, amor... — aproximando-se sorrateiramente. — Vai me dar?
– Claro, meu amor. O que eu não faço por você? — Segurando-se para não esgana-la.
Ela estava estranha, dissimulada. Alguma coisa ela estava premeditando. Mas Patrícia não seria mais rápida que ele.
No dia seguinte, como sua oficina ficava perto da casa de seu pai, Frederico andou despreocupadamente pelas rua até o retorno a própria, saudando os vizinhos que, de imediato, estranharam tal cordialidade.
Sua mulher tinha saído de novo. Ligou para o salão para verificar se, pelo menos, ela apareceu ao trabalho para justificar a ausência, mas a resposta da gerente o fez estancar. Ela havia ido sim para o salão, mas não para trabalhar e sim para pedir demissão.
Furioso, entrou no quarto de ambos e vasculhou o ambiente, encontrando, embaixo da cama uma mala feita e parte do dinheiro que havia entregado a ela.
– Filha da puta, pretende fugir! — pensou, irado.
Mas ela que o aguardasse!
Finalmente, ele decidiu segui-la de novo e acabar com tudo aquilo. Fingiu que iria para a oficina, mas se escondeu atrás de uma casa, vigiando atentamente a entrada da sua.
Cinco minutos depois ela saía com um envelope na mão. Como a oficina de Frederico era perto, ele não precisava dirigir, por isso deixou a caminhonete estacionada na garagem. Ela, apossando-se do veículo, partiu.
Para a sorte de Frederico, o carro de seu pai havia dado um "problema". Solícito, levou-o para a oficina, utilizando o pretexto de consertá-lo. A noite o estacionou ao lado da casa do vizinho, preparado para quando amanhecesse.
Não foi difícil alcancá-la, ela não ultrapassava os 50 km/h, um trauma que havia adquirido depois que a melhor amiga morreu num acidente de trânsito.
O carro percorreu a cidade, saindo dos limites dela e entrando na parte rural, onde após dar várias curvas parou próximo a uma nascente, rodeada por uma densa mata.
Saiu afoita, correndo em direção ao homem de braços cruzados que a esperava.
Um carro preto, segundos depois, também estacionou próximo dali.
Frederico saiu do carro, acariciando o revólver que trazia na cintura.
Escondido atrás de uma enorme árvore, olhou, ressentido, sua mulher aos beijos com outro homem. Sentiu o sangue gelar, a dignidade escorrendo-se para longe. Seu ódio aumentou ao perceber as carícias ousadas que ambos se entretinham em fazer.
Patrícia jamais havia sido dessa forma com ele... tão natural.
Depois de matarem a saudade, ambos começaram a discutir:
– Já está tudo pronto, meu amor. — disse Patrícia. — Frederico me deu cinco mil reais. Não é muito, mas dá para alugarmos um quartinho enquanto não arranjamos trabalho. Trouxe uma parte para comprarmos as passagens.
– Tenho algumas economias, boneca. Meu amigo é dono de uma corretora de imóveis, me disponibilizou um emprego na agência dele. Um salário razoável. O que importa é que estaremos juntos! Ah propósito, me empresta o carro? Preciso me encontrar com um colega que está providenciando identidades falsas, caso precisemos.
– Claro que sim, meu amor. O que você quiser. — soando apaixonada.
Frederico quase explodiu. Agora, além de se apossar da mulher, queria o que lhe foi conseguido arduamente? Poderia até perder o carro, mas queria que Artur soubesse que não estava brincando com qualquer pessoa. Sem ruídos, chegou próximo à sua caminhonete e, vingativo, cortou o fio do freio.
Retornou ao lugar onde espiava-os.
– Seremos felizes, meu docinho. — disse Artur.
– Sim, meu amor. Isso é o que espero! — recomeçaram os beijos, mas foram interrompidos por Frederico, que apareceu de surpresa, batendo palmas.
– Bonita apresentação! Confesso que me emocionei bastante. Lindo casal, parabens! — irônico, mas sentindo desolado por dentro. — Não me apresenta seu amante, querida esposa?
Tanto Patrícia quanto Artur gelaram. Nenhum dos dois conseguia articular palavras.
– Por que não me contou que o dinheiro que eu havia suado tanto para conseguir era para que você fugisse com seu amante? Eu teria lhe dado mais!
– Fre... Frederico... Como me encontrou a... aqui? — gaguejando.
– Ora, ora. Seguindo você, claro!
– O que você pretende com esse joguinho de palavras? — indagou Artur, dando uma de corajoso. — Como vê, sua mulher te trocou por mim... Não precisa ficar triste. — cínico. — Dor de corno passa.
