O Retalhador de Áries

2 1# — Como consegui ficar com ela


1# — Como consegui ficar com ela

Cidade de Morihira, ano de 2018.

Tá vendo aquele bonitão de cabelos ruivos cacheados que tá dormindo ali no meio da aula de geografia? Ele sou eu. Passei a noite inteira jogando Horizon Zero Dawn no meu Play Station quatro e não desisti até zerar, tô exausto, mas valeu super a pena. Você deve estar se perguntando o que meus pais acham disso. Bom, minha mãe morreu no dia do meu nascimento e o meu pai... meu pai morreu há três anos, em uma briga de bar. Pelo menos é o que a polícia diz.

Meu nome é Haru Akasora, eu tenho quinze anos e estou no primeiro ano do ensino médio. Quando tinha nove anos, ganhei uma surra de uns garotos da escola e meu pai me ensinou Muay Thai. Me fez prometer que eu não usaria isso para me vingar deles, mas convenhamos, hã? Eu não seria um adolescente se cumprisse essa promessa; então voltei lá e acabei com a raça de todos eles. Depois desse dia, ninguém ousou voltar a acabar com a minha paz.

Uma bolinha de papel bateu na minha cabeça, me acordando. Deixa eu me corrigir: ninguém ousou voltar a acabar com a minha paz, exceto a Yue. Yue é a minha vizinha chata que pensa que é a minha irmã mais velha, que fica mandando em mim e me obrigando a fazer meus trabalhos da escola. Eu chamo ela de tampinha. O apelido é auto-explicativo. Ela tem cabelos curtos, negros com mexas violetas, olhos castanhos e a pele clara, está sempre de saia, de chinelos de dedo e de regata.

Olho pra ela de cara feia. Ela, duas mesas a frente, aponta pro professor, que me olhava sério com as costas no quadro negro e os braços cruzados, em silêncio. Dou uma risada sem jeito e coço a cabeça. Todos estavam me olhando mas eu não ligava, só torcia pra não pegar detenção. Era a quinta vez que eu dormia na sala só essa semana.

— Te vejo depois da aula, senhor Akasora. — Ele me disse. O cara é um mala, tá no meu pé desde que entrou como substituto do Hayate. Com aquela cara de galã de série americana, as roupas sociais cuidadosamente passadas e aquele par de olhos azuis claros, roubava a atenção de todas as meninas, até a da Kyoko.

Ah, Kyoko. Gosto dela desde o dia que pisei aqui. Nunca nos falamos, é claro. Ela me assusta muito mais do que o maior cara dessa escola, então eu me mantenho longe. Bem longe. E não pense que ela é o tipo de garota que vai se revelar legal depois de nos falarmos pela primeira vez, ela tá bem longe disso, eu já a vi humilhar muitos caras mais bonitos, mais fortes e altos que eu, então sem chances pra mim. Por que eu a amo? Porque ela é linda.

As melhores notas, as melhores roupas. Tem lindos, encaracolados e volumosos cabelos negros, uma bela pele bronzeada e um par de olhos verdes que me tiram todo o ar. É a garota perfeita. Bom, quase perfeita. Só tem olhos pro idiota do professor de geografia. O sinal toca e eu só percebo quando ela, que estava sentada na mesa mais próxima da porta, levanta e sai.

Desligo os ventiladores e contemplo a sala de aula. Era relativamente pequena, com cinco fileiras de três mesas no meio e dez pares de duas em fila nos cantos esquerdo e direito. Só o lado direito tinha janelas.

— Você continua nessa. — Yue veio encher o saco de novo. — Por que ainda não foi falar com ela?

Estávamos sozinhos, então eu podia falar do que quisesse.

— Cê ficou maluca? — Joguei a mochila nas costas. — Vou levar um fora inesquecível.

— E do que você tem medo? Ninguém vai te zoar. Não na sua cara.

Saio e deixo Yue fechar a porta da sala. Passamos pelos corredores o mais rápido possível, estão cheios de gente, alguns conversando perto de seus armários, outros saindo também. Abaixo a cabeça e torço pro professor de geografia não me ver sair, mas me deparo com o filho da mãe no portão de saída.

— Eu tentei te ajudar. — Yue me dá tchauzinho, ajeita a mochila nas costas e se despede do meu carrasco: — Até amanhã, professor.

— Até, Yue. — Ele sai da frente para ela sair. — Vamos indo, senhor Akasora?

Revirei os olhos, esperei-o passar por mim e o segui. Voltamos para a sala de aula.