Frederico estreitou os olhos, segurando-se o máximo que podia. Apesar de querer a morte daquele imbecil, ele não era um assassino.
– A pergunta é: Porque, Patrícia? — questionou, as palavras arranhando-lhe a garganta.
– Não preciso esconder mais nada, não é mesmo? — ousada. — Pois bem... Você não passou de um objeto, Frederico. Todas as minhas amigas olhavam você com desejo, admiração. Eu queria mostrar a elas que se eu quisesse, te teria em minhas mãos, e consegui o que queria.
Frederico escutava, indignado.
– A cada palavra de inveja delas eu me sentia vitoriosa. Eu podia não ter dinheiro como elas, mas eu tinha beleza, ambição. Me casei com você porque a princípio me agradava, mas era um simples empregadozinho sem recursos e escolaridade e com o passar do tempo, você foi me aborrecendo. Já havia se tornado um assunto tediante entre as conversas com minhas amigas. Sei que andou xeretando no meu diário... Não estava na mesma página onde eu havia deixado. Viu o que falei sobre minha irmã, sua amiguinha. — soltando as palavras com desprezo. — Não retiro uma só palavra do que disse. Maria era uma garota irritante, que me empatou de subir na vida. Não fosse a insignificante existência dela e minha obrigação em cuidar, eu teria virado uma médica renomada, não uma cabeleireira de botequim para sustentar a nós duas.
– Que tipo de mulher é você, Patrícia? Sempre foi o motivo de idolatria de sua irmã. ..- ele ainda não acreditava no que ouvia. "Pobre Maria..." pensou.
– Sou o tipo de mulher esperta, inteligente. Tive que sacrificar minha adolescência para trabalhar, enquanto ela só vivia metida nos livros, uma coisa que eu deveria ter feito, mas não dispunha de tempo. Era para eu estar em Londres agora, não ela.
– Você é uma psicopata! Meu Deus, como pude me iludir com você esse tempo todo? Não merece a irmã que tem.
– Sabe onde eu estava quando ela viajou? — atiçando-o. — Em um bar, bebendo com colegas.
– Melhor irmos embora, Paty. — intervém Artur. — Deixe-o aí lamentar o par de chifres que cresceram na cabeça! — divertindo-se.
– Não, Artur... Preciso falar tudo. Não sabe o quanto te agradeço por ter me trazido a força para cá, Frederico. Graças a você, conheci o homem da minha vida!
Duas lágrimas intrometidas rolaram soltas pelo rosto de Frederico. Como estava machucado...
– Eu dediquei todos os anos que estivemos juntos inteiramente a você. Alimentei seus desejos, te amei com todo o meu coração e...
– Oh, agora está chorando? Onde está o macho, Frederico? A verdade dói, não é mesmo? — ri Artur.
– Justamente, Frederico. Você foi fácil demais, submisso demais. Me cansei! — com um sorrisinho de escárnio.
Frederico apertou os punhos. Com olhos semicerrados, murmurou:
–Eu não vou permitir que riam de mim!
– Ah, e você vai fazer o que? Direcionar os chifres para mim? — gargalhando.
Nesse exato momento, Frederico segurou o revólver, com mãos firmes pôs-se a apontar para Artur.
Este na hora, ficou parado, suplicando a Frederico que não acabasse com sua vida.
– Frederico, meu amor...- Disse Patrícia, tentando contornar a situação. — Guarde essa arma. Vamos voltar para casa e agirmos como se nada estivesse acontecido, esta bem?
Frederico soltou aquela típica gargalhada que ecoou pela mata, tornando o som de seu riso assustador.
– Então agora eu não sou corno? -sarcástico.
– Abaixe essa arma, Frederico. Por favor! — pediu Patrícia, entrando em desespero.
– Não se deixe intimidar, Paty. — Retrucou Artur, com uma audácia de fachada, para impressioná-la. — Aposto que nem munição isso tem! Sabe o que isso se chama, Frederico? — provocando-o. — Dor de corno, e das piores. Deixe-nos sair daqui sem problemas, pode deixar que eu satisfaço sua mulher na cama, já que disso você não foi capaz.
Tais palavras de escárnio foram as últimas pronunciadas por Artur pois, quando não conseguiu conter o ódio insano que se apossava de seu ser, Frederico disparou, acertando o tórax do amante de Patrícia.
– Seu imbecil, o que fez? — gritou Patrícia chorando, tentando estancar o sangue que saía de Artur.
Frederico largou a arma e olhou para o casal à sua frente. Quis matar a Patrícia, mas não conseguia. Como se depois de tudo ainda amava?