— Quanto tempo vamos ter que ficar aqui? Você não tem nada melhor pra fazer? — Inclino a cadeira de plástico azul para trás, cruzo as pernas sobre a mesa amarelada e encaro o relógio na grande parede branca. Já tinha passado meia hora desde que voltamos pra sala.

Ele para de ler o livro, olha pro relógio de pulso, me encara e responde:

— Hum... quando o sinal bater nós saímos. E não, não tenho nada melhor pra fazer do que corrigir um aluno preguiçoso, mas inteligente.

Quase caí da cadeira.

— Mas o sinal só vai bater daqui a uma hora!

— É? — Ele fingiu preocupação, sorriu e disse: — Então ainda bem que não tenho nada melhor pra fazer.

Cruzei meus braços e abaixei minha cabeça com raiva. Droga, vou chegar atrasado na academia, o único lugar da Terra em que me sinto bem. Não quis aceitar isso.

Esperei quinze minutos e voltei a reclamar:

— Qual é, me deixa sair, vai!

Arashi. Esse era o nome dele, tava tentando me lembrar desde que ele me pôs de castigo. Após falar daquela forma o vi colocar o livro de neurociência sobre a mesa, deitar os óculos de leitura sobre ele e mudar de semblante. Lá vem sermão.

— Você pode ir. — Ufa. Já ia correndo quando ele me parou: — Mas se dormir na minha aula mais uma vez, ficará de castigo por duas horas.

— Tá beleza, professor! — Apertei a mão dele, corri e prometi: — Juro que não vai mais acontecer!

Até que não era um cara tão ruim, no fim das contas. Claro que não era legal como o Hayate, ninguém supera um professor que chega na sala e, em vez de dar aula, pergunta pros alunos o que eles querem aprender, desce e não volta mais, mas com o tempo vai pegar o jeito. Hora de ir pra academia, tô ansioso, o professor falou que tinha uma novidade.

...

Como o esperado, cheguei depois de todo mundo. Cumprimentei Hizashi, fiz o aquecimento, vesti as luvas e sentei fora do tatame junto com os outros para ver as lutas.

Treinamos num grande galpão abandonado coberto de telhas cinzas e paredes que, por dentro, eram azuis. Algumas pilastras de mármore enfeitam nossa sala, mas como tudo tem um uso, as vestíamos com esteiras para praticar chutes e socos quando ainda não tínhamos os sacos de pancada. O local era dividido em dois: uma parte era repleta pilares, a outra não tinha nenhum — era nessa que as lutas de final de treino eram realizadas.

Formamos um círculo ao redor do tatame cor de rosa que revestia o chão azulejado para assistir e aguardar nossa vez, éramos de quinze a vinte. Sora e Daichi são os primeiros a se confrontar, eles tapam as mãos e os pés com esparadrapos, calçam as luvas e vão para o centro da arena. Sora é um asiático de altura mediana, de franja lisa castanha clara e porte físico atlético. Ele estava sempre sorrindo e conseguia me vencer quando o assunto era ser um exibido.

Daichi era um cara loiro e alto que vivia sério, seus cabelos eram espetados e seus olhos azuis, ele parecia um oficial do exército nazista. Era uns dez centímetros mais alto do que o resto de nós, mas pesava tanto quanto Sora. Era uma luta justa. Os dois tocaram as luvas, se afastaram e começaram a saltitar. Sora me olha e sorri. Hizashi dá o aval para a luta começar e eles se reaproximam.

Sora começa com um jab e um direto, Daichi se esquiva dos dois e revida com um jab e um direto, Sora também se esquiva e arrisca com um gancho, mas Daichi o desvia com a mão. Sora levanta a perna e tenta chutá-lo no rosto, Daichi se defende e tenta acertar um pisão, Sora bloqueia, ataca com um jab, um direto e um cruzado, erra todos, é atacado com um jab, um direto e um cruzado, defende-se de todos, finta e acerta um direto no estômago de Daichi, que recua.

Daichi tenta acertar um chute giratório na cara do Sora que se agacha, sai pela esquerda, tenta dar um chute na sua canela mas não consegue. Sora vai pra cima com dois cruzados, seu oponente dá dois passos para trás, responde com um jab, um direto, não acerta nenhum dos dois mas leva um gancho certeiro no queixo e desaba na lona. Sora ergue os braços triunfante, deixa o tatame e senta ao meu lado.

— Você melhorou, hein? — Fui forçado a reconhecer.

— É, eu andei treinando. — Ele me disse, dando de ombros.

Hizashi procura na plateia os próximos a lutarem. Se existe alguém mais sério e estraga prazeres do que o professor substituto de geografia, esse era o Hizashi, um homem alto, forte e de cabelos completamente grisalhos apesar de não passar dos trinta. Sua pele era clara, seus cabelos tão lisos quanto os do Sora e seus olhos, amarronzados como os meus.

— Haru e Ichiro, pro tatame. — Ordenou.

Eu, ansioso, ajeito os esparadrapos, as luvas e sorrio. Sora segura meu ombro, me impedindo de ir por um instante.

— Vê se não me decepciona. — Sussurrou pra mim.

Aceno com o polegar, estico minha regata cinza, a bermuda preta leve e me dirijo ao centro. Toco minhas luvas nas do Ichiro, um garoto negro da minha altura, de olhos castanhos e cabelos pretos bem cortados, crespos. Esperamos Hizashi dar o sinal e nos afastamos de imediato.

Vou pra cima. Esquivo de um jab, de um direto, de um cruzado de direita, de outro de esquerda, me agacho e escapo de um chute, subo e desvio de um gancho, recuo e decido a luta com um cruzado, que leva meu adversário ao chão. Todos comentam o resultado, impressionados. Mesmo Hizashi, que já sabia que Sora e eu éramos de longe os melhores, ficou de queixo caído.

Após a última luta, Hizashi dispensa todo mundo e pede para que apenas cinco de nós fiquem, os cinco que ele escolheu para participar do torneio mundial: Sora, Kuromada, Nari, Sakio e, é claro, eu. Ele explica que ninguém precisará pagar nada, que devemos ir para casa dormir porque acordaremos cedo e que enfrentaremos alguns dos melhores lutadores da atualidade — da nossa faixa etária e peso, obviamente.

Eu não me importo. Qualquer um que vier me enfrentar vai beijar a lona. Aguardo o Sora e juntos vamos para o ponto de ônibus, só precisamos atravessar a rua para chegar lá. Estava chovendo, então nós nos sentamos no banco avermelhado debaixo da cobertura preta e esperamos a condução.

— Bora lá, cara, se anima! — Ele tentava passar seu entusiasmo pra mim.

— Por que eu deveria? — Cruzei os braços atrás da cabeça. — É claro que vamos vencer, vai ser um porre.

— Fiquei sabendo que a Kyoko vai... — Ele falou, mas não levei tanta fé.

— E como é que você sabe disso? — Disse, e fitei o teto sem mudar de expressão.

— O irmão dela, Hiroki, estará lá. — Agora levei fé. Tinha esquecido que aquele cuzão cheio de marra também era um lutador. — Você nunca brigou na frente dela, vai ser sua chance de impressioná-la!

Tentei ficar frio.

— Pode ser. — Eu disse, apenas. Olhei pra estrada e avisei: — Seu ônibus tá vindo aí.

Sora checou, viu que eu tinha razão, jogou a mochila nas costas e andou até a beirada da estrada.

— Hoje pode ser o meu último dia com todos os dentes no lugar, vou procurar alguma boate pra ir. Quer vir?

— Não, eu tenho mesmo que descansar. — O dispensei. O ônibus parou na frente dele, abriu as portas, ele subiu as escadas e, enquanto ia embora, gritei: — Vê se não bebe demais e se não engravida ninguém. E tenta também não acabar preso! — Eu era tipo a Yue dele, só que mais legal. Ele me mostrou o dedo do meio.

Meu ônibus chega um pouquinho depois. Subo nele, ponho os fones de ouvido e vou o caminho inteiro pensando nos melhores golpes para impressionar a Kyoko e deixar o irmão idiota dela, meu futuro cunhado, com a cara de idiota que ele já tem. Cara, como eu queria enfrentá-lo. Muitos caras tinham medo de chegar nela por causa dele, mas eu tinha mais medo dela do que dele.

A condução sempre me deixa na esquina da minha rua, que não tem saída. É um lugar bem tranquilo, todo mundo se conhece, conversa numa boa, ninguém acorda ninguém cedo com som alto — eles não seriam loucos de fazer isso comigo morando ali. As casas se separam umas das outras por pequenos cercados de madeira e imitam uma combinação de cores que alterna entre branco e vermelho, combinação previamente acertada entre os moradores.

Com trinta residências de um lado, mais trinta do outro e uma extensa faixa de asfalto no meio, aquilo tá mais perto de um mini conjunto habitacional do que de uma rua propriamente dita, com a diferença de que não é fechada por um portão. Minha casa fica do lado direito, é a décima quinta e também a mais humilde. Diria que, ali, ninguém é tão silencioso quanto eu.