– Vá ao inferno! — retrucou, enquanto puxava Artur pelos braços até o carro de Frederico. Ele ainda estava vivo. Esperava que chegasse a tempo em um hospital para salvá-lo.
Ligou o automóvel e partiu em disparada até o hospital mais próximo que encontrasse naquele fim de mundo. Pisou fundo no acelerador, indo em velocidade máxima.
Frederico imediatamente se lembrou que havia cortado os freios.
– Não! — gritou. Patrícia não poderia morrer!
Entrou no veículo do pai e também partiu em disparada pela estrada. A mata aos poucos ia se desfazendo e revelando uma estrada de terra. Por onde estavam, não havia nenhuma moradia, qualquer sinal de vida humana em meio aos cactos e árvores espalhadas pela vegetação.
– Por favor, meu amor, sobreviva! — dizia Patrícia, com uma mão no volante e outra acariciando o rosto de Artur.
Desviou o olhar um instante e o carro entrou na contra-mão, de onde vinha uma enorme carreta carregada de lenha. Girou o volante ao máximo, desviando-se do grande veículo, mas ao olhar pra frente, havia uma fileira de rochas no caminho. Tentou o freio, mas este não a obedecia. Desesperada, levou a mão ao rosto.
Foram questão de segundos para que seu corpo fosse esmagado, tamanho o impacto da batida. O caminhoneiro parou o veículo bruscamente e correu para auxiliar o motorista, mas antes que chegasse perto, o carro explodiu.
Frederico saiu do automóvel e aproximou-se do meio-fio.
Dirigiu um olhar indiferente ao estado do carro que era seu.
– Adeus, Patrícia... Adeus. — sussurrou, profundamente abalado, mas seu orgulho lhe dizia que era o melhor que havia acontecido.
Deu as costas e saiu, sentindo-se um ser desprezível, mas ao mesmo tempo, saciado. Mas agora precisava definir um plano de fuga!
Enquanto isso, o caminhoneiro, que estava no chão, viu a Frederico. Na hora do pânico, imaginou-o como algum tipo de entidade devido a frieza no olhar e se pôs a gritar:
– Foi ele, foi ele! — murmurou apavorado, correndo em direção ao caminhão.
Depois desse dia, o juízo do pobre homem nunca mais foi o mesmo.
– E agora, o que farei? — perguntou Frederico a si mesmo, desesperando-se enquanto dirigia.
Chegou ao local onde havia atirado em Artur, segurou a arma e a jogou na nascente.
Conduziu o carro até uma rua vizinha da casa de seu pai e estacionou o carro ali. Ninguém poderia vê-lo. Com habilidade, desviou de algumas pessoas que circulavam pela área e entrou em casa sem ser percebido. Seu pai àquela hora estaria jogando bilhar na casa de um amigo.
Vasculhou nas coisas do pai, procurando dinheiro. O que tinha havia entregado a Patrícia havia pego fogo com ela, de modo que precisava roubar do próprio pai para sair da cidade.
Em um criado-mudo, havia um maço de notas embolada, com um pedaço de papel com alguns rabiscos. Era um endereço de uma tal Alba. Breves palavras na folha explicavam que o endereço era de uma tia de Frederico, que ele jamais tinha ouvido falar, mas que também morava em Guadalajara, lugar onde ele nasceu.
Ela teria que ajudá-lo!
Encheu uma mochila com mantimentos, dois pares de roupa e saiu na surdina, maldizendo-se e lamentando por partir e deixar seu pai sozinho, sem nenhuma explicação.
O velho, ao chegar em casa e não notar ninguém, correu para o quarto para guardar o dinheiro que tinha ganho no jogo. Quando viu que a grana que juntava não estava ali e tão pouco o endereço de Alba, Severiano começou a xingar tudo quanto era nome.
– Foi aquela imbecil de Patrícia! — resmungou.
Já ia para o quarto dela procurar pelo montante, quando a campainha o fez mudar de curso.
Irritado, correu para abri-la. Era um policial. Sem mais delongas, despejou:
– Encontramos uma caminhonete pertencente a Frederico Rivero na estrada que dava acesso a cidade vizinha. Pelo que descobrimos, ele era seu filho, não?
– Era? — indagou o velho, sentindo-se mal.
– Desculpa, senhor, mas infelizmente, seu filho sofreu um acidente de carro gravíssimo e veio a falecer, juntamente com a esposa.
Severiano não pôde lamentar a morte do filho, pois sofria um ataque cardíaco e veio a falecer antes de dar entrada no hospital.