Chegando lá, tiro as chaves do bolso, subo os cinco degraus e paro quando ouço um barulho. Reparo que a porta está aberta. Tem alguém dentro da minha casa. Abro, entro devagar e percorro lentamente o longo corredor de madeira branca que, passando pela sala, leva a cozinha. Estranho o possível ladrão não estar na sala e continuo andando, sendo o mais sorrateiro possível.

Lá, a pessoa leva um susto e dá um grito ao me ver, me fazendo cair para trás. Era só a Yue.

— Que susto, Haru! — Ela põe a mão no peito para recuperar o ar e me repreende.

— "Que susto", digo eu! — Dou a mão à ela, que me ajuda a ficar de pé. — Como entrou aqui?

— Você me deu a chave, paspalhão! — Tinha esquecido disso, aconteceu quando passei um mês fora num torneio nacional e precisava de alguém para alimentar o meu gato de estimação. — Vim dar comida pro Hércules, vi a bagunça que isso aqui estava e fiquei pra arrumar.

Larguei a mochila no chão. Ela me mostrou sua pior carranca, apontou as escadas e eu coloquei a mochila nas costas novamente.

— Não tenho dinheiro pra te dar hoje, fico devendo. — Digo, depois vou guardar a bolsa.

— Eu sei, gastou tudo com aquele Play Station 4. Mas já disse que não precisa me pagar nada.

Eu fui meio injusto com a Yue, vai. Ela não pensa que é minha irmã mais velha, é como se fosse minha irmã mais velha, mas às vezes é tão mandona que me esqueço disso. Ela e a mãe dela estavam sempre lá pra mim quando precisei e pra não ter que reconhecer isso em voz alta, eu divido meu salário com elas — esqueci de contar, trabalho na recepção de um cinema aqui de perto.

Após deixar minha mochila na cama, desço correndo e volto para a cozinha, esqueci de avisá-la do torneio.

— Vou pra um torneio amanhã. — Encostei o ombro no batente da porta. — Sairei daqui às cinco e meia, vou estar de volta em dois dias.

— Bem a tempo de voltar pra escola. — Ela diz, guardando o último prato. — Da última vez, você faltou trinta dias direto. Nem sei como te deixaram voltar.

— Eu dei o meu jeito. — Retruco. Ela passa por mim e eu sinto vontade de fazer uma coisa que nunca fiz antes: — Obrigado.

Em resposta, ela acena com a cabeça e dá um sorriso, depois vira as costas e sai. Quando abre a porta, ouvimos um grito. Corremos para ver o que era e surpreendemos um ladrão que fugia correndo da casa dela com uma enorme bolsa nas costas. Yue vai até a mãe e a abraça para tranquilizá-la, eu decido não deixar o desgraçado fugir com o que quer que tenha pego, ignoro os conselhos das duas e vou atrás dele.

Felizmente o filho da puta estava a pé, mas tinha um carro preto parado quinhentos metros virando a esquina. Preciso pará-lo antes que ele chegue lá. Acelero o passo e encurto a distância entre nós a vinte metros. Pouco depois, a dez. Logo, a zero: pulo e acerto um chute nas costas dele, derrubando-o no ato. As pessoas na rua, ao invés de chamar a polícia, param pra assistir.

Recupero a bolsa. O comparsa encapuzado dele sai do carro e saca uma arma, eu meto a mão no bolso do cara caído, pego o revólver e atiro imediatamente, acertando o outro no ombro. Ele rasteja tentando pegar a arma que deixou cair, eu corro até lá e o rendo.

— Parado! — Exclamo. Ele eleva as mãos em rendição, viro para os demais e peço: — Chamem a polícia!

Todos me aplaudem. Dois ou três fazem o que eu pedi, as autoridades chegam em questão de minutos, me cumprimentam e levam os dois presos. Tive uma sensação estranha, por um segundo me senti atentamente observado. Procuro e não encontro ninguém mais além dos que me encaravam sorridentes e ignoro esse sentimento, me tranquilizando ao lembrar que estou na beira de uma estrada e que muitos olhos me observavam.

Sinto um abraço. Dois. Eram Yue e a mãe dela. Não deixo de olhar em volta enquanto converso com as duas, aquela sensação de estar sendo vigiado persiste. As levei para casa e fiquei com elas até se acalmarem, depois voltei para a minha, precisava descansar pro torneio.

...

Passadas quatro horas, já de noite, quando estou deitado no sofá da minha sala, quase caindo no sono, meu celular toca. Assim que vejo quem é, sento-me rapidamente. Kyoko me mandando solicitação de mensagem no facebook. Eu não tive coragem nem para mandar solicitação. Abro o messenger e visualizo o recado. "Oi, herói". Como ela soube...? Ah, a Yue deve ter contado. Minhas mãos tremem. O que eu respondo? Se disser "oi", parecerei arrogante. Posso dizer "e aí". "E aí" é legal, né?

Mando "e aí" mesmo. Depois pergunto como ela soube. Ela diz o que eu já sabia. Yue. Em um surto repentino de coragem, pergunto se é verdade que ela estará no torneio de amanhã. Ela confirma que vai.

— Legal! — Comemoro em voz alta. Digito "legal" e envio para ela.

"Nos vemos lá", ela responde. Mais um surto de coragem me sacode e eu resolvo chamá-la para sair. "Se você não perder as três primeiras lutas, talvez. Se ganhar o torneio, vamos pra onde você quiser." Agora me animei. Vou ganhar aquilo lá da maneira mais espetacular possível. Sorrio, apago o celular e me deito no sofá mesmo. Durmo em questão de segundos.

Acordo com alguém espancando a minha porta. A luz do dia castiga meus olhos, levanto devagar e corro pra atender. Era o Sora, de jaqueta de couro preta, calças jeans e camisa vermelha quadriculada de mangas cumpridas. Ele me diz para pegar minha mochila, não comer, não escovar os dentes e nem me arrumar, que não tinha tempo para nada. Faço o que ele falou, bato a porta e esperamos o ônibus na esquina.

O ônibus chega, nos leva para a academia e, ao descer, vemos o ônibus que nos levará ao local do torneio. A turma inteira estava lá para nos apoiar. Todos estavam bem vestidos, eu vestia uma calça moletom cinza, chinelos de dedo e uma camisa branca sem mangas.

Hizashi, vestindo terno preto e camisa social branca sem gravata, avisa que só faltava um minuto para irem sem nós. Ele é um homem de palavra, eu demonstro acreditar nele e peço desculpas. Subimos no ônibus e o motorista vai. Passamos por vários pontos turísticos e ficamos quase vinte minutos parados.

Pego meu celular e fico encarando a mensagem da Kyoko, tentando me convencer de que não foi um sonho. Não foi. Sora, que sentou ao meu lado, toma meu celular da minha mão. Eu inutilmente tento pegar de volta, ele lê tudo e me devolve.

— Mandou muito bem. Esse é o meu garoto. — Ele estende a mão para eu tocar, eu sorrio e me deixo contagiar pelo entusiasmo dele. — Mas lamento, você não vai se dar bem hoje.

— Ah, não? E por quê? — Pergunto, já sabendo o que ele diria.

— Porque vai ter que me enfrentar. — Adivinhei direitinho. — E nem terá a chance de lutar contra o irmão imbecil dela. Seremos você e eu na final.

Sakio, do outro lado do corredor, ouviu ele dizer aquilo.

— Pode ir tirando o cavalinho da chuva, Raikyuu. Eu vou enfrentar o Hiroki e o Haru! — Ele avisou.

Kuromada ouviu a gritaria e tratou de nos alertar:

— Que mané Hiroki e Haru, eu vou vencer aquilo lá!

Nari também se manifestou e os quatro ficaram discutindo as próximas duas horas inteiras, eu coloquei os fones de ouvido na orelha, personalizei a minha playlist, elevei o volume ao máximo e me recostei na cadeira. Me roubaram meia hora de sono e eu a recuperaria de uma forma ou de outra, do contrário acabaria prejudicado.

O ônibus para a duzentos metros do local do campeonato e somos obrigados a ir andando o resto do percurso, mas já de onde estávamos podíamos sentir a empolgação das pessoas. Fogos estourando, gritarias, pessoas indo de lá para cá, carros passando o tempo todo, lutadores de todos os estilos nos viam e nos cumprimentavam no caminho. Não me avisaram que era MMA. Acabou de ficar mais interessante.

Chegando lá, Hizashi cumprimenta um engravatado, avisa quem somos e o tal homem nos leva até um ginásio, um lugar que parecia uma quadra gigantesca e verde clara de futsal, só que sem as traves.

O tatame, cor de rosa, era igualmente grande, tinha dez centímetros de espessura e era surpreendentemente macio, o que o separava do público era um cercado de ferro de um metro e oitenta pintado de azul e grades. Não era a céu aberto, um grande telhado branco o fechava.

Tinha mais gente do que eu esperava que fosse haver. Tudo bem que era um torneio mundial, mas era sub 17. Dei de ombros. Nada disso me importava, eu só queria saber onde estava a Kyoko pra mandar um alô depois de ganhar minha terceira luta. A encontrei. Estava divina naquele vestido azul claro, nas sapatilhas, com os brincos de argola prateados e os cabelos soltos. Ela e os pais dela escolheram o lado esquerdo da quadra para se sentar e assistir.