Frederico chegou em Guadalajara dois dias depois do trágico enredo. Procurou pelo endereço da tia e suspirou de alívio ao encontrá-lo.
Bateu palmas e em instantes, uma mulher aparecia na porta, exibindo uma barriga de gravidez.
Alba ao vê-lo, encheu-se de uma emoção desconhecida.
– Alba San Român? — perguntou enquanto verificava o seu nome no pedaço de papel.
– Sim, sou eu. Quem é você?
– Sou Frederico. Frederico Rivero, preciso que me ajude!
Ela levou um susto ao ouvir o nome do desconhecido. Não podia ser! Depois de tantos anos reencontrava o filho! Lágrimas de alegria se formaram nos lânguidos olhos de Alba.
– Meu...meu pequeno. — ela o puxou para um abraço apertado, transmitindo todo o amor que sentia pelo filho que havia abandonado há muitos anos atrás.
Depois de um longo tempo, ela deixou de envolvê-lo e acariciou o rosto do belo homem à sua frente.
– Senti tanto a sua falta! — murmurou enquanto a comoção lhe cortava a fala.
Frederico nada disse. Não a conhecia, mas sentiu proteção e certa familiaridade com o terno abraço.
– Preciso de sua ajuda, tia.
"Tia?" Então queria dizer que Severiano não havia lhe contado a verdade sobre ela, eagora, depois de tanto tempo, não seria ela quem iria fazê-lo, pois não queria perder o filho de novo.
– O que você quiser, meu amor... Por favor, entre.
Alba preparou um banho para Estêvão e enquanto este se banhava, fez um delicioso jantar.
Já acomodados na mesa, vendo que Frederico devorava a comida com gosto, sorriu. Esperava que ele não a deixasse e se mantivesse ali, auxiliando-a na educação e criação do irmão que estaria a vir dali a poucos meses.
– E...seu pai, não veio com você? Frederico se pôs a chorar. Havia acompanhado pelo rádio o desfecho do acidente e da parada cardíaca que teve seu pai, por sua causa.
– Ele morreu, morreu assim como minha esposa. Eu os matei, tia! Eu os matei! — gritou desesperado.
E então relatou todo o ocorrido para Alba, que ouvia assustada.
Após o relato, Frederico se levantou da mesa e, nervoso, pôs-se a bagunçar o cabelo.
– Se não puder me ajudar, eu compreenderei. — falou. — Deve achar que sou um monstro, não é mesmo?
– Não, não. Você não é. Muitos no seu lugar, fariam o mesmo. — confortando-o. — Não se sinta um monstro. Montros foram eles que não respeitaram você, o que sentia.
– E agora, o que eu faço? E se alguém aqui no México souber do que aconteceu e quem sabe, me reconhece?
Alba se pôs a pensar.
– Já sei! — depois de alguns minutos. — Tenho um amigo que trabalha no fórum, era colega de meu... falecido esposo. — mentiu. Ela não estava viúva e sim sozinha, pois como dito anteriormente, foi abandonada. — peço para ele que me providencie identidades falsas.
Vou falar com ele agora.
Avançou para o quarto, onde mais tarde apareceu com uma velha agenda nas mãos. Aqui está o endereço da casa dele. Vamos, eu te levo até lá.
Como era num sábado, o fórum estava fechado, de modo que havia grandes probabilidades de que Ernesto estivesse em casa.
Por sorte, ele se encontrava.
Convidou-os a entrar.
Alba contou que necessitava o mais depressa possível de novos documentos para Frederico, mas com um nome diferente.
– Identidades falsas...- disse o homem, enquanto bebia sua cerveja. — Quanto vão me pagar para obtê-las?
– Três mil consegue quitá-las?
– Bom... Não é muito...
– Prometo que logo mais a frente te darei uma quantia de maior valor. Não se arrependerá, eu juro! — disse Estevão.
– Está certo. Confiarei em você. Afinal, não perco nada com isso!
– O mais depressa possível! — pediu Alba.
– Sim, senhora. — levantou-se de uma cadeira de plástico e pegou um caderninho. O abriu e tornou-se a sentar.
– Agora...- com a caneta em mãos. — Preciso que me digam o nome que querem nos documentos.
Frederico não sabia o que colocar. Alba, mais esperta, lembrou-se do nome do falecido pai, e como era da mesma família de Estevão, não teria problemas e ele poderia se passar pelo sobrinho dela perante a todos, 'legalmente'.
– Já sei que nome será! — retrucou Alba.
– Diga-nos, tia.
– De hoje em diante, você passará a se chamar Estevão... Estevão San Román!
Continua...
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