Ela acena. Eu fico tímido, me limito a sorrir, assentir com a cabeça e desviar o olhar. Sora me dá um tapa no ombro e eu o sigo, nos dirigimos ao vestiário para nos trocar, ouvir as regras e saber que é ali que teremos que aguardar o chamado para lutar.

Eram vinte e cinco lutadores, no total. Quinze num vestiário e dez em outro. Cinco grupos representando uma academia diferente. As lutas seriam divididas em primeira fase, segunda fase, terceira fase e final, cada qual com dez lutas. Não havia volta: quem perdesse era eliminado na hora.

Me avisam que serei o primeiro. Logo de cara. Sorrio. O irmão da Kyoko não para de me encarar, não sei se é porque vê em mim um desafio ou se porque sabe que eu e a irmã dele andamos nos falando. Encaro de volta. Sora percebe o clima e massageia meus ombros. Cada um me dá um conselho diferente, porém útil. Meu oponente sai do vestiário, eu espero uns segundos e vou em seguida.

A plateia aplaude nossa entrada. Olho para Kyoko, que sorri discretamente. Hizashi me aguardava junto do juiz, ao lado do treinador do outro cara. O nome do azarado era Iori. Coitadinho, podia até ser bom, mas deu o azar de me enfrentar logo na primeira luta. Eu jamais perderia tão cedo, muito menos com a Kyoko me olhando.

O juiz fala algo que eu não entendo, não consigo parar de pensar qual era o melhor golpe para finalizar. Hizashi me deseja sorte, sai, eu e o cara tocamos as luvas, nos afastamos, o juiz dá o aval e nos reaproximamos. Olho para trás e vejo Sora e os outros torcendo por mim, sorrio e fixo meus olhos no inimigo, que me ataca com um jab e um direto. Eu esquivo dos dois e saio.

Finto, ele se assusta. Esquivo de um direto, acerto um soco no estômago dele, esquivo de um jab e acerto um cruzado de direita em seu queixo, ele cambaleia mas não desiste, vem pra cima de novo, chuta, eu me defendo, salto e giro chutando ele na cara com a perna esquerda. Fim de luta. Todos me aplaudem. Kyoko me dá tchauzinho, manda beijo e pisca.

— Muito bom, garoto. — Hizashi me cumprimenta.

— Representou! — Disse Sora, me jogando na carcunda e me carregando até o vestiário.

Três lutas depois chega a vez do Hiroki. Todos paramos para assistir, pois desde a primeira vez que lutou neste campeonato, ele não perdeu uma só luta, se sagrou tricampeão. Ele e o oponente trocam alguns socos, ninguém acerta ninguém a princípio, mas é questão de tempo até Hiroki acertar o primeiro, desnorteá-lo e finalizar o combate com cinco cruzados seguidos. Posso jurar que ele olhou diretamente pra mim depois de ser declarado vencedor.

Saio para o lado e olho pra irmã dele. Ela acena pra mim e aponta a saída com a cabeça. Digo ao Hizashi que vou ao banheiro, ele me pede para retornar antes da luta do Kuromada, eu concordo e saio. Avisto Kyoko próxima do vestiário feminino, olho ao redor pra saber se ninguém estava me vendo e a sigo. Lá dentro, entre os bancos de concreto que ficam no meio dos banheiros, a procuro.

— Você foi muito bem lá. — Ela falou, da porta de entrada do vestiário. Uma voz doce como aquela não assustaria ninguém.

Eu, sem graça, coro, esfrego a nuca e sorrio.

— Imagina. Isso é só o começo, o verdadeiro desafio ainda vem por aí. — Nem sei porquê eu disse isso, nunca fui tão humilde.

Ela se aproxima, me pega pela mão, amarra melhor as bandagens, me olha nos olhos, chega mais perto e sorri. Podia sentir sua respiração no meu rosto. Engoli seco. Tentava me fazer relaxar, não era hora de ficar nervoso. Nossos narizes se tocam, me inclino para beijá-la e ela se afasta de repente.

— Três lutas, campeão. — Diz, se afastando. Ela anda até chegar na porta de saída, apoia a mão esquerda num dos batentes, faz um três com a mão direita, me olha, sorri e diz: — Só mais duas lutas e você vai ter direito a motivação especial.

Eu volto mais empolgado do que nunca e minha alegria dobra ao saber que o Kuromada havia vencido. Chego a tempo de comemorar com eles, mas não escapo da bronca do Hizashi e da dele por não vê-lo lutar. Voltamos para o vestiário. Cinco lutas após, finalmente chega a vez do Sora, mas ele venceu com três golpes. Todos passamos da primeira fase.

A segunda fase chega e, naturalmente, a dificuldade aumenta, mesmo assim nenhum de nós perdeu uma só luta até agora. Até agora. Chega a vez do Nari, que terá que derrotar Hiroki se quiser chegar na última fase. Ele está inseguro mas, determinado, diz que irá até o fim, calça as luvas e vai, sob o coro de uma inflamada torcida.

Hizashi o acompanha até lá, lhe dá vários conselhos e o deixa só. Hiroki me mostra um sorriso malicioso, sinto que aquilo não acabará bem. O juiz dá a permissão para começarem, eles trocam uma série de socos velozes, ninguém acerta ninguém, o impasse é visível, mas ilusório. Quando pararam, Nari estava ofegante e Hiroki sorria. Nosso amigo se irritou e partiu pra cima dele com tudo, queria acertá-lo a qualquer custo. Hizashi lhe dizia para se acalmar, ele não ouvia.

Nari girou e chutou, Hiroki desviou com a mão, contra-atacou com um jab e um direto, Nari os bloqueou com a guarda, revidou com a mesma moeda, segurou o adversário pela nuca e tentou aplicar uma joelhada na cara dele, mas ele se defendeu e recuou. Nari avançou, saltou e finalmente acertou um soco, fazendo Hiroki cair e se dar conta de que era hora de lutar sério. Nós comemoramos o soco junto com a plateia. É a primeira vez em muito tempo que um não finalista acerta Hiroki daquela forma.

Injuriado, meu futuro cunhado se reergueu e atacou meu amigo com uma série de socos brutais e ininterruptos, todos, no entanto, interceptados pela guarda de Nari que não resistiu por muito mais tempo e cedeu: Nari ganhou um monte de soco no rosto, aguentou firme por alguns segundos, até se esquivou de dois ou três mas inevitavelmente desabou. Corremos para ajudá-lo, os paramédicos vieram, o puseram na maca e levaram enquanto Hiroki, a plateia e sua academia festejavam a vitória.

Sora e eu saíamos da arena quando o tricampeão nos chamou. Nós nos viramos para escutá-lo e ele disse:

— Vou fazer muito pior com vocês dois. E você, Raikyuu, pode dar adeus a essa carinha de astro de kpop!

Sora teria partido pra cima dele se eu não o tivesse detido. O acalmei e voltamos para junto dos outros, queríamos notícias do Nari. Hizashi voltou rápido, disse que os médicos falaram que ele ia ficar bem, que o desmaio foi mais devido ao cansaço do que às pancadas. Aí eu descobri o ponto forte do Hiroki: ele tem uma resistência incrível, muito fôlego, se eu ou qualquer um quisermos vencê-lo teremos que dar golpes fortes, terminar a luta rápido.

Diferente do que previmos, lutadores da mesma academia não lutam entre si, e como sobrou quatro de nós e o Hiroki, todos enfrentaríamos Hiroki. Ele teria um intervalo de cinco minutos após cada luta para descansar, mas jurou não precisar disso, o juiz respeitou seu pedido e permitiu que as lutas fossem ininterruptas.

Hiroki derrotou dois de nós, então sobramos Sora e eu. Fica decidido que Sora vai ser o próximo a enfrentá-lo, eu planejo assistir mas Kyoko me chama antes de começar e, como não sou idiota, vou correndo. Dou uma desculpa boba, Hizashi engole porque estava feliz e nem percebe quando eu saio. Hora do meu prêmio.

Entro no lugar onde a vi pela última vez, sinto um par de mãos macias e pequenas agarrarem meus ombros, me deixo conduzir por elas e caio sentado no primeiro dos bancos de concreto do corredor dos banheiros. Ela senta no meu colo devagar e começa beijando meu peito com carinho, sobe para o meu pescoço onde deixa alguns chupões e, por fim, chega a boca, onde me beija com a sede de quem passou semanas num deserto escaldante. Ficamos assim por vários e vários minutos.

Me sinto mal por não estar lá torcendo pelo Sora e paro, gentilmente afasto-a de mim.

— Seu irmão e o Sora estão lutando. — Saio do banco e ajeito minhas roupas. — Não quer ver?

— Sério mesmo que prefere vê-los a ficar aqui comigo? — Ela me olhou como se não acreditasse. Justificável, eu também não acredito.

— Desculpa. — Dei um selinho na boca dela, corri para a porta, voltei e disse: — Eu te ligo, te mando uma mensagem... sei lá. — Eu não estava pensando muito bem, todo o sangue do meu cérebro desceu.

Cheguei a tempo de ver o Sora ser nocauteado com um gancho de direita, após uma luta extremamente dura da qual ambos saíram machucados. Hiroki é declarado vencedor, os paramédicos tentam socorrê-los, eles recusam, Sora volta pro vestiário com nossa ajuda e eu tento me desculpar.

Ouço um longo sermão do Hizashi sobre ter perdido a chance de estudar meu inimigo e sou deixado sozinho com Sora, que não parava de pressionar o sangramento no supercílio com um algodão. Sento ao lado dele para me desculpar.

— Relaxa, não tô chateado. — Ele me assegurou. — Mas vou ficar se você não derrotá-lo. Perdi porque deixei a luta se alongar demais, aquele cara tem muita energia. Mas vou te contar minhas análises e o que extraí delas.

Assenti e o ouvi com atenção. A final é anunciada com uma euforia desvairada. A plateia ficou de pé para não perder nenhum detalhe. Ambos estávamos prontos. Ouvi os últimos conselhos de Hizashi, concordei com todos, estendi a luva para Hiroki tocar mas ele se manteve longe. O juiz deu sua aprovação e nos distanciamos.

Saltitei, olhei-o de cima a baixo, estalei o pescoço, as mãos, ergui minha guarda e esperei-o vir. Seu primeiro golpe foi um chute, eu saí da reta e contra-ataque com um cruzado, ele bloqueou com as mãos e revidou com um direto, eu me esquivei e saí para a direita. Voltei lá, tentei chutar a cabeça dele, ele se agachou, tentou me passar uma rasteira, eu pulei, deixei-o ficar de pé, girei e errei o chute giratório.

Ataquei com um jab, ele esquivou e desferiu um direto, eu tirei o rosto da frente e respondi com um direto, ele retrucou com um jab e um direto mas me errou, eu dei um cruzado de direita e um de esquerda mas não consegui nem tocá-lo. Insisti nos mesmos golpes aumentando a velocidade e a força após cada um, não obtive sucesso, vi meu punho agarrado e levei uma cabeçada no nariz, indo a lona.

Senti sangue descer de minhas narinas. Pus a mão no nariz. Lembrei dos meus companheiros por ele derrotados e me reergui com mais coragem do que comecei, ouvi aplausos. Em minha memória choveram as palavras de Sora e do Hizashi, elas convergiam numa coisa: ataque nas pernas. Caneladas e rasteiras. Ataquei.

Recomecei com um jab e um direto, ele não se deixou atingir por nenhum dos dois, eu insisti e aproveitei a concentração dele em cima para golpeá-lo em baixo, com uma canelada que o levou pro chão. Recuei e permiti que ele se levantasse. Firmei a guarda, fintei, mexi a perna da frente para enganá-lo, o vi cair na minha armadilha, se distrair e dei um soco em seu nariz, seguido de um cruzado e de um pisão do qual ele se defendeu, rodou e me deu um soco na cara.

Rondamos a arena sem tirar os olhos um do outro, como leões ao cercar a presa e brigar para abatê-la. A tensão roubou o apreço da audiência, Hiroki nunca havia apanhado tanto e tão feio. Persisti na estratégia de atacá-lo em baixo, mas ciente de que ele tinha uma contra-estratégia, mudei a tática e decidi ir em cima e em baixo ao mesmo tempo. Chutei sua perna mas errei seu rosto, fui de novo, errei sua perna e golpeei seu rosto.

Dei uma cotovelada em seu peito, agachei e desviei de seus cruzados. Me pus de pé, fintei, desviei dois socos seus com as mãos, ele desviou dois meus, tomou uma canelada e um direto de direita na boca. Teimoso, continuou de pé. Conseguiu bloquear minha canelada, minha mãozada, me deu um soco na cara, desviou do meu primeiro chute mas recebeu o segundo, dessa vez caindo.

Nocaute decretado. Hizashi e os outros vieram para me felicitar, o juiz declarou minha vitória com empolgação e todos me aplaudiam enquanto eu era carregado nos ombros pelos da minha academia. Eu não duvidava que iria vencer, mas fiquei mais feliz do que imaginava que ficaria.

E entre os flashs das fotografias, os "parabéns" acalorados e os festejos dos meus amigos, novamente me veio aquela sensação de que, mesmo diante de uma legião de pessoas, alguém me observava, alguém diferente. Ignoro isso e continuo comemorando.